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Na análise da cobertura jornalística de um determinado tema, como a violência contra homossexuais, destaca-se ainda a utilidade da análise do discurso, a qual concentra esforços no sentido de perceber as marcas que estão imbricadas no texto, evidenciando, por exemplo, aspectos ideológicos. O que importa prioritariamente é a forma com que se diz e não necessariamente o que se diz. Por essa razão, ao se analisar os enquadramentos realizados pelos veículos de comunicação impressa, deve-se atentar para as modalidades do dizer. O emissor pode enunciar de diferentes formas um mesmo conteúdo. Por ser processual, “a enunciação somente pode ser descrita pelos traços que deixa em seu produto, o enunciado” (FIORIN apud SPANNENBERG, 2002, p. 112).

De acordo com Ringoot (2006), a análise de discurso diferencia-se da análise de conteúdo. Esta última tem por principal objetivo evidenciar os temas e assuntos veiculados nas mensagens midiáticas com maior destaque. Para tanto, pode recorrer à quantificação de termos e palavras, a fim de perceber aquelas que aparecem com maior freqüência. Porém, existe o risco de se estabelecer associações com aspectos quantitativos e apresentar resultados

equivocados. Por exemplo, ao se comparar quantitativamente matérias veiculadas em jornais impressos relativas à violência urbana em dois estados diferentes, sem a devida precaução, e julgar que aquele onde o número de reportagens é maior significa que apresenta índices reais de violência também maiores.

A análise do discurso, por sua vez, toma o discurso como objeto e conceito. Destaca a existência de duas instâncias interdependentes: o enunciado e a enunciação. O ato de enunciar implica também em endereçar a fala para alguém, o enunciatário. Sendo assim, interessa saber a relação entre enunciado e enunciação e os posicionamentos dos sujeitos envolvidos. No caso do discurso jornalístico, além de perceber o que relata o jornal, “trata-se também de perceber como são posicionados os que o escrevem e os que o lêem, trabalhando sobre dispositivos enunciativos” (RINGOOT, 2006, p. 135).

É preciso destacar que a mídia está inserida no mundo do qual pretende retratar e, assim como ele, apresenta imperfeições e complexidade em seu interior. Essas duas instâncias são constituídas de sujeitos com formações distintas e dotados de idéias e interesses a defender. No caso midiático, os jornalistas “são sujeitos que lutam para conciliar seus critérios éticos e jornalísticos (o seu ‘news judgement’) com as informações que julgam relevantes” (MACHADO e JACKS, 2001, p. 2). Além disto, há também uma organização das informações obtidas da forma que julgam ser mais adequada. Neste processo, acrescenta-se ainda a participação do próprio inconsciente:

Não construímos um mundo apenas baseados em nossa consciência; ao contrário, somos, na maior parte das vezes, reféns de nosso inconsciente, de nossos desejos, preconceitos e sentimentos muitas vezes inconfessáveis, de marcas aparentemente legadas ao esquecimento (MACHADO e JACKS, 2001, p. 2).

Nesse sentido, ressalta-se que os enquadramentos feitos pelos jornalistas nas suas rotinas diárias de produção não são necessariamente um processo consciente e podem “muito bem ser o resultado da absorção inconsciente de pressuposições acerca do mundo social no qual a notícia tem de ser embutida de modo a ser inteligível para o seu público pretendido” (HACKETT, 1993, p. 121).

É neste contexto que a distinção entre indivíduo e sujeito é válida. Um mesmo indivíduo pode assumir diferentes posições de sujeitos, isto é, pode falar de diversos lugares determinados. “Não temos consciência, pelo menos não na maioria das vezes, de que nos colocamos como sujeitos diferentes em nossos discursos” (MACHADO e JACKS, 2001, p. 2). Para se tornar sujeito, é necessário que o indivíduo seja interpelado por uma determinada ideologia. (ALTHUSSER, apud MACHADO e JACKS, 2001, p. 2).

[...]tornamo-nos sujeitos no processo em que somos praticamente obrigados a nos posicionar desta ou daquela maneira, escolhendo estas e não aquelas palavras, usando este tom em vez daquele. O sujeito vai então se posicionar ocupando um lugar determinado, o lugar de onde fala (MACHADO e JACKS, 2001, p. 3). (grifo das autoras)

Para identificar os diferentes lugares de fala do sujeito, pode-se recorrer à análise de discurso, uma ferramenta teórico-metodológica que permite ao pesquisador a possibilidade de executar uma análise que extrapole a idéia de texto como aquilo que está registrado na escrita, ou seja, no seu sentido mais abrangente, considerado a partir da diversidade de sua materialidade lingüística. Sendo assim, a análise de discurso

[...]pode ser utilizada para avaliar toda espécie de discurso, para criar e recriar categorias e tipologias, para revelar sentidos aparentemente ausentes dos textos, para aprofundar concepções políticas, para trazer à tona os interesses que movem a construção de certos sentidos e o ocultamento de outros. Sendo o jornalismo sempre uma narrativa, a Análise de Discurso pode se consolidar como um caminho a ser percorrido na busca do entendimento das questões do campo jornalístico (MACHADO e JACKS, 2001, p. 11).

A análise do discurso pode focalizar textos com o propósito de identificar qual discurso está imbricado naquilo que está registrado, por exemplo, através da escrita. Ela verifica também, através de marcas presentes no texto e que podem variar de uma palavra até a ordem da própria frase, qual ideologia está imbricada em um determinado texto. Sendo assim, o analista do discurso consegue identificar de onde fala e para quem fala o produtor do enunciado, isto é, daquilo que é dito. A forma com que se diz algo (a enunciação) revela o lugar de fala do enunciador, ou seja, de quais condições e posições – sejam ideológicas, sexuais, se é oprimido ou dominador etc. - o emissor expressa seu modo de enxergar e perceber o mundo e a realidade que o cerca. Para Verón (2004, p. 61), a noção de discurso abrange “qualquer conjunto significante considerado como tal (isto é, considerado como lugar de investimento de sentido), quaisquer que sejam as matérias significantes em questão”.

O discurso é simultaneamente conceito e objeto de estudo dentro da própria análise do discurso. Como conceito, o discurso reúne dois elementos: o enunciado e a enunciação. O primeiro é o que é dito, algo da ordem do conteúdo. Já o segundo se refere às formas de dizer. A existência de um requer a presença do outro. Além disto, a enunciação traz consigo a concepção de que existem também o enunciador, aquele que exprime, e um enunciatário, aquele para quem a fala é direcionada. No que tange ao discurso jornalístico, “trata-se de analisar aquilo que conta o jornal, mas trata-se também de analisar como são posicionados os que o escrevem e os que lêem, trabalhando sobre os dispositivos enunciativos, as formas de

disponibilizar a informação” (RINGOOT, 2006, p. 135). Sendo assim, Benetti (2007, p. 5) destaca:

[...] sabemos, na filiação aos conceitos basilares da Análise do Discurso francesa, que não existe sentido literal. O sentido não reside ‘na palavra’, e sim é construído na ação dos sujeitos que participam da práxis discursiva. A formação dos sentidos depende, portanto, do que constitui estes sujeitos em termos de imaginário, ideologia, posicionamento e inscrição histórica, cultural e social. O sentido de uma palavra ou expressão que acabamos por tomar como literal é apenas aquele que, em uma construção histórica, foi conquistando um lugar hegemônico na cultura e no grupo em que vivemos, apagando – de forma mais contundente ou menos contundente – os outros sentidos possíveis. Estamos imersos em uma ilusão de literalidade, e o jornalismo é um dos campos em que a linguagem mais exerce esta ilusão.

Para Maingueneau (apud SANTANA NETO, 1999), “dizer nem sempre é dizer explicitamente. A atividade discursiva entrelaça constantemente o dito e o não dito”. Por esta razão, pode-se afirmar que o que se diz supera aquilo que está expresso nitidamente. Nesse sentido, o autor salienta a existência e importância do que está implícito - o subentendido. Os analistas do discurso devem, portanto, atentar para aquilo que não é dito.

Neste contexto, acrescenta-se também a concepção de que o próprio significado lingüístico está atrelado à ideologia, isto é, são duas instâncias que se intercruzam e dependem da estrutural social a que pertencem. Sendo assim, “a análise lingüística deverá ser um instrumento precioso para o estudo dos processos ideológicos que medeiam as relações de poder e de controlo (FOWLER e KRESS apud GOUVEIA, 2002, p. 2). Ressalta-se mais uma vez que o discurso refere-se aos modos, na maioria das vezes lingüísticos, em que significados são organizados, sob estruturas de poder, justamente quando assumimos posicionamento de sujeitos (FOUCAULT apud GOUVEIA, 2002, p. 3).

[...]a ideologia refere-se a sistemas de pensamento, de valores e crenças, por exemplo, que denotam um ponto de vista particular sobre o real, uma construção social da realidade, independentemente de aspirarem ou não à preservação ou à mudança da ordem social. A ideologia é, nesta acepção, mais facilmente entendida, não como uma imagem distorcida do real, uma ilusão, mas como parte do real social, um elemento criativo e constitutivo das nossas vidas enquanto seres sociais (GOUVEIA, 2002, p. 5).

Embora se trate de um termo que requer certos cuidados ao ser utilizado, por apresentar inúmeras definições, o conceito de ideologia retém características importantes para a análise. Isto se deve ao fato dele fazer referência não só a sistemas de crenças, como também a questões de poder e, para Gouveia (2002), à relações de dominação. Nesse sentido, interessa saber como a produção de significados pode contribuir, entre outros aspectos, para a manutenção de relações desiguais.

Estudar a ideologia corresponde, nesta acepção, portanto, a estudar os modos como a significação serve para manter relações de dominação. Dentro desta lógica, um poder dominante pode legitimar-se a si próprio por promoção de crenças e valores que lhe são congênitos, por naturalização e universalização dessas crenças e valores, de modo a torná-los auto-evidentes e aparentemente inevitáveis, por denegrição das idéias que o questionam, por exclusão de formas de pensamento rivais e por obscuração do real social (GOUVEIA, 2002, p. 6).

Portanto, pode-se compreender que as práticas discursivas são dotadas de efeitos ideológicos. Ao se representar a realidade, reconstruí-la, e posicionar os diferentes sujeitos, tais práticas podem contribuir para a produção e manutenção de relações de poder desiguais.