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R´ealisation

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IV. 3.3 ´ Etude qualitative des images radar

IV.4 Syst`eme exp´erimental

IV.4.1 Construction d’un syst`eme radar FM-CW

IV.4.1.2 R´ealisation

O sal, as marinhas que desde há séculos marcam a paisagem alcochetana, reflecte-se também na vida das famílias que cresceram em torno de actividade salineira. Por razões diferentes mas todos eles dependiam desta indústria: uns proprietários e senhores da marinhas, outros laborando de sol a sol para que a colheita fosse boa e o sal da melhor qualidade para o comércio. Trabalho duro e árduo mas todos tinham orgulho no sal das suas marinhas.

Em Alcochete a indústria salineira, foi desde que há memória, e a documentação assim o atesta, a principal forma de vida e fonte de rendimento da comunidade alcochetana. A produção de sal e o seu comércio, influenciaram o desenvolvimento social e económico da região, cuja delimitação do próprio território revela as marcas de uma cultura ligada à actividade salineira. O território foi-se construindo /reconstruindo e reestruturando a par da indústria salineira que ao longo dos séculos cada vez mais se foi implantando na paisagem, provocando um articulação, quase uma aliança, entre o rio, a terra e as gentes.

Esta intimidade com o rio prolonga-se no espaço, nas vivências sociais e nas manifestações culturais, um misto entre o profano e o religioso.

O tecido social foi-se estruturando em torno do desenvolvimento da salicultura e da agricultura, actividades fundamentais na economia local. As famílias abastadas eram as detentoras da propriedade, uma vez que a posse de salinas implicava ter capacidade económica para construir salinas e para suportar todos os custos com a produção e conservação.

Grande parte da população trabalhava para os proprietários, quando estes faziam exploração directa, ou trabalhavam para os seus rendeiros que exploravam as salinas. Também estes rendeiros tinham de possuir alguma capacidade económica para suportar todas as despesas com a produção. Conforme se referiu no 1º capítulo ( Parte II), em 1932 o pessoal empregado na salicultura, na margem esquerda do Tejo regulava 1.300 operários. Alcochete empregava 600 trabalhadores; Vasa-Sacos 150; Montijo 200; Moita e Rosário 200 e Barreiro.9

9

Da análise da documentação existente relativa o salgado de Alcochete, verifica-se que “no século XVI,

existiam muitas marinhas em todo o termo. Entre outros, encontram-se, no ano de 1512, os seguintes proprietários de salinas: Gil Pato, Fernão Gomes, Gil Mestre, Fernão Cotrim e João da Gama, todos fidalgos. Rui Martins possuía duas marinhas no sítio chamado de Moinho de Vento”10

Na Idade Media, existem apenas referências a contratos de compra e venda, relativos à região do Ribatejo (margem esquerda) ou mesmo na margem direita do Tejo, ou as petições feitas pelos fidalgos ao rei. Assim, constata-se que os proprietários das salinas pertenciam às ordens religiosas e à Nobreza, como é o exemplo dos Fidalgos de Lisboa que possuíam marinhas no Riba Tejo, ou as referências feitas à Igreja.11

No século XVIII surgem novos proprietários a comprar ou a estabelecer contratos de aforamento para explorar as salinas. Prova evidente é o contrato de aforamento realizado por Jácome Ratton em 1769, para explorar a Barroca D`Alva, na qual compra algumas marinhas aí situadas. Industrial abastado investe em Alcochete, procedendo, como já se referiu, a trabalhos de melhoramento nesta propriedade, desbravando terrenos incultos para praticar a agricultura e investindo no melhoramento das salinas aí existentes, aperfeiçoando técnicas e instrumentos de produção.

Nos finai do século XVIII, a Relação das Marinhas situadas no concelho de Alcochete, elaborada conforme o artigo 2 do regimento de 23 de Dezembro de 1882, pelo Ministério da Finanças,12 são identificados os proprietários e rendeiros das marinhas, assim como, a localização e o número de marinhas.

Desta análise da referida relação de marinhas, infere-se que as marinhas eram propriedade de um

pequeno grupo pertencente a um extracto social de elite, detentores de títulos nobiliárquicos, uma vez que os títulos de conde e de visconde surgem com frequência. O título de Dom e Dona também são

referenciados.

Prova-o também o facto de possuírem um grande número de marinhas que exploram ou entregam a outros sob o regime de arrendamento. Há ainda um grupo de pequenos proprietários e rendeiros com capacidade económica para compraram ou explorar marinhas, e que por isso também integravam um grupo

privilegiado.

10

ESTEVAM, José – O Povo de Alcochete…, oc., p.26 11

Conforme se refere no 2º capítulo: é referida a venda de uma salina efectuada em 1375 (16 de Outubro) por Gil Vicente, Prior de St.ª Maria de Sabonha, a favor de Lopo Martins de Lisboa, situada num lugar chamado “Pinhal do Ribatejo”, onde se localiza um dos importantes centros produtores desta região. Stª Maria de Sabonha, ou Sabona era a sede paroquial do concelho que integrava a Aldeia Galega e Alcochete.

Segundo Constantino de Lacerda, “ no reinado do senhor rei D. João I havia marinhas no Riba-Tejo em tão grande

quantidade, que não somente davam sal para o consumo de Lisboa, mas também era exportado para fora do reino, o que se prova por um dos artigos, que foram requeridos em Coimbra ao Senhor rei D. João I por parte dos fidalgos, referidos nas ordenações do senhor rei D. Afonso V.”

Em 1429 (10 de Outubro), uma carta de emprazamento, outorgada pela “subprioresa” do mosteiro de Chelas, Catarina Anes, a João Esteves, refere o aproveitamento de uma marinha no Lavradio, “perto de outras de diferentes

proprietários, que jazia muito danificada e lapidada” 12

Destacam-se como grandes proprietários, o visconde de Azarujinha, o conde de Farrobo e D. António Luís Pereira Coutinho, Marquês de Soidos,13 nascido em Lisboa em 1808, residiu em Alcochete, falecendo em 1909, com 90 anos

De salientar também os proprietários João Gonçalves da Eugénia Sénior e João Gonçalves da Eugénia Júnior, pai e filho, que surgem nos finais do séc. XIX, embora grande parte das marinhas que exploravam fossem arrendadas. Na relação de salinas de 1882, constata-se que tanto o pai como o filho eram

proprietários de duas marinhas. O mesmo documento revela que João Gonçalves da Eugénia Júnior possuía grande número de salinas sob arrendamento, sendo um dos maiores produtores de sal de Alcochete.

É no início do século XX, que a família Gonçalves Júnior se torna numa grande proprietária de marinhas em Alcochete, conforme se explicitará no ponto dedicada a esta família.

O quadro que se apresenta foi construído a partir da Relação de Marinhasde 1882, ( Anexo F ) permitindo identificar os proprietários das respectivas marinhas. 14

Quadro 10 Proprietários das marinhas em 1882

Nome dos proprietários das marinhas em 1882

Designação das marinhas

D. António Luís Pereira Coutinho Algodeirão Grande, Saraiva, Batelinhas, Ilhoa, Russiada, Hortas, Paraíso, Misericórdia, Barbudo, Muitos, Raposeira do Norte, Dezasseis, Cento e vinte, Catorze do Gil Mestre, D. Brites, Conceição, Pata, Gil Mestre Grande, Gil Mestre Pequena, Porto Velho.

Visconde de Azarujinha Gema, Camela, Tecelôas de Fora, Os Trinta, Inferno Grande, Inferno Pequeno, Peixinho, Pata, Tabuleiro pequeno, Moças, Capela, Do Pipeiro, Raposeira do Norte.

Conde de Farrobo Pata, Mortório, Estacada, Murraça, Tendeiro,

Talhos da Praia, Gil Mestre, Pinhal Herdeiros de António Mayer Junior Conde, Chilraz, Almada, Moreno, Pancas,

Pequeno

José Esteves Alves D. António Pequeno, D. António Grande,

Parada, Mortório

João Alves do Pilar/ Herdeiros de Gil Mestre, Tabuleiro, Raymundo, Sessenta

Conde d´Anadia Teceloas Pequenas, Caracol, Moinho, Porto

Velho, Bulhão, Cerieira

D. Ângela Emília de Miranda Mesquita, mortório, Gil Mestre Pequeno João Gonçalves da Eugénia Sénior Gorda, Marinha Nova

João Gonçalves da Eugénia Júnior Gema - Cova, Raymundo D. Maria Angelina Vaz Guedes da Fonseca

Telles

Do Brito

Samuel Lupi Condinhão grande, Condinhão pequeno,

Tabuleiro

José Carlos Onil Raposeira do norte, Canas, Hortas

Herdeiros de José Ferreira de Carvalho Cerieira, Gil Mestre

13

ESTEVAM, José – O Povo de Alcochete…, oc. p 140, 1950. 14

D. Rosa Maria Penha Salles Fuzis, Raposeira do Norte Herdeiros de José Maria Lima Melo Falcão Gil Mestre, Talhos de Gil Mestre

Manuel da Cruz Praia, Silva

João Corrêa de Oliveira Caupers Vão, Carvalho, Hortas

José Gomes Ferreira Russiada, Muitos

Estevão António de Oliveira Júnior Conceição Grande e Conceição Pequena

Estevam Daupias O Pereiro

José Maria dos santos Cortes e Cabeceira, Sapal

José Mª de Lima Mello Falcão Balisas

Marques das Minas D. Braz Grande e D. Braz Pequena

Visconde Corrêa Godinho Atalaya

João Maria Holbeche Corrêa Assalvo

D. Emília Holbeche Trigoso Batel

João Carlos da Silva Algodeirão Pequeno

Herdeiros de João Estanislau Penaguião Saraiva, Caidas

José luís de Oliveira Caidas

Condessa do Lumiar Marques

José Manuel de Araújo Corrêa de Moraes Tarocas

José Rafael Rodrigues Parda

João Prego Gomes Ferreia Restinga

Francisco da Veiga Simão Pinheirinhos

Domingos Tavares Raposeira do Sul

Eduardo Teixeira de carvalho Estacada

Luís marques candonga D. Pedro

Abílio Martins Providencia

Miranda & Filhos Do Canto

D. Cristina Candida Fasto de Miranda Pinheirinhas António Virgolino dos santos/ Herdeiros de Contenda Grande Francisco José dos santos/ Herdeiros de Contenda Pequena Irmandade do Santíssimo d`Alcochete Gemas Cova

Irmandade do Santíssimo Mortório

Eduardo/o menor/ Firma de Oliveira Salles Mortório A menor Ansea Isabel da Costa Pipeiro Miguel Januário Fernandes Brano Rio Frio

Fonte: Relação de Marinhas do Concelho de Alcochete, 1882.

Constata-se que, relativamente aos finais do século XIX, um pequeno grupo de famílias abastadas concentrava nas suas mãos várias marinhas, as restantes encontravam-se distribuídas por diferentes proprietários (embora em menor número), alguns deles possuindo apenas, uma a duas marinhas.

Durante o século XX verifica-se a tendência para a concentração da propriedade das marinhas num pequeno grupo de proprietários, conforme Charles Lepierre refere que, em 1936 a firma mais importante do salgado do sul do Tejo, era 15a Sociedade Agrícola Exportadora de Sal (S.A.E.S.) constituída pela fusão das firmas Viúva João Gonçalves; D. Francisco Quintela e M. S. Ventura & Filhos. A outra Firma

importante é a D. Mariana C. Gonçalves.

Em 1954,16 pelo Inquérito realizado ao salgado de Alcochete, da CRPQF, constata-se a existência de novos proprietários e produtores de sal, embora em algumas situações se verifique que a propriedade continua na mesma família, sendo explorada pelos herdeiros. Embora a maioria das salinas tenha sido construída no século XIX, surgem registadas novas salinas, construídas na década de 40, conforme se

15

LEPIERRE, Inquérito à Indústria do Sal, o.c., p.133 16 LOPES, Luís A. Dias – Salgado de Alcochete, o.c., p. 65 a 284.

pode observar no quadro que a seguir apresentamos. Citamos como exemplo a marinha Nova de Vale de Frades.

Aparecem também referenciados proprietários das regiões vizinhas da Moita e Montijo, como é o caso do Dr. Luciano Tavares, do Montijo, e de Albino Mateus da Moita, entre outros.

A maioria dos proprietários, explorava directamente as próprias marinhas, apenas um pequeno número eram exploradas em regime de arrendamento.

Quadro 11 Proprietários das marinhas em 1954

Proprietário Designação da marinha

D. Mariana Gonçalves Dias de Sousa Barbudo, Bulhão ou Guilhão, Capelas,

Misericórdia, Misericordinhas; Moças; Muntos; Pipeiro Grande, Pipeiro Pequeno, Porto Velho, Raimundo, Sereeira, Batel, Hortas, Paraíso, Ruciada Grande, Ruciada Pequena,

Manuel Dias de Sousa Catorze, Cento e Vinte, Gema, Gema Cova, Brito, Gilmestre, Gorda, Parda, Providência, Tabuleirinho, Vau

João da Silva Camela, Canas, Dezasseis, Fusis, Meio De

Dentro, Meio De Fora, Nova Do Freitas, Parda, Peixinhos, Trinta Grande, Trinta Pequeno, Dr. Manuel Facco Viana D. Brites, Gilmestre, Mesquita, Moreno,

Mostótio, Nova, Rio Frio, santíssimo, Teceloas, Assolvo

Sociedade Agrícola e Exploradora de sal Conceição Grande; Conceição pequena, Conde, Elvas, Marquês, Saraiva, Velha do Pancas, Vasa- Sacos Sul,Canto, Pinheirinhos, Restinga, Tendeiro.

Albino Mateus Contenda, D. Pedro, Mortório, Pata, D. António

(grande), D. António (pequeno)

Herdeiros do Visconde das Fontaínhas Conceição ou Tabuleiro, Conde de Unhão Grande, Conde de Unhão Pequeno. Carlos Gouveia Dimas Estacada, Gilmestre, Sessenta, Tabuleiro Dr. António Godinho do Amaral Atalaia, D. Brás

Lucinda Amélia da cruz e Maria da Piedade Cruz Alves

Almada, Chilrais ou Chilrracha, Cova, Praia

João Gonçalves da Cruz Gilmestre

José Baptista Canta Gilmestre

Samuel Lupi Santos Jorge Carvalho e Hortas

Dr. Luciano Tavares Raposeira do Sul

Santa casa da Misericórdia Belavista

Fonte: LOPES, Luís A. Dias – Salgado de Alcochete, o.c., p. 65 a 284.

A exploração salineira continuava pois concentrada num pequeno grupo de produtores. A restante população envolvida na produção e safra do sal era assalariada.

Regra geral, o regime de exploração assentava essencialmente na exploração directa ou no arrendamento embora no século XX verifica-se uma nítida predominância da exploração directa, ou seja, feita pelos próprios proprietários.

Encontra-se nesta situação a filha de João Gonçalves Júnior uma das maiores proprietárias de marinhas, cuja exploração era feita pela própria.

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