IV. 3.3 ´ Etude qualitative des images radar
IV.3.3.2 Influence des param`etres
7.1. Marinha da Gorda
A marinha da Gorda foi sempre propriedade da família Gonçalves, pois em 1882 era seus proprietários João Gonçalves da Eugénia Sénior52. Ao que tudo indica terá sido construída pelo próprio. Pertence às típicas marinhas de cabeceira, de traçado irregular. É uma marinha de pequenas dimensões com características específicas e representativa da tipologia das marinhas de cabeceira, que de acordo com as informações documentais e relatos dos salineiros é a tipologia mais antiga que se conhece na margem sul do salgado do Tejo.
A marinha apresentava muros altos e pequenas dimensões que dificultavam a acção dos ventos.53 Embora característica das tradicionais marinhas de cabeceira a sua estrutura é ligeiramente diferente, uma vez que não possui a reserva, o que facilitava os trabalhos de limpeza da marinha, tornando-os menos morosos, facilitando também o processo de feitura do sal. No entanto, exigia que o marnoteiro adaptasse o processo de feitura do sal às
características da marinha, desde a tomada de água, até à fase de cristalização, obtendo sempre os cristais de sal através do processo de evaporação na superfície evaporatória (caldeiras de moirar).
O viveiro da marinha é alimentado por quatro esteiros: Samouco, Brito, Gorda e Parda. O Viveiro localizado na parte exterior da marinha, envolve praticamente toda a marinha, de forma a abastecer a marinha de água necessária à feitura do sal. A água entra na marinha através dum bombacho aberto nos quatro lados do muro que protege a marinha. O bombacho possui uma porta em madeira para que o marnoteiro possa controlar a entrada da água na marinha. 54
Como esta marinha não tem reserva, a água entra directamente nas caldeiras de moirar que envolvem as cabeceiras da marinha situadas em torno dos talhos. No centro da marinha ficam os talhos (cristalizadores), que estão divididos por um pequeno corredor central, para a água proveniente das cabeceiras passar para os talhos. A passagem da água faz-se através de pequenas “portinhas” abertas ao longo do corredor central. O processo de feitura do sal é mais simples implicando menos mão-de-obra. (informante: Marnoteiro Sr. Manuel Nicolau, Fevereiro de 2009.
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ADS. Relação de marinhas do concelho de Alcochete, Ministério das Finanças, 1882 53
CLEMENTE, Carlos Silva Sancho; RIBEIRO, José Nicolau Pires – Mecanização da salinado Brito, o. c. , p.5 Direcção Geral das Pescas, Lisboa 1984
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A) Processo de feitura do sal
(informante: Marnoteiro Sr Manuel Nicolau)55
Os trabalhos nas marinhas iniciavam-se com a limpeza da marinha, as deitas. Limpava-se a marinha com o rodo, tirando as lamas e todas as impurezas. Depois dava-se uma cora, que consistia deixar a marinha a corar, para cozer as lamas, tornando o solo mais duro.
Seguidamente enchiam-se os talhos de água e punham-se a moirar.
O viveiro, situado na parte exterior da marinha, recebia água do Tejo, na altura das “águas grandes”- preia-mar. Em alturas de lua cheia as águas eram mais curtas e a lua nova dava águas maiores. Todos os meses a água do Tejo entrava no viveiro.
Nas marinhas com reserva, a água do viveiro, passava para a reserva. Quando a marinha estava a fazer sal a água entrava na reserva, de dois em dois dias. Na reserva ficava até ter grau, atingia os 9/10ªBé.
Quando a água atingia os 10º Bé, passava para as caldeiras de moirar – designados caldeirões de moirar. Ficava nestas peças durante 2 a 4 dias, para “ganhar força”, ou seja para adquire mais grau, devido ao processo de evaporação. No caso da marinha da Gorda, a água passava directamente do viveiro para as caldeiras de moirar, uma vez que não possuía reserva.
Dos caldeirões de moirar a água ia para as cabeceiras, onde permanecia durante dois dias. O marnoteiro com um pau ou com o cabo da pá, picava as cabeceiras, fazendo pequenos furos nos muretes feitos de lama. Assim, a água já bastante densa passava lentamente para os talhos. Nos talhos a água ficava durante 21 a 23 dias, até atingir os 27/28º Bé, altura em que começava a fazer sal. Actualmente na salina do Brito, a água permanece nos talhos durante três meses, dando-se água aos talhos de dois em dois dias. Devido ao facto dos talhos terem grandes dimensões, o processo de evaporação pela qual se obtêm os cristais de sal é mais moroso.
Quando o marnoteiro percebe que o sal está pronto a recolher, prepara-se para rapar o sal. Faz-se então a 1ª rapação; o sal é rapado com o rodo e puxado até às barachas, colocando-se em pequenos montes, formando um cordão de sal (o peão de sal) ao longo das barachas. Aqui fica a escorrer durante algum tempo (cerca de mais ou menos dois dias). Pode demorar mais ou menos tempo a escorrer de acordo com o tamanho dos talhos e as condições climatéricas. Se o talho é pequeno demora menos tempo. Finalmente, o sal que estava na água é rapado e puxado para os cantos dos talhos, operação de atranvincar. Os cantos dos talhos chamam-se travincas.
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Depois do sal escorrido puxava-se o sal com o rodo para cima das barachas. O talho ficava completamente limpo e voltava-se a passar a água das cabeceiras para os talhos.
Nesta 2ª fase a água já bastante densa, fica a moirar dentro do talho, apenas durante 12, 13 ou 14 dias.
Segundo nos relatou o marnoteiro da salina do Brito, havia anos em que se chegava a fazer 7,8 9 e 10 rapações.
Tal como já referimos as várias rapações tinham as seguintes designações: 1ª rapação-rasa
2ª rapação-rapão 3ª rapação-Neta 4ª rapação- bisneta
5ª rapação trineta…e assim sucessivamente.
A tirada do sal:
Logo que o sal era colocado em cima das barachas, os carregadores de sal começavam a tirar o sal das barachas para a serra. O carrego do sal era feito de empreitada. Formavam-se grupos de 15, 20 ou 30 homens, consoante o tamanho das marinhas. Cada grupo de homens constituía um “rancho”, que, embora trabalhassem para o produtor de uma ou mais marinhas, também podiam ir tirar sal nas marinhas de outros proprietários.
Como eram muitos homens a transportar as canastras, o amoiador “o punhos reais” que enchia as canastras, com os punhos de madeira, ajudava a colocar na cabeça do carregador e
contava as canastras que se iam transportando, tinha a auxiliá-lo um ou mais ajudantes, para evitar que os carregadores estivessem à espera. O tempo de espera era dinheiro que se perdia, pois quanto mais canastras carregassem mais ganhavam. Por outro lado, quando a marinha ficava mais próxima das eiras onde era construída a serra, os carregadores demoravam menos tempo a transportar o sal, pois o percurso era mais curto. Nas marinhas maiores, o percurso das barachas até à serra era mais longo. Cada homem deveria tirar por dia 5 moios de sal; cada moio de sal equivalia a 15/16 canastras. Assim cada carregador
transportava 75 canastras. Cada canastra pesava 56 quilos.56
A tirada de sal nas marinhas do Brito processava-se da seguinte forma:
O rancho começava a carregar o sal na marinha onde o sal estava pronto para transportar para a serra. O rancho podia começar na marinha do Brito, quando terminava a tirada do sal nesta marinha, ia para a Gema-Cova, daqui ia para a marinha do Pipeiro e depois para a marinha dos Muntos percorrendo todas as 12 marinhas.
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DIAS, Luís A. Lopes - Inquérito á indústria do sal- O salagdo de Alcochete. , o. c., p. 57 , 1954
Quando terminava a tirada de sal da 1ª rapação em todas as marinhas, o rancho voltava novamente à marinha onde tinha iniciado a tirar o sal da 1º rapação. E assim sucessivamente até as marinhas deixarem de produzir sal; normalmente no final de Agosto, princípios de Setembro, consoante as condições climatéricas o permitiam.
Fig.11
Fonte: O sal, p .63, 1966
Assunto: Rancho em plena rapação Autor da fotografia: desconhecido; s/d
Na serra estava o serreiro que dominava a técnica de construir a serra, colocando o sal por camadas consoante a rapação. Com o rodo ia alisando as paredes da serra para que o sal ficasse acondicionado para aguentar os rigores do Inverno. Nos ranchos grandes havia dois serreiros a fazer a serra. Nos ranchos pequenos era suficiente um serreiro.
O carregador atirava com a canastra de sal para a serra e o serreiro puxava o sal para os lados e alisava as paredes da serra (partes laterais) e em cima, com a ajuda do rodo.
O sal vendido era carregado da serra e colocado dentro das típicas embarcações, Botes ou Faluas que transportavam o sal até ao porto de Lisboa. Os carregadores transportavam o sal para as embarcações em canastras à cabeça. Para contabilizar o sal transportado para o barco, era também utilizado o moio, porém o número de canastras para perfazer um moio aumentava para 18 canastras, segundo a tradição, para compensar as “quebras” do sal na serra.