Segundo Castro (2004), o mundo atual depende das descobertas científicas para progredir, para a paz, para saúde e para tecnologia, dentre várias outras possibilidades, donde se torna relevante a importância do conhecimento científico para que o indivíduo, no seio da sociedade, possa desempenhar, a contento, o seu papel de cidadão compatível com os anseios da mesma. Neste aspecto, Cruz & Zylbersztajn (2001, p. 171) fazem a seguinte menção:
Segundo uma perspectiva educacional abrangente, o papel mais importante a ser cumprido pela educação formal é o de habilitar o aluno a compreender a realidade (tanto do ponto de vista dos fenômenos naturais quanto sociais) ao seu redor, de modo que ele possa participar, de forma crítica e consciente, dos debates e decisões que permeia a sociedade na qual se encontra inserido.
Corroborando com este aspecto, também lemos em Fernando & Barros (1999), que a alfabetização científica do cidadão deveria estar voltada não apenas para a compreensão da
Ciência e da Tecnologia, mas deveria proporcionar informações sobre aqueles desenvolvimentos científicos e tecnológicos que podem atingir negativamente a sociedade, levando em consideração, por exemplo, problemas como: o buraco na camada de ozônio, aquecimento global, manipulação de códigos, etc. bem como levar o cidadão a refletir sobre o efeito das armas de destruição massiva e outros. Isso nos leva a uma reflexão acerca do que tem sido o papel do ensino das Ciências, principalmente da Física, no interior de nossas escolas, já que, principalmente em nível de Ensino Médio, a maioria dos alunos absorve estes conhecimentos como algo descontextualizado do seu meio, necessário apenas para serem utilizados nas avaliações internas da escola ou quando muito, utilizá-los nos exames vestibulares como meio para adentrarem o ensino superior.
Cogita-se frequentemente, na atualidade, que a educação deve ser voltada para a cidadania, e de acordo com Gadoti, (2008, p. 66), este termo atingiu um estágio de vulgarização nos últimos anos:
Tornou-se uma palavra perigosamente consensual, um envelope vazio no qual podem caber os sonhos de uma sociedade de iguais, uma sociedade de direitos e deveres, quanto uma sociedade dividida por interesses antagônicos. Nela cabem hoje todos os sonhos e todas as realidades.
Portanto, faz-se necessário, quando nos referimos ao campo educacional, voltado para o ensino das Ciências, e citamos esse termo “cidadania”, termos o cuidado de caracterizá-lo com pertinência. É preciso salientar que, à luz deste contexto, entende-se como cidadão ou cidadã, aquele que tem a capacidade de interpretar e compreender, com autonomia, os acontecimentos do seu cotidiano, interferindo coerentemente sobre os mesmos, ao se referir sobre esta situação. Muitos estudiosos em educação salientam como fundamental a implementação de uma alfabetização científica. Referindo-se a esta ideia de uma alfabetização científica, voltada para a formação de um cidadão crítico e tendo como alvo principalmente a juventude, Cruz & Jucá (2010, p. 22) salientam a sua importância para o contexto atual:
[...] que os jovens possam ser esclarecidos a respeito de temas que são constantemente objetos de decisões políticas. Por exemplo: utilização de organismos transgênicos no incremento da produção de alimentos; uso de células tronco embrionárias na pesquisa da cura de algumas doenças; questões éticas relativas a manipulações genéticas; dentre outros temas.
A este respeito também nos fala Bernardo (2008), quando se refere às transformações ocorridas, nas últimas décadas, no seio da nossa sociedade, principalmente àquelas relacionadas ao aspecto científico tecnológico, o qual também menciona a necessidade dos indivíduos componentes dessa sociedade estarem afinados com essas transformações, para assim, poderem analisar, compreender e se proporem conscientemente sobre este contexto, enfatizando:
A rapidez segundo a qual evolui a sociedade contemporânea em termos científicos e tecnológicos é acompanhada de uma evolução não menos acelerada, de uma demanda social. O cidadão contemporâneo deve estar minimamente qualificado para atuar criticamente em relação às exigências que o mundo lhe impõe. (BERNARDO, 2008, p. 1)
Também este autor, ao se referir à importância da alfabetização científica, faz a seguinte menção:
Os avanços alcançados pela ciência, em geral, caminham junto com os avanços tecnológicos, seja pela necessidade de se reproduzir tecnologias que atendam à demanda criada pela própria ciência, sejam para atender interesses de outras áreas onde essas tecnologias encontram aplicação, como a indústria e o comércio. Desse modo fala-se hoje da “alfabetização científica” para todos os cidadãos. (BERNARDO, 2008, p. 37)
Correlacionando os avanços tecnológicos com os conteúdos inseridos nos livros didáticos, podemos ler nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio, o seguinte:
A tecnologia merece atenção especial, pois aparece nos Parâmetros Curriculares como parte integrante da área das Ciências da Natureza. Observa-se que nos livros didáticos os conteúdos disciplinares selecionados e trabalhados pouco têm a ver com a tecnologia atual, ficando essa, na maioria das vezes, como simples ilustração. Deve-se tratar a tecnologia como atividade humana em seus aspectos prático e social, com vistas à solução de problemas concretos. Mas isso não significa desconsiderar a base científica envolvida no processo de compreensão e construção dos produtos tecnológicos. (BRASIL, 2006, p. 47)
Em seguida, esta mesma obra ao se referir à alfabetização científica, menciona:
A tão falada metáfora da alfabetização científica e tecnológica aponta claramente um dos grandes objetivos do ensino das ciências no nível médio: que os alunos compreendam a predominância de aspectos técnicos e científicos no tomada de decisões sociais significativas e os conflitos gerados pela negociação política (BRASIL, 2006, p. 47)
Portanto, de acordo com o que está explícito nos textos citados, verificamos que é de extrema importância que os ensinamentos das Ciências (sobretudo os da Física), estejam em consonância com anseios relevantes que permeiam a sociedade atualmente, mais precisamente os do ponto de vista científico e tecnológico, pois, tal aspecto, caracteriza o que é chamado neste contexto de “alfabetização científica,” (ênfase nossa).