0.1.3 Les technologies de reproduction sonore comme vecteur de patrimonialisation
0.1.3.1 Conserver « les cultures à l’agonie »
0.1.3.1.1 Patrimonialiser la musique (classique)
Por alegorias pontuais, temos em mente a indicação de alguns elementos dos
“painéis imagéticos” correspondentes a cada núcleo narrativo do romance. Tais
alegorias pontuais, reunidas: a) parecem significar algo além do que indicam à primeira vista; b) concentram as principais contradições de cada núcleo e, por conseqüência, do romance como um todo. Tais elementos indicam aspectos diversos que compunham a sociedade brasileira e o contexto mundial no período no qual o romance foi criado, de decadência da ditadura militar e de começo da abertura política. Eles também indicam um estreito vínculo do romance com as condições histórico-sociais que motivaram a arte criada naquele período: uma inevitável interlocução com a censura e com os fantasmas da repressão e da perseguição política, uma necessidade de realizar um
49 Projeto empreendido por Geisel e Golbery e continuado por Figueiredo. Visava, ao mesmo tempo,
acabar com a ditadura nos moldes anteriores (períodos Castello, Costa e Silva e Medici) e garantir, ainda, a “ordem” no país. Os principais acontecimentos da “lenta, gradativa e segura distensão” (GASPARI, 2003, p. 459) são relatados por Gaspari (2003, 2004).
balanço crítico das utopias, lutas e experiências vividas antes e depois da ditadura, uma crise em relação às ideologias políticas.
Elisa e o ex-preso político: a “pausa que refresca”
Elisa e o ex-preso político são as personagens principais de um núcleo narrativo que tem um tratamento diferenciado dos demais núcleos no romance. Nele, a escrita prescinde do recurso ao absurdo e ao fantástico que motiva os outros núcleos narrativos para, adotando uma abordagem realista identificada com o registro naturalista a la romance-reportagem, narrar as histórias de Elisa e do ex-preso político. Os outros núcleos narrativos não privilegiam uma linguagem realista objetiva, mas, sim, uma linguagem delirante, fruto do contexto meio absurdo da época. Esse núcleo, de fato, impõe, em seus fragmentos, um sutil intervalo no clima delirante que caracteriza os demais núcleos narrativos do romance. Ele se pauta por uma narração mais convencional, mais realista nos termos das convenções literárias do século XIX. Os aspectos alegóricos convivem, aqui, com um tratamento mais “informativo” dado, principalmente, nos relatos da prisão e das torturas sofridas pelo ex-preso político.
Tais personagens relatam, um para o outro, suas derrotas particulares, vinculadas a acontecimentos históricos vividos pela nação durante a ditadura militar. Ele, um ex- combatente contra a ditadura militar, ela, uma alienada política. Seus traumas: a educação repressiva recebida de seus pais, no caso de Elisa, e a tortura sofrida nos porões da ditadura militar, no caso do ex-preso político. Embora relacionados com os fatos políticos nacionais da ditadura militar, esses traumas se revestem de um caráter erótico, pois é na manifestação do desejo sexual das personagens que tais traumas aparecem. É pela impossibilidade de realizar o ato sexual, já que se acredita castrado pela tortura, que o ex-preso político revela detalhes da tortura pela qual passou. É pela
necessidade de confessar-se apaixonada que Elisa faceia a repressão familiar. Esse núcleo narrativo centraliza esse momento de revelação do que se viveu no passado – mutilações - e de constatação da impossibilidade de vivência plena no presente.
A ação dramática que une as duas personagens é o que dá a configuração alegórica ao núcleo. Alegoriza a situação nacional do momento de abertura política depois de anos de repressão ferrenha, contexto que tornou possível o encontro de dois personagens opostos e complementares da realidade nacional que, em uma conversa franca, revelam fatos emudecidos pela censura. Esse é um momento de reconhecimento dos mortos e do resgate de suas dores, após o embate das tanajuras, abafado pelas outras formigas que fizeram a limpeza (alegoria já exposta). O momento de recordações vivido por Elisa e pelo ex-preso político representa o resgate possível de uma história marcada pela violência e pelo apagamento dos vestígios. Entretanto, as personagens comentam tais fatos, ainda, a portas fechadas, elas têm medo.
Traumatizados pelos fatos históricos, Elisa e o ex-preso político mantém uma única esperança, mais individualizada e medíocre: a de viverem suas vidas em comum, se possível, longe de qualquer acontecimento histórico nacional. A felicidade que esperam na vida a dois, entretanto, será frustrada justamente pelos fatos históricos que visam esquecer. Tal desfecho parece indicar, assim como a teoria de Benjamin faz pressupor, que o olhar para o presente, enxergando nele seus fracassos e contradições advindas do passado, e, conseqüentemente, o olhar para o passado, constituem gestos necessários para a superação do trauma e o empreendimento de um futuro mais próspero.
A união de Elisa e do ex-preso político forma um estranho corpo, feito de partes variadas, que remetem à imagem do homem biônico evocada no núcleo do General Presidente e do Cavalo Albany. Elisa dá nome a essa estranha junção de massa informe:
“– Você já viu aquele desenho da família Barbapapa na televisão? [...] Um Barbapapa
se transforma numa pá de coisa. Pois meu amor por você é assim [...] se você precisar de uma irmã, eu vou ser a sua irmã. E se você precisar de uma mulher, eu vou ser a sua
mulher” (DRUMMOND, 1988, p. 293). Em outro trecho, Elisa se dispõe a ser as partes
perdidas do corpo do ex-preso: “você pode contar comigo como você conta com alguma coisa que é sua: como conta com a sua mão direita ou a sua mão esquerda, por exemplo” (DRUMMOND, 1988, p. 299). Entretanto, o que falta a Elisa, a consciência política, ela deseja receber do ex-preso político:
Eu não tenho nenhuma consciência política, mas eu te amo. Eu nunca li Lenin. Nem Mao Tsé-Tung. Nunca li nada de Fidel Castro. Meu Deus, nem Marx eu li. Tentei ler O Capital uma noite, mas eu dormi. Eu só li Nossa Luta em Sierra Maestra, de Che Guevara. Foi só o que eu li, pô. Mas eu queria te dizer que eu te amo e que a minha consciência política é você (DRUMMOND, 1988, p. 299).
Assim, Elisa e o ex-preso político encarnam lados opostos e complementares de uma mesma sociedade, um lado politizado e um lado alienado, cujas existências distintas possibilitaram a vigência do período ditatorial. A alienação do grupo que Elisa alegoriza permitiu que o Estado massacrasse o grupo ao qual o ex-preso político pertencia.
Intitulando-se enfermeira e psicóloga do ex-preso político - “Eu posso ser a sua enfermeira [...] posso ser a sua psicóloga, fiz um curso meio fajuto, mas posso ser” (DRUMMOND, 1988, p. 293) – Elisa tem o gesto de cuidado para com o corpo e com a mente mutilada do amado. Como sobrevivente da tortura, traço mais evidente da repressão política, o ex-preso político traz feridas e aceita o gesto de cuidado de Elisa. Isso indica duas coisas: 1) o reconhecimento, pelo ex-preso político, do fracasso de seus ideais, de sua luta, e até de si próprio; 2) a tomada de consciência, por Elisa, de toda a violenta história recente do país, da qual ela participou indiretamente como vítima e como colaboradora.
Esse movimento de reconhecimento do fracasso de um projeto por demais idealizado e de inclusão no processo histórico, como já foi dito no segundo capítulo, foi o movimento realizado pela literatura do período de ditadura militar brasileira.
A existência de um conflito que originaram mortos e feridos, a existência de um corpo traumatizado e a atenção despendida a esse corpo, definitivamente mutilado, são situações narradas nas epígrafes das partes do romance, que se relacionam com a alegoria geral do romance. Assim como Elisa cuida do ex-preso político, movida por um sentimento de culpa por reconhecer que sua (in)ação colaborou com a tortura ditatorial e, também, movida por uma sede de justiça já que Elisa também foi indiretamente traumatizada pelos acontecimentos desse governo (morte do irmão, criação repressora), as outras personagens do romance também realizam, cada uma a seu modo, o movimento descrito pelas epígrafes.
As perguntas ou afirmações que aparecem junto às epígrafes do romance também se comunicam com o núcleo de Elisa e o ex-preso político. “O que você estava
fazendo no dia 1º de abril de 1964?” é uma pergunta feita pelo ex-preso político a Elisa
no apartamento. Ela responde que, criança, comemorou, em família, o golpe militar
[...] a tia Lalaca chegou lá em casa com uma torta de chocolate embrulhada e dois engradados de Coca-Cola. E a primalhada toda foi lá para casa e a gente ficou em volta de uma mesa grande. E aí a tia Lalaca começou a cantar o Hino Nacional e aquilo descia lágrimas no rosto dela e foi aquele desentôo, meu Deus, a gente cantando e olhando pra torta, eu sinto água na boca até hoje. E depois do Hino Nacional, nós começamos a comer a torta, e nunca comi uma torta tão gostosa. E a tia Lalaca gritava: Abaixo o comuniiiismo! E a gente respondia com a boca cheia de torta: Abaaaixo! E a tia Lalaca gritava: Viva o glorioooosoooo exééééército nacionaaaaaaallllll! E a gente engolia a torta de chocolate às pressas e gritava: Vivaaa! E a tia Lalaca começou a chorar de verdade. E nós tamos que comemos torta. E a tia Lalaca enxugou as lágrimas e gritou: Moooorrrrrra o comuniiiiista João Goularrrrrt! E a gente, mastigando a torta: Moorrrra! E a gente comia tanta torta que quando a tia Lalaca gritou Viva Magalhães Pinto!, a gente respondeu um viva mixuruco pra caralho, porque a torta tinha acabado... (DRUMMOND, 1988, p. 111).
Além de essa história indicar uma alegoria do que acontecia no país naquele momento, tendo a ditadura militar o apoio da classe média enquanto esta teve seus
privilégios (ou, enquanto tiveram suas partes na “torta”, os sobrinhos de tia Lalaca
apoiaram suas idéias), tal relato de Elisa encontra paralelo na visão ingênua e infantil do ex-preso político antes dele ser um ex-preso e muito antes de ser político:
No quintal da casa da minha mãe tinha uns pés de manga e galinhas ciscavam a terra debaixo dos pés de manga, pouco cagando pra sorte do Brasil. E uma lavadeira cantava um samba e batia roupa num tanque. E eu tava lá no quintal, Elisa, tava descalço, achando bom sentir a terra na sola do pé, e eu olhava as galinhas ciscando a terra e pensava: meu Deus, vendo estas galinhas ciscando a terra, parece que o Brasil ta em paz, parece que não está acontecendo coisa alguma com o Brasil. E eu deitei num banco debaixo dum pé de manga e fiquei lá até o anoitecer... (DRUMMOND, 1988, p. 196).
Essa alegoria mostra a percepção do país pelos seus próprios habitantes
enquanto a ditadura militar, a “noite”, se articulava e se preparava para surgir. O país era um eterno “berço esplêndido” no qual os brasileiros deitavam e dormiam.
A consciência sobre o que significaria a ditadura militar no país vem, coincidentemente, para Elisa e para o ex-preso político, por intermédio de seus irmãos. Jair, irmão de Elisa, que “tava sempre com uma turma, uns quatro ou cinco, e eles só falavam no Brizola, no Arraes50, no Julião51, no Jango52” (DRUMMOND, 1988, p. 112) foi morto pela ditadura e, somente a partir desse fato, a mãe de Elisa passou a chamar Médici de “Carrasco Azul” (idem). O ex-preso político, menino ainda, foi acordado pelo irmão Dito que, àquela altura, era presidente do Diretório Acadêmico do curso de
Medicina e filiado ao Partido Comunista: “- Vai ser alienado no cu do Judas. O Brasil ta
pegando fogo, merda, e você ta aí dormindo” (DRUMMOND, 1988, p. 196).
50 Miguel Arraes foi um dos políticos depostos pelo golpe militar de 64.
51 Francisco Julião era presidente das Ligas Camponesas, entidade que organizava os camponeses em
torno da luta pela reforma agrária, no sertão pernambucano, destruída pelo golpe militar de 64.
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O relato de Elisa indica o papel da classe média que, num primeiro momento, apoiou o golpe militar, arrependendo-se, depois, diante de suas arbitrariedades e de sua extrema violência. O do ex-preso político revela a conscientização política de uma parte da sociedade que, historicamente, estava alienada dos processos políticos e que sequer
conhecia sua terminologia: “o Dico falava com as tias e as primas do interior que era do
PC e sabe o que elas diziam? Diziam: Que é isso, Dico, você comunista? E arregalavam
o olho com o dedo, não acreditavam...” (DRUMMOND, 1988, p. 198).
Ao relatar sua vida para o ex-preso político, Elisa revela a origem da pergunta da epígrafe:
Uma vez eu contei isso prum jornalista que tava escrevendo um livro que nunca saiu que ia se chamar O que você estava fazendo no dia 1º de abril de 1964? Chiiiii, o cara me chamou de alienada, disse [...] que eu era uma filha do 1º de abril, era como se falasse: Você é uma filha da puta... (DRUMMOND, 1988, p. 111).
Tal pergunta é relevante no romance, uma vez que outras personagens também se referem ao dia 1º de abril de 1964 e rememoram o que faziam nele. Segundo a visão de história predominante no romance, trata-se de uma pergunta fundamental para despertar a consciência da participação individual na história coletiva, por meio de gestos voluntários ou não.
“Qual é o seu último desejo?” é a pergunta que precede a 3ª parte do romance.
Dessa vez, é o ex-preso político quem relata os episódios ocorridos em sua vida a partir de 1º de abril de 1964. Narra a perseguição ao irmão Dico, a morte dos inúmeros colegas e sua situação, no país, depois do AI-5, em 1969:
[...] eu já tinha participado de várias ações armadas. E eu pensei: merda, eu só tenho dois caminhos, ou eu caio fora do Brasil, ou eu fico e tou sujeito a ir em cana e eles me matam [...] mas eu pensei: mesmo com a barra pesada, eu prefiro ficar no Brasil [...] É que eu me sentia mal de estar vivo quando já tinham matado tantos. (DRUMMOND, 1988, p. 199).
Preso, o ex-preso político conta, também, detalhes da prisão e da tortura que ali sofreu. Por vezes, esta visava provocar sofrimento no preso a fim de saciar o sadismo de algum militar. Em outras ocasiões, a tortura tinha o objetivo claro de obter informações que visassem desbaratar as forças opositoras do governo militar.
O capitão Portela podia me arrancar uma porção de coisas, Elisa: endereços de aparelhos, nomes de companheiros banidos que tinham voltado. Mas ele ficava perguntando qual era a maior escola de samba do Brasil (...)
- Tem a cor azul, diga qual é...
- Mangueira! – eu gritava, sempre com o Dico a meu lado, me encorajando. (DRUMMOND, 1988, p. 202).
Então, Elisa, o capitão Albernaz53 disse: Vou te apresentar o cão Satã. E o encapuzado chegava o cão Satã perto de mim, Elisa, perto do meu saco e eu sentia o bafo do cão Satã no meu saco, um bafo quente e úmido. Sentia aquele bafo quente e úmido e o capitão Albernaz ia me interrogando, Elisa. E se eu demorava a responder, o encapuzado soltava um pouco a corrente do cão Satã e o cão Satã chegava a boca perto do meu saco e eu sentia o bafo quente do cão Satã e eu confessava tudo, Elisa, entreguei pontos, companheiros, aparelhos, tudo... (DRUMMOND, 1988, p. 298).
De forma semelhante ao torturador sádico, tem-se a ação de Tyrone Power, personagem principal de outro núcleo narrativo do romance. Há, também, semelhança entre a tortura sofrida pelo ex-preso político sem nome e a tortura sofrida por Frei Tito, que será expressa no núcleo narrativo do General Presidente. Assim como o frei torturado, o ex-preso político também via no torturador a imagem do demônio. Tal como Tito, o ex-preso político ficou traumatizado pela tortura, levando consigo, internamente, a imagem e a voz de seu torturador: “Eu fico ouvindo o capitão Albernaz me falando: Nunca mais você vai trepar numa mulher, nunca mais (...) e eu fico
sentindo o bafo do cão Satã” (DRUMMOND, 1988, p. 298 – 299).
53 O capitão Albernaz existiu: foi “[...] o major Benoni de Arruda Albernaz, chefe da equipe A de
interrogadores da Oban [...] saíra aspirante no último terço de sua turma e fizera toda a carreira em São Paulo. Na tarde de 31 de março de 1964 servia no CPOR e declarou-se fiel à legalildade. No dia seguinte, e por muito tempo, mudou de idéia. Divertia-se dizendo aos presos que, por ser muito burro, precisava ouvir deles respostas muito claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado para „falar com Fidel Castro‟, metáfora para a aplicação de choques elétricos. „Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa‟, explicava às vítimas.” (GASPARI, 2002b, p. 104).
O episódio em que o ex-preso político, certa noite, é retirado da prisão e levado a
um lugar ermo, numa simulação de execução, a pergunta “Qual é o seu último desejo?”,
lhe é feita pelo capitão Portela. Tal pergunta também é feita na epígrafe da terceira parte do romance, que faz alusão aos mortos da ditadura (de acordo com os versos maikovskianos, estrelas decapitadas que ensangüentaram o céu como um matadouro).
A quarta e última parte tem o título “O que a lua viu”, diferente das partes
anteriores do romance, que eram perguntas. Essa afirmação remete à continuação da história narrada pelo ex-preso político na parte anterior. Ele sobreviveu à repressão, não foi morto na simulação de sua morte realizada pelo capitão Portela. Fora dito, nessa ocasião, que ele seria metralhado quando a lua surgisse no céu.
Tal lua parece ser a alegoria do fim da ditadura militar e do início de um novo governo, aparentemente menos repressor. Afinal, a lua é o que ilumina a escuridão da noite, mas não é capaz de, como o sol, abolir totalmente as trevas. É sob a luz da lua que Elisa e o ex-preso político reconhecem suas fraturas psicológicas, mas, de modo ineficaz, pois não conseguem superá-las. Em outros núcleos, a lua, por oferecer claridade parcial que mostra a vítima e que oculta o algoz, é um instrumento de auxílio ao aparato repressivo (no caso do romance, auxilia a personagem Tyrone Power a assassinar Terê). No contexto da abertura política lenta e gradual, a lua, como uma iluminação parcial da situação, associa-se à imagem do Bem-Te-Vi que incomoda o General Presidente, acusando-o de seus crimes, e que, no entanto, pode ser atingido, a qualquer momento, por um balaço no meio do peito.
Tais alegorias em Sangue de Coca-Cola permitem ao romance constituir um mosaico no qual diversos aspectos da vida social, cultural e política do país no período de derrocada da ditadura e de abertura política são articulados: o autoritarismo político, a violência da repressão, o amordaçamento da imprensa, a atuação conivente da mídia,
o processo de dominação econômica e cultural do Brasil pelos EUA, a atuação da Igreja Católica (dividida entre o apoio e a crítica à ditadura), a problemática da religião e a herança sociocultural que fundamenta o autoritarismo que historicamente aprisiona o povo brasileiro e, em conseqüência, o país.
Homem do Sapato Amarelo e Erika Sommer: o homem e seu duplo
O Homem do Sapato Amarelo e Erika Sommer compõem um núcleo narrativo no qual são contrastados dois comportamentos de ex-militantes políticos. Ela, fiel às suas convicções e a si mesma, seqüestra um avião e vai viver em outro país, retornando, inteira e capaz de dar continuidade à vida, após a anistia política de 1979. Ele, ao contrário, assume a identidade de um morto para, a partir disso, reintegrar-se à sociedade e, curiosamente, vai trabalhar no rádio – meio de comunicação que, como muitos outros, esteve, também, a serviço dos interesses da ditadura militar e dos governos autoritários. Ao forjar a própria morte e assumir a identidade de um outro, ele comete algo como uma múltipla traição, pois abandona quem fora e, também, os companheiros e a própria luta da qual participava, além da mulher amada. Ela, mesmo fugindo do país, também visando a própria sobrevivência, não abandona os ideais pelos quais luta, de melhora do país, visto que retorna quando a anistia é declarada. A ação dramática que tais personagens realizam é o que dá contorno à alegoria: eles representam caminhos diversos tomados por aqueles que foram, no passado, companheiros de luta, partilhando a utopia de construção de uma sociedade mais justa e de um mundo melhor.
A ambigüidade é uma característica do Homem do Sapato Amarelo, já que, no exercício de sua função, ele serve, mesmo sem querer, aos interesses do governo autoritário: espetaculariza o conflito entre o urso e as forças da repressão, que, depois,
será capitalizado por Cavalo Albany para a consolidação do golpe que depõe o General