• Aucun résultat trouvé

5.3 Traitement de la self-consistence

5.3.2 Pathologies de convergence

Surpreendentemente, o livro de Isler possui eventos e características muito parecidos com uma adaptação paródica de Hamlet, Conto de Inverno, lançado um ano depois de seu livro. Em 1995, o diretor Kenneth Branagh havia terminado o projeto Mary Shelley's Frankenstein (1994) e decidiu aventurar-se em uma adaptação de Hamlet. O filme A Midwinter’s Tale [Conto de Inverno] (também conhecido como In the Bleak Midwinter) de 1995, foi escrito e dirigido por Branagh e mais parece um ensaio desajeitado para seu filme subsequente: Hamlet: Prince of Denmark, de 1996. Os principais personagens e respectivos atores que participaram dessa deliciosa empreitada eram: Joe (Michael Maloney), Nina (Julia Sawalha), Molly (Hetta Charnley) e Margaretta (Joan Collins). O que mais chama a atenção neste filme é exatamente a comicidade do aspecto meta-teatral. Há muitas situações cômicas improvisadas, semelhantes à montagem da peça no livro de Isler.

Nearly everyone wants to get into the plays, which the home has found a boon to morale. Competition

for roles approached “the amount of rivalry you find in the theatre,” according to Yedida Nielson,

recreation director. Patients have been observed rehearsing their roles in front of full-length mirrors. Physical therapists tell bed-ridden patients: “Learn to walk and you’ll be in the play.” Occupational therapists find patients excited about sewing costumes and painting scenery.

The rehearsal yesterday was introduced by Henrietta Schnarch, 66, youngest member of the company

and a sort of mascot to the players. She recited: “I’ll tell you right now that you’d better get out of handkerchiefs, because a happy play it’s not. And we’ll have to change it around a bit, because that

Shakespeare could write a gansa magilah [a very long story] and nobody is going to sit for three hours.” Midway in the play, Macbeth, played by Zousse Massinca, 82, turned to Lady Macbeth, Bessie

Estrich, and lamented: “A king I had to be? A 15-room castle wasn’t enough for you?”

When the cast first heard the Macbeth story from Mrs. Nielson, Mrs. Estrich commented: “It could never happen with the Jews.”

No filme de Branagh, em preto e branco, Joe Harper, um ator e diretor mal sucedido, desempregado e recém recuperado de um longo período de depressão, decide dar uma última chance a si mesmo. Para isso, planeja montar Hamlet de Shakespeare e estrear a peça na véspera do Natal. Sua empresária, Margaretta, não acredita no sucesso da peça mas, mesmo assim, decide ajudá-lo. Assim, Margaretta coloca um anúncio no Theater Weekly para contratar atores. Logo, segue-se o teste, que se torna um dos pontos altos do filme. Essa sequência revela a cilada em que Joe se encontra na sua busca por um grupo de atores à altura do texto. O que Joe não contava é que os candidatos eram todos muito aquém do esperado. Margaretta preveniu-o: “Estou avisando. Nesta época do ano, todos estão fazendo shows de Natal ou especiais de TV. Tudo o que você vai conseguir são excêntricos, desajustados e loucos”. Sem muitas surpresas, o espectador se vê diante de uma trupe desajustada com a pretensão de interpretar um clássico da literatura universal. As incongruências são o ponto chave das situações cômicas ao longo do filme.

O que o filme de Branagh nos mostra é, aparentemente, muito simples: há um evidente desequilíbrio entre a alta literatura de Hamlet e a falta de preparação (somadas à alta expectativa do diretor e sua pretensão) dos atores do Emma Lazarus. Esta tensão é a catalisadora da situação cômica que se cria, apesar de Korner jamais admitir que ali se faz teatro amador: “Meu negócio não é teatro amador, é arte”95

(ISLER, 1994, p. 2). Em The Prince..., os atores senis precisam enfrentar as limitações físicas decorrentes da idade e da morte que os espreita, o que coloca em risco a produção da peça. Além disso, muitos deles não são os atores ideais para o papel. Tosca Dawidowicz é uma Ofélia de personalidade que se recusa a ser o par de Freddy Blum, o substituto de Adolphe Sisheimer, porque, de acordo com Tosca, lhe faltava “presença de palco” (p. 3) e sua halitose a faria “esquecer o texto” (p. 3). Lottie Grabscheit, como Gertrudes, se alia a Tosca contra Blum. Em comum, elas nutrem a mágoa da rejeição, quando ambas um dia se relacionaram com Blum e foram por ele rejeitadas. Com exceção de Otto Korner, que reconhece ter sido apropriadamente escalado para viver o Fantasma, todos os outros parecem estar um tanto fora de lugar. Ele cita, por exemplo, que é preciso fazer concessões e relata uma cena cômica:

Fui escalado para ser o Fantasma em Hamlet. Há uma ironia aí se alguém pode farejar isso. Produzimos apenas os clássicos no Emma Lazarus. Claro que foi preciso fazer concessões. Ano passado, por exemplo, nossa Julieta tinha 83 anos e nosso Romeu, 78. Mas se usar a imaginação, foi um sucesso. A verdade é que

na noite de abertura, quando Romeu matou Tibaldo, foi Romeu quem caiu e teve de ser carregado do palco em uma maca. (ISLER, 1994, p. 2) 96. [tradução

minha]

Com Nahum Lipschitz dirigindo a peça e vivendo o protagonista, Korner permanece indiferente aos problemas banais de elenco. Inicialmente, era Adophe Sinsheimer quem ocupava o posto mais importante da produção, mas veio a falecer na semana anterior ao início de seu diário. Porém, para Korner, “the show must go on” [o espetáculo deve continuar] (p. 3) e se Blum não fosse viver o príncipe dinamarquês, Korner estaria pronto para mostrar que já dominava o papel principal. O primeiro capítulo termina com Korner mimetizando a falsa coragem de um Hamlet que se prepara para a guerra no Ato IV: “The readiness is all”97

[a prontidão é tudo] (p. 3) – repete, pretensiosamente. É bastante curiosa esta citação, já que o romance também termina com ela. Contextualizada, ela sinaliza para uma mudança na maneira de pensar do príncipe, que demonstra coragem para encarar seu destino. Ao pronunciar essa fala, Hamlet passa a agir como um verdadeiro chefe de estado, como um líder, pois, no início da peça, Hamlet demonstra total inabilidade para lidar, de maneira firme e decidida, com a situação desfavorável em que se encontra. Durante a maior parte da peça, o príncipe é consumido pela hesitação, pela dor do luto, pela revolta por perder o trono, pelo sentimento de impotência diante de uma mãe atraente e desejada. Hamlet não assume o papel de herói para o qual foi destinado e a narrativa de Isler parece refletir a respeito disso, com seu Otto Korner indeciso e introvertido. Na peça, Hamlet adia a tarefa de vingar a morte de seu pai e os personagens que agem como seu duplo, tais como Fortimbras e Laertes (pois ambos também pretendem vingar a morte “injusta” de seus pais) demonstram mais coragem e prontidão para a tarefa de seus antepassados, atitudes estas que espelham a fraqueza e a covardia de Hamlet.

A enunciação do príncipe, apropriada por Otto Korner, torna-se um desdobramento da injunção de Derrida (1994). O idoso invoca, chama para a cena, esta voz de Hamlet que parece aceitar serenamente sua condição de “estar pronto”. Na peça, Hamlet está pronto para duelar e, vencendo, poderá restaurar a ordem à Dinamarca. Depois de passar boa parte da peça

96

No original: “I have been cast as the Ghost in Hamlet. There is an irony in that if one can but sniff it out. We produce only the classics at the Emma Lazarus. Of course you have to make allowances. Last year, for example, our Juliet was eighty-three and our Romeo seventy-eight. But if you use your imagination, it was a smash hit. True, on opening night, when Romeo killed Tybalt, it was Romeo who fell down and had to be carried on a stretcher from the stage.”

97 Em Hamlet, Ato IV, cena ii, linhas 215-220: “Not a whit, we defy augury. There’s a special providence in the fall of a sparrow. If it be now, ‘tis not to come; if it be not to come, it will be now; if it be not now, yet it will come. The

questionando o sentido da vida, Hamlet chega à conclusão de que há interferência divina em tudo (“There’s a special providence in the fall of a sparrow”) e se algo estiver para acontecer, acontecerá, independentemente de seu desejo. Considerando as circunstâncias do príncipe que está prestes a duelar, este comentário soa como um presságio desolador, embora seja exatamente neste momento que o personagem de Shakespeare começa a agir como um líder, ao se dispor ao sacrifício pelo bem de sua nação.

A injunção de Hamlet, dispondo-se para a ação, passa a ser a de Otto Korner e ela lhe lembra a necessidade de estar pronto para tudo – inclusive para a morte. Diante disso, percebe-se que o grande medo do velho não é a solidão, o desprezo, a falta de dinheiro, mas a morte. Nessa perspectiva, para Otto Korner, todas as pessoas (inclusive ele mesmo) precisam estar preparadas para situações difíceis e desesperadoras, tal como a sua experiência no campo de concentração, pois esta atitude pode fazer a diferença. Assim, se interpretamos o trecho de maneira generalizada e levamos em consideração aquilo que espera o protagonista – um duelo – , Hamlet refere-se a uma morte trágica. É preciso estar preparado para tudo, inclusive para a morte, pois se esperarmos por ela, ela pode não vir, mas, ao mesmo tempo, se não esperarmos por ela, ela pode vir de repente. A morte é, portanto, uma presença constante e muito próxima de Korner, no Emma Lazarus. O romance inicia com a notícia de um atraso nos ensaios da peça, pois o ator protagonista e diretor – Adolphe Sinsheimer – havia falecido; um amigo de Korner se vai enquanto a peça está em produção: Nahum Lipschitz, o diretor que precede Korner e sucede Sinsheimer; sem contar todos os familiares que o deixam ao longo de sua vida – mãe, pai, irmã, esposa e filho – antes de ser enviado para a casa de repouso. Contudo, a mensagem deixada por Hamlet e apropriada por Korner é clara: é preciso fazer o que tem de ser feito antes que a morte chegue.