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2 CADRE THÉORIQUE

2. Sosa et Carrillo (2010)

2.7 Rapport entre l'histoire des mathématiques et la CHM

2.8.5 Les programmes d'histoire des mathématiques

Mais tarde, pouco antes de começar a reunião da escola de samba, fui apre- sentada a outro “chefão” da Independente. Entendi o “chefão” como diretor; mais ainda, como um dos diretores mais ativos, presentes e responsáveis. Todo mundo se engana.

Batata era mais um moreno, meio gordinho, que conversava com outro “che- fão” da torcida, o Negão. Porém, era visivelmente diferente dos outros diretores. Extremamente bem vestido, se o encontrasse na rua ia considerá-lo um playboy qualquer, exceto pela tatuagem na perna que mostrava que ele era da torcida. Usando poucas gírias, disse que ia me contar o que eu queria ouvir, desde o co- meço de sua trajetória de torcedor associado, em 1989, até se tornar presidente da escola de samba, em 2010.

panha a Independente nas arquibancadas e na batucada, mas me enganei. Arro- gante, debochou claramente de mim e do meu trabalho, como se quisesse que eu saísse de lá correndo ou criasse a pior visão possível dele. Conseguiu a segunda parte, mas não a primeira.

– O que te fez entrar na torcida?

– As brigas, sempre gostei de brigar. Entrei pra bater nos outros. – Como assim?

– Ué, não é isso que todo mundo acha, que torcida é briga? É isso mesmo, é só violência. Uns nascem pra bater, outros pra bater e pra apanhar. Eu sou do segundo tipo.

– Mas você não gosta do seu time? Não gosta de torcer?

– Gosto, mas gosto mais de bater. Brigo com os caras da diretoria, com os ca- ras da minha torcida em geral, com os caras das outras organizadas do São Paulo, com os caras de outras torcidas. Não fujo não.

Era claro que ele estava zombando de mim, querendo me irritar. Fiz de con- ta que acreditava e estava pasma. Acho que ele não acreditou, assim como não acreditei nele.

– Não era isso que você queria ouvir? Sobre a violência? – Quero ouvir o que você tem pra contar. Em todos os sentidos. – Então, é isso.

– E você já se envolveu em muitas brigas?

– Claro que sim. Já briguei, já apanhei, já bati, já levei tiro, já fui pra delega- cia, já fui preso, já tive amigos presos.

Essas últimas palavras vieram acompanhadas de risadas e de um olhar de cumplicidade com Negão, que retribuía da mesma forma. Batata me mostrou uma marca de tiro na mão e outras cicatrizes nas mãos e em outros lugares do corpo. Ele não aparentava nenhum sentimento de culpa, remorso ou arrependi- mento, mas orgulho, como se fossem marcas de guerra.

Quis saber se muita gente ali compartilhava o mesmo pensamento. Segundo ele, lá havia juiz, promotor, advogado, pedreiro, traicante; ele mesmo se disse formado em Psicologia – o que depois foi desmentido por Japão.

– E todo mundo se entende?

– Em que lugar todo mundo se entende? Em empresa o pessoal não se enten- de, na faculdade o pessoal não se entende. Você conversa com todo mundo que estuda com você? Tem problema em torcida, na escola, no trabalho. O pessoal da escola X não gosta do pessoal da Y, aí marca briga pro inal da aula.

– Hum.

– Até na Polícia é assim. Ou você acha que a Polícia Civil se dá bem com a Polícia Militar? Não, eles brigam entre si também, um não pode ver o outro. Briga existe há mais de 40 anos. Se existe é porque tem algum motivo.

– Como é viver dessa forma então?

– Ué, é viver. É normal. Precisa de tudo isso. Precisa do promotor, do juiz, do pedreiro, assim como precisa da briga, precisa da violência, precisa do tráico. Tem gente que ganha dinheiro com o tráico, tem gente que é feliz com ele, aque- ce o mercado, então precisa. Aprende uma coisa, tudo é negócio, politicagem, lábia. Aqui você vale o que você tem, então vale qualquer coisa.

– Pra mulher é assim também?

– É normal, a situação é mesma. Eu não vejo problema em mulher na tor- cida, em briga, nem nada. Elas lutam pelo seu espaço, conquistam e fazem o que querem.

Graças às aulas de teatro da adolescência consegui ingir que estava tudo bem e que tudo aquilo não passava de um pesadelo. Não era possível que um diretor de uma das torcidas organizadas mais famosas do Brasil falasse isso. Não era possível! Já não era a coisa mais simples do mundo estar ali e ouvir tudo aquilo. A imagem que tive inicialmente foi um pouco deformada e agora era a de um playboy bandido, aparência de bom moço, mas com muitas coisas sujas no passa- do e na mente. Antes que eu começasse a esboçar alguma reação que izesse com ele brigasse comigo também – né, já que toda briga é necessária – quis saber um pouco mais sobre a escola de samba.

Era claro que ele não queria conversar, só me irritar mesmo. Falou apenas que o carnaval conta principalmente com membros mais velhos e mulheres; nem todo mundo que vai para a arquibancada gosta de participar da festa que é o Carnaval. Disse também que tinha novos planos para o desile desse ano, que agora ia dar tudo certo. Só. Pelo menos, nervoso com o samba consegui evitar.

Havia alguém que escutava tudo isso e podia esboçar a dor que sentia no mo- mento: Hélio Silva. A cada palavra de Batata, ele virava o rosto, abaixava os olhos ou ingia não estar ouvindo, Foi a hora em que mais senti seu desgosto com o que a torcida se tornara. A festa que durante anos ele lutou para fazer era trocada por pancadaria sem peso na consciência. Apesar de ter defendido o grupo quando lhe perguntei sobre a Independente ser a considerada uma das torcidas mais violentas do Brasil, no fundo ele sabia que não era mentira.