1 ÉTAT DE L’ART
1.3 Quelques approches pour comprendre la place de l'histoire des mathématiques dans la formation des enseignants
1.3.5 Considérations faites sur le travail de Jankvist au Danemark
Na sede da torcida, nesse mesmo dia, enquanto observava as pessoas que entravam e saíam de lá, conheci duas garotas. Eu era uma estranha ali e precisava encontrar uma maneira de abordá-las:
– Olá, meninas! Sou estudante de jornalismo, estou fazendo um trabalho sobre torcidas, posso conversar um pouquinho com vocês?
As duas se entreolharam, com a vergonha típica de quem nunca tinha dado uma entrevista. Mas a resposta foi positiva:
– Pode sim.
quiagem prata, que combinava com a roupa preta da Gaviões. Giselyda – a amiga do nome “diferente” – falava menos, usava uma calça da torcida e tinha jeito de quem não deixaria nenhum desaforo passar:
– Há quanto tempo vocês estão aqui? – Quase dois anos – respondeu Emily.
– Faz pouco tempo, minha mãe não deixava antes – completou Giselyda. – Sério? É muito comum os pais não deixarem?
– Quando não conhece é sim, né, acham que é lugar só pra homem. Só deixa depois de uma idade, agora a gente tem 17.
– Mas, de certa forma, vocês realmente ainda não têm o espaço que os meni- nos têm aqui dentro.
Um dos meus primeiros entrevistados já havia comentado sobre o tratamen- to em relação às mulheres. E, em um cantinho perto do mural de recados da torcida, quando nós já estávamos mais à vontade para conversar, Emily passou a responder pelas duas:
– Mas a gente tá acostumada.
– Mesmo assim, em outras torcidas existem os comandos femininos, aqui ainda não tem?
– Não, ainda não existiu um espaço pra isso. Só tem as meninas que sempre estão nos jogos, tocam na bateria e tentam acompanhar mais de perto.
Fiquei intrigada. Por que elas não se incomodavam? Ainal, se em outras torci- das era possível uma participação mais expressiva, por que na Gaviões não era? A resposta para minha dúvida parecia estar na tradição, muito valorizada entre todos:
– Já é assim há anos, a gente não vai chegar e mudar! Se quem tá aqui não mudou nada, por que vai partir da gente?
Eu não tinha uma resposta para essas duas garotas, mas percebi que elas tam- bém não procuravam:
– Mas vocês se sentem à vontade assim?
– A gente sabe o que pode ou não fazer. Por exemplo, mulher não toca qual- quer instrumento, só tamborim e chocalho na escola de samba. A gente também não entra na sala de bandeiras, isso é coisa deles, sabe?
Eu não sabia, mas também demorei a acreditar que elas concordavam com essa situação. Giselyda resolveu falar:
– Eu sei que lá na “bixarada” é diferente mesmo, mas elas fazem isso porque querem aparecer, às vezes marcam brigas. A gente ouve direto umas histórias delas com a Mancha.
– Mas e vocês nessa rivalidade toda? Acontecem mesmo os encontros combi- nados pela internet, existem essas provocações?
– Tem sim. Mas a gente pelo menos ica só no Orkut e tal, uma xinga, a outra revida. Às vezes, acaba encontrando no metrô e ica de olho, só marcando, ainda mais se a gente estiver fardada.
– Fardada?
– Com a roupa da torcida.
Nessa hora, o ônibus que iria para o estádio estacionou em frente à sede. Ia demorar, mas Emily parecia com pressa. Antes que elas se dispersassem, propus uma foto. Em uma das mãos, o punho fechado, na outra, os dedos formavam um L: a pose estava pronta. No click da câmera, elas gritaram juntas:
– Os Gaviões apavoram o Brasil!
Elas entraram no clima, foi divertido. Eu não me sentia apavorada e gostei da forma descontraída como aconteceu a entrevista, diferente das minhas expectati- vas no início. Antes que eu pudesse continuar, uma garota chamava para um tipo de concentração que acontecia na calçada. Emily insistiu:
– Acho melhor a gente ir! Hoje tem que fazer “rateio”, senão a gente não entra!
Um palavrão interno e que diabos isso signiicava? Elas explicaram:
– Quando a gente não tem dinheiro, em dia de jogo, a gente faz vaquinha pra comprar o ingresso. Sai pedindo um real aqui, outro ali, os meninos sempre ajudam. Quando eles não têm dinheiro, também fazem rifa de objetos pessoais, tipo relógio, tênis, tudo pra não perder de ver Corinthians.
Calça de lycra preta, sandália plataforma e vários centímetros a mais que eu de altura. Já do lado de fora, a amiga das meninas se empolgou mesmo foi com a presença de uma “repórter” na sede. Perguntou, completou antes mesmo de eu responder e se perdeu na multidão de torcedores:
– Você tá fazendo isso só aqui ou nas outras torcidas também? Se tiver, manda um recado lá pra “bixarada”, avisa que nós vai pegar elas, pode esperar que nós vai pegar!
É, dessa vez, nada de Orkut!
PAI É PAI
Um sábado na sede da torcida alvinegra é parada obrigatória para corintianos. Mas como nada em mim denunciava uma paixão por um time adversário, foi
tranquilo chegar sozinha. Mais uma vez, o que eu tinha a fazer era observar, antes de qualquer investida. Na véspera do dia dos pais, a sede estava cheia. Eu via uma mulher que estava acompanhada de um senhor e tratava-o carinhosamente. Aquilo me chamou atenção, pareciam pai e ilha. Ela era loira, usava óculos de sol e se vestia muito bem, com roupas de marcas esportivas famosas. Ele era um homem baixo, gordinho, de pouco cabelo e calça-jeans na boca do estômago – estereótipo da maioria dos pais na terceira idade.
Mais uma vez, me apresentei e quis conversar. A resposta foi simpática, mas me pegou de surpresa:
– Mas por que comigo? Já sei, está se perguntando o que uma loira como eu está fazendo na Gaviões?
Fiquei sem jeito, claro. Ela tinha total razão: – Quase isso! – respondi para não dar na cara
Analu, de 41 anos, é publicitária. Ela se dispôs a me contar um pouco sobre sua história na Gaviões e, para fugir do barulho de dentro da sede, fomos até a calçada:
– Qual foi o seu primeiro contato com a torcida? – Ah, foi através das redes sociais, né.
– E como foi isso? Você conheceu o pessoal por comunidades?
– Hoje em dia é assim mesmo, você participa de comunidades do Corin- thians ou da Gaviões e vai começando a conhecer as pessoas, aí ica mais fácil o acesso. Depois de uma semana na quadra, eu já estava fazendo minha carteirinha e, naquele mesmo ano, eu já saí na escola de samba. Então, eu acho que um dos canais é mesmo o contato nas redes sociais.
– Você veio mais pela escola de samba? Ou também para acompanhar a tor- cida ao estádio?
– Em primeiro lugar, quem é corintiano tem paixão, tem fanatismo. Então, a escola de samba é legal porque não é apenas uma escola de samba. Ela é associada a uma torcida, que é do Corinthians e que é uma paixão. Eu mesma não gosto de futebol e não escuto pagode, meu lance é outro!
– Mas, então, por que você está aqui?
– Em casa, eu não escuto samba, mas eu desilo pela Gaviões porque é Co- rinthians.
Não era difícil perceber que Analu custava a se enquadrar naquele ambiente. Sua fala icava longe do coloquial e era cheia de estratégias para me convencer da beleza de sua torcida. No entanto, a vontade de pertencer àquilo também se
fazia notar e ela se misturava no meio das tantas outras pessoas buscando assuntos em comum. Uma mulher, aparentemente bem-sucedida e independente, em um lugar estranho à sua personalidade, pelo menos para quem via de fora:
– Você é uma mulher em uma torcida organizada. A participação feminina tem aumentado?
– Está crescendo sim. Hoje em dia você vê mulher discutindo de futebol no mesmo nível que o homem. Já é possível ver comentaristas mulheres na televisão e é muito legal. A Gaviões da Fiel dá essa abertura, porque aqui elas entendem de futebol. Nós vamos ao estádio, temos nossas opções respeitadas, e estamos ganhando mais espaço sim.
– Mesmo assim, aqui ainda não existe o chamado “comando feminino”, né? – Não tem. Mas nós somos muito unidas, viu? A gente consegue se reunir aqui dentro e consegue conversar sim.
– E a diretoria pode inluenciar de alguma forma? Às vezes, por ser mais fe- chada, a participação da mulher diminui, por exemplo.
– Eu acho que não. Hoje nós estamos passando por um momento de transi- ção, mas a diretoria da Gaviões não inluencia nos torcedores. Independente da diretoria, o povo vai vir, estando bom ou ruim.
– Mas existe uma cobrança, né? Pelo menos com o clube, chegando até à violência algumas vezes...
– Quem é de uma torcida organizada, o nome já diz, é organizada. Nós estamos aqui para fazer o bem, sem violência, sem drogas, sem nada. Quando acontece alguma coisa no estádio ou fora, os caras, às vezes, usam a camisa de uma torcida organizada, mas isso não tem a ver com a gente. Se você chega aqui na quadra, você vai ver harmonia. Na verdade, o que acontece lá fora são fatos isolados, de arruaceiros que têm em qualquer torcida, em qualquer manifestação.
Praticamente um discurso publicitário. O pai acompanhava de perto as res- postas da ilha como se fosse um ambiente desconhecido para ele. E era mesmo. Uma visita no inal de semana do dia dos pais e um presente de grego: passear na sede de uma torcida adversária. Mas a intenção não era mesmo presentear:
– Na verdade, meu pai torce pela Portuguesa. Ele mora em Curitiba e veio passar uma semana aqui com a família. Então, eu falei: “pai, vamos lá?”, porque eu queria que ele conhecesse. Meu pai vê que eu vou aos estádios, às festas da Gaviões e ica preocupado, né?
– Mas ele teria motivos pra essa preocupação?
tem sim. Por isso eu quis que ele viesse ver que não tem nada disse, ver como é o ambiente que eu frequento. Aqui você vê famílias inteiras, crianças se divertindo e harmonia.
Mas nem todos pensam assim, e o preconceito em relação às torcidas é muito mais real do que a admiração. O aposentado Antônio Tomé se preocupa com a ilha, mas se esforça para abandonar os preconceitos:
– Eu concordo. Quando a gente ouve falar das torcidas, dá impressão de que é um bando de desorganizados, mas não é não. Por ela e outros aqui, eu percebi que não é bem assim, eles têm certa disciplina, órgãos que iscalizam. Quer dizer, já foi pior, viu!
Não pudemos conter as risadas. O meu pai faz o mesmo: se esforça e defende, para não deixar de ter razão no im. Depois de agradecer, a publicitária icou livre para continuar a sua missão do dia, porque não é fácil fazer um pai abandonar suas convicções. O meu também sabia da minha visita à sede da Gaviões, mas tenho certeza de que não era só fato de ser um torcedor do Santos que o deixava de cabelo em pé!