5. Fins et moyens : penser, lutter et vivre de façon alternative
5.3. Le rapport des militant.es queers à la politique institutionnelle
5.3.3. Les interactions et collaborations envisageables
O objetivo desta seção é verificar em que medida o tempo de permanência dos entrevistados influencia a estrutura de participação e as estratégias de polidez por eles utilizadas.
Verificamos inicialmente cinco estruturas de participação que enumeramos por tipos. A estrutura do tipo 01 é constituída por dois documentadores (doc.1 e doc.2) + entrevistado. Essa estrutura foi uma das mais frequentes nas interações em estudo, estando mais presente nas entrevistas em que os sujeitos da pesquisa tinham menos tempo de permanência no Brasil, talvez pelo fato de os entrevistados precisarem de maiores esclarecimentos a respeito das perguntas que lhes foram direcionadas, o doc.2 participa, geralmente, complementando a pergunta, dando-lhe outros indicativos para que alcance as respostas. No fragmento 31, temos um exemplo dessa estrutura.
Fragmento 31
DOC.1: antes de entrar no ônibus de uma cidade pra outra a gente compra o quê"
52M-CVQFF: bilhete
DOC. 2: ou a” (++)
52M-CVQFF: (+) ((silenciou))
DOC.1: um sinônimo pra bilhete
52M-CVQFF: hum (++)
DOC.2: E um bilhete de...”
52M-CVQFF: de ônibus
Doc2: tem outro nome”
52M-CVQFF: (+) ((silenciou))
DOC.2: E” (++) tem outro nome que vocES chamam pra bilhete" DOC.1: só chamam bilhete mesmo"
52M-CVQFF: ((incompreensível)) transporte
DOC. 1: a ok entÃO CERto/ é:: quanto é que se paga NE" para viajar daqui::::::: pra:::: Fortaleza"
Observamos que a interação entre os envolvidos se dá de forma relativamente cooperativa. Primeiramente, temos a intervenção do doc.1, assumindo um papel de autor, realiza uma pergunta que é imediatamente respondida por uma estudante cabo-verdiana que mora há menos de seis meses no Brasil, o doc.2 , mostrando ter o mesmo objetivo do doc.1, pede outra opção de resposta, desta vez a entrevistada usa o marcador „silêncio‟ para responder, evitando uma potencial ameaça, sequencialmente alternam-se os turnos entre os documentadores, de modo que o conteúdo veiculado pelo doc.1 é sempre corroborado pelo doc.2. Embora não seja uma interação que produza alta tensão, notamos que o território pessoal da entrevistada parece ser ameaçado, pondo em risco sua face negativa, uma vez que a insistência para que ela encontre a resposta não cessa e é proporcionalmente maior que a participação da entrevistada. Além de que o „silêncio‟ pode ser uma ameaça à face positiva da estudante, se considerada como uma admissão de que desconhece o assunto em pauta. Assim, podemos verificar que a existência de dois documentadores pode muitas vezes causar uma espécie de coação ao entrevistado, tirando-lhe a liberdade de ação o que poderia comprometer sua face negativa. Essa situação de interação pode ser causada pela estrutura de participação dos interagentes, mas não é diretamente determinada por ela, podemos ter essa organização estrutural, sem provocar coação no entrevistado.
A estrutura do tipo 02 é constituída por um documentador, um entrevistado e mais um ouvinte não ratificado. Essa estrutura foi a segunda mais usada pelos estudantes alvo da pesquisa, de 40 entrevistas, ela ocorreu em 11, com um número de ocorrência maior para os sujeitos da pesquisa que tinham tempo de permanência menor, no Brasil (embora a diferença seja apenas uma ocorrência). O desenvolvimento dessa estrutura se deu pela
iniciativa do documentador 01, com um bom desempenho do entrevistado, a entrevista transcorreu praticamente com a ratificação de um documentador e um entrevistado, contudo em algum momento, sub-repticiamente, um falante se manifestava, durante poucas vezes para sugerir algo ao entrevistado, como um intrometido no dizer de Goffman (2006), ou se referir ao doc.1, como ocorre no fragmento abaixo “faltou um aqui”.
Fragmento 32
Doc1: antigamente a gente usava o ferro em brasa né”
55M-CVQFF: é”
Doc1: pra passar roupa mas hoje como é que é o ferro”
55M-CVQFF: é elEtrico
Inrometido ou circunstante: faltou um aqui ((bem baixinho))
Doc1: (+++) uhn desculpa/ quando está escuro é porque faltou o que”
55M-CVQFF: luz
Geralmente o „intrometido‟ interfere por uma questão de direcionar a entrevista, ou acompanhando o doc.1, não parece ser uma ameaça à face do entrevistado, mas certas vezes a ameaça incide diretamente sobre o documentador pelo fato do „intrometido‟ ter um papel „censurador‟ (“- faltou um aqui”), atingindo a face positiva do doc.1, que imediatamente pede desculpa.
O Tipo 03 não foi uma estrutura muito frequente, ocorreu apenas três vezes, todas em entrevistas com cabo-verdianos, dessas, duas tiveram a participação de estudantes com maior tempo de permanência no Brasil. Esse tipo de estrutura parece ser a de maior movimentação nas trocas de papéis, dada a sua composição por pelo menos quatro interagentes, nessas interações além do entrevistado e dos documentadores, o circunstante era um colega do entrevistado, ou outro observador presente no ato de aplicação do questionário que não conseguia se conter diante da pergunta feita e sugeria uma resposta. A maior movimentação na troca de turno, considerando vários participantes parece tornar a face mais vulnerável, pois muitas faces estão em jogo.
A estrutura do tipo 04 foi pouco frequente, apenas 2 ocorrências, uma para os estudantes com mais de 6 meses e outra para os estudantes com menos de 6 meses de permanência no Brasil.
A estrutura do tipo 05 foi a terceira de maior recorrência, sendo 6 utilizadas por estudantes que moravam há mais de seis meses no Brasil e 3 por estudantes com menos tempo de permanência no Brasil. Nessa estrutura o documentador exerce um papel extremamente ativo, conduz as perguntas, exemplifica, provoca o entrevistado a falar, mas por vezes acaba inibindo a participação dos entrevistados.
Tabela 19- Ocorrências de marcadores de atenuação considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA
NO BRASIL OCORRÊNCIAS NÚMERO DE
SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 170
02 - 6 MESES (H/M) 267
Fonte: Elaboração Própria.
Como podemos verificar na tabela 19, acima, os marcadores de atenuação foram os preferidos pelos sujeitos da pesquisa que têm menor tempo de permanência no Brasil, com 267 ocorrências, contra 170 para os estudantes que já estão no Brasil há mais de seis meses. Essa constatação nos levou a inferir que os estudantes que ainda tem pouca convivência com os brasileiros recearam ameaçar a face dos seus interlocutores, ou ainda que tentaram proteger sua face positiva, estabelecendo uma interação mais harmoniosa. Confirmam, assim, o que Goffman (1967) afirmou sobre as interações que só o fato de entrarmos em contato com o outro em uma sociedade já desestabiliza o equilíbrio ritual e pode consistir em uma potencial ameaça a auto-imagem pública.
Os marcadores de atenuação tem a função de minimizar um ato ameaçador, produzem uma forma de abrandamento da força ilocucionária dos enunciados reduzindo os efeitos indesejados sobre o interlocutor. Esperávamos que houvesse maior incidência na fala dos estudantes com maior tempo de permanência no Brasil, uma vez que muitos dos entrevistados consideravam as entrevistas como um teste realizado pela universidade, do qual dependeria a sua certificação, mas isso não se confirmou, a julgar pelo número de ocorrências. E a falta de maior proximidade com a língua, dos recém-chegados, poderia levar os entrevistados a usarem os marcadores não linguísticos – „silêncio‟, com maior frequência. O que veremos mais adiante.
A atenuação, considerando suas subcategorias, está relacionada a estratégias de polidez negativa como “recorra a modalizadores” para evitar o comprometimento, busca o distanciamento com o que está sendo dito, o que verificamos nos dados sobre os estudantes cabo-verdianos e timorenses que conviveram menos tempo com os brasileiros a tendência a terem um cuidado redobrado com a sua face, talvez o medo do desconhecido, a precaução diante do novo os tenha levado a aumentar o número de ocorrências de fenômeno.
O uso do marcador de aprovação, tal qual representamos pelo número de ocorrências na tabela 20, abaixo, mostra um contraponto com os marcadores sobre os quais terminamos de falar. O maior número de ocorrências foi atribuído aos estudantes que estão há mais tempo no Brasil, àqueles que ultrapassam os seis meses de convivência nesse país. O
que significa que embora tenham usado menos os marcadores de atenuação, protegeram suas faces por meio de outra estratégia.
Tabela 20-Ocorrências de marcadores de Aprovação considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NO
BRASIL OCORRÊNCIAS NÚMERO DE
01 + 6 MESES (H/M) 159
02 - 6 MESES (H/M) 55
Fonte: Elaboração Própria
O número de 159 ocorrências para os estudantes de maior tempo de permanência no Brasil apontam para uma fuga da discordância, tentando maior aproximação com seus interlocutores. Assim, parece-nos que até aqui há um equilíbrio em relação ao tempo de permanência (mais de seis meses e menos de seis meses no Brasil). Verifiquemos, então, as ocorrências de marcadores de argumentação, considerando a variável tempo.
Tabela 21-Ocorrências de marcadores de Argumentação considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NO
BRASIL OCORRÊNCIAS NÚMERO DE
SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 33
02 - 6 MESES (H/M) 38
SOMA 71
Fonte: Elaboração Própria.
Os argumentadores (ou desarmadores, no dizer de Kerbrat-Oreochioni, 2006) exercem um papel importante no entendimento entre os interagentes de uma determinada conversação, haja vista a preparação do interlocutor para uma possível ameaça. No corpus estudado, tentamos identificar a „aprovação/concordância‟ e a discordância, percebemos que havia vários casos em que o entrevistado dizia inicialmente sim, mas na verdade sua resposta era „não‟, então seguindo orientações de Macedo e Silva (1987 apud CASTILHO, 2003), encontramos os marcadores argumentadores. As ocorrências para esse marcador totalizaram 33 para os estudantes que já estavam há mais de seis meses no Brasil e 38 para os novatos. A diferença parece-nos pequena para julgarmos uma maior tendência para os universitários de menor tempo no Brasil, mas nos leva a compreender que ambos tentaram evitar uma discordância de força mais incisiva.
Outro aspecto que podemos considerar para evitar a força de uma discordância é a associação das ocorrências de argumentadores com a de busca de aprovação, pois ambos tentam evitar uma ameaça.
Tabela 22-Ocorrências de marcadores de Busca de aprovação considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NO
BRASIL NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 164
02 - 6 MESES (H/M) 118
SOMA
Fonte: Elaboração Própria.
Quanto ao uso de marcadores de busca de aprovação, as 164 ocorrências apontam uma maior probalidade de uso para os estudantes de maior tempo de permanência no Brasil e menor probalidade para os de menor tempo de permanência, mostra, então, um favorecimento para os primeiros para buscarem a harmonia interacional, buscarem a anuência do interlocutor, valorizando o apoio dado por ele. Nesse sentido, destacamos o uso dos marcadores de busca de aprovação como uma estratégia de polidez positiva escolhida pelo falante para minimizar a ameaça a sua face com o apoio do interlocutor.
Enquanto os universitários de maior tempo de permanência no Brasil buscam aprovação, produzem um menor número de discordância, mantendo a regularidade de evitar conflitos.
Tabela 23-Ocorrências de marcadores de Discordância considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NO
BRASIL NÚMERO DE OCORRÊNCIAS
SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 21
02 - 6 MESES (H/M) 24
SOMA 45
Fonte: Elaboração Própria.
Na tabela 23, acima, registramos 21 ocorrências dos marcadores de discordância para os estudantes que tinham maior tempo de permanência no Brasil e 24 para os de menor tempo, a diferença é pouca entre os dois grupos, mas pode indicar que os primeiros evitaram um com mais frequência o confronto mais direto com os interlocutores, evitando assim a discordância. Estamos novamente diante de uma estratégia de polidez positiva, Evite
discordância, defendida por Brown e Levinson (1987) como um recurso que muitas vezes se interpreta como uma pseudoconcordância. Essa estratégia pode ser associada a outras em que as pessoas tentam não desagradar o interlocutor usando certas artimanhas indecorosas como a mentira, nesse caso refere-se à mentira que não é prejudicial, “mentira branca”, no dizer de Brown e Levinson (1987).
Tabela 24-Ocorrências de marcadores de Identidade de Grupo considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA DO
BRASIL NÚMERO DE OCORRÊNCIAS SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 44
02 - 6 MESES (H/M) 56
SOMA 100
Fonte: Elaboração Própria.
A tabela 24 contém os dados referentes aos marcadores de identidade utilizados pelos entrevistados dos dois países, registra maior número de ocorrências para os entrevistados que estão há menos tempo no Brasil, o que pode sugerir que estes procuraram incluir-se nas mesmas atividades dos falantes, aproximando documentador e entrevistado, pois uma das formas de utilização dessa estratégia é o uso do „nós inclusivo‟, do „a gente‟, mas observando os dados verificamos que o engajamento não era necessariamente uma aproximação com o interlocutor, mas com seus países. O „nós‟ o „ a gente‟ extrapolam um engajamento imediato, indicam uma relação que vai além da interação face a face.
Tabela 25-Ocorrências de marcadores de „Silêncio‟ considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NO
BRASIL NÚMERO DE OCORRÊNCIAS SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 504
02 - 6 MESES (H/M) 280
SOMA 784
Fonte: Elaboração Própria.
A diferença entre o uso do marcador não linguístico “o silêncio” pelos dois grupos, maior tempo e menor tempo, é considerável. Os dados mostraram que quem mais fez uso desses marcadores foram os entrevistados que têm maior tempo de permanência no Brasil com 290 ocorrências, contra 171 para os que têm menos tempol. O que pode significar
que diante das perguntas dos entrevistados, mantiveram-se calados mais vezes que os estudantes que haviam chegado ao Brasil há menos de seis meses. É possível que o silêncio represente o rompimento da máxima da quantidade dizendo menos que o necessário. Sabemos que o respeito às máximas não se dá de forma homogênea, que ao valorizarmos uma máxima acabamos rompendo com outras, mostrando a nossa intencionalidade. É preciso que tenhamos a clareza de que a violação de uma determinada máxima pode gerar implicatura, que pode ser percebida por meio de uma inferência, pelo contexto não linguístico ou por meio de um comportamento social, o que parece ser o caso que estamos analisando, a polidez como uma norma social.
O uso do silêncio como resposta pode estar associado à intenção de se proteger, de não colocar sua face em risco, ou de não ameaçar a face positiva do documentador. Por outro lado, o silêncio pode ameaçar à face do entrevistado se o documentador entender que ele não quer cooperar. Se analisarmos desse ponto de vista, veremos que os estudantes que tinham menor tempo de convivência com os brasileiros se preocuparam em ser cooperativos, oferecendo a sua simpatia, dando um “presente” a seus interlocutores, tentando dar uma resposta mais clara, mesmo que desconheça o tema da pergunta do documentador.
Outro marcador não linguístico que selecionamos como alvo de nossa análise foi o „riso‟, identificando 290 ocorrências para os estudantes de maior tempo de permanência no Brasil e 171 para os que possuíam menor tempo, distribuídos em três posições: inicial, medial e final de turno.
Tabela 26-Ocorrências de marcadores „riso‟ considerando o tempo de permanência no Brasil.
TEMPO DE PERMANÊNCIA NÚMERO DE
OCORRÊNCIAS SOMA
01 + 6 MESES (H/M) 290
02 - 6 MESES (H/M) 171
SOMA 461
Fonte: Elaboração Própria.
Segundo Urbano (1993), esse marcador vem da percepção pioneira de Said Ali Ida que propôs duas grandes funções para classificar os marcadores como linguísticos (verbais e prosódicos) e não linguísticos (o olhar, o riso, a expressão corporal). Acreditamos que a seleção desse marcador pelos entrevistados tem um caráter positivo, de demonstrar cooperação, demonstrando a polidez positiva, o desejo de ser reconhecido como aquele que dispõe de seus interesses para ajudar os outros, talvez a maior convivência com os brasileiros
já tenha proporcionado uma maior confiança para que os entrevistados se sintam mais à vontade para rirem. Observamos a ocorrência do riso como uma autoavaliação, em que o falante ria sempre que não acreditava que sua resposta seria confirmada como a resposta ao QFF, o falante nota seu desconforto mas para tentar mascará-lo, ri de si mesmo, demonstrando que não fica incomodado, o que constitui uma estratégia de polidez positiva.
4.5 A influência da procedência na estrutura de participação e na escolha da estratégia