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Les étapes de construction du questionnaire

SECTION 4 O RIENTATION METHODOLOGIQUE

2.3 E NQUETE QUANTITATIVE PAR QUESTIONNAIRE

2.3.1 Problématique de construction du questionnaire et protocole de recherche

2.3.1.1 Les étapes de construction du questionnaire

[...] um devaneio, diferentemente do sonho, não se conta. Para comunicá-lo, é preciso escrevê-lo, escrevê-lo com emoção, com gosto, revivendo-o melhor ao transcrevê-lo. Tocamos aqui no domínio do amor escrito (ibid, 1988, p. 7, grifo do autor).

Quando trabalhamos na linha de coletas de dados qualitativos, em busca dos elementos imagéticos, percebe-se que é imprescindível que, ao final de cada laboratório, o capitão- encenador proporcionasse ao tripulante um momento consigo mesmo, para que ele pudesse reviver a experiência daquele dia no laboratório e que, no calor da emoção, pudesse materializar todas as principais sensações que o atravessaram, com todos os detalhes possíveis dos mergulhos em seus devaneios, escorrendo pelo papel uma escrita amorosa em seu caderno de apontamentos, o diário de bordo.

Depois que se adotou esta metodologia de registrar os devaneios vivenciados nos laboratórios em diários de bordo, percebemos, de forma mais intensa, como a teoria e a prática se complementam. Neste processo, não existe uma hierarquização ou uma ordem fundamental a ser seguida. A fluidez das águas jorradas no processo laboratorial do dia é quem revela qual o próximo rio a ser navegado em outro encontro. Mesmo que tenhamos um roteiro base com metas e objetivos traçadas a serem alcançados, não nos prenderemos a ele, e sempre se permitirá que as águas tempestuosas venham e destruam tudo o que se tinha planejado e nos revele novos rumos a serem navegados. Desta forma, fomos nos deixando ser lavados e levados pelos ri[s]os desta pesquisa movediça.

Durante o processo, enquanto eu anotava seguindo o fluxo narrativo dos acontecimentos, visando contribuir posteriormente com a dramaturgia da encenação, o tripulante tratava de anotar, principalmente, as sensações geradas, percebendo nelas quais

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foram os estímulos que mais lhe afetaram e ressignificaram a sua prática de atuação. Daniel discorreu, fundamentalmente, o que as águas laboratoriais causaram em seu corpo, em seu ser, e na forma de agir e pensar a sua prática artística de atuação enquanto ator-palhaço. Este exercício vem estimulando a reflexão e potencializando as ações desenvolvidas durantes os laboratórios, uma vez que o atuante, não só reproduz o que já foi criado, mas o recria com outra esfera. “[...] É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática” (FREIRE, 1996, p. 39 apud HADERCHPEK, 2016, p. 119). Este processo vem dando luz às imagens poéticas mais potentes, geradas nos laboratórios, as quais servirão de material de experimentação cênica na terceira jornada. Este procedimento vem se caracterizando como um retorno a nós mesmos, em busca de material cênico, é o trabalho do ator sobre si mesmo sobre o qual já falamos anteriormente.

No segundo ano de existência da Companhia, mais precisamente em 22 de fevereiro de 2016, passou-se a utilizar o recurso de diário de bordo online, no qual as experiências laboratoriais são revividas e transcritas em um grupo interno criado na rede social Facebook. Mesmo existindo os cadernos de apontamentos, esta prática vem sendo desenvolvida até hoje e facilita para que os demais integrantes, que não estão acompanhando o processo prático inicial da pesquisa, não fiquem de fora do todo. Neste grupo interno online, não nos restringimos apenas aos relatos das experiências, mas também deixamos que cada palhaço-pesquisAtor possa se expressar da maneira que convier, postando frases reflexivas, vídeos, imagens, textos, músicas, enfim tudo o que venha a contribuir para o enriquecimento da investigação. Também sentimos a necessidade de compartilhar estas experiências com o público, pois na Companhia acredita-se que a partilha também faz parte do processo de construção da obra, e não esperamos que o nosso público receba o produto final “acabado”. Pelo contrário, o contato com o inacabado é que nos instabiliza e nos mobiliza a refletir sobre o fazer artístico. Assim, adotou- se a prática de também compartilhar estas experiências em nossas redes sociais e site29.

Depois de se relatar sobre os primeiros passos, desta primeira jornada do processo investigativo em andamento, que se estendeu de abril a junho de 2017, é chegada a hora da partida. Atenção tripulantes desta jornada! É chegada a hora de se embarcar, de fato, e iniciar a

29 A saber, está disponível em: <facebook.com/ciadosclownssicos>, <facebook.com/oCorpoComico> e <www.ciadosclownssicos.com>.

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nossa próxima viagem pelos mistérios do ri[s]o do palhaço, em busca da ilha/resposta perdida navegando pela máscara líquida do palhaço.

Atenção tripulantes! Vamos partir!

Desfazer as amarras!

Levantar âncora! Içar as velas!

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II JORNADA - A MÁSCARA LÍQUIDA DO PALHAÇO

Figura 4 - Cena do espetáculo “Circo Arlequin” Em cena30: palhaço-pesquisAtor Diocélio Barbosa

Fonte: Arquivo pessoal. Circuito Sesc de Artes 2011 (SP)

Iniciando essa jornada, navegando pelos rios da práxis do palhaço com foco em sua máscara, é importante desaguar alguns apontamentos a respeito de como o elemento água escorreu ao longo desta investigação e como ele vem se relacionando com o universo da palhaçaria nesta pesquisa.

No estágio inicial desta pesquisa, a imersão se deu em uma das investigações desta jornada que almejava descobrir uma corrente escrita que trouxesse, em sua essência, uma característica fluida, que contribuísse para manifestar as inquietações e partilhasse as experiências, dialogando com pensamentos de alguns autores, os quais são considerados relevantes para direcionar o rumo da discussão na qual esta pesquisa navega. Mesmo que alguns

30 Cena final do espetáculo “Circo Arlequin (2009)” da Trupe Arlequin de Circo Teatro na qual sou fundador e diretor do espetáculo. A saber, está disponível em: <facebook/arlequin.trupe>.

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dos autores escolhidos não tenham escrito especificamente, visando refletir sobre o processo de descoberta-revelação do ator-palhaço, nota-se que os seus pensamentos contemplavam diretamente o fazer artístico palhacesco dos quais acreditamos. Foi durante estas buscas que brotou, de forma natural e orgânica, o desejo de experienciar a utilização da metáfora da água, em uma escrita acadêmica, para contribuir com o fluxo das ideias que estavam destinadas a vir à tona, pois acredita-se que, apesar de todas as regras e normas existentes no mundo acadêmico, o artista deve buscar uma poética não apenas em seu fazer artístico prático, mas a poesia deve também permear inclusive a escrita. Assim, a experiência de uma escrita-reflexiva utilizando o elemento água chegou justamente em um momento em que a escrita, naquele instante, se apresentava de forma dura e sem um rumo tão definido. No momento em que brotou o estímulo da metáfora da água, liberou-se imediatamente a sua passagem para que ela pudesse escorrer, por entre a escrita, e tomasse conta dela, contribuindo para dissolver qualquer barreira que encontrasse pela frente e que impedisse o nosso fluxo criativo. Deste momento em diante foram surgindo diversas nascentes de ideias que não pararam mais de jorrar.

Acreditando na perspectiva do corpo enquanto memória, percebe-se que esta corrente escrita seguiu do subterrâneo do meu ser em direção à superfície, graças também à experiência prática em uma das disciplinas do mestrado em Artes Cênicas na UFRN, que se chamava “Poética e Teatro”31, a qual foi ministrada pelo orientador desta pesquisa o Prof. Dr. Robson

Carlos Haderchpek. A experiência laboratorial teve uma potencialidade tamanha que deixou gravado em meu corpo as marcas de diversas águas emotivas acessadas durante o processo. Com isso, a caneta com que se escreve e o teclado com o qual se digita o texto desta pesquisa, são embarcações que me auxiliam a materializar em forma de escrita uma experiência tão rica e tão profunda. Talvez se não tivesse passado por este laboratório da poética da água, nesta disciplina, a metáfora escolhida para contribuir com este diálogo entre a pesquisa e o leitor não tivesse tanta potência para estes pesquisadores. Ou seja, a escrita em que o leitor está mergulhando, tem muito a ver também com as experiências vivenciadas durante a vida acadêmica. Como mestrando, muitas águas que foram jorradas pelo corpo docente desta

31 Na referida disciplina o professor trabalha com a poética dos elementos dentro de uma proposta laboratorial com o uso de imagens, possibilitando-nos uma investigação pessoal em cada um dos elementos da natureza: terra, água, fogo e ar.

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instituição, banharam a pesquisa e transformaram muitas vezes a forma de pensar o nosso fazer artístico. Os apontamentos até aqui escorridos, retratam alguns dos motivos que justificam a escolha desta rota fluvial como metáfora e como ela nos guiou nesta investigação.

Durante o processo de escrita, foram surgindo potentes rotas fluviais que me convidavam a navegar em busca de uma reflexão em torno do fazer artístico do palhaço na atualidade. E é por esses rios que seguiremos viagem. Então, convidamos o leitor a se tornar tripulante desta jornada e se aventurar a desbravar junto conosco os mistérios das águas da palhaçaria. Mas antes de continuarmos a nossa viagem, é importante perceber que...

[...] para que um devaneio tenha prosseguimento com bastante constância para resultar em uma obra escrita, para que não seja simplesmente a disponibilidade de uma hora fugaz, é preciso que ele encontre sua matéria, é preciso que um elemento material lhe dê sua própria substância, sua própria regra, sua poética específica [...] (BACHELARD, 2013, p. 4, grifo do autor).

Neste sentido, as águas pelas quais vamos navegar daqui por diante não foram escolhidas de forma aleatória, muito menos com o objetivo de adornar a linguagem escrita que compõe esta pesquisa. A água foi absorvida muito mais porque sentimos nesta matéria uma substância capaz de preencher as lacunas, ou até mesmo estimular o surgimento de outras que queríamos revelar. Seguindo este pensamento líquido, acredita-se em um processo de descoberta-revelação de um palhaço que acontece através de um mergulho profundo na busca de si mesmo, na busca desta substância, desta poesia corporificada, afim de apresentar ao outro este ser. Buscamos um processo que é constituído por ondas fluídas de sentimentos e devaneios que contribuem para materializar um corpo grotesco que pensa e age, através de uma lógica invertida, diferente das que se conhece no cotidiano. Para que isto aconteça o ator precisa estar disponível para experimentar como lidar, durante o seu processo criativo, com toda e qualquer barreira que o impeça de fluir durante o seu trabalho de descoberta-revelação. Diante do exposto, apostamos na metáfora da água por acreditar que este seria um elemento capaz de apresentar uma substância que poderia dialogar com a substância do palhaço. Assim, como o palhaço:

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A água, com seu movimento fluente, contorna os obstáculos sem se deter perante eles. Sua persistência e sua maleabilidade são sua força. A solutio32 nos fala da sabedoria da água que não luta contra as dificuldades, apenas acompanha o terreno e se adapta às circunstâncias. O fator de movimento que trabalhamos aqui é a fluidez ou fluência (ALMEIDA, 2009, p. 129, grifo do autor).

Iniciando a fluência desta viagem, é importante pensar que parte-se da premissa de que o corpo é a chave de acesso a muitos portais que revelam muito da identidade do palhaço. Neste sentido, pensamos sempre neste corpo/embarcação que não se contenta em navegar pela superfície, mas sente a necessidade de naufragar e, ao mesmo tempo de se metamorfosear em corpo/água para escorrer por entre os mistérios do fundo do mar, é como se “[...] diante do mar, eu o observo, eu o respiro. Minha respiração entra em harmonia com o movimento das ondas e, progressivamente, a imagem se inverte e eu mesmo me transformo no mar...” (LECOQ, 2010, p. 77).

Assim, ao se deixar levar pelas correntezas de fluidez ou fluência deste texto-reflexivo, depara-se com caminhos que levaram a descobrir novos horizontes. Tem-se a certeza de que a arte da palhaçaria traz um oceano de curiosidades e conhecimentos, que não se esgota nesta pesquisa, pelo contrário, a cada viagem nos deparamos com novas águas que se apresentam sempre de maneira convidativa para novos mergulhos.

Mergulhando nas águas da palhaçaria, deixamo-nos levar por um dos aspectos inerentes ao universo do palhaço, a sua máscara, popularmente conhecida como nariz. Esta jornada reflexiva objetiva nos despertar para novas formas de [re]pensar a atuação da máscara na práxis do palhaço, eliminando qualquer comparação com um simples objeto utilitário ou estético. Mas antes de continuar navegando pela máscara líquida do palhaço, daremos uma pausa para apresentar o tipo de palhaço que tratamos nesta pesquisa.

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