TITRE III- PROGRAMME D’ACTION DES MINISTERES
II. 3.2- Famille, enfance et handicapés :
A arte se alimenta de tudo o que é humano, imaginado ou real. Alimenta-se até da tragédia. A história do acidente com o Césio-137 em Goiânia, um drama que começou há mais de duas décadas, é um desses momentos em que o imponderável torna-se tão avassalador que, depois de passar, parece que foi ficção, um enredo
22 - O nome “Leide” (das Neves) foi dado por causa da princesa “Lady” Diana, que havia se casado com o príncipe Charles em 1981, ano do nascimento da garotinha que se tornaria o retrato do desas- tre com o Césio. Inspirada pelo famoso casamento, dona Lourdes das Neves decidiu batizar a filha com o nome de “Leide”. Como se sabe, a menina-mártir do acidente veio a falecer em outubro de 1987. Curiosamente, a princesa“de Gales” faleceria dez anos depois, também de forma trágica, em decorrência de um acidente (de carro).
literário com lances incríveis, vítimas inocentes, negligência, preconceito e dor. Ocor- re que, no caso do maior acidente radiológico em área urbana do mundo, tudo acon- teceu de verdade.
Presentemente, e vendo o ocorrido em retrospectiva, é possível mapear com mais nitidez os erros cometidos no passado, as culpas que houve, e as implicações da experiência com o intrigante elemento químico.
Refletir sobre o passado é um exercício, e a arte, nutrindo-se também disso, dá a sua contribuição. A tragédia despertou em músicos, pintores, fotó- grafos, escritores, cineastas, poetas, escultores etc., bem mais do que a soli- dariedade. Despertou em muitos desses artistas o desejo premente de tratar do assunto, e dar a visão particular deles sobre o acidente, lançando um olhar específico sobre os acontecimentos que vitimaram tantas pessoas e fizeram o Estado de Goiás inteiro mergulhar no medo e na incerteza.
Figura 19: Foto do artista plástico Siron Franco.
Antigo morador da Rua 57, um dos palcos principais da tragédia, o artista plástico Siron Franco usou a paleta e os pinceis para tentar passar para a tela toda a dimensão do acidente com o Césio-137. Siron produziu mais de uma centena de telas, desenhos em guache sobre papel e esculturas em concreto. A principal foi a
série “Rua 57 ou Césio”, exposta na Galeria Montessanti, em São Paulo, em novembro de 1987. Siron usou terra do chão de Goiânia, chumbo, concreto e plás-
tico para fazer trabalhos chocantes, dramáticos. O artista goiano procurou captar os semblantes assustados das vítimas, e também registrar objetos e utensílios conta- minados.
zendo à medida em que a tragédia ia tomando dimensões apavorantes e pro- porções não imaginadas. Ele começou a desenhar como se estivesse fazendo uma reportagem visual. As obras foram expostas em Buenos Aires, Berlim, Oslo, e Helsinque. Em Brasília os trabalhos também foram exibidos.
Goiânia, segundo o artista, ficou de fora do circuito itinerante porque nenhuma galeria ou museu demonstrou interesse em mostrar a série. Além disso, como era de se esperar, não apareceram compradores para os traba- lhos, já que estes retratavam o drama e o horror vividos pela cidade.
Em geral, as telas retratam o local em que a cápsula que continha o material radioativo foi aberta, primeira e parcialmente (a marretadas); vítimas enterradas den- tro de cilindros de chumbo; corpos humanos e de animais dilacerados etc. Siron car- regou nas tintas. Tons vermelho-ferrugem, prata, negro, cinza e azul são as cores predominantes. Os símbolos agregados à pintura formam uma iconografia que reme- te `a morte. O uso da terra de Goiânia funcionou como uma provocação para quem temia se contaminar com o Césio.
Siron não concluiu a série de uma vez só. Conforme iam surgindo fatos no- vos, ou falecia alguma vítima, ele incorporava mais um desenho ou tela à série.
Em 1997, quando o acidente completou 10 (dez) anos, Siron pintou a “Quinta Vítima”. Em 2001, o artista goiano retomou o tema do acidente na série “Rua 57 –
Camas – Série Césio”, exposta na Galeria Célia Câmara, da Fundação Jaime Câmara. Também foram lançados Cartões telefônicos com cinco reproduções das
obras, produzidos pela Brasil Telecom e lançados durante o vernissage. Cerca de 250 (duzentos e cinquenta) mil unidades foram distribuídas em Goiânia, e outras 150 (cento e cinquenta) mil em Brasília.
As camas de concreto, pesando 990 (novecentos e noventa) quilos cada uma, remetem à ideia de esquifes, leitos nos quais a vida e a morte deixam suas marcas.
Siron inseriu objetos do cotidiano na recriação do ambiente em que o acidente aconteceu: cadeiras, vidro, espelhos, arames, bolas de gude, impressões corporais humanas e de animais.
O artista plástico goiano procurou chamar a atenção do mundo com sua arte. Ele abriu as portas de seu ateliê para jornalistas de fora, organizou passeatas, parti- cipou do Comitê de defesa de Goiânia, uniu-se a artistas de outros estados nas di- versas mobilizações que buscaram combater o preconceito contra a população e os produtos goianos.
Grande parte das pinturas da “série Rua 57 ou Césio” ficaram em poder de Siron. Já as obras que retratam as vítimas estão emprestadas para Charles Cosac, da Editora Cosac Naif.
De acordo com o artista, os desenhos estão mesmo em seu poder, assim como as camas da coleção “Rua 57– Camas - Série Césio”. Todos os trabalhos es- tão registrados em livros.
Siron estima que tenha feito em torno de 350 (trezentas e cinquenta) peças sobre a tragédia. Somente de pinturas foram 48 (quarenta e oito), todas em grandes dimensões. “Fiz a série para vender e doar o dinheiro para as vítimas. Ninguém
quis comprar. Havia muito preconceito”.
Siron anunciou também a doação de todo esse acervo para o Instituto Siron
Franco (em fase de implantação na época do anúncio). Os documentos estavam
praticamente prontos e o acervo ainda sendo organizado. Algumas peças foram fur- tadas do ateliê do artista, localizado no Buriti Garden.
Na época do acidente, já se cogitava criar um museu especial destinado a abrigar os trabalhos artísticos sobre o Césio-137, mas o projeto não saiu do papel.
Para Siron, a tragédia teve um impacto muito grande em sua obra: “É uma loucura lidar com uma coisa que você não vê. A gente tinha muito medo. Mas a questão da criança e do cão mortos pela radiação foi muito comovente. Tocante demais”.
Nascido na cidade de Goiás, Siron Franco morou nada menos do que 21 anos na Rua 57, no antigo Bairro Popular, lamentavelmente marcado por duas
grandes tragédias: a chacina da família Mateucci, na década de 1950, e o aci- dente com o Césio-137, na década de 1980.
Siron ressalta: “As pessoas dizem que é melhor esquecer os fatos, que
não é bom mexer no passado. Pelo contrário. A gente tem de falar sobre o as- sunto, passar informações para as novas gerações”.