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1.2- Domaine du Transport :

TITRE III- PROGRAMME D’ACTION DES MINISTERES

III. 1.2- Domaine du Transport :

Muitos escritores foram tão impactados pelo acidente radioativo de Goiânia que decidiram, no calor dos acontecimentos (ou algum tempo depois), passar para o papel o sentimento que experimentaram naquela hora.

Miguel Jorge escreveu uma obra densa sobre o acidente radioativo. Com o

romance “Pão Cozido Debaixo de Brasa”, que tem como protagonista uma catado- ra de papel em busca de uma luz redentora, o autor ganhou o “Prêmio Machado de Assis de Literatura”, da Biblioteca Nacional, um dos prêmios literários de maior pres- tígio no Brasil (País). “Eu deixei a poesia assentar para não escrever sob a influência da emoção”, diz o autor de “Veias e Vinhos”, sobre a traumática e marcante

chacina da família Mateucci, na Rua 74, no Centro, bem perto de onde, anos mais

tarde, se daria o acidente radiológico que marcaria Goiânia para sempre. “Hoje, pou- cos se lembram que o livro faz referências ao que aconteceu naquela época”.

As referências feitas são metafóricas, porém muito claras. No romance de Mi- guel Jorge, Felipa, a líder de um grupo de catadores de papel, vai em busca de uma luz que pudesse tirar seus companheiros daquela vida. “Quando eles descobrem o material radioativo, acreditam que encontraram o que tanto procuravam. Infelizmen-

te, contudo, depois vêm a dor e a doença”. O escritor goiano (Miguel Jorge) incluiu no enredo uma criança que morre por conta do pó, uma homenagem à pequena Leide das Neves, a menina-símbolo da tragédia.

“‘Pão Cozido Debaixo de Brasa’ faz parte de uma trilogia sobre Goiânia, composta também pelos livros ‘Nos Ombros do Cão’, em que falo da violência da ditadura militar contra os estudantes de Goiás, e ‘Veias e Vinhos’, em que abordo a chacina da família Mateucci, na Rua 74. Todos esses livros são a res- peito de episódios traumáticos de nossa história”, explica Miguel. Ele se recorda

de que estava em uma festa23 no Bairro Popular no dia 29 de setembro - data em que o acidente se tornou público -, e que viu técnicos isolando os locais contamina- dos. “Mas não sabíamos ainda do que se tratava”.

Gabriel Nascente, por sua vez, estava acampado nas margens do Rio Co- rumbá e ficou sabendo da tragédia pelo rádio. Na mesma hora, pegou uma caneta, um papel, e começou a escrever ali mesmo o poema “Goiânia – O Pesadelo em

Setembro”, que está em dois de seus livros: “Janelas da Insônia”, e “Inventário Poético”. “Essas coisas são muito eruptivas: Eu fiquei espantado com tudo aquilo e

tinha de documentar o momento”, relata.

Geraldo Coelho Vaz, ex-presidente da Academia Goiana de Letras (AGL),

recorda que diversos escritores participaram de um ato cívico para demonstrar a preocupação com o Césio. Ele mesmo publicou, no livro “Caminhos de Sempre”, os poemas “Césio I” e “Césio II”. “Escrevi por conta da discriminação com a cida- de, e por conta do sofrimento das vítimas”.

O escritor José Mendonça Teles publicou uma obra relacionada com o dra- ma que a capital viveu: “Chamado em Defesa de Goiânia” traz crônicas e artigos em que o autor critica o preconceito com que os goianos foram tratados na época do acidente. “Em uma solenidade em Brasília, uma mulher chegou a se negar me cum- primentar. Meus textos foram uma reação a este tipo de atitude”.

“Quando os Flamboyants florescem”, uma das crônicas de José Mendon-

ça, chegou a ser republicada por ocasião dos vinte anos da tragédia. Nela, o escritor menciona a tristeza que acometeu a cidade justamente na chegada da primavera.

23 - O autor destas linhas de dissertação se lembra de estar no aniversário de 6 (seis) anos do irmão mais novo (na noite do dia 29 de setembro de 1987) e alguém mais velho (um tio ou amigo dos nos- sos pais) chegar e dizer: “Vocês viram ?!! Jogaram uma bomba radioativa no Setor Aeroporto !!!”. O irmão mais novo em questão chama-se Leandro e tinha a mesma idade da menina Leide (também nascera em 1981). Hoje, ele é doutor em Física pela UNICAMP e professor dessa disciplina na UFG.

“Mostro que estava na hora de reconstruirmos a cidade”.

Muitos outros autores se inspiraram na tragédia com o Césio para compor textos literários. O escritor goiano Edir Meirelles, nascido em Pires do Rio e de- pois radicado no Rio de Janeiro, publicou em 1993, pela Editora Litteris, o volume

“Poemas Contaminados”, em que trata do acidente radioativo.

Yêda Schmaltz, falecida em 2003, escreveu alguns versos sobre o desastre

no livro “Prometeu Americano”, publicado pela Editora Kelps em 1996. Maria Lu- zia Ribeiro, ex-presidente da União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás, fez o mesmo no livro “O Tempo Responde”.

Em 1994, Brasigóis Felício tratou do assunto em poemas do livro “O Rosto

da Memória”. Em 1997, quando o acidente completou dez anos, Edival Lourenço

redigiu uma crônica abordando os momentos dramáticos, intitulada “A Flor Azul de

Uma Certa Primavera”.

Também cronista, o poeta e professor Luís Araújo Pereira dedicou um po-

ema do seu livro “Linhas”, chamado “Invasores de Corpos”, fazendo referência

à vítima-símbolo da tragédia, Leide das Neves Ferreira.

Sem querer fazer aqui qualquer juízo de valor acerca da qualidade da litera- tura do professor Luís Araújo Pereira (sua poesia etc.), destaco apenas que o verso “(...) a alma da garota da Rua 57 (...)” comete uma imprecisão ao se referir a Leide das Neves como “garota da Rua 57”. Leide das Neves, como sabem os que co-

nhecem os detalhes da história do acidente, não morava na Rua 57, no antigo Bairro Popular, mas na Rua 6 do Setor Norte-Ferroviário. Quem morava na Rua

57 era o “catador” Roberto Santos Alves, o “Betão”.

Em setembro de 2007, quando o autor desta dissertação estava na Rua 57 para fazer levantamento(s) de dados e entrevistas para uma possível pesquisa aca- dêmica a ser utilizada em outra pós-graduação (mestrado24), chegou uma equipe de reportagem da TV Anhanguera e logo os técnicos montaram o tripé com a câmera de filmagem e a repórter Renata Costa se posicionou em frente ao único lote vazio (e concretado) da Rua. Em poucos segundos, a repórter começava a dizer que o tal espaço havia sido o “ferro-velho de Devair Alves Ferreira (...)”. Foi preciso que o au- tor destas linhas interviesse e dissesse que o tal lote não era o lugar onde funciona-

24 - Eu estava cursando a especialização em Direito Internacional na UFG quando fiquei sabendo que a PUC-GO havia aberto um curso de Mestrado em Direito, Relações Internacionais e Desenvol- vimento.

ra o ferro-velho, mas sim o espaço onde ficava a casa de um dos primeiros protago- nistas do enredo do acidente com o Césio-137, o paulista Roberto “Betão” Santos.