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3.1- Développement social et solidarité :

TITRE III- PROGRAMME D’ACTION DES MINISTERES

II. 3.1- Développement social et solidarité :

Figura 17: Algumas cenas e imagens do dramático e tumultuado

enterro das duas primeiras vítimas fatais da tragédia.

Como já foi dito, no dia 23 de outubro de 1987 faleceram Maria Gabriela Fer- reira – que levara a cápsula à Vigilância Sanitária, permitindo que o acidente fosse identificado -, e Leide das Neves Ferreira, que se tornou o ícone (retrato máximo) da catástrofe. No dia seguinte (24 de outubro), dia do aniversário de Goiânia, o en-

tão prefeito Joaquim Roriz e o então governador Henrique Santillo anunciaram, em nota solene, que a cidade estava em luto oficial, cancelando todas as pro- gramações comemorativas da data.

O luto se estendeu até o dia 26 de outubro daquele ano, data do enterro das duas primeiras vítimas fatais. Essa data adquire importância ímpar na narrativa da antropóloga Suzane de Alencar Vieira, por demonstrar, mais do que todas as outras, que o drama é central na dinâmica do desastre radioativo, uma vez que não apenas

estende seus limites, “modulando sua intensidade e atualizando-o a cada nova nar- rativa” (VIEIRA, 2010, p. 36), como também identifica que os sentimentos, as rela- ções e os lugares foram violentamente atingidos.

Isso ocorre porque o enterro simboliza o passo inicial dos eventos que se da- riam a seguir/em seguida, em que pessoas foram arrancadas de suas casas, “classi- ficadas e isoladas, os lugares destruídos e todo patrimônio familiar transformado em lixo radioativo” (p. 58).

Para a antropóloga Suzane, a escolha (o apontamento) do dia 26 de ou- tubro de 1987 como ponto-chave se dá pelo fato de mostrar o enterro das duas primeiras vítimas fatais de um desastre nuclear que se imaginava distante da realidade de Goiânia. Relembrou-se, na data, o acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, considerado um dos maiores da História, e que havia ocorrido cer- ca de um ano e meio antes. Além disso, a autora pontua que as duas mulheres atribuem ao evento uma carga simbólica muito grande, já que, geralmente, as histórias são contadas do ponto de vista masculino.

E, como o enterro das primeiras vítimas se tornou símbolo dramático do aci- dente goianiense, a data do sepultamento de Maria Gabriela e Leide das Neves car- rega uma importância singular na trança da tragédia, convém situar o contexto em que se deu o episódio:

No Cemitério Parque, onde seriam enterradas as vítimas, os técnicos faziam as últimas avaliações de segurança nas covas. Testavam a es- pessura da concretagem e instalavam os cordões de isolamento. Após o anúncio sobre o pouso do avião da Força Aérea Brasileira (FAB) no Aeroporto Santa Genoveva, trazendo do Rio de Janeiro os caixões de Maria Gabriela e Leide das Neves, a Polícia Militar e o Corpo de Bom- beiros iniciaram a intrincada tarefa de transportar em segurança os pesados caixões de chumbo até o cemitério. Uma equipe do corpo de bombeiros escoltava os caixões em carros blindados, enquanto uma multidão enfurecida se aglomerava na porta do cemitério para impedir que o sepultamento se realizasse. A vizinhança do Setor Urias Maga- lhães, onde se localizava o Cemitério Parque, temia que a energia radi- oativa do Césio-137 se instalasse próxima aos seus quintais. Dirigen- tes da associação de moradores e um vereador (José Nelto, do PMDB) inflamavam a revolta. O cordão de isolamento era cerceado (cercado) por um agitado e intimidador cordão humano. Os jornalistas se avolu- mavam no meio daquela tensa agitação popular. Pelo rádio das viatu- ras, policiais pediam reforço ao centro de operações da Polícia Militar. “Quando o caminhão blindado assomou na rua do cemitério, um mo- tim ruidoso começou o ataque lançando palavras de rechaço e protes- to, que evoluíram para insultos. O caminhão ultrapassou o cordão de isolamento, venceu a resistência da multidão e seguiu em direção às duas covas. Pedras, torrões de barro, nacos de paralelepípedo, peda- ços de cruzes etc. eram atirados com fúria contra todo o aparato de ve-

ículos blindados e guindastes. Sob uma chuva de pedregulhos e esti- lhaços, os técnicos da CNEN iniciavam a complicada operação de reti- rada dos caixões de chumbo que pesavam toneladas. Os poucos pa- rentes das vítimas se escondiam atônitos na confusão para não se tor- nar novos alvos da ira popular. A artilharia de pedras não parou nem mesmo quando os caixões desceram às sepulturas com a ajuda dos guindastes. Os ruídos pavorosos daquela revolta tornaram inaudíveis as palavras do padre que tentava coordenar a tensa cerimônia de se- pultamento. Ao invés do descanso do barro, da terra, os mortos se re- fugiavam no abrigo do chumbo e do concreto. O retorno cristão ao pó não lhes seria possível" (VIEIRA, 2010, p 32).

Esse é o triste registro: Maria Gabriela Ferreira e Leide das Neves Ferreira fo- ram enterradas no dia 26 de outubro. Cruzes de madeira dos túmulos, tijolos e pe- daços de concreto viraram armas nas mãos da multidão descontrolada, que atacou a caminhonete blindada que vinha transportando os caixões do aeroporto até o cemi- tério. “Foi horrível ver aqueles guindastes levantando o caixão. Mais traumati-

zante ainda foi perceber a manifestação das pessoas. Ninguém respeitou o so- frimento da nossa família”, recordou-se dona Lourdes (“Diário da Manhã”, 13 de setembro de 2007).

Somente uma coisa boa ela traz na memória. Lourdes estava no meio da con- fusão, atônita com os acontecimentos, sofrendo com a perda da filha, sem o apoio do marido, que estava em tratamento. Nisso, a então primeira-dama do Estado de

Goiás, Sônia Santillo, buscou Lourdes e a levou, sob efeito de calmantes, ao enterro. Quando chegaram, Sônia Santillo passou pelo cordão de isolamento segurando o braço de Lourdes e foi advertida por um segurança para que não se expusesse daquela forma, mas alegou que os manifestantes respeitariam a dor da mãe. Felizmente, a ex-primeira-dama tinha razão. Lourdes então se agachou

ao lado do caixão da filha e pôde chorar. Ninguém mais atirou uma pedra sequer.

“Dona Íris (de Araújo), hoje deputada federal, e Sônia Santillo (na época pri- meira-dama estadual) estavam comigo. Elas me consolavam e seguravam mi- nha mão”.

O contato dos filhos de Lourdes das Neves com o Césio-137 aconteceu me- nos de 30 dias antes do enterro da menina Leide. “Lembro-me bem do dia. Estava

preparando o jantar, enquanto o Ivo permanecia sentado na porta da cozinha. Na conversa, disse pra ele visitar o irmão Devair (o dono do ferro-velho que comprou a cápsula de Césio). Falava pra eles serem mais unidos”.

estava mais em casa. Tinha ido visitar o irmão”. O marido da dona de casa vol- tou com um produto envolto em papel de cimento: eram partículas do Césio- 137. Ele então chamou os filhos para ver a beleza das luzes que o pó emitia. “Ele jogou tudo pelo chão. Só observei, mas não peguei no produto. Não por medo, até porque não tinha noção do perigo. Mas porque continuei a cuidar do jantar”.

A dona de casa fala que foi tomar banho, enquanto Ivo e as crianças continu- avam a brincar com o produto. “Quando voltei para a sala, vi Leide comendo um

ovo que eu acabara de cozinhar. Nas mãos dela, ainda tinha muito pó do Cé- sio. Menos de 10 minutos depois, ela começou a vomitar”.

Tais lembranças de dona Lourdes divergem de uma informação da avó de

Leide das Neves, que chegou a declarar que, durante a madrugada que se seguiu, “o corpo da Leide emanava uma forte (intensa) luz azul enquanto ela dormia”.

Fábula ou realidade? Verdade ou ficção?

Esse seria o início do pesadelo da família. A garotinha Leide, o pai e a tia se- riam internados no Hospital de Doenças Tropicais (HDT) e, mais tarde, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. A casa onde moravam foi demolida. “De lá de dentro, só tirei algumas fotos”, lembra dona Lourdes. Todos foram alojados na

sede do Estádio Olímpico. Leide das Neves saiu do local levada por policiais.

“Aquela foi a última vez em que a vi (com vida)”.

Outros objetos, como bonecas e roupas, foram encaminhados ao depósito formado pela Comissão Nacional de Energia nuclear (CNEN), em Abadia de Goiás. Lourdes relata que membros da CNEN a acompanhavam durante todo o tempo.

“Era obrigada a tomar banho de hora em hora, e era examinada o tempo todo”.

Num primeiro momento, essas obrigações e horas tomadas não fizeram dona Lourdes sofrer muito. “Somente agora, de pouco tempo pra cá, é que percebo

tudo. Agora é que caiu a ficha mesmo”.

Vivendo sozinha, por mais que Lourdes das Neves tente, ela não esquece o que passou. Do lado de fora da casa, por ironia do destino, há um ferro-velho. Pare- cido com o do concunhado Devair, que comprara a cápsula radioativa. Do lado de dentro, as fotos penduradas na parede. Em relação ao futuro, diferentemente da im- previsão do passado, ela diz que já está escrito. “Quero que Deus guie a minha vida. Quero que me dê saúde e força para enfrentar meus obstáculos”. Na lembrança, a

quinha dela estava queimada”.

Para a antropóloga Suzane Vieira, o falecimento de Leide das Neves constitui, indubitavelmente, o ponto culminante de toda a tragédia, por se tra- tar de uma criança “que sofreu muita violência, primeiro a da contaminação, e depois a da hostilização por parte da população (das cercanias da região do cemitério), que estava com medo. E isso criou um mártir, o da criança-santa”.

Segundo Genaira de Souza Martins, moradora do Setor Marechal Rondon (Fama), até hoje o túmulo de Leide22 das Neves Ferreira é o mais visitado do

Cemitério Parque, no Setor Urias Magalhães, e não apenas em dia de finados.

Figura 18: Túmulo da menina Leide das Neves Ferreira, no Cemi-

tério Municipal Parque.