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Dans le document Vert Canaries et (Page 28-33)

Para situar o debate sobre o processo de valorização do espaço da Costa do Dendê através do turismo, faz-se necessário analisar como a área era apropriada antes de tal atividade; inclusive para observar as transformações de uma realidade, na qual preponderava o valor de uso, para uma outra, onde prepondera o valor de troca (valorização monetária) na concepção do seu valor (tríade valor de uso/valor de troca/valor).

Por outro lado, há que se considerar como essas áreas são apropriadas em uma escala global e seus rebatimentos através da ação capitalista (produção capitalista do espaço) frente ao processo de desenvolvimento desigual e combinado. Neste caso, as transformações são direcionadas para o avanço não apenas de formas urbanas, como também para transformações

92 nas apropriações e usos antes firmados em ruralidades (como apresentado na imagem a seguir, com usos na atualidade desse tipo de transporte para os visitantes da ilha).

Figura 22 – Transporte de animais por barco e a figura do produtor rural no mar da Gamboa do Morro em 1986

Fonte: Taccani (2016)6667.

Sobre as coexistências, a fala de uma moradora de Valença apresentou o seguinte relato no que tange às características urbanas e rurais na região, mesmo com o passar do tempo:

Essa região eu acho que foi sempre marcada pela atividade rural mesmo, ou pela atividade agrícola. Eu tenho lembranças da cidade aqui com uma movimentação muito singular no final de semana, ainda a gente vê isso no final de semana; mas antes ainda era muito mais com a presença das pessoas da zona rural circulando; eu acho que a grande marca econômica aqui da região era a atividade agrícola.

Esses valores ligados a ruralidade se fazem presentes inclusive nas atividades econômicas realizadas no litoral da Costa do Dendê (vide o próximo quadro de análise), como apontado por Lessa (2007) sobre as localidades dos municípios da região, tendo por base a

66 TACCANI, Marco. 1986. [S.l.], 23 set. 2016. Facebook (grupo): MORRO DE SÃO PAULO-DINOSSÁURICO.

Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10209451633200184&set=pcb.667387536761727& type=3&theater&ifg=1.

67 Os antigos moradores de Morro de São Paulo e os primeiros ocupantes que estabeleceram residência em Morro

a na Gamboa do Morro atualizam as informações do site constantemente e retratam a realidade do período com certo saudosismo, unindo imagens aos discursos sobre o passado e o presente, contando causos, apropriações e usos a serem retratados aqui.

93 análise dos dados do Plano de Manejo APA Pratigi (2000) e do Relatório de Controle Ambiental (2004).

Quadro 3 – Principais atividades econômicas dos povoados do litoral da Costa do Dendê

Município Povoado Principal

atividade Atividade secundária

Valença Guaibim Turismo Pesca

Vila velha do Jequiriça Dendê Cacau

Cairu

Canavieras Pesca

Camurugi Turismo/balneários Pesca

Galeão Pesca

Gamboa Pesca

Garapuá Pesca

Moreré Pesca

Morro de São Paulo Turismo São Sebastião Pesca

Velha Boipeba Pesca e turismo

Taperoá Camuruji Turismo/balneário Pesca

Graciosa Pesca

Nilo Peçanha

Barra dos Carvalhos Pesca Piaçava/mandioca

Barreira Pesca de canoa Piaçava

Barroquinhas Pesca/mariscagem Estaleiro/piaçava/dendê

Boitaraca Piaçava Pesca/mariscagem

Itiuca Piaçava Mandioca

Jatimane Piaçava Mandioca/coco/turismo

São Francisco Pesca Piaçava/mandioca/dendê

Ituberá

Barra do Serinhaém Pesca Coco/turismo

Itaboraê Piaçava/lazer Dendê/pesca

Rio Campo Piaçava Dendê/pesca

Igrapiúna

Âmbar Pesca

Ancural Dendê

Contrato Pesca Piaçava/coco

Ilha das Flores Dendê Pesca

Limeira/França Pesca

Limeira I, II, III Pesca Dendê

Pescaria Pesca

Ponta Pesca Dendê/coco/cacau

Timbuca Pesca Dendê

Tubarões Pesca Coco

Camamu

Acaraí Dendê/piaçava Turismo

Barcelos do Sul Pesca

Cajaíba do Sul Estaleiro Pesca

Ilha Grande Extração

mineral/pesca Ponta da Caieira Pesca

Maraú Barra Grande Turismo Pesca

94

Ilha do Sapinho Pesca Turismo

Taipus de Dentro Pesca Fonte: Lessa (2007).

Sobre a análise do quadro, mesmo sendo uma análise pontual, há cerca de 10 anos, observa-se que pouco mudou em relação à realidade apresentada sobre tais atividades ligadas ao conteúdo rural, inclusive nos enclaves turísticos como apresentado na imagem abaixo em Morro de São Paulo, no caminho do bairro Nossa Senhora da luz, a cerca de 2km da praça central de Morro.

Figura 23 – Carregamento de carga em burros com caçuás

Fonte: Epifania (2014).

Na escala regional (como apresentado anteriormente) e mesmo nos limites de proximidade dos enclaves, fazem-se presentes coexistências e permanências (em relação às urbanidades e ruralidades); estas são resultantes dos contatos estabelecidos junto aos novos agentes advindos para realização da prática do turismo e lazer, da vilegiatura marítima e dos passeios de fim de semana; adensando outras atividades ligadas ao turismo e à infraestrutura, assim como a acessibilidade das novas tecnologias informacionais (e não tão novas assim, a exemplo dos canais de TV e rádio).

95 Ou seja, tais transformações, que se dão sobre o processo de valorização (e no caso analisado sobre o turismo) e se realizam através do processo de produção do espaço e reprodução da vida, mobilizam transformações tanto na morfologia material quanto na morfologia social, resultante da concepção, apropriação/uso e representações (fato este a ser observado nas discussões promovidas sobre valor/topos).

Enquanto áreas habitadas por pescadores, marisqueira e pequenos agricultores, preponderava o valor de uso, e, junto ao valor-dinheiro, havia outras formas de realizar a troca, sendo o valor de troca uma combinação entre o uso do papel-moeda com a venda do excedente nas feiras e para os praticantes do lazer nas praias; além disso havia também o escambo; e o pagamento através do produto cuja produção recebeu ajuda daquele agente na manufatura como nas casas de farinha (na limpeza do pescado ou molusco) ou coleta (a pesca, mariscagem, colheitas).

No tocante ao direito à propriedade, há uma diferenciação em torno das ocupações; neste caso, registrou-se desde a ocorrência de comunidades remanescentes de quilombo ou com características de áreas remanescentes, como no Guaibim, mesmo que os moradores mais antigos não se reconheçam desta forma. E, por outro lado, parcerias entre proprietários e pequenos produtores, a exemplo das fazendas na Península de Maraú e no Arquipélago de Tinharé, com a presença de diversas famílias de trabalhadores68, com núcleos familiares muitas vezes ligados por laços de consanguinidade em extensas faixas de terra no litoral.

Como apresentado no discurso de um dos moradores mais antigos da Península sobre como era a região em sua infância e juventude (quando entrevistado em 2017 estava com 68 anos) e posteriormente sobre a mudança de sua cunhada (e prima) para trabalhar em outro lote na Península, após o parcelamento da área da fazenda entre os filhos dos proprietários (família Silva):

Rapaz, na minha infância aqui era uma fazenda agrícola que o pessoal tirava coco, dendê e criações: porco, galinha... Muita pesca. E nós sobrevivíamos disso.

Não, nós não precisamos porque foi entre família. Barra Grande tinha um dono; e pra onde ela foi era outro dono... Mas tudo era Barra Grande, você me entendeu? Até nisso era uma só. Você descolava a Costa, chamava Costa... Itaipu (Taipu) de Fora, tudo; de lá pra cá era de nosso pessoal. Morava um tanto lá, um tanto pra cá, mais aqui nos Três Coqueiros. Aqui onde é a Dra.

68 Segundo os entrevistados mais antigos, as famílias de trabalhadores eram representadas por quatro grupos: Genê,

96 Onis Silva, era do pai dela mais da mãe dela. Então quando ela lhe falou isso é por que era dividido69.

Outra questão relevante a ser observada no discurso dos agentes sobre a questão agrária neste período, é a grande concentração da posse das terras por parte de poucas famílias nessa porção do litoral baiano. Sobre as formas de trabalho, nas entrevistas observou-se desde as formas em parceria e posteriormente dado o tempo de ocupação a posse das terras por esses trabalhadores; neste caso a forma de trabalho predominante é a mão de obra familiar, em vastas extensões de terra como observado na Península de Maraú, até a existência de posseiros como observado nas entrevistas no Guaibim e nos territórios quilombolas e caiçaras. Parte destas áreas, hoje são motivo de luta pela posse da terra na Costa do Dendê em grande parte valorizadas economicamente com a atividade do turismo, a exemplo dos grupos tradicionais que disputam o direito à moradia e uso do território limítrofe e do ambiente fluviomarinho fronteiriço entre os municípios de Valença e Taperoá.

A rede de conexão com Salvador era constante no que se refere ao comércio de produtos agrícolas. Da faixa litorânea do território municipal de Maraú e sua Península, eram exportados para a “Bahia”70: tamarindo, coco, manga, azeite, piaçava, ovo, galinha, porco. Segundo o

entrevistado, eles esperavam o barco “planear” (o barco ficar no plano sobre a areia da praia) para realizar a embarcação dos produtos.

Tal prática ajudava no sustento das famílias no que se refere a uma renda extra, e o uso do dinheiro das vendas ajudava na compra de produtos necessários seja na sede do município de Marau ou mesmo nos municípios vizinhos; destacando-se Camamu71, em decorrência da proximidade e facilidade de acesso à sede deste município naquele tempo, com a utilização de canoas e saveiros72 como melhor meio de transporte.

69 Relato sobre a partilha da grande fazenda que ocupava o território da Península de Marau. Quando das

entrevistas, era muito comum os agentes relatarem sobre as relações entre as famílias, sendo na maior parte das vezes primos de diferentes graus. Há relatos que era muito comum o casamento arranjado entre primos para que as famílias não perdessem a posse da terra para desconhecidos.

70 Esta era a forma como as pessoas que não moravam no centro de Salvador denominavam a capital do estado

antigamente: ir a Bahia correspondia com a ida a Salvador.

71 Até os dias atuais, a principal via de acesso a Península é o porto de Camamu, dada a proximidade através da

navegação marítima e a dificuldade de transporte na via local não pavimentada, em especial no período de chuvas. Para algumas áreas é necessário inclusive o uso de tração nos veículos em decorrência dos solos arenosos dos ambientes de restinga.

72 Dada a proximidade com Ilhéus e Itabuna e os mares calmos da Baía de Todos os Santos, era muito comum a

navegação de cabotagem, tanto em porto do litoral da Costa da Baía de Camamu como nos portos fluviais, sendo este o principal meio de transporte de interligação dos municípios da Costa do Dendê, assim como dos povoados. Não à toa as sedes dos municípios estão localizadas próximo aos cursos d’água. Tal leitura, reflete os principais pontos litorâneos de todo estado da Bahia, que eram transpostos na forma de um grande arquipélago.

97 Nos relatos dos agentes, todos falam sobre a fartura do período, em especial para a pesca, não havendo a necessidade de avançar muito no mar para encontrar o pescado de qualidade e bom tamanho (vide Figura 24). Muitas vezes, inclusive em decorrência da fartura e para não perderem a quantidade de peixes que coletavam, era muito comum a doação para outros moradores.

Figura 24 – Resultado de um dia de pesca e a figura do pescador

Fonte: Viller (2015)73.

Sobre as transformações ligadas ao turismo um antigo veranista (natural e morador de Ilhéus) que frequenta a Península desde pequeno (hoje com 50 anos de idade), levado por sua mãe nascida em Barcelos do Sul de Camamu rememorou:

73 VILLER, Mariano. [S.l.], 18 mai. 2015. Facebook (grupo): MORRO DE SÃO PAULO-DINOSSÁURICO.

Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1453817294916403&set=g.224185184415300&type =1&theater&ifg=1..

98 Geralmente a gente vinha com o pessoal de Ubaitaba, aquela região de Ipiaú, que tinha casa aqui na região e fazenda, e vinha para o lado de cá, mas era só turismo local, depois que expandiu o turismo. Antes era a segunda residência, que o pessoal tinha fazenda e morava na cidade de Ubaitaba, aquela região, Ilhéus e Itabuna, e vinha para cá veranear em Campinhos, Barra Grande. Era tudo casa, depois que virou um polo turístico com pousadas, hotéis, restaurantes. De uns 15 anos para cá que o turismo melhorou sem ser local, um turismo do Brasil todo e do mundo todo. Eu venho de 3 a 4 vezes no ano, quando não fico aqui em pousada eu fico em Barcelos que é perto e venho de barco, porque a gente vem por dentro do rio. A região aqui é boa demais.

Observa-se que o histórico em torno da ocupação de tais áreas se aproxima: de antigas vilas de pescadores e fazendas; ao começo com as segundas residências e aluguéis para veraneio por moradores das proximidades. No caso das áreas em Cairu e Maraú, com o “boca a boca”,74 relatado por grande parte dos entrevistados, outros agentes nacionais (Guaibim) e internacionais (no caso em análise) montam as primeiras estruturas até chegar ao ponto em que tais áreas se encontram.

As primeiras edificações no Guaibim retratam um pouco da realidade das construções litorâneas do período com estruturas de pau a pique ou palhoças75. Assim como as outras localidades analisadas, o Guaibim era uma pequena vila de pescadores sem nenhuma infraestrutura, com a casa dos moradores margeando o litoral (como apresentado na imagem).

74 Como representado no relato de um comerciante em Boipeba sobre Morro de São Paulo: “(...) você via

mochileiros, os hippies, os malucos. Foram os hippies que começaram. Não existe um planejamento; ninguém chegou, não foi o Ministério do Turismo que pô “esse lugar tem potencial turístico; vamos fazer esgoto, vamos fazer isso”; a Embratur “vamos desenvolver isso na Europa”, não, o lugar foi de boca em boca.”

75 Também conhecida como casa de taipa, é uma técnica de construção antiga, na qual madeiras na posição vertical

são fixadas ao solo, com vigas amarradas na horizontal, preenchidas com argila para a produção das paredes da casa.

99 Figura 25 – Primeiras edificações do Guaibim

Fonte: Pires (2010).

O processo de construção de tais habitações era uma realização para os moradores no que se refere a solidariedade entre comunidade do entorno, como apresentado pelos pesquisados. No caso do Guaibim, uma das moradoras afirmou que era comum ocorrerem catástrofes referentes a incêndios recorrentes, devido ao uso do forno a lenha nas proximidades das residências de palha. E que a mesma solidariedade imperava no controle das chamas, para que não se propagassem e atingissem outras residências. A escolha pela palha decorria do fácil acesso ao material, assim como dos custos baixos para reconstrução das residências.

Anterior à valorização de tais espaços pela atividade do turismo, para a potencialização do valor de troca, os moradores do litoral eram constantemente assediados, para vender os seus lotes à beira-mar, principalmente para a construção de casas para o veraneio. Uma das moradoras antigas, que nasceu e foi criada quando criança na rua da praia (no Guaibim), apresentou o seguinte relato sobre o motivo da venda da residência de seus pais e do terreno:

100 “Painho trocou por uma canoa, calão76 e uma casa, aí passou para cá, para a rua do Arame.

Daí a gente se criou e formou família, tudo na rua do Arame.”

Da casa de palha à beira-mar, a senhora continuou a apresentar seu percurso até chegar à sua residência atual:

Depois que eu me casei eu morei na casa de meu sogro, depois me separei do marido e fui morar nas palafitas e daí a gente conseguiu essa casa... Eu peguei família e larguei o marido, aí eu fui e morei nas palafitas mais ou menos uns 5 anos. Aí a Conder veio e a gente começou a se mover, daí me colocaram como a líder e eu comecei a me envolver com a comunidade. Atualmente ela mora na comunidade de Santa Teresa, após ter sido transferida das antigas palafitas localizadas no ambiente fluviomarinho e as margens do rio Guaibimzinho (ainda próximo da faixa litorânea) para casas populares construídas pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER), com verbas oriundas do Programa de Urbanização e Regularização de Assentamentos Precários do Governo Federal, em parceria com a gestão municipal e estadual.

Utilizando o Google Maps para realizar o cálculo do tempo percorrido atualmente sem carro para a rua em que ela morava (a rua da Praia), a caminhada de 1,7 km dura em torno de 20 minutos. Fazendo o mesmo caminho para o Taquari77, atual área de pesca e coleta de crustáceo, por conta da ocupação da faixa de praia de sua antiga rua, ela faz o percurso a pé de cerca de 1 hora de relógio (5,6 km).

Retomando a história sobre a situação de seu pai, nas outras áreas observou-se o mesmo, antes mesmo da prática do turismo ser potencializada na década de 1990, grande parte dos terrenos ao longo do litoral já haviam sido loteados para a prática da vilegiatura marítima. Vale a pena ressaltar que o valor da terra foi crescendo à medida que o turismo se fortaleceu, e terrenos que eram trocados por barcos e casas mais interiorizadas atualmente não valem menos que alguns milhões de reais.

Quanto àqueles que permaneceram com seus lotes no litoral, com o tempo as áreas foram reduzidas por conta da divisão do terreno com os filhos, mas mesmo assim tiveram boas quantias em dinheiro com venda de parte da terra; fato observado na Península de Maraú por parte de dois agentes, um deles com uma área ampla em frente ao mar no valor de alguns

76 Tipo de rede muito utilizada na pesca tradicional da região, sua utilização consiste no uso da canoa (entre 6 a 10

metros) em águas rasas, realizando o cerco dos peixes por 6 a 8 pescadores. É muito frequente nas primeiras horas da manhã ver tal atividade no litoral da Costa do Dendê. Na retirada do pescado, é comum os moradores ajudarem e ganharem como retorno parte do que foi pescado.

101 milhões (sendo que o mesmo já havia sido parcelado entre irmãos, e em grande parte já vendido), no qual havia uma pequena hospedaria e área de camping.

Já no segundo caso, o proprietário vendeu quase toda a área na orla, e atualmente mora a cerca de 700 metros da praia e a poucos minutos da praça das Mangueiras em Barra Grande (principal área de comércio e serviços na península); e continua com suas atividades laborais, como a pesca, e com os mesmos hábitos de quando necessitava dessa atividade para sobreviver. Quando indagado o porquê de não mudar para outra cidade, ele respondeu, enquanto costurava sua rede de pescar, que não sabia fazer outra coisa, e que o dinheiro serviu para formar os filhos, comprar suas residências fora do município de Maraú e ter realizado o “pé-de-meia” para a sua velhice.

Apesar do mesmo não falar sobre valores, quando indagado sobre o primeiro caso (resguardando a confidencialidade sobre a fonte), na qual, segundo o morador recebeu a proposta de U$ 7 milhões para o que lhe restou do terreno margeando a praia, o segundo agente fez a seguinte análise:

Tem pessoas que têm patrimônios mais do que isso e anda simples, não tem um carro, não tem uma moto, não tem nem uma bicicleta, mas tem o patrimônio porque soube guardar e valorizar. A maioria dos moradores aqui tem duas casas e normalmente aluga uma, já tem quartinho, alguns têm pousadas... Enfim, não tem morador aqui hoje – no meu ponto de vista – morador nativo desamparado, pelo menos a maioria está amparado porque foram, digamos assim, inteligentes. Então eu acho que não jogou o pessoal pra fora não, o que vem acontecendo é pessoas que vêm de fora querendo ser donas de uma coisa que é de todos, uma coisa que os nativos sempre respeitaram, compartilhando com todos. Aí chega um de fora, se acha proprietário, se acha dono porque tem dinheiro, porque tem algum poder – até o povo dos políticos, né – e quer mandar em tudo, quer ser dono de tudo, quer ordenar tudo tirando o direito de uma coisa que deveria ser coletiva e passando a ser individual dele e da família dele.

Observa-se em tal fala o choque entre os valores no espaço e os valores do espaço, de como eles se relacionavam anteriormente e sobre as relações da ordem do privado. Ainda sobre essa leitura, além dos antigos moradores os novos capitalizados, há também a classe de trabalhadores que ocupam os bairros periféricos e com outra realidade no que tange ao acesso

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