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Section 1 : Le cadre épistémologique

1.2. La démarche d’analyse de la recherche

Esse artigo apresenta três tipos de caráter que seriam protótipos básicos capazes de fornecer direcionamentos para a compreensão caracterológica e diretrizes clínicas de tratamento. Reich retoma algumas funções gerais do caráter, tais como a evitação de estímulos e a tentativa de manutenção do equilíbrio psíquico, que significa dizer esquivar-se de qualquer mudança abrupta nos níveis de excitação intra-psíquicos. Para o autor, o tipo de caráter será determinado, especialmente, por dois elementos inter- influenciáveis: o caráter do principal cuidador da criança e a fase de desenvolvimento em que a pulsão é mais intensamente frustrada.

O olhar reichiano se volta para alguns aspectos do caráter, numa tentativa de somá-los a fim de entender a dinamicidade da formação, manutenção e funcionamento do mesmo. Componentes como a aparência externa do caráter, seus mecanismos internos e a história de sua origem investigados pela análise, fornecem a equação necessária para o desenrolar e êxito do tratamento. O autor se propõe a discutir os caráteres histérico, compulsivo e fálico-narcisista, muitas vezes comparando-os no intuito de, pelas diferenças, encontrar as peculiaridades de cada um. Parte, então, da suposição ―de que toda forma de caráter, em termos de sua função básica, representa um encouraçamento contra os estímulos do mundo externo e as pulsões internas recalcadas‖ (REICH, 1933/2001, p. 197). Mais do que isso, alega que ―a forma externa desse encouraçamento é sempre historicamente determinada‖ (p. 197). È importante percebermos que o teórico parece,

pouco a pouco, dar mais ênfase às manifestações visíveis, à forma externa, em como o caráter se expressa para o mundo externo e, somado a isso, as intercorrências advindas do mundo externo, determinando alguns aspectos do caráter.

O primeiro a ser discutido é o caráter histérico e, para Reich, ―representa o tipo de couraça do caráter mais simples e transparente‖ (p. 197). Cita alguns traços caracterológicos típicos como ―atitude sexual inoportuna [...] um tipo específico de agilidade física que exibe um matiz sexual inconfundível [...] coquetismo disfarçado ou indisfarçado no modo de andar, olhar ou falar‖ (p. 197, grifo do autor). Vemos destacados elementos ligados a uma provocação sexual, sedução, externados de forma inconsciente ou não, isso porque ―o caráter histérico é especificamente determinado por uma fixação na fase genital do desenvolvimento infantil‖ (p. 199). Dessa maneira, o autor aponta que esse tipo de caráter ―sofre sempre de uma perturbação sexual grave [...] é atormentado por uma estase aguda da libido genital não absorvida‖ (p. 199). Posto isso, destaca características ligadas à couraça do arquétipo histérico, citando que ―a natureza de seu encouraçamento [...] é muito menos compacta e estável que a do caráter compulsivo. No histérico, a couraça constitui [...] uma defesa egóica ansiosa contra os empenhos incestuosos genitais‖ (p. 199). Não faz parte de nosso empenho principal entrar no detalhamento que Reich vai tecendo a fim de fundamentar alguns vieses do caráter histérico. É válido ressaltar como está presente o uso da sexualidade como defesa e a couraça resistindo aos conteúdos incestuosos recalcados.

Um curioso ponto levantado pelo autor é que esse tipo caracterológico apresenta dificuldades para utilizar parte da libido a favor de sublimações, realizações de ordem intelectual e formações reativas - tudo isso ocorreria em menor grau quando comparado a outros tipos de caráter. Para ele, ―nem mesmo o encouraçamento do caráter está solidamente desenvolvido‖ e mesmo ―as excitações genitais completamente desenvolvidas estão mal- adaptadas para finalidades outras que não a satisfação direta‖ (p. 201). Desse modo, vemos que, ao contrário de muitas críticas infundadas, Reich não

defende que a genitalidade e a satisfação direta seriam as curas das neuroses. Na realidade, parece que um balanço adequado entre realizações intelectuais, sublimações e a satisfação sexual genital, proporcionariam um equilíbrio psíquico regulado.

Em relação à couraça, nos parece que seu processo de edificação não ocorre de maneira efetiva. Ela é descrita como simples, transparente, pouco compacta, pouco estável e subdesenvolvida, dando a impressão de não cumprir muito bem sua função de, também, ligar parte da libido excedente, tanto que o autor não deixa de citar a ―forte tendência para incorporar conflitos psíquicos em sintomas somáticos‖ (p. 198), característica dos quadros histéricos.

Ao discorrer sobre o caráter compulsivo, cita a couraça durante a explicação sobre o desenvolvimento da libido. Antes disso, detalha traços gerais típicos desse caráter, tais como um forte sentido de ordem, perfeccionismo e pouca espontaneidade, tendências para pensamentos minuciosos e repetitivos – o que o leva a distribuir sua atenção uniformemente para questões de maior e menor importância. Apresenta também, mais capacidade para produzir do que para criar, traços de indecisão, dúvida e desconfiança, além de forte reserva e autodomínio. Em suas manifestações de amor e ódio, expõe-se de maneira pouco alterada ou morna, o que pode progredir, segundo o autor, para um quadro de completo bloqueio de afetos. Em relação ao desenvolvimento psicossexual infantil, o autor esclarece a trilha formativa do caráter compulsivo até a adultez, apontando as especificidades. Nessa exposição, cita que

quando a criança chega à puberdade – fase em que é exposta às mais poderosas pressões da maturação física – terá de repetir brevemente o antigo processo, sem obter a realização das exigências da maturidade sexual, se a couraça do caráter for forte (p. 205).

O teórico destaca a importância da couraça e o quanto a mesma opera importantes funções caracterológicas. O processo a que se refere é o de maturação fisiológica e psicossexual, sendo que nesse caso, há fixação na posição anal-sádica que pode ser regressivamente reativada. Os impulsos agressivos do caráter compulsivo são absorvidos pelo bloqueio de afetos, componente da couraça do caráter. Se essa é forte, o estado de controle excessivo das emoções é fortalecido. Reich destaca que ―no começo, só os impulsos agressivos sejam liberados; os impulsos genitais aparecem muito mais tarde. Assim, podemos dizer que a energia agressiva ligada compõe a camada externa da couraça do caráter‖ (p. 206). Trata-se, portanto, de um trabalho com a couraça a fim de liberar afetos represados.

Nesse ponto, o teórico insere interessantes observações complementares à leitura psíquica desse caráter, acrescentando um olhar para o corpo de maneira que não havia feito até esse momento em sua obra. Para ele

o bloqueio de afetos representa um enorme espasmo do ego, que faz uso das condições espasmódicas somáticas. Todos os músculos do corpo, mas especialmente os do assoalho pélvico e da pelve, os músculos dos ombros e da face (note-se fisionomia ―dura‖, quase uma máscara, dos caracteres compulsivos), estão num estado de hipertonia crônica (p. 206, grifo do autor).

Verificamos claras indicações de musculaturas específicas envolvidas no bloqueio de afetos, apontando tais operações também no nível somático. Segundo o autor, músculos desenvolveriam tonicidades alteradas e isso se daria concomitantemente com os processos psíquicos e afetivos e tal bloqueio teria direta relação com a couraça do caráter. Reich defende que muitas das suas constatações vêm de suas experiências clínicas e, baseado nisso, afirma que ―se a análise do bloqueio de afetos é feita corretamente, a irrupção do conflito central é obtida, e os investimentos correspondentes são restituídos às posições antigas, o que equivale à dissolução da couraça‖ (p. 207). Fica

uma sugestão para o trabalho com a couraça, procurando dissolvê-la para que se rompa o bloqueio e afetos, conteúdos, conflitos possam brotar de camadas mais profundas.

O último caráter a ser analisado – o fálico-narcisista – é situado pelo autor entre os outros dois já discutidos. São suas particularidades a exibição de superioridade, autoconfiança, arrogância e ações enérgicas. Pode se apresentar ―friamente reservado‖, ―desdenhosamente agressivo‖ e ter comportamento ―eriçado, como disse certa vez um representante desse tipo‖ (p. 209, grifo do autor). Como na descrição dos outros dois protótipos, Reich acrescenta que ―fisicamente, em geral o caráter fálico-narcisista é predominantemente um tipo atlético [...] suas feições revelam geralmente linhas masculinas duras e marcadas‖ (p. 209). Tipos assim têm grande probabilidade de alcançar posições de liderança na vida, ao contrário daqueles com características mais servis. Em relação a esse último, o autor opõe ao fálico-narcisista, o caráter passivo-feminino, no entanto, alerta que todos têm uma base infantil. Ressalta, todavia, a função defensiva de comportamentos agressivos, pois tais teriam função de compensar e evitar impulsos contrários.

Em relação à estrutura e gênese desse caráter, alerta sobre a interligação de impulsos que alcançam satisfações imediatas no comportamento fálico-narcisista e outros ―que formam o aparelho de defesa narcísico‖ (p. 211). Certos exageros comportamentais comprovam fixação na fase fálica do desenvolvimento psicossexual e justificam a defesa ―contra um

retrocesso às fases anal e passiva‖ (p. 212, grifo do autor). O que nos

interessa é o destaque dado pelo teórico ao movimento defensivo contra impulsos passivo-femininos, indicando que num tratamento analítico, ―os indícios de passividade e tendências homossexuais anais não devem ser imediatamente buscados em profundidade; de outro modo, a defesa narcísica se fortalecerá, em geral, até o ponto de completa inacessibilidade‖ (p. 214).

Conforme detectamos, na discussão desse último tipo caracterológico, não houveram citações literais da couraça, mas o aparelho de defesa narcísico

– ou defesa narcísica – foram usados, como em outros textos, no mesmo sentido da couraça.