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Le couple forme et mobilité : à quand le divorce ?

PARTIE I. MOBILITES URBAINES : FACTEURS DE DEVELOPPEMENT ET ELEMENT STRUCTURANT ELEMENT STRUCTURANT

CHAPITRE 2. MOBILITES : FACTEURS DE PRODUCTION ET D’ORGANISATION DE LA VILLE

2.1. La production urbaine et ses déterminants

2.1.4. Le couple forme et mobilité : à quand le divorce ?

Percebe-se atualmente que, à medida que o sujeito vivencia a ilusão de uma apropriação literal do objeto, mais se perde em um tipo de alucinação psicopatológica, diferente da alucinação “saudável”, a que se manifesta diariamente nos sonhos e nos chistes, como Freud já demostrava em A Interpretação dos Sonhos (1900) e na Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), que tem uma função reparadora, quando se pensa o lugar que o sujeito deve se colocar frente ao objeto, diferente de alucinar que se pode acessar o objeto do desejo.

80 Se o sujeito apreende o objeto em sua dimensão real, ele – sem a mediação ficcional – passa a vivenciar uma alucinação dos laços sociais, consequentemente os resultados serão percebidos na forma como ele os representa. Na contemporaneidade, surgem várias maneiras de tentativas de apropriação do objeto, que não são necessariamente uma psicose em termos de estrutura do sujeito. Há uma intolerância à frustração e decepção em relação à limitação que os objetos apresentam nos laços sociais e afetivos.

A partir do momento em que o objeto se transforma só em objeto de consumo, manifestam-se variadas formas de consumi-lo. Ele pode aparecer sob a forma da beleza, o último véu antes da castração, sustentado pela idealização e pelo discurso social, justificando sua fabricação como promessa de felicidade. Freud (1930/2010) aponta que a tecnologia e a fabricação de objetos têm por finalidade reduzir o sofrimento humano:

Com a câmera fotográfica ele criou um instrumento que guarda as fugidias impressões visuais, o que o disco de gramofone também faz com as igualmente transitórias impressões sonoras; no fundo, os dois são materializações da sua faculdade de lembrar, de sua memória. Com o auxílio do telefone ele ouve bem longe, de distâncias que seriam tidas por inalcançáveis até mesmo em contos de fadas; a escrita é, na sua origem, a linguagem do ausente, e a casa, um sucedâneo do útero materno, a primeira e ainda, provavelmente, a mais ansiada moradia, na qual ele estava seguro e sentia-se bem. (1930/2010, p. 51)

Ao reler essa citação de Freud, em que ele descreve a funcionalidade do telefone para se poder ouvir a grandes distâncias algo de ordem mágica, imaginem se ele tivesse conhecido a internet, os smartphones, os tablets? No entanto, nós que vivemos na era da contemporaneidade, percebemos que, apesar de toda essa tecnologia avançada e funcional, o sofrimento psíquico é muito pouco atenuado, até mesmo originando novos sintomas respaldados por toda essa tecnologia, que incita o sujeito a gozar incessantemente. Os gadgets da contemporaneidade, apesar de viabilizarem novas formas de satisfação da pulsão, alienam os sujeitos à dependência deles.

81 A psicanálise é embasada pela ética do desejo. O aparelho psíquico é constituído a partir de uma alucinação de um objeto de satisfação perdido, que resulta um resto, como sinal de seu desaparecimento, como citado acima. O sujeito, após vivenciar essa experiência alucinatória, tentará, de todas as formas, a “fazer acontecer” novamente o contato com o objeto perdido. Uma das tentativas dessa operação se dá no campo das idealizações, onde o fracasso se repete na busca do objeto desaparecido.

Lacan nos diz:

Por causa da existência do inconsciente, podemos ser esse objeto afetado pelo desejo. Aliás, é na condição de ser assim marcada pela finitude que nossa própria falta, sujeito do inconsciente, pode ser desejo, desejo finito. Na aparência, ele é indefinido, porque a falta, que sempre participa de algum vazio, pode ser preenchida de várias maneiras, embora saibamos muito bem, por sermos analistas, que não a preenchemos de mil maneiras. (1962-1963/2005, p. 35)

O capitalismo e a tecnologia, enquanto obturadores de uma fratura real, teriam como funções rearticular órgãos, provocar sensações e normalizar as funções corporais e as demandas pulsionais. Estes vêm ocupar o imaginário, para que esse sujeito possa, no mínimo, continuar existindo como sujeito, apesar de esse processo não dar conta de sua subjetividade, de seu desejo, além de limitar seus laços com o outro em termos de afetividade.

Como desafio, a psicanálise, por meio da ética do desejo, tratando os sujeitos e as suas singularidades, tenta apresentar uma resposta a essa realidade atual, na qual a sociedade e a mídia promovem um discurso que privilegia a autossuficiência do sujeito, em que o outro em sua presença real é descartado, em detrimento dos artifícios tecnológicos, gadgets ou engenharia genética. Dito de outra forma, a psicanálise é convocada a falar sobre o que Freud já apontava no texto Além do Princípio de Prazer (1920), que seria uma marca exagerada de um gozo sem barra, influenciado pela ilusão de potência que o discurso tecnocientífico propõe pela via do consumo.

82 Esse progresso de que estou falando (. . .) é homogêneo ao de nossa economia. Esta, com efeito, é capaz de nos fornecer objetos sempre mais fantásticos, mais próprios a nos fornecer satisfações, tanto objetais quanto narcísicas. Graças a eles, não se trata mais de se satisfazer com representações, mas com o próprio autêntico, com o objeto não mais representado, mas efetivamente ali, presente na realidade. (2003b, p. 28) Vemos que essa tentativa do Outro da Tecnociência4 e do Outro Social está sempre apontando para a existência de um objeto ideal que possa proporcionar a autossuficiência no sujeito e sanar as dificuldades, em que o sujeito é marcado estruturalmente, devido a sua divisão dialética ante a ausência e a presença.

Isso também é percebido na economia de significantes na sociedade contemporânea, empobrecendo o discurso, levando o sujeito a atuar cada vez mais no corpo, a fim de buscar sensações que eliminem o mal-estar. Esse imediatismo o impossibilita de entrar em contato com o seu desejo e de simbolizar, o que o faria entender o motivo de seu mal-estar e encontrar alternativas a partir de uma reflexão consciente, e não de um modelo proposto pelo Outro Social e Tecnológico. Assumindo essa posição frente a sua angústia, o sujeito emudece e responde com sintomas no corpo, como, por exemplo, anorexia, bulimia ou obesidade, adições das mais variadas e também atos compulsivos frente aos objetos de consumo, tais como a dependência de gadgets e vícios em jogos virtuais, formas de vivenciar o gozo, que precisaria ser mediado pela palavra e pelo desejo.

Diante dessa realidade, retomar conceitos como trauma e objeto é sempre pertinente para se repensar as opções subjetivas para o sofrimento psíquico do sujeito contemporâneo. Pode-se iniciar com o questionamento: - O que se pode fazer a respeito com o resto que sobra

4 O conceito de tecnociência foi adotado por Gilbert Hottois, em 1984, na obra Le Signe et la technique: La Philosophie à l’épreuve de la technique. Bruno Latour e a filósofa americana Donna Haraway o popularizaram. O termo cunhado por Hottois significa a ciência produzida no contexto da tecnologia e por esta dirigida (Koslowski, Adilson, 2015, recuperado em 25 de março de 2019 de

83 de qualquer operação econômica dos significantes? Lacan nos mostrou que esse encontro está ligado a tiquê:

A função da tiquê, do real como encontro – o encontro enquanto que podendo faltar, enquanto que essencialmente é o encontro faltoso – se apresenta primeiro, na história da psicanálise, de uma forma que, só por si, já é suficiente para despertar nossa atenção – a do traumatismo. (1964/1988, p. 57)

O real, que se estende do trauma à fantasia, e esta funciona como uma tela que encobre algo primário e determinante na função da repetição. Localiza-se aí o resto. O real pode ser representado pelo acidente, pela mínima realidade que nos mostra que não estamos sonhando. Se o encontro é sempre faltoso, o sujeito nunca encontrará o objeto, a não ser pela via da idealização. Todavia, a ciência e a tecnologia, por meio do seu discurso, consumo e gadgets, oferecem ao sujeito uma resposta enganosa para esse encontro do sujeito com o real. Há uma tentativa de ocultar a presença do resto e sabemos que é ele que possibilita a recuperação criativa desse trauma estrutural. Para Lacan:

O real, é para além do sonho que temos que procurá-lo – no que o sonho revestiu, envelopou, nos escondeu, por trás da falta de representação, da qual lá só existe um lugar-tenente. Lá está o real que comanda, mais do que qualquer outra coisa, nossas atividades, e é a psicanálise que o designa para nós. (1964/1988, p. 61)

Esse engodo do capitalismo promove uma redução do mal-estar, provocando no sujeito reações neuroquímicas, pois o objeto de consumo visa rivalizar com o semblante objeto que causa o desejo, criando um círculo vicioso, em que o sujeito é levado a consumir cada vez mais os gadgets e aparelhos tecnológicos. Presenciamos a cada dia o aumento dos anestésicos da contemporaneidade, incentivados e explorados pelo consumo exacerbado.

A partir do momento em que o sujeito tem a ilusão de que não tem trauma, dificulta suas condições para subjetivar. Aos poucos, suas marcas que conduziriam à construção do inconsciente são reduzidas, o objeto de consumo incute a ilusão da inexistência do resto, como já dito anteriormente. Sabe-se que é por meio da linguagem que o sujeito tem a oportunidade de construir a verdade. Porém, em tempos de consumo de tudo, a subjetivação pelo discurso e

84 a construção de uma ficção individual do sujeito são descartadas em detrimento ao gozo do consumo e das relações virtuais que não fazem laço social, somente somam números nas redes sociais. Gozo esse que, por ser fugaz, demanda constantemente um alívio imediato e constante, como a droga para o adicto.

Numa parceria assertiva, o Outro da Tecnociência e o sistema capitalista vêm conquistando terreno em todos os pontos do mundo, a globalização foi o grande “pulo-do-gato” de ambos. Com um discurso enfático e convincente, as grandes corporações prometem aos sujeitos o novo modelo de gadget, criando expectativa e acionando seu imaginário em relação ao novo objeto que o satisfará e o anestesiará frente a um mundo tão desigual, injusto e sem garantias. Os gadgets rapidamente saem das prateleiras para ocupar espaço nas vidas dos sujeitos, proporcionando esse gozo imediato e a ilusão de que é possível ter o objeto ideal, ou seja, aquele que proporcionará o prazer ilimitado.

O sujeito é indiscutivelmente bombardeado pelo Discurso do Capitalista, que o envolve e o atinge em sua articulação fantasmática, quando se analisa sua relação com o objeto. Este ponto de efeito entre o que é o sujeito e o Outro mapeia a sociedade atualmente, em termos do que o sujeito deve ter e aquilo que deve ser.

De acordo com Teixeira:

Este Outro tanto pode ser eventualmente encarnado por figuras da realidade, quanto permanecer a maior parte do tempo como um puro lugar, entidade impessoal de cuja intencionalidade, contudo, jamais duvidamos. Nada demais, portanto, que cada sociedade e cada época confiram a ele a forma que melhor lhe convém. Assim, se até há pouco tempo era de praxe concluir a enunciação de projetos e anseios com a formula propiciatória “Se Deus quiser!”, hoje em dia é de bom-tom proferir: “O mercado decidirá!” (2005, p. 153-154).

Sendo assim, com o intuito de compreender melhor essa estratégia alienatória, é fundamental neste trabalho abordarmos como funciona e atua o Discurso do Capitalista.

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