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A avaliação da ingestão dietética é provavelmente o método indirecto mais utilizado para avaliação nutricional.145 É necessário conhecer a ingestão e as necessidades nutricionais para identificar excessos ou carências e adequar a intervenção nutricional.

Avaliação da ingestão dietética

Existem diversos métodos para avaliação da ingestão dietética. Os questionários de frequência alimentar (QFA), a recordação dietética e a história dietética em termos retrospectivos e prospectivamente os registos alimentares e pesagem de alimentos.

Existem QFA qualitativos, quantitativos ou semi-quantitativos. Os QFA qualitativos apenas fornecem indicação sobre o tipo de alimentos consumidos, enquanto os quantitativos são mais completos fornecendo informação adicional sobre as quantidades ingeridas. Nos QFA quantitativos os indivíduos reportam livremente a quantidade ingerida, e nos QFA semi-quantitativos a quantidade ingerida é indicada em comparação com uma porção pré-definida.146

A história dietética consiste numa entrevista completa e detalhada para avaliar a ingestão alimentar habitual com descrição pormenorizada da ementa semanal/mensal, modo de preparação/confecção/desperdícios, consumo de alimentos sazonais, e toda a informação que leve à melhor caracterização da ingestão. Este é considerado um método

gold standard para avaliação da ingestão dietética. A recordação dietética é recolhida

pelo entrevistador e geralmente reporta as últimas 24 horas do indivíduo. Este é questionado sobre todos os alimentos que ingeriu e modo de confecção. É apresentada uma lista de alimentos que possam ser esquecidos pelo entrevistado (lista de esquecidos) e termina com a revisão para confirmação dos dados obtidos.147

Nos registos alimentares, solicita-se aos indivíduos que assentem todos os alimentos que ingerem ao longo de um determinado período. Na pesagem de alimentos o procedimento é idêntico incluindo o registo do peso do alimento, o que permite uma melhor determinação da porção. Todos os métodos para quantificação da ingestão dietética apresentam vantagens e desvantagens, e a escolha do método deve ser adequada ao objecto do estudo, aos recursos e à população, Quadro 3.145

Quando os indivíduos estão em equilíbrio energético, sem apresentarem alterações do estado nutricional, a ingestão energética deve ser superior a 90% do gasto energético

em repouso. Caso se verifique um aporte energético inferior, considera-se subnotificação da ingestão nutricional.61, 148, 149

Quadro 3: Métodos para avaliação da ingestão dietética, vantagem e desvantagens

Método de avaliação da ingestão dietética Vantagens Desvantagens Questionários de frequência alimentar Não necessita de um entrevistador; económico Estima a ingestão habitual; Rápido e fácil de administrar; Não altera o padrão de consumo;

Classifica os indivíduos em categorias de consumo;

Investimento na elaboração do questionário; Não têm validade em padrões alimentares diferentes; a ser validado para cada população; Depende da memória;

Difícil estimar o tamanho das porções; A recordação da ingestão anterior pode ser influenciada pela ingestão actual;

A sua complexidade e extensão podem influenciar a adesão.

Recordação dietética

Tempo de administração; Não altera a ingestão habitual; Permite apenas um contacto; Permite aplicação em analfabetos;

Método económico.

Não estima a ingestão habitual de um indivíduo; Difícil estimar o tamanho das porções;

Depende da memória e colaboração; Necessita vários registos para representar a ingestão real;

Necessita de um entrevistador treinado.

História dietética Descrição completa e detalhada da ingestão alimentar habitual; Permite aplicação em analfabetos.

Necessita de um entrevistador treinado; Obriga a grande dispêndio de tempo e cooperação pelo entrevistado; Viés do entrevistador.

Registos alimentares

Precisão no tamanho das porções;

Não depende da memória.

Necessita de um entrevistador treinado Não pode ser usado em analfabetos; Obriga a grande dispêndio de tempo pelo entrevistado;

Pode influenciar/modificar o padrão de ingestão; Diminuição de precisão com o aumento de dias de registo.

Adaptado de: Lee, R.145

Avaliação do apetite

A avaliação do apetite pode dar informação sobre a ingestão dietética. Por ser influenciada por vários factores, metabólicos e psicossociais pode parecer subjectivo relacionar a ingestão de alimentos com o apetite, mas é geralmente mais fácil de avaliar e apresenta uma correlação forte com a ingestão dietética.150 Têm sido desenvolvidos diferentes métodos de avaliação do apetite que podem ser mais ou menos extensos e incluir ou não emoções151. Para a população em HD, foi desenvolvido um questionário com 48 questões, dividido em três partes, a primeira avalia o apetite no geral, a segunda e terceira avaliam respectivamente hábitos nutricionais e apetite nos dias em que o doente realiza HD e nos dias sem HD152 Num estudo com 330 doentes, Kalantar-Zadeth e

col., seleccionando apenas 3 questões desse questionário, estabeleceram uma associação entre o apetite, o número de internamentos e mortalidade.153

O apetite pode ainda ser avaliado pelo preenchimento de uma escala visual analógica onde o indivíduo assinala a intensidade do seu apetite.150 Em doentes a realizar HD este método apresenta boa correlação com a ingestão alimentar.154 É igualmente avaliado em questionários de avaliação subjectiva global que integram questões sobre o apetite fornecendo informação indirecta sobra a ingestão dietética.

Avaliação do gasto energético

A avaliação do consumo ou gasto energético é importante para determinar as necessidades em energia e avaliar a adequação da intervenção nutricional. O gasto energético pode ser avaliado através de fórmulas preditivas, calorimetria directa ou indirecta e água duplamente marcada. Existem várias fórmulas preditivas, sendo a mais utilizada a de Harris & Benedict,155 que calcula o metabolismo basal a partir de equações obtidas por estudo de calorimetria baseado no sexo, idade, peso e altura. As fórmulas apresentam a vantagem da fácil, rápida e económica aplicação, mas podem sobre ou subvalorizar o gasto energético.95, 156 Ao valor obtido acrescenta-se a energia despendida com a actividade física. Para avaliar a actividade física do indivíduo no seu ambiente podem aplicar-se questionários ou utilizar sensores de movimento.

A calorimetria directa requer uma câmara sofisticada, onde é avaliada a temperatura e o vapor de água libertados pelo organismo, onde o indivíduo deve permanecer por um período mínimo de 24 horas.156 A calorimetria indirecta, de aplicação mais fácil que o método directo, mede a produção de energia a partir das trocas gasosas do organismo com o meio ambiente; é analisado o ar inspirado e expirado pelo indivíduo num determinado período de tempo, calculando o consumo de oxigénio e a libertação de dióxido de carbono, e calculado o coeficiente respiratório. Com estes dados, pela equação de Weir, é calculado o gasto energético, GER ou MB dependendo das condições. O indivíduo respira sob uma campânula para recolha de gases157 e devem respeitar-se algumas condições como ambiente silencioso, iluminação fraca e temperatura confortável, para evitar alterações causadas por frio ou ansiedade. O indivíduo deve estar em repouso pelo menos 30 minutos antes da colheita de dados e observar um jejum mínimo de 3 horas na avaliação do GER e de 10 horas na avaliação do MB.157

A água duplamente marcada é considerada o método gold standard para avaliar o consumo energético. O indivíduo ingere uma dose de água marcada com isótopos não radioactivos de oxigénio (18Oxigénio e 2Hidrogénio). O 18Oxigénio é eliminado na libertação de dióxido de carbono e de água, enquanto o 2Hidrogénio é eliminado apenas na água. A diferença nas taxas de eliminação desses isótopos, corrigidas pela água corporal, indica a produção de gás carbónico, que por equações de calorimetria indirecta é convertido em gasto energético. Este método é dispendioso, pelo que a sua utilização está reservada a estudos laboratoriais com número limitado de indivíduos ou para validação de outros métodos.

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