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CLASSIFICATION DES R ´ ESEAUX DIVERS 153 leurs directions sp´ecialis´ees autonomes Gaz de France R´eseau Distribution et EDF R´eseau

Sous-Section 1 – Les r´ eseaux publics et priv´ es d’´ energie

CHAPITRE 2. CLASSIFICATION DES R ´ ESEAUX DIVERS 153 leurs directions sp´ecialis´ees autonomes Gaz de France R´eseau Distribution et EDF R´eseau

A família carenciada que é motivo de reportagem e de generosidade, ou o professor da filha da jornalista, sobre o qual terá que escrever; o diretor do jornal que é interpelado por populares com dicas de reportagem; o vereador ou padre que “encomendam” notícias. Estes são alguns exemplos relatados, lidos ou vividos, que fazem o dia a dia dos jornalistas da imprensa regional. Também eles cidadãos, residentes num determinado território. Homens e mulheres por trás dos profissionais, que constantemente têm que gerir (des)aproximações. Com chefias, públicos e fontes. Vivências que se fazem dentro e fora das redações e que são muito frequentes na imprensa regional.

“O melhor perfil que se pode traçar sobre os jornalistas da imprensa regional é ter em conta as condições em que trabalham e a permanente dificuldade em afirmarem a sua autonomia e a sua liberdade de expressão” (Pascoal, 1996). A autora recupera aqui a característica que repetidamente surge para distinguir esses média: a proximidade. Mais do que aquela que se relaciona com a geografia de produção e distribuição da informação, há que considerar a que ocorre entre os diferentes atores. Os políticos são, provavelmente, o exemplo mais flagrante. É do seu dia a dia, das decisões que assumem ou deixam de assumir que se “alimenta” a imprensa regional. Seja por iniciativa própria ou vinda do exterior. A existência de gabinetes de comunicação nas autarquias, sobretudo câmaras municípais, permite-lhes explorar uma das fragelidades de muitas publicações regionais, que se prende com os reduzidos recursos. Há, assim, uma forte dependência das agendas institucionais. No seu estudo de caso, Cristina F. Vilaça (2008) observa que em relação aos comunicados enviados pela autarquia de Braga para toda a imprensa, apenas a regional os publica ou faz respetivo tratamento noticioso.

“Ao assessor de imprensa compete criar e manter relacionamentos com os órgãos de comunicação social, neste caso em especial com a imprensa local. Estes têm como principal função a redação e disponibilização de toda a informação aos jornalistas, bem como de imagens fotográficas, e a promoção de ações da própria organização. Os contactos com as organizações noticiosas são contínuos e permanentes, pois na autarquia os assuntos surgem a todo o momento e há a necessidade de dar conta de todos esses acontecimentos de forma atualizada, para que não percam interesse nem para a organização nem para o jornalista. Além disso, a continuidade da comunicação é fundamental, uma vez que há uma imensidão de fontes de informação que fazem chegar comunicados às redações dos meios de comunicação. Por isso, é importante conseguir ser tema de notícia” (idem: 41).

No mesmo estudo, a autora observa que é frequente não haver qualquer tipo de edição, com os comunicados a serem publicados na íntegra (ou quase). “Na maioria das vezes, os jornalistas não alteram nem o conteúdo nem as palavras dos comunicados que recebem da autarquia. Aliás, nem sequer as confrontam com opiniões de outras fontes, sejam partidos

políticos, organizações não-governamentais ou outros atores sociais” (ibidem: 63). Uma prática acomodada, de jornalismo copy/paste, motivada pela dificuldade que os meios e os seus profissionais têm em enfrentar as autarquias e os seus atores. Essa realidade fica a dever-se à veneração pelo poder político, à proximidade entre os proprietários dos jornais e à precariedade das publicações e dos seus jornalistas (Carvalheiro, 1996; Amaral, 2006; Ribeiro, 2008). Uma realidade que se agrava quanto maior é a proximidade. No caso das publicações regionais e locais, o exercício de um jornalismo independente é frequentemente condicionada pela dependência económica das instituições. O fato dos anúncios institucionais serem uma importante fonte de receita para esses jornais, por vezes são também o principal fator que inibe a publicação de notícias que possam ser consideradas incómodas para as instituições visadas. “As autarquias são, nessa medida, apresentadas como grandes meios de pressão” (ERC, 2010: 109). Não são porém as únicas. Joaquim Duarte, jornalista e diretor de O Ribatejo, recorda a vez em que foi abordado por uma empresa, para a qual seria útil ter a publicação como aliada, de modo a ganhar determinado concurso. “Se o conseguirmos – dizia o meu interlocutor, enquanto eu fingia que não o ouvia – pode contar com dois por cento do lucro” (cit. Rebelo, 2011: 397). O próprio contexto europeu de crise económica agrava a situação, como recupera Alfredo Maia, presidente do SJ, ao referir que “a pretexto da crise as empresas estão a aproveitar para emagrecer os seus quadros redatoriais e com isso reduzir os custos com a mão de obra e em especial com os jornalistas” (cit. JornalismoPortoNet, 2009).

Mas não é só em relação às autarquias ou empresas que existem dependências. O mesmo sucede com as agências de comunicação ou organismos eclesiais. Sobre estes últimos, Manuel (2010) regista que é frequente encontrarem-se homilias, discursos ou mensagens de bispos e padres publicados na íntegra nas páginas dos jornais regionais da Igreja Católica. Aquilo que o autor relata na sua tese é-nos familiar, pois conhecemos por

dentro uma das redações estudadas. As vivências acumuladas ao longo de cerca de sete anos

num semanário regional de inspiração cristã, permitem-nos corroborar o que defende. Do padre conhecido ao cidadão desconhecido, todos queriam ver os seus escritos publicados e na integra. Fossem opiniões ou “notícias”. O fato de serem maioritariamente dirigidas ou administradas por padres, isto é, pessoas com outras prioridades e geralmente sem formação na área, levou a que estas publicações se fossem tornando permissivas à entrada de quase todos os conteúdos que lhe chegassem. Não será, porém, este o único argumento. A dependência pelo trabalho voluntário em detrimento do profissional, também levou a que esses conteúdos fossem (e sejam) bem-vindos. Entretanto, as publicações que se profissionalizaram ou que tentaram percorrer esse caminho, depararam-se com um passado e um público ainda habituado a determinadas práticas. Fazer a gestão dessa relação de proximidade não é naturalmente fácil, na medida em que é quase inevitável que seja frente a frente. Entradas extemporâneas nas redações (Rebelo, 2011; Ribeiro, 2010) ou abordagens nas ruas, fazem parte do dia a dia de quem trabalha na imprensa regional ou local. “É muito difícil desenvolver projetos sólidos e com independência nas regiões” (Mesquita cit. Rebelo, 2011: 369).

regista-se no quotidiano dos jornalistas. Sobretudo nas suas relações com eventos, atores e fontes dos grandes centros, como Lisboa ou Porto. Um dos problemas registados pela ERC (2010) e por nós, pela experiência profissional e pelos relatos de colegas jornalistas, prende-se com a dificuldade em contactar, por exemplo, com fontes ou organismos governamentais. Estes demonstram mais disponibilidade e celeridade para com os jornalistas dos média considerados nacionais, do que para os dos regionais. Curiosamente, a mesma tendência também se verifica aos níveis local e regional, onde as fontes são mais seduzidas pelos média nacionais, embora a sua presença nesses territórios não seja tão frequente.

Há ainda a considerar as questões concorrenciais, isto é, quando o mesmo território é partilhado por várias publicações, não só do ponto de vista editorial, mas também comercial. Ribeiro (2008) recupera essa questão num estudo de casos, ao referir que há instituições que “não podem ser hostilizadas”, sobretudo quando as mesmas anunciam em mais do que um jornal. Neste caso a proximidade pode condicionar a independência tanto das publicações como dos seus jornalistas. O tempo é outro dos fatores determinantes nas rotinas dos profissionais da imprensa regional. A esse propósito, a autora refere existir uma “’incongruência’ entre a vontade que os jornais têm de aumentar os artigos que tiveram origem em iniciativas dos jornalistas e o fato de não ser dado tempo para poderem desenvolver as ‘estórias’” (ibidem: 10). A profissionalização de algumas instituições ao nível da comunicação, nomeadamente com a criação de gabinetes e assessorias, é outro fator a considerar. Às redações chegam cada vez mais comunicados, o que resulta numa maior fixação dos jornalistas à secretária, precisamente porque são em número reduzido. Isso implica que sejam frequentemente confrontados com um acumular de funções, como a de paginador, revisor, distribuidor ou até angariador de publicidade, algo que é legalmente incompatível com o exercício da profissão (Estatuto do Jornalista, artigo 3.º). “Muitas vezes, a pressão da direção acaba por se fazer à custa do próprio emprego, sobretudo quando existe apenas um jornalista que 'faz tudo'”96. Perante este contexto, o tempo e o espaço para o desenvolvimento de outros géneros jornalísticos mais densos, como a reportagem ou a entrevista, são cada vez mais escassos. Os jornalistas passam a estar com mais frequência na redação e menos na rua. A edição de conteúdos externos sobrepõe-se à produção própria. Uma realidade que o aparecimento da Internet parece ter adensado.

96 Patrícia Posse, autora da dissertação Ciberjornalismo à escala regional: Aproveitamento das potencialidades da Internet nos oito jornais com presença online ativa dos distritos de Bragança e Vila Real (2011) e jornalista com experiência acumulada em publicações regionais e locais, ao autor.

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