Atualmente, os média e as “novas” tecnologias de informação permeiam a vida dos indivíduos180. Vários/as autores/as (Bragg e Buckingham, 2010; Plummer, 2003; West, 1999) referem a presença massiva de questões relacionadas com a sexualidade nos meios de comunicação social e na internet, apontando para o que chamam de “sexualização” da sociedade (Attwood, 2006, 2010; Bragg e Buckingham, 2010; Gill, 2010; Harvey e Gill, 2011; Johansson, 2007)181. Esta “sexualização” da sociedade abrange desde a publicidade, à televisão, passando pela música, pelas revistas especializadas (direcionadas a homens e mulheres, mais “jovens” ou mais “adultos”), por vários espaços na internet (como as salas de chat, as redes sociais, os sites especializados em relacionamentos sexuais e/ou amorosos, pagos ou não, e dirigidos a várias “categorias” de pessoas: homens, mulheres, heterossexuais, bissexuais, transgender, poliamor, etc., os sites pornográficos) e/ou os centros de aconselhamento relativamente à saúde sexual e reprodutiva, onde os/as jovens (e os menos jovens) podem tirar as suas dúvidas182; etc. Assim, segundo estes/as autores/as, os indivíduos vivem, actualmente, numa sociedade cada vez mais sexualizada, onde informação, imagens e conteúdos sexuais estão acessíveis e/ou disponibilizados em vários dispositivos da sociedade, e ao alcance de todos.
Neste contexto, as jovens mulheres são cada vez mais representadas como sujeitos ativos, que procuram o prazer sexual e a diversão, que são emancipadas e que têm mais poder (Gill, 2010). Deste modo, segundo Gill (2010) passa-se da objectificação para a subjectificação sexual, através de um discurso de diversão, liberdade e escolha, onde as mulheres são representadas como agentes autónomos, sem constragimentos de desigualdades ou poder, em que há uma procura de agradar o eu, e não a um homem, embora conseguindo, simultaneamente, a sua admiração. Para Harvey e Gill (2011: 56), este novo modo de femininalidade está associado a um novo “empreendedorismo sexual”,
180 Segundo Plummer (2003), as questões relativas à intimidade permeiam cada vez mais os meios de comunicação social e as tecnologias de informação, sendo também que, atualmente, o quotidiano dos indivíduos é fortemente informado por estes meios de comunicação. Neste sentido, o autor argumenta que o mundo “pós- moderno” está saturado da informação que chega aos indivíduos através dos média, especialmente para as gerações mais jovens, e que a vida destes indivíduos está imersa nos médias. Assim, para Plummer as vidas íntimas são “vidas mediatizadas” (Plummer, 2003: 21).
181 O conceito de “sexualização” da sociedade remete para o modo como a sexualidade tem vindo a tornar- se cada vez mais visível nas sociedades ocidentais (Attwood, 2010). Attwood (2006: 78-79) define a sexualização da cultura como um termo um tanto ou quanto “grosseiro”, que engloba uma variedade de questões, como: “a preocupação contemporânea com os valores, práticas e identidades sexuais; a mudança pública para atitudes sexuais mais permissivas; a proliferação de textos sexuais; a emergência de novas formas de experiência sexual; a aparente quebra das regras, categorias e regulações concebidas para manter o obsceno distante; o gosto por escândalos, controvérsias e pânicos à volta do sexo”.
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Por exemplo, as páginas da internet do Instituto da Juventude - IPJ - e da Associação para o planeamento familiar – APF, disponibilizam, entre outra, informação relativa aos métodos contracetivos e aos direitos em matéria de saúde sexual e reprodutiva.
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em que há uma compulsão para que o sujeito “pós-feminino” seja sexy e sempre pronto a ter relações sexuais, ao mesmo tempo que existe um discurso em que o sexo é representado como requerendo trabalho e (re)aprendizagem constantes. Deste modo, a beleza, ser-se desejada e a performance sexual constituem um projeto constante, que devem ser “apimentados” – “sexed up” (Harvey e Gill, 2011: 56), mas cujos contornos, nomeadamente em termos de heterossexualidade e monogamia, continuam a ser policiados, mesmo quando são aparentemente rejeitados por discursos de diversão e experimentalismo.
É também neste contexto (hiper)sexualizado, considerado, geralmente, como problemático, que se pensa, muitas vezes, que as crianças e os jovens de hoje crescem183. É neste sentido que vai o discurso do Bernardo (23 anos, estudante do ensino superior), que considera existir um “bombardeamento” de questões relacionadas com a sexualidade na comunicação social: “Somos um bocadinho bombardeados com muita informação. E ninguém com acesso a uma televisão e a internet se pode queixar de falta de informação [...]. A nível de novelas ou de ficção, [...] a nível mesmo de publicidade mais explícita, não é?”.
Não querendo de modo nenhum negar a forte presença da sexualidade nos espaços públicos da sociedade ocidental contemporânea, crê-se, no entanto, ser necessário analisar a questão de forma crítica, procurando perceber como os/as jovens “interagem” com toda esta informação, mesmo porque os média transmitem frequentemente mensagens contraditórias e diversas (Bragg e Buckingham, 2010)184.
A televisão
Neste sentido, embora uma parte significativa dos/as jovens refira ter acesso a alguma informação ou conteúdo relacionado com a sexualidade provenientes da televisão, são também vários/as os/as que nem sequer a mencionam como fonte de conhecimento ou que, quando o fazem, é para dizer que não aprenderam nada com esta. Quando a televisão é referida como fonte de aprendizagem tende, no
183 Segundo Bragg e Buckingham (2010) a presença de material “sexualmente explícito” nos média tem sido uma preocupação contante, apesar do que é considerado como “sexualmente explícito” mudar ao longo do tempo. Contudo, o desenvolvimento das novas tecnologias, como o vídeo ou a internet, e a maior facilidade que os/as jovens têm em aceder a este tipo de materiais levaram a um aumento exponencial do debate sobre a infância, sexualidade e os média. Neste contexto, as crianças são percebidas como crescendo demasiado depressa, estando a ser sexualizadas e a sua infância destruída; e os/as jovens percebidos como incapazes de negociar esta nova cultura sexual, em face da falta de competências para a criticar, e assim, resistir, e considerados como assexuais ou como sexualmente inocentes.
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Bragg e Buckingham (2010) realizaram mais de 100 entrevistas de pares e de grupo com 120 jovens, entre os 9 e os 17 anos, e cerca de 70 pais, e aplicaram um questionário a cerca de 800 jovens, no Reino Unido. Para estes/as jovens, os média preenchem uma falha em termos de informação sexual, em relação à informação transmitida pela família e pela escola. Contudo, esta não é necessariamente directa ou fidedigna, sendo as mensagens veiculadas pelos média muitas vezes rejeitadas e/ou questionadas pelos/as jovens. Todavia, o fato dos/as jovens se mostrarem críticos dos media, não significa que lhes sejam totalmente imunes, na medida em que as ideias, problemas e/ou questões expostos podem ajudar a definir certos tipos de comportamentos como problemáticos, levar os individuos a pensar em si como estando em controlo da sua conduta e/ou identidade sexual, e/ou conduzir a definições e/ou julgamentos de si, por exemplo, através da realização dos testes existentes nas revistas.
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entanto, a ter significados que são frequentemente opostos ou ambivalentes. Pode, por isso, dizer-se que a televisão, como fonte de aprendizagem da sexualidade, está longe de ser consensual. Para uns é um bom meio para aprender questões relacionadas com a intimidade. Nesta vêm-se filmes (com conteúdos, mais ou menos, pornográficos e/ou filmes de consumo generalizado), séries (juvenis ou não), telenovelas, videoclips... Daqui os/as jovens, a sós ou com amigos/as, podem tirar exemplos para as suas próprias experiências, como aprender a beijar, ter informação sobre métodos contraceptivos, ou a “ganhar” conhecimento de várias práticas sexuais e dos relacionamentos amorosos e/ou sexuais.
“Andava na primária, devia ter para aí uns 10 anos quando eu beijei o meu primeiro namorado. [...] Antes de dar o meu primeiro beijo estava eu e uma colega em casa e estávamos as duas a treinar, mas não era uma com a outra, era na mão. [...] À, depois íamos ver vídeo clips, que era de um cantor, que já não me recordo, [...] em que nesse vídeo clip apareciam um homem e uma mulher a beijarem-se. Então foi mais ou menos aí que eu aprendi.” (Ana, 26 anos, 12º ano incompleto, desempregada/bairmaid em part-time)
“Aprendi a utilizar contracetivos pela televisão. Relacionamentos mais íntimos foi através dos filmes… Lá está, despertava a curiosidade, o que é que é isto, vamos aprender… E a partir daí foi a melhor lição de todas, fiquei mesmo a saber: “ah, é assim que se faz”. “É assim que se faz!”. Isto é, não é bem assim, aquilo é um bocado mais carnal do que sentimental, não é?!” (Frederico, 25 anos, 12º ano, vigilante)
Programas, como os documentários ou reportagens nos telejornais, onde a sexualidade é exposta e discutida de forma considerada como séria e informativa, são ainda mencionados. Em frente da televisão, geralmente com a família reunida, as notícias dão, por vezes, mote para que pais e filhos discutam saídas noturnas, consumo de álcool, métodos contracetivos, gravidez na adolescência, DSTs, orientações sexuais não heterossexuais e/ou identidades de género: “Normalmente eles [pais] diziam conforme as coisas que se ouvia ou, quando tava-se presente, ouvia-se na televisão, ah, sobre as gravidezes, por exemplo, a juventude, discotecas, álcool...” (Cristiano, 21 anos, 9º ano, desempregado).
Contudo, vários/as jovens criticam a informação relativa à sexualidade veiculada pela televisão, ou porque esta informação é escassa, esporádica e/ou superficial, e nesse sentido, tendem a referir que gostariam que houvesse mais, ou porque consideram a informação existente como não real, recheada de conteúdos “impróprios” (como, por exemplos, cenas explícitas de práticas sexuais em horários considerados como tempo de família, e por isso desadequados) e/ou conteúdos que veiculam estereótipos e preconceitos, e que vão influenciar, mesmo pressionar, as gerações mais jovens nos seus comportamentos, nomeadamente nas suas práticas e relacionamentos sexuais e/ou amorosas.
A internet
Ao considerar-se a questão da internet como fonte de informação sobre a sexualidade, tem que se ter primeiro em consideração a diversidade de idades dos/as jovens entrevistados/as (uma margem de cerca de 10 anos de diferença entre os/as mais velhos/as e os/as mais novos/as). Isto porque se a internet é comum nos dias de hoje, algo a que a maior parte dos/as jovens têm acesso, o mesmo não
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acontecia no caso dos/as jovens entrevistado/as mais velhos/as (sobretudo, a partir dos 25 anos), que só começaram a ter acesso a esta com uma idade um pouco mais avançada. Nesta, estes/as jovens podem procurar temas relacionados com alguma doença do foro sexual, a gravidez e/ou a maternidade, mas não já sobre as dúvidas iniciais de quando se é mais novo/a, que, como se tem vindo a referir, são consideradas como já estando esclarecidas. Mas, se são os/as jovens mais velhos/as quem mais refere não procurar nada na internet sobre sexualidade, outros/as jovens, independentemente da sua idade, mas com uma escolaridade igual ou inferior ao 9º ano, também tendem a não o fazer, o que pode ser explicado, em parte, pela falta de competências em utilizar estes meios de comunicação, devido ao seu baixo nível de escolaridade, às suas condições sócio- económicas (lembre-se que algumas destas jovens saíram de casa com menos de 20 anos) e/ou das suas famílias, o que torna mais difícil o acesso a este meio de comunicação. Veja-se o exemplo da Catarina (22 anos, 9º ano, empregada de balcão): “Olha, isso sinceramente não. Até porque eu não funciono muito com internet, mas também nunca me preocupei muito de ir à internet saber o que quer que fosse”.
Ora, são então os/as entrevistados mais jovens quem mais refere recorrer à internet para esclarecer dúvidas, satisfazer a curiosidade e/ou descobrir coisas novas. Embora este seja também o caso de várias jovens mulheres, não deixa de ser significativo que muitos jovens homens recorram à internet para esclarecer as suas dúvidas, naquilo que pode ser considerada uma pesquisa mais individualizada, onde não é preciso ter receio de não se saber, algo que seria visto como negativo no grupo de pares. Mas nem sempre esta procura é feita individualmente, podendo os jovens homens juntarem-se com amigos de maior confiança e fazerem a aquisição dos conhecimentos em conjunto, o que mostra mais uma vez a importância do grupo de pares para a aquisição do conhecimento sobre sexualidade entre os jovens e para a construção da sua heterossexualidade masculina: “Às vezes estava em casa de um colega meu ou outro, e víamos uns artigos na internet. Mas pronto, somos todos um bocado curiosos sobre isso, então pronto, via lá várias coisas” (Leandro, 19 anos, estudande do 12º ano).
No caso dos/das jovens com uma orientação sexual não heterossexual, sobretudo entre os/as mais jovens, a internet constitui um meio priviligiado de acesso à informação. Tendo que, frequentemente, manter o silêncio em relação à sua orientação sexual perante outros significativos (familiares, amigos/as, professores/as, colegas...), especialmente, quando são mais novos/as, a internet funciona como um espaço privado onde se pode procurar informação, sobre a “comunidade LGBT”, métodos contraceptivos e/ou as prácticas sexuais, fazer contactos com pessoas com a mesma orientação sexual através do mirc, messanger ou outros, ver sites eróticos e/ou pornográficos, e, mesmo, praticar sexo virtual, quando a prática “corporal” é difícil e/ou receada: “Na internet é que eu começei de facto a descambar. [...] Na altura em que eu me escondia, a internet para mim era uma segurança. Depois as webcams e não sei o quê...tás a ver...sexo virtual e não sei o quê. [...] Basicamente foi assim que eu fui aprendendo” (Nuno, 27 anos, estudante do ensino superior). A internet funciona, assim, para os/as jovens com uma orientação sexual não heterossexual, como fonte de informação, como forma de
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acesso a comunidadades não heterossexuais, como forma de conhecer parceiros/as, mas também como um espaço em que pode experimentar as práticas sexuais, de forma anónima e sentida como mais segura, antes de o fazerem no contexto do seu mundo físico imediato (Hillier e Harrison, 2007). Estando menos sujeito ao controlo social, o recurso à internet é, assim, propício à expressão da diversidade sexual (Bajos e Beltzer, 2008).