Partie II Cartographies
Chapitre 6 Logiques de la fuite
6. a. D'une ville à l'autre de l'Algérie
Com o intuito de entender a diversidade cultural existente nesta instituição, realizaram-se perguntas a educadores de forma a compreender estas vertentes relacionadas com a caracterização do grupo, questões de adaptação/ integração; estratégias para lidar com a diversidade; questões relacionadas com o idioma; alterações na população escolar a algumas concepções de diversidade. Algumas destas questões foram suscitadas pelo entrevistador e outras foram fluindo dos discursos dos entrevistados e, por terem sido consideradas pertinentes, mereceram destaque neste estudo.
O entrevistador procura que o docente distinga o modo de integração das crianças de origem estrangeira na instituição escolar.
Todos os docentes quantificaram os seus alunos e dispuseram-nos por nacionalidades:
“Tenho 3 meninos filhos de pais brasileiros e 2 meninas que são da Europa de Leste.” - E1
“Tem algumas crianças brasileiras, e tem crianças dos países de leste, tenho uma criança que é ucraniana, outra que é russa, outra romena, e pronto e é só e já não é pouco” – E4
“O meu grupo tem uma criança romena, uma criança que a mãe é húngara e 3 brasileiros.” – E5
Os educadores consideram as suas turmas multiculturais e sente-se em alguns dos entrevistados algum entusiasmo resultante desta realidade:
“O meu grupo tem uma diversidade cultural espantosa, aliás, cada vez mais os grupos são multiculturais” – E1
“ (…) as crianças de diferente origens trazem um grande contributo à escola. São uma fonte inesgotável de novas experiências” – E2
Dos aspectos mais relevantes face à diversidade cultural na sala de aula poderemos realçar a questão da integração/adaptação, período em que as crianças se encontram mais
susceptíveis, em que vão integrar um meio que desconhecem e aprender a confiar em pessoas, neste caso alguns dos intervenientes no processo educativo nomeadamente educadores e ajudantes de acção educativa.
O Jardim de Infância é um momento e um tempo de socialização para a criança que se diferencia daqueles que ela viveu até essa altura por acontecer num espaço novo, com muitas pessoas novas e longe das figuras parentais e/ou outras significativas.
Por este motivo, é importante que este momento decorra com a maior serenidade mas também sem hesitações, para que a criança sinta esta nova etapa como uma situação segura e acolhedora – um caminho por onde se pode aventurar sem receio e pode ser ela própria em toda a sua plenitude.
Alguns dos educadores inquiridos não referem sentir qualquer tipo de dificuldades neste processo:
“(…) já estão comigo há 2 anos e foi fácil.” – E5
“(…) qualquer criança que venha de novo é sempre bem recebida” –E3
“Aos poucos e poucos foram-se integrando, nas brincadeiras, e o que é engraçado é que eles percebiam-se, eles crianças percebiam-se, claro que eles sempre mais numa atitude de observação da brincadeira dos outros mas aos poucos e poucos eles foram-se integrando.” – E4
No entanto, alguns educadores referem algumas dificuldades na adaptação destas crianças:
“A integração nem sempre é fácil” – E2 “Ao princípio é muito difícil” – E1
Essas dificuldades, na maioria das vezes, foram relacionadas com o factor comunicação, que por não existir um idioma comum, a comunicação fica muitas vezes comprometida:
“Tento falar com os pais mas às vezes é preciso um tradutor. Depois os miúdos vão-se adaptando e como não precisamos de falar tanto com os pais, as coisas vão correndo melhor.” – E1
“A integração nem sempre é fácil e isto porque a comunicação entre pais e educadora está quase sempre comprometida. Quando não falamos a mesma língua é complicado” – E2
“(…) para a criança ucraniana foi muito complicado porque ela não falava nada português” – E6
A adaptação das crianças deverá recorrer num clima securizante e é ao adulto que está destinada esta tarefa, a de tranquilizar a criança e adaptá-la a esta nova realidade:
“Essa adaptação, parte dos adultos, todos aqueles que circundam o espaço dessa criança têm que ter essa sensibilidade” – E4
É o adulto, neste caso específico o educador responsável pelo grupo, que tem que adoptar estratégias para lidar com a diversidade cultural. Assim sendo, alguns educadores referem:
“Tendo paciência e indo relativizando as coisas. Ao princípio é muito difícil, naquela fase em que os miúdos choram muito, sinto que não os consigo consolar. Os miúdos fecham-se e eu sinto que não lhes consigo chegar.” – E1 “Aqui em relação à minha postura, foi (…) dar o ambiente de que está tudo bem ou seja, eu não te percebo, tu não me percebes mas está tudo bem.” – E4 “(…) tentei valorizar um bocadinho hábitos em frases, sei lá, o bom dia, o obrigado, na língua mãe. Porque assim lhes dava perante o grupo, uma atitude que eles tinham sobrevalorizada perante os outros.” – E4
“(…) isto tem tudo uma aceitação gradual…” – E4
A questão do idioma, é muitas vezes mencionada pelos inquiridos, quase sempre como um factor “barreira” e aqui poderemos subdividir esta questão uma vez que os educadores fazem referência às dificuldades sentidas com as crianças e as dificuldades sentidas com os pais/ encarregados de educação.
No que respeita aos seus alunos, os educadores referem:
“Aí (quando os alunos não falam português) é um problema. É que depois em determinadas idades, os outros não querem brincar com eles.” – E1
“Recordo que a minha menina moldava não falou quase durante um ano inteiro e um dia uma outra criança ouviu-a falar e disse: olha, ela sabe falar. Ou seja, eles até achavam que ela não sabia, ou não conseguia falar” – E2
“ (…) eu estava um dia na sala de costas e ouvi uma voz que não reconhecia, pois é, em Março ou Abril eu não conhecia a sua voz e ela estava comigo desde Setembro. Isto é horrível!” – E2
As dificuldades sentidas na comunicação com os pais, influi, na opinião dos educadores, com toda a dinâmica da sala:
“A grande dificuldade é a língua e a comunicação com os pais. Ainda não percebi se não entendem, ou se não querem entender!” – E1
Uma outra questão que os educadores referem é o facto dos pais dominarem a língua portuguesa, mas as crianças entrarem na escola aos 3 ou 4 anos, por vezes aos 5, sem saberem dizer uma palavra em português, numa tentativa de manterem as suas origens, as suas raízes:
“ (…) os pais sabem falar o português mas comunicam com eles na língua mãe, portanto, quando eles entraram aqui neste grupo, eles não conseguiam comunicar uns com os outros” – E4
“ (…) mas continuam a falar com ele em russo e ucraniano, dizem que não querem que ele perca as suas raízes. (…) Os pais podiam dar uma ajudinha mas não querem quebrar as raízes e não os estão a ajudar.” – E6
Em conversas informais posteriores à realização da entrevista, alguns destes educadores partilharam algumas outras informações que consideraram pertinentes, nomeadamente o facto de alguma destas crianças e, mais especificamente de origem do leste da Europa, frequentarem ao fim de semana escolas específicas onde aprendem a língua de origem e a história do país.
Os educadores, também eles em processo de adaptação face à nova realidade da escola, entendem a diversidade cultural como um aspecto positivo e que deve ser valorizada:
“(…) acho óptimo, acho que todas as crianças têm a ganhar” – E1
“E corre sempre tudo muito bem, passada esta fase inicial mais difícil, tudo corre bem e as relações são muito positivas” – E2
“(…) mas na escola cumprem as regras e as coisas correm bem e eu sinto que quando estão na escola estão felizes, estas crianças têm muito a ganhar por cá estarem” – E5
“As relações que se estabelecem são uma mais valia para todos. A diversidade abre horizontes.” – E2
Subsiste ainda muito a estigmatização, a tendência para atribuir a determinada nacionalidade, determinadas características:
“Os brasileiros adaptam-se bem. Estão habituados a tudo” – E5
“Dos países de leste, e todos os anos tenho tido, aquilo que eu noto é que são crianças organizadas, com famílias estruturadas, extremamente educadas.” – E3
Sentiram-se algumas reservas face à diversidade, embora o discurso dos educadores seja de aceitação desta diversidade. No entanto no discurso realçam as dificuldades, as reservas face a esta realidade em detrimento das mais valias que trazem à escola.