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Partie II Cartographies

Chapitre 8 Plasticité des liens

8. a. Affinités meurtrières

Não é vulgar imaginarmos o organista como aquele que comanda uma complexa máquina de sons, com teclados, pedais e mecanismos do mais variado género. Efetivamente, o órgão é um instrumento complexo que, ao longo dos séculos, viu a sua construção aperfeiçoar-se, ganhando dimensão e multiplicando os recursos sonoros.

Numa área chamada “consola”, surgem os teclados que recebem o nome de “manuais” quando são para tocar com as mãos e “pedaleira” ou “pedal” quando se destinam aos pés. Muitas vezes a mecânica destes teclados pode ser acoplada e assim fazer tocar num só teclado, normalmente do “Grande Órgão” ou “Órgão Maior”, os registos de outros teclados (Moreno i Morena, 2001).

Cada um dos teclados do órgão funciona como um órgão em si mesmo (Sola, 2008: 25), com um someiro próprio, tubos e, por vezes, foles autónomos. A localização de cada uma destas secções, que curiosamente vão ganhar o nome de “órgão”, faz com que, na realidade, um órgão possua ou possa ser constituído por vários “órgãos”, o mesmo será dizer, por várias secções com diferentes tubos.

A localização de cada uma destas secções proporciona uma variação sonora. Na construção dos grandes órgãos na Alemanha, as diferentes secções são dispostas na vertical, umas em cima das outras, os grandes tubos do pedal aos lados e, nas costas do organista, Imagem 17 – Registo de Corneta

VIII, no interior do órgão do

Evangelho (1737). Sé e Braga. Foto do autor.

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uma outra secção chamada Rückpositiv e que terá algum paralelismo na organaria ibérica com a cadeireta ou positivo de costas. Esta última, pela sua localização, dá origem a uma sonoridade mais próxima que a dos tubos que se encontra na secção mais elevada do órgão. A existência de diferentes teclados permite obter efeitos sonoros distintos, derivado dos registos que cada secção possui, e da localização da mesma. É disso exemplo o efeito de eco, em que a mesma passagem musical repetida noutro teclado, com diferentes tubos, porventura mais suaves e dispostos num local mais afastado reproduz o som como se de um eco se tratasse.

Diferentes teclados também permitem destacar a melodia sobre o acompanhamento, utilizando para a primeira um teclado com registos mais claros e potentes e, para a segunda, mais suaves e discretos (Sola, 2008: 24).

Devido as suas diferentes propriedades cada teclado recebe um nome característico, como “Grande Órgão” ou “Órgão Maior”, no qual se reúnem os registos de maior presença tímbrica e brilho sonoro; o “Positivo”, significado de pequeno órgão, que possui registos com tubos de dimensão mais reduzida, mas bastante claros; a “Cadeireta” ou “Positivo de Costas”, semelhante ao anterior mas colocado nas costas do organista, encaixado na balaustrada do coreto do órgão; o “Expressivo”, em que os tubos de timbre mais “romântico” se encontram no interior de uma caixa com precianas que o organista fazer abrir e fechar, obtendo um efeito de intensidade; o “Eco”, que possui semelhanças com o “Expressivo” por possuir tubos no interior de uma arca na qual existem portadas que se abrem e fecham e que também permitem gradações de intensidade; e o “Recitativo” (Moreno i Morena, 2001). A maioria dos órgãos ibéricos tradicionais apenas possui um manual ou dois, no máximo, correspondendo ao “Grande Órgão” e ao “Positivo” ou “Eco”.

Nos órgãos ibéricos, a ausência de vários teclados será ultrapassada pela implementação de uma técnica, deveras criativa, de divisão do teclado, que veremos mais adiante.

A pedaleira nem sempre foi um elemento fundamental de um órgão. Nos primeiros instrumentos esta seria muito rudimentar e usada apenas para tocar algumas notas isoladas, como num baixo harmónico ou cantus firmus. Durante muito tempo, os órgãos portugueses, espanhóis, italianos, ingleses e franceses não possuíram este teclado para pés. A pedaleira completa irá surgir no norte da Alemanha e terá o seu ponto alto com as composições de Johann Sebastian Bach, nas quais surgem verdadeiros solos para esta secção do órgão (Sola, 2008: 24).

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Um outro elemento importante que vem a surgir nos órgãos é a expressão. Nesta, alguns tubos ou mesmo os registos todos de uma secção ou teclado, encerrados numa espécie de caixa de madeira que possui aberturas, à semelhança de portas, que abrem e fecham mediante um dispositivo acionado pelo organista e que tem como efeito o aumento ou diminuição da intensidade sonora, conseguindo-se um efeito de mudança de volume.

O funcionamento um teclado poderá apresentar-se na forma puramente mecânica, por suspensão ou báscula, por pressão, pneumático, elétrico e, mais recentemente, ótico. Os primeiros, e mais tradicionais, são ainda os mais utilizados. Nestes, as teclas estão ligadas por meio de varetas de madeira ou metal a uma tábua de reduções, com vários molinetes. Cada molinete, apoiado em dois fulcros ou apoios, possui dois pequenos braços, um que recebe as varetas vinda do teclado, e outro de onde parte uma outra vareta até à válvula da nota, no interior do secreto (Bachet, 1979).

Imagem 18 – Representação do sistema mecânico do teclado

Adaptado de: http://www.pykett.org.uk e http://www.orgelbau-krawinkel.com (acedidos a 6/7/2017). As teclas têm por base réguas às quais se dá o nome de “braço”, apoiados por um ponto à mecânica de tração, mantendo-se suspensas. As teclas propriamente ditas possuem capas que distinguem as notas naturais das acidentais (Bachet, 2008). O mais frequente é as teclas naturais serem capeadas a osso, marfim ou fibra plástica, para lhes conferir a cor branca, ou em madeira de buxo, também ela resistente e de cor clara. As teclas dos acidentes são de madeira escura e resistente, como pau preto ou ébano. É igualmente habitual as teclas possuírem capas frontais com o mesmo material. Em alguns países surge a tradição de

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inverter a cor das teclas, sendo as naturais em material mais escuro e as acidentais as mais claras.

Em órgãos de maior valor artístico é possível encontrar teclas gravadas, com baixo relevo ou incrustações, como existe nos teclados dos grandes órgãos da Sé de Braga (imagem 22).

Imagem 19 – Pormenor de um dos teclados do órgão do Evangelho (1737). Sé de Braga. Foto do autor.

A consola pode ser em janela ou independente, podendo depois ser móvel ou fixa, invertida ou acoplada ao móvel do órgão (Bachet, 2008).

No que respeita ao teclado pedal (pedaleira), este pode ter a forma de botões, acoplados ou não ao teclado manual (como sucede nos órgãos ibéricos de maior dimensão), ou pedais semelhantes a teclas, dispostos na forma plana ou côncava, paralela ou radial. Existem também alguns regionalismos na forma de construir as pedaleiras que originam as terminologias de “pedaleira alemã”, “pedaleira francesa” ou “pedaleira italiana” (Bachet, 2008).

Ligado aos teclados existe ainda o sistema de acoplamento, que mais não é que uma forma mecânica pela qual o que se toca num teclado tem o efeito de como se tocasse noutro ou noutros teclados, como se juntássemos vários num só. Quando nos referimos ao acoplamento de manuais e pedaleira, sucede que o que se toca no pedal junta os registos do manual principal ou de outros manuais (Riemann, 1929: 26-27).