Part II: The Bioinformatics Workstation
Chapter 4. Files and Directories in Unix
5.3 Viewing and Editing Files
Ao contrário do que é desenvolvido nos demais países onde a motivação dos doadores no crowdfunding é um dos temas mais comuns nas pesquisas, os autores brasileiros possuem maior foco na busca por características do jornalismo financiado coletivamente.
a huge difference in crowdfunding initiatives. Say you funded my project and you tweet its Indiegogo page. Your 2,000 followers see it immediately. Some of them retweet it even though they don‘t donate. The My Child campaign has become viral on Facebook and Twitter.
36 As crowdfunding campaigns circulate through social media, they forge publics around these causes, as well as
related films, videos and stories. Identifying the metaculture of collective funding, which is the discursive characterization of cultural objects and their making, requires locating crowdfunding within complex societal and historical discourses.
As pesquisas relacionadas a produção de jornalismo viabilizado coletivamente no Brasil possuem grande foco na Agência Pública. Gadini (2014), Carvalho (2014) e Xavier (2015) buscam entender como o site, que se torna um modelo de como utilizar o financiamento coletivo no país, cria um sistema de bolsas de reportagem. Com um olhar menos focado em um objeto empírico, Cristofoleti (2015), Saad (2015), Träsel e Fontoura (2012) também abordam o tema em suas produções.
A Agência Pública, site com foco em reportagens e produções jornalísticas investigativas, ganha a atenção de pesquisadores brasileiros ao utilizar o crowdfunding para a criação de um modelo de gestão. A empresa realiza a arrecadação através de financiamento coletivo e divide a verba em um número determinado de 'bolsas' de reportagem. O 'Reportagem Pública 2015' é o terceiro projeto com maior arrecadação dentro do Catarse na categoria 'Jornalismo'.
Uma outra tarefa desta tendência de práticas de crowdfunding aponta um desafio na produção jornalística e no ensino, que atinge cerca de 350 cursos de Jornalismo em funcionamento no Brasil: inserir a perspectiva empreendedora na formação profissional da área, buscando preparar os mais de 5 mil novos profissionais que a cada ano são formados nas universidades do País para uma realidade que demanda qualificação e habilidades para reinventar espaços, produtos e outras formas de produção de conteúdo aos crescentes meios de informação disponíveis na era da digitalização midiática (GADINI; CAMARGO, 2016, p. 10).
Xavier (2015) insere a Pública em um cenário maior de crescimento das organizações sem fins lucrativos dedicadas à investigação jornalística.
A Agência Pública fundada em 2011 é o exemplo brasileiro com mais visibilidade. Em linhas gerais, as iniciativas que integram esse sistema estão em busca de modelos economicamente viáveis para a prática jornalística fora da mídia tradicional, algumas mais orientadas para a promoção do jornalismo investigativo (XAVIER, 2015, p. 67).
A autora destaca que o autorreconhecimento e a defesa da Agência Pública como iniciativa de jornalismo independente também fica marcada em seu discurso. O interesse público e o jornalismo independente aparecem como 'pilares' da organização. A partir destas características, Xavier (2015) busca entender quais aspectos da estrutura organizacional, financeira e produtiva no modelo de negócios do site contribuem para a diversificação da pauta e inovação em formatos e projetos jornalísticos.
Carvalho (2014), ao analisar as fontes utilizadas nas reportagens da organização, defende que a produção jornalística da Pública não rompe com o padrão comercial da notícia. "É muito cedo para afirmar que estas alternativas estão consolidadas como o novo jornalismo do século XXI. Mas, na mais pessimista das hipóteses, são atividades que apontam tendências para o jornalismo e que podem representar alternativas para a profissão" (CARVALHO, 2014, p. 140). Ao avaliar a forma como o site utiliza o crowdfunding, o autor aproxima o financiamento coletivo da assinatura de leitores. Carvalho (2014) aponta que a diferença está
no fato de o colaborador se sentir participante do processo produtivo, representado em uma perspectiva de cultura popular.
Ao contrário dos pesquisadores citados acima, Träsel e Fontoura (2012) abordam o conceito de 'microfinanciamento de atividades jornalísticas' para explicar o crowdfunding.
O microfinanciamento (do inglês ‘crowdfunding’) é um processo através do qual indivíduos e organizações doam pequenas quantias de dinheiro para uma causa específica, de modo a permitir sua execução. Trata-se, em linguagem informal, da boa e velha ‘vaquinha’, mas potencializada pela arquitetura descentralizada da Internet. Visto que os proponentes normalmente valem-se de serviços de redes sociais para divulgar a coleta, é possível reunir quantidades maiores de recursos a custos menores do que os tradicionais pedidos de doações de porta em porta. O termo tem sido usado para designar o financiamento, através da Internet, de atividades e produtos como obras de arte, reportagens e empresas desde o início dos anos 2000. Um termo correlato e talvez mais preciso para o microfinanciamento de reportagens seria ‘micromecenato’, definido da seguinte forma em uma de suas primeiras aparições (TRÄSEL; FONTOURA, 2012, p. 41).
De acordo com os autores brasileiros, o primeiro microfinanciamento de atividade jornalística foi realizado pelo jornalista Christopher Albritton. Em 2002, ele levantou US$ 15 mil entre os leitores do seu weblog para cobrir custos de realização de reportagens durante a guerra no Iraque. No Brasil, os autores citam dois projetos jornalísticos iniciando o gênero.
No Brasil, pelo menos dois projetos jornalísticos estavam em fase de execução, em julho de 2011, após levantar doações através do serviço de microfinanciamento Catarse: o documentário ‘São Paulo Polifônica’, que faz um registro sonoro dos principais pontos da capital paulista e os apresentará no formato de um mapa (valor microfinanciado: R$ 4.630); e a série de reportagens ‘Cidades Para Pessoas’, para a qual a repórter proponente passará um ano viajando por 12 cidades do mundo, colhendo informações sobre transporte público (valor microfinanciado: R$ 25.785). (TRÄSEL; FONTOURA, 2012, p. 42).
Os pesquisadores propõem uma comparação entre os temas mais frequentes no site estadunidense Spot.Us e na mídia tradicional. A conclusão é de que existe uma diferença significativa entre os temas mais abordados na mídia tradicional e na cobertura viabilizada pelo site que funcionou através de financiamento coletivo.
Pode-se perceber uma diferença significativa entre os temas mais frequentes na mídia tradicional dos Estados Unidos e os temas privilegiados na cobertura do Spot.Us, exceto no caso de crimes e segurança pública, no qual as proporções são semelhantes – seria necessário um estudo específico, no entanto, para afastar a hipótese de os números coincidirem por mero acaso. Confirma-se então a hipótese de que o noticiário do webjornal participativo Spot.Us apresenta proporções desviantes da média da impressa americana no que tange aos temas abordados (TRÄSEL; FONTOURA, 2012, p. 51).
A partir desta comparação, Träsel e Fontoura (2012) apontam que o microfinanciamento de reportagens é uma forma que os cidadãos encontraram em preencher lacunas informativas deixadas pela cobertura da mídia empresarial. Eles indicam a produção viabilizada por crowdfunding cumprindo papel de mídia de segunda instância e como alternativa para a pluralização do noticiário. Em outra pesquisa, Fontoura (2012) utiliza a análise de conteúdo para avaliar a produção jornalística viabilizada pelo Catarse.
Entender os projetos jornalísticos para os quais as pessoas optaram por desembolsar dinheiro significa identificar o que passa pelos portões do público e pensar no
newsmaking adaptando-o à lógica do público, não do jornalista, pois agora os portões
das notícias talvez não sejam guardados apenas pelo jornalista. Assim, conseguiremos responder a nossa pergunta de pesquisa: como relacionar os critérios de noticiabilidade e a lógica do newsmaking à prática do financiamento coletivo noticioso no Brasil (FONTOURA, 2012, p. 9).
A perspectiva defendida pelo pesquisador, a partir de um levantamento que considera os critérios de valor notícia, é de que os projetos no Catarse se diferenciam e até evitam elementos que descrevam o jornalismo tradicional. Ao notar a ausência dos valores notícia de morte, novidade, tempo e conflito, Fontoura (2012) defende uma produção diferenciada partindo desses projetos jornalísticos. "É um indício forte de que o material estudado, ainda que jornalístico sem dúvida, se diferencia bastante das práticas habituais. Ele se assemelha a um jornalismo independente, interessado em abordagens que a mídia estabelecida não privilegia" (FONTOURA, 2012, p. 12).
O levantamento de Fontoura (2012) mostra que a produção jornalística no Catarse apresenta caráter crítico, social e com intenção de mostrar mazelas da sociedade à margem da cobertura de outros veículos noticiosos. O pesquisador avalia também a importância do jornalista 'justificar' seu trabalho para que ele seja viabilizado.
Isto nos traz à lógica de produção vinculada ao objeto. O fato de o público financiar o jornalismo não é algo novo: a audiência sempre foi a fonte de renda da atividade, seja pagando efetivamente (como em uma edição de jornal), seja por intermédio da publicidade. No entanto, este caso é diverso. Aqui, ele financia a ideia antes que esteja pronta; o leitor escolhe se ela vai viver ou não. De certa forma, o leitor aqui é o mecenas do jornalista, que deve justificar a importância de seu trabalho e os motivos para que ele seja financiado. Os filtros mudam de lugar. Antes, o jornalista entregava conteúdo, que havia produzido de acordo com seus critérios, e o leitor podia escolher se comprava ou não. Agora, o jornalista pode até moldar a proposta, mas quem decide se aquilo vai ao ar ou não é a audiência (FONTOURA, 2012, p. 13).
Lima (2017) defende um modelo econômico para o jornalismo fora da lógica empresarial e que o público seja incluído continuamente nos processos de produção. Ele apresenta uma visão mais cética da relação entre jornalismo e crowdfunding.
Mesmo com o surgimento de formas alternativas na produção jornalística, baseadas principalmente em crowdfunding ou voluntariado, tais iniciativas são ainda vistas com ceticismo ou descrédito: não como indicativos de que há possibilidades de produção para além da lógica do mercado, mas como tentativas fadadas ao fracasso, por sua dimensão flexível e experimental focada no curto prazo, em vez de um sistema estável que assegure o financiamento de jornalismo de qualidade por longo tempo (LIMA, 2017, p. 2).
Por sua vez, Saad (2015) compreende a economia do crowdfunding como elemento do processo de midiatização contemporâneo. A autora defende que a cultura está na base para compreender o financiamento coletivo. "Seja como uma modalidade de financiamento cultural – já que a maioria das proposições origina-se deste campo, seja como movimento de
base coletiva, é quase que direta a relação entre crowdfunding e cultura" (SAAD, 2015, p. 117).
Ao recuperar o funcionamento do crowdfunding no Brasil, a autora defende que a maioria dos sites de financiamento coletivo estão focados em nichos. "São sites que, em vez de tentar atrair qualquer tipo de projeto, se foca só em uma categoria. É o caso dos sites com projetos culturais" (SAAD, 2015, p. 119). Ela traz uma contribuição, ao recuperar o início e desenvolvimento dos principais sites de financiamento coletivo brasileiros, para entender como a economia funciona na lógica do crowdfunding.
A questão central que surge após as análises apresentadas ainda está na relação de midiatização das propostas para financiamento oferecidas nas plataformas de
crowdfunding versus respectivas viabilidades econômicas – seja da plataforma em si,
seja dos projetos que opera. Ficam evidentes, seja pela planilha geral de observação, seja pelas entrevistas em profundidade, que a competência de midiatização via redes sociais e integração com outras plataformas de mídias sociais é um fator diferencial para estabelecer uma relação entre viabilidade do modelo econômico com o modelo comunicacional. Também ficou evidente que tal competência é muito mais fruto dos indivíduos envolvidos e respectivas capacidade de relacionamento e influencia em rede do que pela simples disponibilização de ferramentas de alavancagem social (SAAD, 2015, p. 124).
Com maior foco em casos empíricos, a pesquisa brasileira relacionada a jornalismo e crowdfunding ainda fica limitada ao caso da Agência Pública. Se por um lado o site já foi abordado repetidas vezes como objeto de pesquisa, por outra perspectiva mostra-se como um modelo de gestão diferenciado. As pesquisas estrangeiras que focam em casos empíricos não mostram propostas de utilização do crowdfunding parecidas com o uso que a Agência Pública faz das plataformas. Träsel e Fontoura (2012) e Saad (2015) são os responsáveis por trazerem análises com uma proposta mais ampla para compreender o crowdfunding como fenômeno da economia coletiva.
Fontoura (2012) desenvolve a única pesquisa que parte especificamente de uma plataforma de financiamento coletivo, o Catarse, para compreender como a nova lógica econômica funciona para o jornalismo. Esta pesquisa parte do mesmo site, mas busca desenvolver o debate sobre crowdfunding e jornalismo no Brasil a partir de duas óticas: governança de gestão e governança financeira. Com isso, a pesquisa entende que o financiamento coletivo representa uma forma de viabilizar produções jornalísticas e que as características da profissão e da deontologia são exploradas no momento em que o profissional assume uma função de venda.