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Creating Archives of Your Data

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Part II: The Bioinformatics Workstation

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5.9 Playing Nicely with Others in a Shared Environment

5.9.4 Creating Archives of Your Data

A construção de uma divisão física e simbólica entre redação e setor comercial é uma marca para o desenvolvimento e a profissionalização do jornalismo, assim como destaca atribuições e responsabilidades. Por um lado, a partir da divisão o jornalismo se consolida ao estabelecer e desenvolver as características que o marcam como discurso próprio. Por outro, o muro identifica atribuições: o jornalista possui preocupações com o interesse público, enquanto o setor de marketing possui como objetivo a geração de receita. Ou seja, o muro serve como artifício de defesa da classe jornalística e garantia de que o profissional possa realizar seu trabalho sem interferências externas.

Como Meyer (1989) explica, a divisão estrutural entre lado noticioso e lado comercial parte do pressuposto de que quanto menos o editor souber sobre o que ocorre no lado comercial, melhor. O autor destaca os abusos do setor comercial sobre o jornalismo como um "padrão histórico" (MEYER, 1989, p. 75). Nessa atmosfera surge a oposição entre lado jornalístico contra comercial, mas também uma aversão da classe jornalística ao outro departamento.

[...] e aqueles de nós que trabalhavam nos lados jornalísticos de tais jornais não tinham problemas em acreditar que éramos mais nobres que aquelas pessoas sujas que traziam o dinheiro com o qual nossos salários eram pagos. Nós éramos altruístas, cuidando do bem-estar da comunidade. Eles eram egoístas, pensando no bem-estar econômico da companhia (MEYER, 1989, p. 76).

O autor utiliza a primeira pessoa do plural para se referir à categoria de jornalistas, pois trabalhou como empregado da indústria jornalística por 26 anos. Meyer (1989) aponta que a raiz da aversão ao comercial entre os repórteres surge, provavelmente, na separação dos lados editoriais e comercial. Em uma pesquisa com profissionais da área realizada nos Estados Unidos na década de 80, 67% dos jornalistas se declararam “avessos a negócios”. A taxa de editores e publishers com a mesma resposta foi, respectivamente, de 65% e 51% (MEYER, 1989, p. 61). Por outro lado, Meyer (1989) aponta uma fraqueza na tradição do muro. "Um editor que compreende a situação financeira do jornal está numa posição mais forte para lutar pelos recursos necessários para produzir o tipo de jornal que os leitores merecem" (MEYER, 1989, p. 78).

Anderson (2009) se refere à mesma característica como a “Muralha da China”. De acordo com o autor, as mídias mais tradicionais constroem a “muralha” entre o editorial e o marketing para assegurar que os anunciantes não influenciem o primeiro. Além da divisão física, ele explica que jornais precisam ter o cuidado, por exemplo, ao assegurar que um anúncio de carro não fique perto de um artigo sobre automóveis. É uma forma de evitar qualquer sugestão de influência comercial na produção jornalística.

A criação de tal divisão entre redação e setor comercial é elemento concreto da história dos jornais, porém a existência de tal fator não garante que as interferências não existam. Neste sentido, a construção do muro serviu mais para a criação de uma identidade dos jornalistas e repórteres e menos para, propriamente, impedir as pressões comerciais. Como explica Benson (2016), os jornalistas construíram muros entre a parte editorial e o setor de negócios para garantir que os editores tomem decisões baseadas puramente em critérios profissionais. Argumento que é reforçado por Deuze e Witschge:

[…] a construção do muro foi central no processo de profissionalização do jornalismo. Este foi um processo que simultaneamente separou jornalistas das decisões de negócio e removeu dele qualquer responsabilidade sobre as ações das organizações e sua sustentabilidade, e levou os jornalistas a apreciarem, em geral, a autonomia editorial em seu trabalho (2016, p. 14).

O modelo, também conhecido como “igreja/estado”, se refere ao primeiro momento em que uma organização jornalística optou por separar a redação (igreja) do setor comercial (estado). Como exemplificado ao longo do texto, os interesses de leitores e anunciantes podem ser conflitantes. Assim, a proposta do modelo igreja/estado marca uma divisão entre quem precisa atender aos interesses dos anunciantes e quem prioriza as necessidades dos

leitores. De certa forma, a separação entre redação e setor comercial é o símbolo da responsabilidade social e da neutralidade da profissão. Vale frisar que a divisão serve como uma defesa aos jornalistas, tanto frente a sociedade quanto aos anunciantes. O muro, por mais que simbólico, garante que o jornalista defenda seus valores profissionais como únicos responsáveis por definir suas escolhas. O modelo igreja/estado permite que o jornalista argumente em defesa de sua classe e garanta, ao menos em discurso, que seu trabalho não possui nenhuma influência comercial. A divisão das empresas de mídia feita desta forma é um dos fatores que garante a credibilidade – ponto essencial para atrair anunciantes, visto que a independência da redação é pré-requisito para tornar uma organização jornalística mais credível. Ou seja, apesar de não impedir que pressões comerciais atinjam o jornalismo, a separação entre setor comercial e redação assegura uma defesa a qualquer jornalista questionado sobre interferências comerciais na organização onde trabalha.

Kovach e Rosentiel também destacam a ineficiência do modelo igreja/estado na prática . “[...] infelizmente essa ideia de que os jornalistas devem trabalhar para seu próprio público por trás de uma parede, enquanto os demais ficam livres para faturar, é uma metáfora inócua” (2003, p. 99). Tal fator torna ainda mais importante o debate aqui proposto sobre a tensão entre comercial e jornalístico/profissional/ético. O muro não garante a isonomia das produções jornalísticas, mas foi um marco para a criação da classe de repórteres.

Muito se fala sobre a existência de uma parede antifogo entre a redação e o departamento comercial das empresas jornalísticas. Editores da revista Time lembram que (Henry) Luce costumava comentar essa separação, por ele representada pela igreja (informação) e pelo estado. Robert McCormick, o famoso e controvertido publisher do

Chicago Tribune, logo no princípio do século 20 criou no prédio do jornal, a conhecida

Torre do Tribune, com vistas para o rio Chicago, um sistema duplo de elevadores. Ele não queria que seu pessoal de vendas subisse ao lado de seus jornalistas (KOVACH; ROSENTIEL, 2003, p. 99).

Kovach e Rosentiel (2003) citam exemplos de como a gerência de jornais já explorou os leitores em nome dos anunciantes sem que a redação soubesse do acontecimento. A parede, chamada de “mítica” pelos autores, não protege necessariamente a “lealdade primordial dos jornalistas para com a população” (KOVACH; ROSENTIEL, 2003, p. 101).

Fato é que tal tradição histórica nos prédios dos jornais perdeu força nos últimos anos, com o surgimento de novas possibilidades onde o jornalista atua tanto como "igreja" quanto como "estado". O crowdfunding é um dos exemplos onde o jornalista precisa atuar na venda do produto. A transformação também é percebida na mídia tradicional, como quando Neveu (2010) aponta a "queda" do muro.

Os gerentes conquistaram poder sobre os redatores. Vindo mais e mais frequentemente dos cursos de MBA ou de ramos de negócios sem qualquer relação com o mundo da elaboração das notícias, eles enxergam este último como um negócio. Definem o conteúdo editoral que maximiza a audiência e os lucros, e olham a atividade da sala de redação como custos a serem reduzidos e bombas de caixa com lugar para melhorias. Inimagináveis no passado, as reuniões de anunciantes com gerentes e jornalistas estão se tornando mais comuns (NEVEU, 2010, p. 34).

A discussão sobre essa transformação é complementada por Deuze e Witscge (2016). Os autores apontam valores como o empreendedorismo e a emergência do profissional- empresa como características que impulsionam esta mudança.

Com a crescente importância do empreendedorismo como um valor para os jornalistas que trabalham tanto dentro quanto fora das organizações jornalísticas, é seguro assumir que, em um nível institucional, o jornalismo está muito mais entrelaçado com uma série de outros atores, valores e prioridades do que geralmente já tinha sido feito (tanto em termos de sua autopercepção quanto na conceituação acadêmica do campo). Por sua vez, isso amplia a conversação sobre o jornalismo – o que é e o que deveria ser. Estes desenvolvimentos nos obrigam a repensar o jornalismo como uma instituição estável, em que os jornalistas são vistos como ‘peças de máquinas’ ou, negativamente, como agentes ativos que resistem a mudanças. Em vez disso, faz mais sentido focar no jornalismo e no trabalho dos jornalistas como práxis, de uma vez só condicionadas pelos arranjos sociais existentes e facilitando a transformação e a emergência de arranjos. Tal perspectiva sobre a mudança institucional ‘enfatiza a habilidade dos agentes de mobilizar artisticamente diferentes lógicas e recursos institucionais, apropriadas pelos ambientes institucionais contraditórios até enquadrar e servir aos seus interesses’ (SEO; CREED, 2002, p. 240). Por meio da práxis, as distinções dentro-fora das redações se tornam menos relevantes, como se estivéssemos olhando para o que os jornalistas fazem e quando (e como) o trabalho jornalístico é feito, e como seus praticantes dão sentido àquilo que eles fazem individual e coletivamente (DEUZE; WITCZCHE, 2016, p. 14).

Segundo os autores, é essencial a compreensão da “queda” do muro para entender o que o jornalismo está se tornando. Deuze e Witczche (2016) afirmam que a redação está se tornando um objeto mais fluído: fragmentada, dispersa, em rede e pouco estável. Costa (2008) aponta que a queda do muro é a “revolução que vivemos”. De acordo com o autor, departamento comercial e redação estão cada vez menos separados – principalmente onde há nova mídia. Picard (2010) também aponta tentativas de quebrar barreiras entre os departamentos de notícias e o comercial visando o fornecimento de notícias mais lucrativas. A crescente força de trabalho de jornalistas empreendedores, coletivos editoriais, freelancers e a emergência de startups de notícias são alguns dos casos que exemplificam o fenômeno que atinge as organizações de mídia.

Meyer (2007) explica a transformação e de que forma isso impacta na qualidade do jornalismo.

O motivo pelo qual os jornais não são tão bons quanto na era de ouro não é a divisão entre igreja e estado. É que a decisão necessária para solucionar o conflito entre lucro e prestação de serviço era responsabilidade de um indivíduo com espírito público que controlava os dois lados da parede e era rico e confiante o suficiente para fazer o que lhe aprouvesse (MEYER, 2007, p. 218).

A mudança também é notada por Charron e De Bonville (2016) que apontam que, em um regime de hiperconcorrência, o jornalista assume a função de captar a atenção do público – atividade que anteriormente era responsabilidade da empresa. Os autores explicam que a intensa concorrência no setor dos jornais concedeu maior autonomia aos profissionais da redação e resultou no declínio da autoridade e prestígio do diretor de redação.

[…] a concepção do jornalismo que defendia que a informação devia se subtrair aos objetivos comerciais das empresas jornalísticas, ou, pelo menos, se proteger de seus efeitos indesejáveis, e que, consequentemente, confiava aos jornalistas uma espécie de missão de resistência, afirmou-se nas reivindicações profissionais e sindicais dos jornalistas (pelo menos no Quebec), sobretudo nos anos 1960 e 1970, isto é, em um contexto de prosperidade econômica e de grande rentabilidade das empresas jornalísticas. A necessidade de mobilizar todos os recursos da organização em torno do objetivo de rentabilidade era menor nesse contexto (CHARRON; DE BONVILLE, 2016, p. 368).

Como no discurso de Meyer (1989), Charron e De Bonville (2016) mencionam a “missão de resistência” dos jornalistas frente ao comercial. Ou seja, os autores apontam mais um elemento que nos permite notar a tensão histórica entre comercial e profissional/ético dentro do jornalismo. À época que Charron e De Bonville (2016) citam, os recursos eram abundantes e isso garantia maior autonomia e liberdade ao serviço dos jornalistas. À medida que a concorrência se intensificou, os laços de dependência entre comercial e redação se estreitaram. O setor comercial busca melhorar o desempenho da empresa exercendo uma influência maior sobre a redação, enquanto o jornalista assume uma nova posição ao se preocupar em despertar e prender a atenção do público.

Em um contexto de interatividade e de reflexividade acelerada, a concorrência aumenta a ponto de marcar todas as relações entre os argentes do sistema, embaralhar as distinções tradicionais entre as dimensões comercial e profissional da concorrência e penetrar profundamente em todas as dimensões do discurso jornalístico (CHARRON; DE BONVILLE, 2016, p. 385).

Assim, a metáfora do muro entre redação e setor comercial é útil nesta discussão em quatro fatores. Em primeiro lugar, ele explica a pressão entre comercial e ético/profissional como uma característica histórica do jornalista. A divisão sintetiza a necessidade de o profissional equilibrar-se entre as pressões comerciais e sua deontologia. O segundo fator a ser destacado é como a construção do muro marca a criação de uma classe de repórteres. A partir desta divisão, o jornalismo como formato discursivo passou a se desenvolver com o aperfeiçoamento de suas técnicas. Em terceiro lugar, o entendimento da Muralha da China como salvaguarda dos jornalistas. A simbologia de tal divisão serve como defesa para o jornalista, que destaca a isonomia de seu trabalho. Por fim, as novas configurações da divisão encerram a nossa lista. Afinal, o financiamento coletivo representa uma “quebra” no muro ao colocar o jornalista executando atividades que até então pertenciam ao setor comercial. Em alguns casos, o jornalista assume funções de setor comercial, empresário/proprietário e produtor de conteúdo.

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