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No século XIX, o imperativo ―conhecer para administrar e uniformizar‖ permanecia forte no campo das representações espaciais, uma vez que o território nacional brasileiro era um patrimônio ainda não de todo dimensionado. Os mapas, que desde o século XVIII vinham se consolidando como suportes visuais do poder, tornaram-se importantes instrumentos de modernização técnica e planejamento de obras públicas nos Estados nacionais.231 Notas corográficas eram, em geral, acopladas às cartas, estabelecendo-se uma relação de complementaridade entre palavra e imagem gráfica.232

Para Yves Lacoste, um mapa poderia servir para fazer guerras, mas também para consolidar territórios recém-anexados, fazer apologia das

229 Ibidem, p. 40.

230 Por ―tradição inventada‖, entende-se um conjunto de práticas, de natureza ritual ou simbólica,

que visam incutir valores e normas através da repetição, o que implica continuidade em relação ao passado. Assim, a visão panorâmica é uma tradição inventada, na medida em que incute valores, normas e convenções ao olhar oitocentista sobre o espaço. HOBSBAWM, 2012, p. 8.

231 GOMES, op. cit., p. 16. 232 Ibidem, p. 29.

potencialidades econômicas de determinada região ou estimular a expansão das fronteiras do Estado nacional. Segundo esse autor, outra característica interessante dos documentos cartográficos é que, por serem abstrações científicas da realidade, eles não necessariamente representam um território que existe empiricamente.233

Michel Foucault, por sua vez, define o mapa tanto como instrumento de saber e de comunicação quanto como uma das ferramentas mais eficientes para o exercício do poder sobre ―pessoas e coisas‖ em determinado suporte espacial. Para esse autor, encontram-se, no mapa, as três principais operações do poder territorial: medida, investigação e inquérito.234 Percebemos a ocorrência desses elementos nos mapas de Minas, já que eles são produtos da necessidade de delimitação espacial de uma área, de investigação das potencialidades econômicas da região e inquirição sobre o conteúdo desse território.

Na percepção geopolítica do século XIX, uma administração racional não poderia prescindir de informações precisas acerca de cada uma das províncias que compunham o Império do Brasil. Como observa Jacques Revel, em seu estudo sobre as formas de inventário do espaço, se o mapa não inventa o sentido do espaço, ele pelo menos lhe concebe uma forma – perceptiva, conceitual, técnica –, que acaba por parecer indissociável da própria espacialidade.235

Desde 1836, o levantamento cartográfico de Minas havia sido estipulado por lei,236 numa tendência de expansão da capacidade administrativa do estado e modernização do aparato administrativo no tocante às políticas de exploração e representação do território nacional237. A retificação dos limites políticos, a implementação da infraestrutura viária e o melhor aproveitamento dos recursos naturais foram os principais motivos dessa decisão. O mapa que se tinha em vista deveria ser o mais exato produzido até então, marcando uma inflexão na atividade cartográfica, que passava a ser assunto da legislação provincial.

233 LACOSTE, 1988, p. 261. 234 FOUCAULT, 1986, p. 162. 235 REVEL, 1989, p.141.

236 A Lei Mineira n. 18, de 1º de abril de 1836, foi uma das primeiras resoluções tomadas pela

Assembleia Legislativa Provincial. Seu conteúdo versava, basicamente, sobre o método e utilidade das operações geodésicas em Minas Gerais, tendo se constituído num marco para a política de viação dessa província. Além de determinar a confecção de uma imagem-síntese do território mineiro, essa lei definia normas técnicas para construção das estradas, critérios para o estabelecimento de barreiras, entre outras disposições. BARBOSA, 2011, p. 911.

Fazendo jus à legislação, o governo mineiro contratou os serviços de Heinrich Halfeld,238 engenheiro de origem germânica com experiência no ramo da mineralogia. Auxiliado pelo desenhista Friedrich Wagner,239 ele se dedicou à confecção da Carta chorographica da Provincia de Minas Geraes, que foi concluída em 1855, duas décadas após a promulgação da lei que autorizava sua elaboração. Contribuíram para esse atraso a precariedade dos instrumentos geodésicos, a escassez de corpo técnico e, obviamente, a vultosidade do trabalho, fatores que faziam da cartografia de Minas uma tarefa não menos que hercúlea.240

O Mapa de Minas (FIG. 1), como ficou conhecido o documento, não correspondeu às expectativas das autoridades provinciais, tendo sido descartado como representação oficial da realidade. Segundo Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos, Presidente de Minas nessa época, Wagner, posto que fosse ―empregado zeloso‖, não reunia as qualidades necessárias para a execução de uma representação cartográfica do território mineiro, haja vista sua idade, então já avançada, e o fato de não possuir formação especifica em engenharia.241

A rejeição do governo mineiro, contudo, não arrefeceu os ânimos de Halfeld que, em 1860, enviou uma cópia desse mapa à casa Justus Perthes, editora

238 Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld (1797 – 1873) nasceu na província de Harz, importante

região mineradora do Reino de Hanover. Chegou ao Rio de Janeiro na década de 1820, como oficial mercenário do corpo de estrangeiros do Exército Imperial. Tão logo deu baixa no exército, dirigiu-se para a província de Minas, onde trabalhou nas empresas de mineração de São José Del Rei, Gongo Soco e Serra de Cocais. Em 1840, contraiu núpcias com Cândida Maria Carlota, de quem herdou parte da Fazenda Juiz de Fora, núcleo original da atual cidade homônima. Entre 1852 e 1854, empreendeu o levantamento corográfico do Rio São Francisco, o que lhe valeu grande reputação como cartógrafo. MARTINS, In: HALFELD; TSCHUDI, 1998, p. 24 – 32.

239 Os dados sobre Friedrich Wagner são escassos. Apenas sabemos que ele nasceu na Boêmia,

tendo trabalhado em mineração antes de imigrar para o Brasil. Em 1824, chegou a Minas, provido de subsídios do governo imperial para desenvolver pesquisas na área de mineração. Na condição de desenhista, trabalhou para o governo mineiro de 1838 até 1860, ano de seu falecimento. Ibidem, p. 32 – 35.

240 Em estudo sobre a elaboração desse mapa, Luis Gustavo Mundim analisa como as autoridades

provinciais acompanharam a difícil tarefa de se representar o território mineiro, apontando inúmeras contradições entre a política cartográfica do estado e a concepção de espaço dos viajantes estrangeiros. MUNDIM, 2010, p. 61 – 73. Quanto à metodologia empregada nesse mesmo mapa, Maria do Carmo Andrade Gomes, outra autora que analisa a atividade geodésica em Minas, durante o período imperial, esclarece que Halfeld e Wagner seguiram padrões cartográficos que consistiam basicamente em ―recobrir uma base pré-existente [...] com novos dados, coligidos de diferentes formas (relatos de viagens, documentos antigos, informações de campo) e cujo fundamento era sempre a posição estratégica do gabinete do cartógrafo oficial, que funcionava como uma força centrípeta a aglutinar informações‖. GOMES, 2005, p. 41.

alemã famosa por suas publicações nos campos da geografia e da cartografia. Disso resultou o compêndio Die Brasilianische Provinz Minas Geraes (1862)242.

Essa obra, publicada como suplemento da Petermann’s Geographischen

Mittheilungen, importante revista geográfica da época, compunha-se da carta de Halfeld-Wagner e trazia notas de autoria de Johann von Tschudi.243 Esse naturalista provavelmente foi convidado pela editora para sintetizar os aspectos representados pelo mapa, em vista de sua experiência em terras brasílicas.

Já na introdução da obra, percebemos aspecto significativo, que é a preocupação do autor em dimensionar a extensão do território de acordo com referenciais conhecidos pelos leitores de origem germânica. Segundo Tschudi:

Entre as vinte províncias do imenso império do Brasil, a província de Minas Gerais ocupa o primeiro lugar em número de habitantes, mas é apenas a quinta em extensão territorial. Ela é superada em superfície pelas províncias do Alto Amazonas e do Mato Grosso, que tem mais de 60 mil léguas quadradas. É maior do que o conjunto dos estados austríacos e tem quase três vezes o tamanho do Reino da Prússia.244

Em geral, para comporem imagens de Minas, os corógrafos estrangeiros utilizavam-se de um quadro comparativo constituído de referências à Europa, a outras regiões brasileiras ou inserido no conjunto do Império do Brasil. A observação fundamentava-se no realce das diferenças e semelhanças e, ao mesmo tempo, sobrelevava-se o critério da integração. Ao compararem o território mineiro com a circunscrição de alguns países europeus, os leitores poderiam formular uma idéia, mesmo que vaga, da imensidão do Império do Brasil.

Contudo, o que mais caracterizava Minas não era sua extensão territorial, alçada ao quinto lugar na hierarquia das maiores circunscrições, mas a expressividade de sua população. Para Tschudi, era esse critério, dentre os demais, que conferia coesão política a essa província.

O relevo ainda era elemento fundamental para a caracterização do território mineiro. No primeiro capítulo, Tschudi compõe um quadro geral do

242 Tradução em português: A Província Brasileira de Minas Geraes.

243 Johann Jakob von Tschudi (1818 – 1889) formou-se como naturalista em Zurique, Leiden e

Paris. Seu primeiro contato com a natureza americana foi nos Andes, de que resultaram trabalhos geoetnográficos sobre aquela região. Em finais da década de 50, ele resolveu expedicionar pelo Brasil, adentrando o território mineiro em janeiro de 1858. MARTINS, In: HALFELD; TSCHUDI, 1998, p. 16 – 23.

sistema orográfico de Minas, cuidando de ressaltar as nuances da paisagem:

Um exame superficial do mapa de Minas Gerais mostra um território ricamente irrigado, através do qual inúmeras serras serpenteiam de forma quase caótica. Esta característica é mais pronunciada entre o 44º e o 47º graus de longitude Oeste de Greenwich, na região propriamente montanhosa de Minas, enquanto mais a leste, predominam vales e montanhas de menor elevação e, ao norte, ondulações suaves. A Serra dos Aimorés, que corre de norte a sul no leste da província, separa-a das matas virgens da costa e, somente no sul, as já mencionadas razões político-financeiras anexaram-lhe uma porção de território que, pelas fronteiras naturais, não lhe pertencia.245 A descrição de Tschudi busca traduzir em palavras o que o leitor deve ver no mapa de Halfeld-Wagner (FIG.1). Nele, a intenção de captar a totalidade evidencia-se na própria disposição dos elementos gráficos dentro da composição: em uma mesma imagem, coexistem aspectos da geografia política (cidades, vilas, freguesias, capelas, povoações, fazendas, aldeias indígenas); da geografia física (morros, serras, cachoeiras, córregos, ilhas, lagoas, rios, ribeirões) e da economia (registros, recebedorias, minas de ouro em trabalho).

No que concerne ao relevo, os cursos de água são sinalizados por finas linhas que se espalham pelo interior do território, o que comprova ser ele ―ricamente irrigado‖. Linhas mais grossas indicam as serras que compõem o sistema orográfico da Minas e, da maneira como estão dispostas na superfície do mapa, perfazem realmente uma forma ―quase caótica‖.

A imagem de Minas que depreendemos dessa carta lembra-nos da descrição que Cunha Matos faz da serra da Mantiqueira no Itinerário:

Os morros atravessam-se em diferentes sentidos, ora formando largos vales em que serpenteiam águas cristalinas, ora deixando extensas gargantas e desfiladeiros, ora mostrando muralhas de argila talhadas a pique.246

Quanto às divisas austrais da província, em outra passagem, Tschudi menciona as razões político-financeiras que teriam contribuído para que elas fossem expandidas em detrimento das fronteiras naturais:

245 Ibidem, p. 69.

Ao sul, os rios Paraibuna, Preto e Paraíba do Sul, além de um segmento da Serra da Mantiqueira, formam a fronteira com as províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro. As fronteiras naturais com esta última província seriam a Serra da Mantiqueira, que corre do sudoeste ao nordeste, e seus prolongamentos, a Serra do Macaco, a Serra de São Sebastião e a Serra do Brigadeiro, que têm a mesma direção da Mantiqueira, mas, por razões fiscais, o governo português fixou seus limites nos rios citados, pois aí era mais fácil controlar o pagamento das taxas e reprimir o contrabando, já que leis rigorosas só permitiam que o tráfego entre as duas províncias se fizesse através de determinadas passagens dos rios.247

O fato de os limites entre Minas Gerais e Rio de Janeiro terem sido estabelecidos, levando-se em conta apenas imperativos fiscais, era a tônica da crítica de Tschudi em relação ao sistema de divisão territorial do governo português. Assim, ao identificar incoerência entre limites políticos e fronteiras naturais, o autor reforçava a concepção de que o território mineiro era uma construção herdada do período colonial, o qual urgia ser redefinido de acordo com critérios geodésicos mais racionais.

A importância da Serra do Espinhaço para a estruturação do sistema hidrográfico é outro tema abordado por Tschudi no quadro do relevo em Minas. Paralela à Serra do Mar, essa cordilheira estende-se do sul ao norte do Brasil, formando, junto a outras montanhas, uma espécie de rede que entrelaça diferentes climas e vegetações. Segundo o autor:

A Serra do Espinhaço forma, com suas ramificações, o divisor de águas de cinco bacias, a saber, as dos rios Paraíba, Doce, Mucuri, e Jequitinhonha, a leste, e a do Rio São Francisco, a oeste. No planalto de Barbacena, em uma extensão de poucas léguas quadradas, encontram-se as cabeceiras de quatro rios – o Paraíba, o Doce, o São Francisco e o Paraná.248

A literatura corográfica da época faz referência a esse complexo de montanhas: para Aires de Casal, por exemplo, ela era o mais notável acidente geográfico de Minas, tendo origem na parte setentrional de São Paulo. Em seu

Dicionário Geográfico, Milliet de Saint-Adolphe confirma a sinonímia entre

Mantiqueira e Espinhaço, dizendo que essa ―corda de montanhas‖ oferecia os

247HALFELD; TSCHUDI, 1998, p. 68. 248 Ibidem, p. 79.

mais altos picos do interior do Brasil.249 Mello Moraes e Cerqueira e Silva também comentam sobre a celebridade dessa serra nos seguintes termos:

A serra da Mantiqueira, tão celebre pelos desacatos e crimes que em seus arredores praticou a companhia de salteadores que a habitavam, ramifica-se por toda a provincia com diversas denominações, servindo-lhe de divisa com o Rio de Janeiro, e separando as aguas da mesma provincia em duas grandes bacias: a do norte que engrossa o rio de S. Francisco, e a do sul que vai tambem engrossar o Paraná.250

Divisa de águas, limite entre províncias, rota de viajantes, esconderijo de bandidos: essas eram algumas das imagens atribuídas ao Complexo do Espinhaço, topônimo que se encontra no âmago do relevo mineiro e, por silogismo, da identidade nacional. Na definição de Tschudi:

Ele se compõe de uma cadeia descontínua de pequenas serras, que desviam da orientação geral, ora para o leste, ora para o oeste, mas que, em seu conjunto, devem ser consideradas como um único sistema.251

Contiguidade territorial, descontinuidade paisagística: para Tschudi, essa era uma das características mais marcantes de Minas Gerais. Sob o prisma da descontinuidade, dos desvios do relevo, supomos que esse autor reconhecesse a diversidade como caráter de coesão do território mineiro.

Sua visão, todavia, não trai a percepção da totalidade: a província é vista como uma unidade de contrastes, território cujas regiões, embora sejam díspares entre si, perfazem um conjunto harmônico.

A vasta extensão territorial tornava heterogêneo não apenas o relevo mas também as temperaturas, que poderiam variar do calor típico das zonas tropicais a um frio semelhante ao das províncias meridionais do país. Se as altas temperaturas eram facilmente explicáveis pela posição geográfica da província, as baixas permaneciam um enigma, ―amplo campo de pesquisa para a meteorologia mais rigorosamente científica‖, tão mais instigante de se resolver quanto maior sua influência sobre a produção agrícola provincial:

249 SAINT-ADOLPHE, 1845, p. 32. 250 MORAES; SILVA, 1854, p. 179. 251 HALFELD; TSCHUDI, op. cit., p. 71.

A influencia dessa baixa temperatura sobre a vegetação é, como seria de se esperar, muito grande. Na região dos campos, as culturas mais propriamente tropicais, tais como cana-de-açúcar, café, mandioca, bananas, etc., só ocorrem excepcionalmente, em situações mais protegidas. Chamou-me a atenção o fato da província de São Paulo, situada mais ao sul, apresentar plantações de café muito vigorosas em uma altitude que, em Minas Gerais só permitiria a maturação dos frutos em hortas bem resguardadas. A formação de gelo no ar é muito frequente quando sopram os ventos do sul, e a geada não é uma raridade, tanto nos campos como nos lugares mais baixos, tendo ocorrido especialmente amiúde no ano de 1861.252

Nessa passagem, a comparação com São Paulo é significativa, pois sugere o desnível econômico que se estabelecera entre essas duas províncias no tocante à produção cafeeira. Desse modo, enquanto as plantações de café paulistas eram ―muito vigorosas‖; no sul e Zona da Mata, regiões tradicionalmente agrícolas, os mineiros tinham de se haver com geadas e outros fenômenos meteorológicos característicos da variação climática.

Tschudi dedica alguns parágrafos de seu texto à formação da estrutura fundiária em Minas, analisando suas implicações no caráter dos mineiros. A seu ver, essa província tinha a maior população do Império, pois nela a propriedade rural era ―muito menos dominada por grandes complexos familiares do que no resto do império, resultando daí a possibilidade de um maior número de habitantes poder usufruir dos frutos de seu esforço em sua própria terra‖. E explica a origem desse fenômeno:

As jazidas de ouro e de diamantes, como já vimos, atraíram uma quantidade de pessoas relativamente grande para seu interior e, como o transporte de alimentos de fora era difícil, formou-se, ao lado da população mineradora, e simultaneamente a ela, uma população de agricultores, graças à qual o solo foi mais parcelado. As grandes doações de terras pelo governo não ocorreram na mesma proporção que em outras regiões, em virtude das próprias condições da mineração; e a pequena propriedade pôde assim se desenvolver mais livremente. À medida que a produção de ouro e pedras preciosas foi declinando, fortaleceu-se a agricultura, e Minas Gerais constitui a prova mais patente de como o bem estar dos brasileiros se elevaria com o parcelamento dos enormes complexos latifundiários.253

252 Ibidem, p. 84.

O parcelamento do solo seria, portanto, o resultado das condições de subsistência exigidas pela atividade mineradora. Nesse sentido, notemos a relação que o autor estabelece entre pequena propriedade e liberalismo: ―a propriedade livre desenvolve uma autoconfiança e um sentimento de independência que os servos não podem conhecer‖. Ademais:

A pequena propriedade livre propicia o liberalismo: em uma terra com um poder despótico, ela clama pela liberdade; em um estado com instituições liberais, ela é sua proteção e sustentáculo. Assim ocorre com a província de Minas Gerais – sob o despótico domínio português, ela foi a primeira defensora da liberdade, e desde que o Brasil possui uma das mais liberais constituições, ela a protege com zelo inexcedível.

Nessa lógica, a província mineira era o fundamento do liberalismo no Brasil, já que sua estrutura fundiária assentava-se sobre a pequena propriedade livre. A pequena propriedade teria, portanto, conformado a identidade agrícola de Minas, figurando como ―a prova mais patente de como o bem-estar dos brasileiros se elevaria com o parcelamento dos enormes complexos fundiários‖. Ao aventar tal possibilidade, Tschudi provavelmente estava pensando em uma forma de facilitar o acesso a terra não apenas para o cidadão do Império, como para o imigrante europeu adventício.

Das condições materiais, geográficas e históricas, advinha a singularidade de caráter dos mineiros, sua maneira de se relacionarem com as outras pessoas, com o trabalho e com as instituições políticas do país. No juízo de Tschudi:

O mineiro se distingue favoravelmente dos demais brasileiros por uma maior atividade e diligencia. Como morador de uma terra interior de clima mais temperado, e com um solo em geral menos generoso do que o das províncias vizinhas, ele se encontra na contingência, e na necessidade, de trabalhar com mais vigor.

Sob essa perspectiva, premidos pela diversidade do clima e deficiência do solo, os mineiros teriam se tornado trabalhadores mais ágeis e diligentes. Nesse sentido, os conceitos de estrutura fundiária, liberalismo econômico e elite política são identificados pela idéia de ―natureza‖ que subjaz ao paradigma corográfico.

Outra passagem em que o autor comenta sobre suas qualidades ―intrínsecas‖ é a seguinte: ―O mineiro também se distingue de seus compatriotas por um caráter