Ao compor o Diccionario Topographico do Imperio do Brasil (1834), José Saturnino da Costa Pereira161 vivia um momento de otimismo em relação à ampliação das franquias provinciais. No prefácio de sua obra, o engenheiro fornece dados gerais sobre o Império Brasileiro, cuidando de observar que a melhor maneira de se perceber a totalidade deste seria a partir da consideração das particularidades provinciais:
Na vasta superfície do Brasil, abrangendo 5º de latitude ao N. do equador, e mais de 34º ao Sul; e com quase 18º de longitude nas visinhanças da Equinocial, já se vê, que o país deve
apresentar aspectos muito variados, terrenos de naturezas diversas, elevações, e vales diferentemente extensos, e configurados; diferentes climas, produções, etc., que não podem ser encarados debaixo de um só ponto de vista, para descreverem em geral, de maneira que se forme idéia do todo.
Remetemos por isso os nossos leitores aos Artigos, em que cada uma das Províncias individualmente se descreve, e onde se faz menção, de cada um dos objetos digno de observar-se na respectiva localidade, e onde podem ser considerados singularmente, sem relação ao todo.162
Nessa passagem, Costa Pereira atesta a impossibilidade de sintetizar o Brasil ―debaixo de um só ponto de vista‖, visto que esse país estava sob o signo da diversidade. A melhor maneira de se vislumbrar o território do país seria, portanto, remetendo-se às particularidades provinciais, as quais deveriam ser descritas em artigos independentes entre si. Isso nos revela um direcionamento
161 José Saturnino da Costa Pereira (1773 – 1852) formou-se em Matemática pela
Universidade de Coimbra, tendo sido oficial do Corpo de Engenheiros e professor da Escola Militar. Por incumbência do governo brasileiro, escreveu diversos compêndios didáticos para uso da Escola Militar, tais como: Dicionário Topográfico do Império do
Brasil (1834); Compendio de Geografia elementar (1836); Elementos de cronologia (1840); Elementos de geodesia (1840); Lições elementares de óptica (1841); Elementos de
astronomia e geodesia (1845); Apontamentos para a formação de um roteiro das costas do
Brasil 1848). BLAKE, 1893, v.2, p. 185 – 187.
lógico em que as diversidades perfaziam a unidade, perspectiva essa semelhante à de Aires de Casal.
Sobre a criação das províncias, Costa Pereira comenta que: ―estas divizões tiveram por baze o commodo publico na administração da justiça, e o systema de indagação dos phenomenos da natureza não pode sempre quadrar com huma divisão de territorio feita com diverso fim‖. Assim, o autor reconhecia o caráter artificial do sistema de divisão do Império, atestando a não correspondência entre limites políticos e fenômenos da natureza.
Mesmo tratando as províncias de maneira pormenorizada, Costa Pereira evita mencionar um importante objeto da descrição corográfica: os números de população. Isso porque ―algumas notas, que podemos obter acerca da população, são baseadas em principios tão falíveis, que nenhuma confiança nos merecerão, para as transmitir aos nossos leitores‖.163 O próprio autor admitia que essa omissão tornava sua obra ―imperfeita‖ e passível de críticas. A lacuna sobre a população, contudo, não foi exclusividade da obra em questão, tendo sido notado o mesmo problema em Aires de Casal.
Para Costa Pereira, a descrição parcial consistia num eficiente recurso para se delinear a superfície do Império. Contudo, ele não era adequado à representação do litoral brasileiro, visto que ―Estas costas, vistas do mar, não apresentão aspectos semelhantes em toda a sua extenção‖:
As descripções parciaes do litoral não podem, ao contrario, offerecer ideia clara do seu complexo: a direcção das Costas, os Recifes, e Baixos que as bordão; o sentido, e velocidade das correntes; os ventos geraes, as monções, as estações, etc., são circumstancias, que se não podem considerar, conservando o systema de divizão, em que as Províncias estão repartidas, e que nada tem de particular a estes respeitos...164
Sob a perspectiva do Diccionario Topographico, o Brasil revelava-se resplandecente, apesar de inacessível. Sua coesão fundamentava-se na diversidade de aspectos topográficos, climáticos e econômicos que caracterizavam cada uma das províncias que o compunham. Unidade e autonomia provincial eram, assim, faces de um mesmo projeto nacional.
Outra corografia composta sob forma semelhante à de Aires de Casal e
163 Ibidem, p. XIIJ. 164 Ibidem, p. VIIJ.
Costa Pereira foi o Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Imperio
do Brazil (1845), de J. C. R. Milliet de Saint Adolphe. Segundo seu autor, essa obra foi resultado de
...vinte seis annos de residência e de longas peregrinações por diversas províncias do Imperio, com o auxilio d‘um semnumero de manuscriptos, e de obras publicadas em diversas línguas por escriptores tanto antigos como modernos, e de muitos documentos officiaes.165
O subtítulo da obra sugere-nos a diversidade de assuntos que o geógrafo francês pretendia abordar:
A origem e historia de cada provincia, cidade, villa e aldeia; sua população, commercio, industria, agricultura e productos mineralógicos, nome e descripção de seus rios, lagôas, serras e montes; estabelecimentos litterarios, navegação, e o mais que lhes é relativo.
Coube a Caetano Lopes de Moura, médico baiano, radicado na França, o trabalho de tradução do manuscrito original para o português. A obra foi editada sob os auspícios de J. P. Aillaud, Vice-Cônsul de Portugal em Caen, e dedicada a D. Pedro II, com as devidas permissões especiais.
Na dedicatória ao monarca brasileiro, o editor define o dicionário que saía à luz: ―Uma obra especialmente consagrada ao Brasil, que encerra a descripção geographica e ao mesmo tempo a história natural, civil, ecclesiastica, militar e comercial do vasto Imperio‖.166 Nesse sentido, alguns trechos do Prólogo do
Tradutor escrito por Lopes de Moura para a edição portuguesa do dicionário revelam-nos o projeto político ao qual essa obra estava ligada:
A importância política e commercial d‘uma nação depende necessariamente da bondade de suas instituições civis, das producções de seu sólo e industria, e primeiro que tudo de sua posição geographica. Appliquemos ao Brazil a ultima d‘estas proposições, que é d‘uma evidencia manifesta, e viremos a entender que poucos são os Estados, que consideramos debaixo d‘este ponto de vista, occupão um tão distincto lugar entre as demais nações. Collocado no centro do mundo civilizado, cercado pela Europa, América do Norte, México e mais Estados das Índias Ocidentaes, os portos do mar Pacifico, a Oceania, a
165 SAINT-ADOLPHE, 1845. 166 AILLAUD, In: Ibidem, p. 1.
Austrália, as Índias Orientaes e a China, este vasto continente, [...] com perto de 900 legoas de costa, parece que havia sido predestinado pela Providencia para ser o centro das transacções commerciaes de todo o mundo civilizado.167
Percebemos a preocupação do tradutor em construir uma imagem de nação compatível com os cânones de civilização e progresso. Segundo ele, dentre os atributos de importância comercial e política de uma nação, a posição geográfica era o principal, sendo de uma ―evidencia manifesta‖, se aplicado ao exemplo do Brasil. Ao situar o país em ―um tão distinto lugar entre as demais nações‖, denominando-o ―vasto continente‖, Lopes de Moura singularizava a identidade nacional, ao mesmo tempo em que inseria o Império ―no centro do mundo civilizado‖, habilitando-o a interceptar as relações comerciais de toda a comunidade internacional.
A condição de país extenso e bem localizado em relação às principais nações do globo, contudo, não era suficiente para que o Brasil despontasse como uma nação populosa e civilizada. Para isso, urgia implementar a imigração europeia, tal como o tradutor sugere:
Verdade é que a população do Imperio não corresponde com a vastidão de seu territorio; que com serem numerosos os povoados, ainda são poucos se se comparão com os que seria mister que houvessem; porêm a emigração Européa, [...] tudo nos affiança que convidados e attrahidos da salubridade do clima, da fertilidade do sólo, e da hospitalidade do governo e dos habitantes do Brazil, novos colonos se determinarão a ir povoar os sertões d‘um paiz tão favorecido da natureza, [...] d‘um paiz onde com qualquer industria e com mui pouco trabalho podem ter a certeza de viverem numa abastança, de que nunca desfructarião no encerro das cidades da Europa.168 Era esta a finalidade precípua da obra: divulgar no exterior as qualidades do Império para que os colonos se sentissem atraídos pela uberdade do solo brasileiro, ―onde com qualquer indústria e com mui pouco trabalho podem ter a certeza de viverem numa abastança‖. As corografias estavam, portanto, afinadas com os problemas da política nacional, tais como o fim iminente do elemento servil e a necessidade de incentivar a colonização estrangeira no país; a revisão do sistema de divisão geral do Império e a implementação das relações comerciais e
167 MOURA, In: Ibidem, p. VII. 168 Ibidem, p. IX.
diplomáticas do Brasil com países da Europa.
Diferentemente de outros corógrafos que trataram do Brasil ―senão parcialmente, e cada um debaixo de differente ponto de vista‖, Lopes de Moura fazia crer que o empreendimento de Saint-Adolphe era ―não já uma noticia succinta d‘esta ou d‘aquella provincia, d‘esta ou d‘aquella outra cidade ou villa, mas sim uma descripção geral e circunscrita de todo o Imperio‖.169 Percebemos nisso o antagonismo da questão regional no campo das representações corográficas oitocentistas: enquanto, para alguns autores, a região fornecia a melhor perspectiva da diversidade nacional, para outros, sua importância era preterida em face de uma síntese geral.