O primeiro número a apresentar é o total de citações levantadas nas gramáticas analisadas. Forma ao longo dos dez compêndios, 2067 citações que apresentaram desde clássicos da língua latina (como Cícero e Quintiliano) até cânones da portuguesa (como Camões e o padre Antonio Vieira). Claro que a distribuição das citações entre os compêndios não foi uniforme e, aqui, balizaram- se entre as 32 citações da “Orthographia da Lingua Portgueza”, de Tristão da Cunha Portugal, at as 692 citações das “Reflexões Sobre a Língua Portugueza”, de Francisco Jose Freire.
[...] [Bluteau] se queixa das muitas [palavras] que se imprimiraõ alheias do seu original, ou por culpa do amonuense, ou por erro da imprensa, ou por descuido dos correctores; porque no mesmo paragrafo se acha muitas vezes a mesma palavra escripta de tres differetes modos, sem a conjunção ou, com que em muitas dá a entender que se póde escrever ou huma, ou outra”. Cf.: FEIJO, João de Moraes Madureira. Orthographia, ou Arte de Escreve, e Pronunciar com acerto a Lingua Portugueza, para uso do Excellentissimo Duque de Lafoens. Lisboa: Na Impressão Regia, 1824. pp. 09. (Décima impressão mais correcta).
QUADRO 05
Citações nas Gramáticas Analisadas268
Obras Autor Ano Nº Cit. % Cit. / pág.
Arte da Gramática da Lingua
Portugueza Antonio José dos Reis Lobato 1770 84 4,1 0,28 Arte da Grammatica
Portugueza Ordenada em Methodo Facil e Claro
Pedro José de Figueiredo 1811 167 8,1 1,45 Compendio de Orthografia Frei Luiz de Monte
Carmelo 1767 71 3,4 0,08
Gramatica Portugueza Antonio de Moraes Silva 1824 608 29,4 3,66 Gramatica Portugueza de
Manuel Souza Manoel Dias de Souza 1804 43 2,1 0,14
Grammatica Philosophica da
Lingua Portugueza Jeronymo Soares Barbosa 1830 215 10,4 0,46 Origem, e Orthographia da
Lingua Portugueza
Duarte Nunes de Leão 1784 64 3,1 0,18 Orthographia da Lingua
Portugueza Tristão da Cunha Portugal 1856 32 1,5 0,11 Orthographia ou Arte de
Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza
João de Moraes
Madureyra Feijó 1802 91 4,4 0,18
Reflexões Sobre a Lingua Portugueza (parte 1ª)
Francisco José Freire 1842 692 33,5 4,25
Total 2067 100,0
FONTE: Em nota.
O número de citações pode variar por diversos motivos, entre eles, a quantidade de páginas escritas (e por isso acrescentamos coluna “cit./pág.”, que representa a quantidade de citações por páginas de cada gramática). Tal relação é importante para que possamos avaliar o esforço de cada autor em ratificar suas regras gramaticais com base em outros autores. Sendo assim, encontramos um grande aumento do número de citações na medida em que a segunda quinzena do
268 CARMELO, Frei Luiz de Monte. Compêndio de Orthografia... Lisboa: Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1767; LOBATO, António José dos Reis. Arte da grammatica da lingua portugueza. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1770. (Versão digitalizada do exemplar do CLUL (R-116); LEÃO, Duarte Nunes de. Origem, e Orthographia da Lingua Portugueza. Ed. 9. Lisboa: Typografia Rollandiana, 1784 (Correcta, e emendada. Com Licença da Real Mesa Censória); FEIJÓ, João de Moraes Madureyra. Orthographia, ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza para Uso do Excellentissimo Duque de Lafoens. Sexta impressão mais correcta. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1802; SOUZA, Manoel Dias de. Gramatica Portugueza Ordenada... Coimbra: Na Real Imprensa da Universidade, 1804. (Com licença da Meza do Dezembargo do Paço); FIGUEIREDO, Pedro José de. Arte da Grammatica Portugueza, Ordenada em Methodo Breve, Facil, e Claro, Offerecida a Sua Alteza Senhor Dom Antonio, Principe da Beira. Ed. 3. Lisboa: Na Imprensa Regia, 1811 (Com licença); SILVA, Antonio de Moraes. Grammatica Portugueza. Rio de Janeiro: Na Typographia de Silva Porto, e Companhia, 1824. BARBOSA, Jeronymo Soares. Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza... Ed. 2. Lisboa: Na Typographia da Mesma Academia, 1830. ; FREIRE, Francisco José. Reflexões Sobre a Lingua Portugueza. Parte primeira que trata do valor das palavras e correcção da Grammatica. Lisboa: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1842; PORTUGAL, Tristão da Cunha. Orthographia da Lingoa Portugueza Ensinada em Quinze Lições... Ed. 2. Pariz: Va J. –P. AILLAUD, MONLON e Ca, 1856.
XIX se aproximava. Ao que parece, as gramáticas portuguesas, a partir dos oitocentos, passam a exigir menções e citações propriamente ditas e abandonam o uso de exemplos vindos dos próprios autores, praxe entre os ortógrafos e gramáticos do século XVI.269
GRÁFICO 02
Citações por Páginas nas Gramáticas (1767 – 1856)
FONTE: QUADRO 05
Observando o gráfico 2, fica claro o aumento do número de citações ao longo dos anos. Mesmo em 1830, na “Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza”, Barbosa cita outros autores de gramática do que todos os demais gramáticos, anteriores a 1811, citaram. A “Orthographia da Lingua Portugueza”, de Tristão da Cunha Portugal parece-nos o único ponto fora da curva. No entanto, o autor seguiu a tradição de Madureira e de Frei Luiz de Monte Carmelo e se preocupou muito mais em listar palavras que acredita ser as mais difíceis de serem aprendidas do que em propriamente estabelecer regras bem fundamentadas para sua ortografia. De fato, após as 94 páginas nas quais adverte o leitor com as quinze lições, a exemplo de Madureira, Tristão Portugal, passa a listar os “Erros Comuns da Pronunciação do Vulgo, com as Suas Emendas em Cada Letra” – um tipo de dicionário que rejeita palavras as quais os rústicos mais comumente pronunciavam com erro, segundo o autor. Assim, na letra “A” listou “Abainhar”
269 LEITE, Marli Quadros. O Nascimento da Gramática Portuguesa: uso & norma. São Paulo: Paulistina; Humanista, 2007. pp. 39 – 40.
que deveria ser pronunciada desta forma e não como “Abaenhar”, “Abalisar” e não “Abalizar”, assim por diante.270
O uso de listas de palavras e expressões que não deveriam ser usadas, ou que geravam mais dúvida, era comum entre os autores que se baseavam na ortografia de Madureira Feijó.271 No entanto, a tradição das longas listas de palavras tinha raízes muito anteriores. Duarte Nunes Leão, em 1576, utiliza deste recurso quando elaborou a “R f r çã A gũ vr qu g vu g r vfa & fcreue mal”, em meio a sua ortografia.272 Na lista, Leão elenca duas colunas, sendo uma a de erros e outra a de emendas, bastante semelhante à formatação proposta na listagem de Tristão Portugal. Mesmo que este não tenha feito nenhuma citação do autor quinhentista, nada impede que o tenha tomado por base ao produzir a listagem. Ademais, não faltariam exemplos de listas semelhantes para Tristão Portugal, que poderia tê-las encontrado na publicação de Frei Luis de Monte Carmelo, em 1767, na qual se podem ler catálogos e mais catálogos, que vão desde os nomes pr prios at a listagem dos “vícios ou abusos” da ortografia moderna e suas subsequentes emendas.273
Vale a lembrança, ainda (apesar de aí não haver correspondência formular com a lista de Tristão Portugal), o “Elucidario das Palavras, Termos, e Frases que em Portugal Antigamente se Usarão, e Hoje Regularmente se Ignorão”, de Joaquim de Santa Rosa Viterbo, publicado em dois volumes, entre os anos de 1798 e 1799.274 Nele, o autor apresenta em forma de dicionário os termos já em desuso em Portugal, mas que, por algum motivo, ainda encontravam lugar entre
270 PORTUGAL, Tristão da Cunha. Orthographia da Lingoa Portugueza Ensinada em Quinze Lições Pelo Systema de Madureira Rectificado pelo princípios da Grammatica Philosophica da Lingoa Portugueza de Jeronimo Soares Barbosa. Ed. 2. Pariz: Va J. –P. AILLAUD, MONLON e Ca, 1856. p. 95.
271 GONÇALVES, M. F. As idéias ortográficas em Portugal: de Madureira Feijó a Gonçalves Viana (1734 – 1911). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2003. p. 45 – 47.
272 LIÃO, Duarte Nunes do. Orthographia da Lingoa Portvgvesa: Obra vtil, & neceffaria, afsi pera bem fcreuer a lingoa Hefpanhol, como a Latina, & quaefquer outras, que da Latina teem origem. Lisboa: Per João de Barreira impreffor delRei N.S., 1576. p. 69.
273 CARMELO, Frei Luiz de Monte. Compêndio de Orthografia... Lisboa: Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1767. p. 30 – 47 ; p. 503 – 723.
274 VITERBO, Joaquim de Santa Rosa. Elucidario das Palavras, Termos, e Frases que em Portugal Antigamente se Usarão, e Hoje Regularmente se Ignorão. Vol. I e II. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1798 – 1799. (Com licença da Mesa do Desembargo do Paço).
os menos abastados. Claro que neste ponto vale a lembrança de que a padronização proposta por Viterbo, bem como a de Leão e a própria listagem de Tristão Portugal, representaram a tentativa de impor um padrão linguístico traçado por um determinado grupo de homens de letras. Ao percebermos a listagem sobre a perspectiva de Pocock, as listas representam um reforço ao idioma letrado frente ao rústico, ou na ótica da teoria sacrifical de René Girard, a imposição do comportamento linguístico por parte dos homens de letras era, nada mais, que parte do ritual ao qual deveriam se submeter os membros do grupo dos letrados. Tanto gramáticas quanto dicionários semelhantes ao de Viterbo eram, assim, manuais para permitir e auxiliar fixação das regras para a permanência ou para a entrada na comunidade das letras.