Com relação aos títulos políticos que receberam uma qualificação negativa, podemos destacar os “Discursos Vários Políticos”, de Manuel Severim de Faria, caracterizado por Francisco Jos Freire com um desconfortável “Seria necessário Auctor mais Clássico”.292 Brachyolog é outro autor a receber crítica em sobre sua obra “Principes”. Aqui, novamente, Freire faz uso da ligação com Portugal como base para a ret rica de seu argumento. Segundo ele, “Este autor [Br hy g] r qu r r vr [ b , “M ”] r portuguez, deixou de o ser”.293 Observemos que a característica da origem portuguesa é constantemente utilizada como elemento retórico que valida o autor como gramático da língua de Portugal. Não é sem razão que Dom Raphael encarando-a como obra coletiva da sociedade, não estão por isso aparte das paixões e dos contornos políticos de sua época. Talvez eles, mais que outros, ainda sejam capazes de perceber tais movimentos com maior clareza, justamente pelo trabalho direto com o discurso.
290 FREIRE, Francisco José. Reflexões Sobre a Lingua Portugueza. Parte primeira que trata do valor das palavras e correcção da Grammatica. Lisboa: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1842. p. 12. Para uma análise mais aprofundada do conteúdo político presente na obra de Francisco Rodrigues Lobo Cf.: FONSECA, Joaquim. O Discurso de Corte na Aldeia de Rodrigues Lobo: o diálogo I. Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras, 1996. Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/9074/2/2728.pdf [11.abr.12]. 291 FREIRE, Francisco José. Op. Cit. p. 8.
292 Ibidem. p. 59.
293 FREIRE, Francisco José. Reflexões Sobre a Lingua Portugueza. Parte primeira que trata do valor das palavras e correcção da Grammatica. Lisboa: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1842. p. 53.
Bluteau, ao redigir o Pr logo destinado “Ao Leitor Portuguez” em seu dicionário, defende-se por sua origem francesa mesmo antes das acusações.
Da tua impaciência conheço, que es Portuguèz; como tal não podes deixar de eftranhar, que fe arrojaffe hum Eftranho a compor do teu idioma o Diccionario. Entendamo-nos Amigo, & entende, que ifto, que te parece arrojo, he veneração.[...] Diràs, que eftes benefícios [de se fazer um dicionário para o Português] fó os pode fazer hum Portuguèz de nacimento, porque os nacionais fão de juro herdado legisladores da fua locução. Se ifto fora afim, não poderia haver Vocabularios de duas lingoas, porque nunguem he, nem pode fer natural de duas terras. A Patria he May, & afim como nenhum homem naceo de duas mãys; de duas pátrias nunguem he filho. Mas com termos todos huma fo pátria, pode cada hum de nos falar mais de huma lingoa. [...] A ifto fe acrecenta, que nem fempre os filhos da terra fabem melhor a fua lingoa. [...] Tambem he de faber, que muitor Portuguezes, que pertendem reprovarme por eftranho, faõ menos Portuguezes, do que eu. Todo o Portuguez, que naceo de quarenta annos a efta parte, tem menos annos de Portugal, do que eu. [...] fe não for de teu aggradom ferà porque não vem da mão de outro Portugèz, que (a meu entender) es Portuguèz tão fino, que não havias de receber de hum Indio hum bifalho de diamentes; nem de hum Gentio de Ceilão hum fio de perolas; nem de hum morador do Pegû hum colar de Rubis; porque tudo, o que não fahe de mão Portugueza, na tua eftimação he nada. [...] [grifos nossos]294 A retórica de Bluteau começa com uma compreensão, que mais tarde se revela sarcasmo, da situação em que se encontra um leitor português tendo de ver um francês a escrever-lhe um dicionário. O uso do termo “Amigo” s aproxima autor e leitor para que, em seguida, o argumento contrário ao vínculo entre terra de nascimento e a língua que se escreve possa começar. Primeiro, um argumento lógico que coloca os dicionários bilíngues (assim como o do próprio Bluteau), como o primeiro problema para os que acreditavam no princípio de que os dicionários deviam ser escritos por escritores nativos de terras nas quais a língua dicionarizada fosse pátria. Bluteau utiliza então uma metáfora entre a pátria e a figura materna – metáfora esta comum na literatura política do XVIII e XIX – para salientar a impossibilidade óbvia de que haja autor de duas pátrias para
294 BLUTEAU, Raphael. Vocabulário portuguez e latino. Coimbra: Collego das artes da Companhia de Jezus, 1712. (edição fac-similar em CR-ROM). BLUTEAU. Folhas 2 – 3. (vol. 1).
escrever livros em duas línguas.295 A seguir, Bluteau reafirma que pode um mesmo indivíduo falar duas línguas e que, em algumas situações, mesmo falando uma língua que não lhe é herdada do berço, pode conhecê-la melhor que seus falantes de nascença.
Cabe aqui um momento para, em defesa do argumento do dicionarista, recordarmos a citação de Antonio José dos Reis Lobato destacada em epígrafe neste capítulo. Dizia Lobato que “soube Francisco Sanches Brocesse mais Grammatica em nossos tempos, que Cicero, e Varrão colunas da lingua nos seus, que lhe precederom (sic) 1640 annos”.296 Em 1770, o argumento do autor de “Arte da grammatica da lingua portuguesa” salientava que gramática da língua e a língua em si eram – como ainda o são – coisas diferentes, sendo que, para a gramática, o que mais influencia na apreensão do conteúdo é a razão e não a natalidade.
Mesmo para aqueles que ainda não haviam se convencido do argumento do dicionarista, este ainda compara, de maneira sarcástica, seus quarenta anos de Portugal com o de seus críticos. Sua conclusão é a de que, pelo tempo em que vive no território lusitano, tem mais de Portugal que qualquer um que o critique com menos idade. Em seu último argumento, novamente lançando mão do sarcasmo, Bluteau utiliza o conhecimento hist rico para associar o “presente” que dera a língua portuguesa como todo e qualquer presente vindo de um estrangeiro. Assim, na possibilidade de não aceitarem seu dicionário, os portugueses deveriam recusar também os diamantes dos índios, as pérolas dos gentios e os rubis do Pegû. Conclui, portanto, que “A diverfidade da Patria não deve diminuir a eftimação da oferta [de seu dicionário]”.297A questão nos faz refletir sobre a origem dos autores citados nas gramáticas, tema do gráfico seguinte.
295 Uma relação de livros que utilizam-se desta metáfora pode ser vista em: https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=%22patria+may%22&tbs=, cdr:1,cd_min:01/01/1700,cd_max:31/12/ 1889&num=10
296 LOBATO, António José dos Reis. Arte da grammatica da lingua portugueza. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1770. p. XLII. (Versão digitalizada do exemplar do CLUL (R-116).
297 BLUTEAU, Raphael. Vocabulário portuguez e latino. Coimbra: Collego das artes da Companhia de Jezus, 1712. (edição fac-similar em CR-ROM). BLUTEAU. Folhas 3. (vol. 1).
GRÁFICO 07
Qualificação dos Autores Citados por sua Origem (1767 - 1856)
FONTE: Nota do QUADRO 05.
O gráfico parece confirmar a preferência pelos autores portugueses entre os exemplos citados nas gramáticas. Com relação à qualificação destes autores, a superioridade portuguesa apenas reflete o maior volume de citados desta origem. Bluteau, por exemplo, autor francês de grande expressão, foi qualificado em apenas dezenove menções das setenta e duas que seu dicionário recebera. Destas, em onze o autor mereceu qualificações positivas e nas outras recebera qualificação negativa. É importante salientar que todas estas qualificações negativas vieram da “Orthographia ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza”, de padre Feij , em 1802. Como exemplos das críticas presentes na “Orthographia” podemos mencionar,
Bluteau uzo, que Lubricar fignifica o mefmo [que Lobregar ou Lubrigar], fundado em huma etymologia, que lhe dá da palavra Caftelhana Lubricar. Mas o ufo da palavra Lubricar fó anda entre Medicos, como termo de Medicina, que fignifica abrandar com remédios o ventre para purgar. 298
Nas palavras de Feijó, observamos o rejeite pelo exemplo etimológico vindo do castelhano e o prevalecimento do uso como forma de validar o sentido atribuído ao termo. Neste sentido, o “uso” prático da língua não correspondia ao
298 FEIJÓ, João de Moraes Madureyra. Orthographia, ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza para Uso do Excellentissimo Duque de Lafoens. Sexta impressão mais correcta. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1802. p. 346.
que alude Bluteau para o significado da palavra “Lubricar”, o que fez com que sua definição fosse criticada por Feijó. Não é nosso intento aqui trabalhar com uma já longa discussão linguística a respeito de se a gramática deve ser definida pelo uso ou pelos cânones. De certo, tal discussão é ainda importante, mas demasiada longa para nossa pesquisa. Limitamo-nos ao argumento de que Feijó. Ao mesmo tempo, criticava castelhanos e franceses (na figura de Bluteau). Para o autor, permitir que o uso reja o significado das palavras parece abrir caminho para a crítica ao estrangeirismo. É importante observar a recusa ao barbarismo entre as críticas da retórica clássica. Por vezes a pureza da língua, bem como sua clareza e coerência, parecia depender de se evitar palavras estrangeiras ou já desconhecidas à pr pria língua. Mais uma vez o exemplo do autor de “Orthographia, ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza” revela-nos tal prudência. Em um ambiente de tantas transformações quanto o período em que escrevera Feijó, a recusa em aceitar um francês como dicionarista e o castelhano como base etimológica protegia do estrangeiro a língua (e, por consequência, a identidade) portuguesa.