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CHAPITRE II : DEVELOPPEMENT DES SECTEURS SOCIAUX

3.2.1 Santé et Hygiène Publique

A temática abordada como tema da redação no ano de 2015 foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. O INEP, nessa aplicação, propôs abordar um dos grandes malefícios do nosso corpo social que é a violência empregada

Saúde 11% Educacional 11% Filosófico 22% Sociológico 34% Político 11% Histórica 11%

contra as mulheres apenas por elas terem essa condição. Assim, o órgão fez com que milhares de candidatos analisassem e produzissem propostas de intervenção acerca desse recorrente problema muitas vezes causado pelo ódio, descontrole ou desprezo pelo gênero em questão.

Sobre os planos de texto, podemos ver que se eles se apresentam da seguinte forma, conforme o quadro, com o X representando cada parte prototípica da estrutura do gênero.

Quadro 19: Planos de texto das redações de 2015

Redação Título Introdução Desenvolvimento Conclusão

R21 - X XX X R22 Parte desfavorecida X XX X R23 Violação à dignidade feminina X XX X R24 Conserva a Dor X XX X R25 Por um basta na violência contra a mulher X XXX X R26 - X XX X R27 - X XX X R28 - X XXX X R29 Da teoria à prática X XX X R30 - X XX X Fonte: o autor

No que diz respeito às manifestações dos planos de texto nessa aplicação do exame, podemos ver que cinco dos dez textos apresentam o título. Além disso, diferenciando-se dos demais, que apresentam apenas dois parágrafos de desenvolvimento, em R28 e em R25, os enunciadores produzem redações com três parágrafos de argumentação. O INEP informa que na estrutura composicional os textos devem apresentar as três partes prototípicas (introdução, desenvolvimento e conclusão) e, nesse último seguimento, fomentar uma proposta de intervenção que se adeque aos preceitos dos Direitos Humanos. Com isso, vemos que os planos de texto podem ser caracterizados como fixos, porquanto as variações que ocorrem não os fazem se desvincular com os dizeres emitidos pelo órgão organizador do exame.

Como marcas linguísticas presentes nas composições, podemos ver muitas expressões qualificadoras que categorizam a violência contra a mulher como fruto do pensamento “conservador, machista e misógino é fruto do patriarcalismo”, como em R23, ou como uma “execrável prática”, como em R24. Vejamos como ocorre a assunção (ou não) da RE em R22.

Quadro 20: Plano de texto de “Parte desfavorecida”

Título Parte desfavorecida

Introdução De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, a sociedade pode ser comparada a um “corpo biológico” por ser, assim como esse, composta por partes que interagem entre si. Desse modo, para que esse organismo seja igualitário e coeso, é necessário que todos os direitos dos cidadãos sejam garantidos. Contudo, no Brasil, isso não ocorre, pois em pleno século XXI as mulheres ainda são alvos de violência. Esse quadro de persistência de maus tratos com esse setor é fruto, principalmente, de uma cultura de valorização do sexo masculino e de punições lentas e pouco eficientes por parte do Governo.

Desenvolvimento

Ao longo da formação do território brasileiro, o patriarcalismo sempre esteve presente, como por exemplo na posição do “Senhor do Engenho”, consequentemente foi criada uma noção de inferioridade da mulher em relação ao homem. Dessa forma, muitas pessoas julgam ser correto tratar o sexo feminino de maneira diferenciada e até desrespeitosa. Logo, há muitos casos de violência contra esse grupo, em que a agressão física é a mais relatada, correspondendo a 51,68% dos casos. Nesse sentido, percebe-se que as mulheres têm suas imagens difamadas e seus direitos negligenciados por causa de uma cultural geral preconceituosa. Sendo assim, esse pensamento é passado de geração em geração, o que favorece o continuísmo dos abusos.

Além dessa visão segregacionista, a lentidão e a burocracia do sistema punitivo colaboram com a permanência das inúmeras formas de agressão. No país, os processos são demorados e as medidas coercitivas acabam não sendo tomadas no devido momento. Isso ocorre também com a Lei Maria da Penha, que entre 2006 e 2011 teve apenas 33,4% dos casos julgados. Nessa perspectiva, muitos indivíduos ao verem essa ineficiência continuam violentando as mulheres e não são punidos. Assim, essas são alvos de torturas psicológicas e abusos sexuais em diversos locais, como em casa e no trabalho.

Conclusão A violência contra esse setor, portanto, ainda é uma realidade brasileira, pois há uma diminuição do valor das mulheres, além do Estado agir de forma lenta. Para que o Brasil seja mais articulado como um “corpo biológico” cabe ao Governo fazer parceria com as ONGs, em que elas possam encaminhar, mais rapidamente, os casos de agressões às Delegacias da Mulher e o Estado fiscalizar severamente o andamento dos processos. Passa a ser a função também das instituições de educação promoverem aulas de Sociologia, História e Biologia, que enfatizem a igualdade de gênero, por meio de palestras, materiais históricos e produções culturais, com o intuito de amenizar e, futuramente, acabar com o patriarcalismo. Outras medidas devem ser tomadas, mas, como disse Oscar Wilde: “O primeiro passo é o mais importante na evolução de um homem ou nação”.

L1/E1 começa seu texto atribuindo a RE a um enunciador segundo: o sociólogo Émile Durkheim. A instância enunciativa utiliza a voz do teórico para abordar acerca da composição das relações entre a sociedade e o corpo biológico, teoria na qual existe, por meio de relações metafóricas, comportamentos parecidos entre esses dois domínios. O corpo só está em perfeito estado se todos os órgãos funcionarem bem em coletividade, assim como a sociedade só estará bem se existir coesão entre os direitos dos constituintes. L1/E1, ao usar essa metáfora entre o corpo biológico e o corpo social, realiza uma alusão sociológica para introduzir sua tese. Nela, introduzida pelo conector de oposição, “contudo”, é exposto que não há coesão social no Brasil, uma vez que as mulheres, maior parte da composição do país, sofrem violência apenas por sua caracterização de gênero. No desenvolvimento, são empregados os argumentos de que o patriarcalismo está enraizado na nossa sociedade, o que leva à noção de uma inferioridade da figura feminina. Para corroborar com seu dizer, é afirmado que a violência física contra esse grupo chega a quase 52% dos tipos de violência. Essa informação na qual L1/E1se apoia se encontra como um texto motivador na proposta de redação, tais dados são do balanço 2014 da violência contra a mulher, publicado pela secretaria de políticas para as mulheres.

Ao comentar esses dados, L1/E1 utiliza vários adjetivos para caracterizar a orientação argumentativa que constrói, como o uso de “difamadas” para descrever como a imagem da mulher fica com essa situação, e “negligenciados” para informar acerca dos direitos femininos com essa série de abusos.

No segundo parágrafo do desenvolvimento, construído com cinco períodos, L1/E1 mostra que a lentidão e a burocracia também são fatores que contribuem com essa problemática. Para essa instância enunciativa, ao constituir seu ponto de vista sobre o assunto, é demonstrado que os processos brasileiros são “demorados e as medidas coercitivas acabam não sendo tomadas no devido momento”. Para dar força argumentativa ao seu dizer, são utilizados novamente os textos motivadores, mais precisamente de um gráfico divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça. Assim, mostra que apenas quase 34 % dos processos ligados à lei Maria da Penha foram julgados, o que leva, para a instância, a alguns maus indivíduos a continuarem a prejudicar as mulheres.

Na conclusão, podemos ver que L1/E1 utiliza, com ênfase, a modalidade objetiva e a modalidade advérbio de opinião para criar a força argumentativa necessária e construir sua proposta de intervenção, com formas linguísticas como “mais rapidamente”, “severamente” “cabe ao Governo [...] e ao Estado fiscalizar”, “Passa a ser a função

também das instituições de educação” e “Outras medidas devem ser tomadas”. Por fim, a autora utiliza a voz de Oscar Wilde, importante escritor britânico, para demonstrar que o primeiro passo é essencial ao se buscar mudanças.

Sobre a imputação do ponto de vista, podemos ver que em cinco dos dez textos aparecem outras vozes, num percentual de 50%. Algumas ligadas aos textos motivacionais e outras que fazem parte do arcabouço do conhecimento de mundo dos estudantes. Algumas das vozes presentes são as de Émile Durkheim, Simone de Beauvoir e Oscar Wilde. Citemos algumas:

• “De acordo com o site “Mapa da Violência”, nas últimas três décadas houve um aumento de mais de 200% nos índices de feminicídio no país” - R22;

• Conforme previsto pela Constituição Brasileira, todos são iguais perante à lei, independente de cor, raça ou gênero – R30

Vejamos, por meio do gráfico abaixo, as vozes e seus percentuais de recorrência.

Gráfico 06: Vozes alheias presentes nas redações de 2015

Fonte: o autor

Ao ver os dados, podemos perceber que 30% das vozes utilizadas, a junção do Mapa da Violência, do gráfico “O impacto em números” e do Balanço 2014, foram

Mapa da violência 20% Durkheim 10% Simone de Beauvoir 20% Balanço 2014 - Secretaria da mulher 10% Oscar Wilde 10% Gráfico - o impacto em números - Isto é 10% Pierre Bourdieu 10% Constituição 10%

advindas dos textos motivadores. Além disso, pela grande obra com o viés feminista, Simone de Beauvoir foi lembrada e citada de forma explícita por dois autores, o que correspondeu a 20% das vozes alheias no corpus. A autora ainda foi vista como uma líder que pautou “muitas conquistas de movimento feministas” em R28, e como uma modelo a ser seguidos nas discussões sobre gênero, em R27.

É interessante perceber que, nas redações selecionadas em 2015, o número de vozes alheias foi relativamente menor do que o usado em 2016, por exemplo. Das dez redações, em cinco delas não há, explicitamente, alusão a uma voz determinada. Ao invés disso, os candidatos empregaram outras estratégias como recorrer à história ou falar de questões sobre o patriarcado e sua implicação nessas condições, a fim de demonstrar diversificado conhecimento de mundo.

Quanto às formações sociodiscursivas, percebemos que os candidatos fazem uso do campo jurídico, do feminista e do sociológico, entre outros, consoante podemos ver no gráfico abaixo.

Gráfico 07: Formações sociodiscursivas nas redações de 2015

Fonte: o autor

Ao analisar o gráfico, podemos visualizar que as formações sociodiscursivas que mais são usadas são os campos jurídico, feminista e sociológico. O uso dessas vozes demonstra o arcabouço de conhecimentos dos candidatos para falar sobre a violência

Jurídico 37% Literário 12% Feminismo 13% Sociológico 25% Jornalístico 13%

contra a mulher e suas raízes, evidenciadas por meio de estudos que fazem parte desses campos das ciências humanas e sociais aplicadas.

Notamos que em apenas uma redação houve o uso dos índices de pessoas. O fato ocorreu em “Desde o Iluminismo, já sabemos – ou deveríamos saber – que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro” presente em R29. Essa característica destoa da nossa hipótese de que essa categoria seria bastante utilizada na construção das redações.

Com isso, vemos uma mudança significativa entre o gênero artigo de opinião e o gênero redação do ENEM no tocante aos meios de assunção ou não da RE, uma vez que nos trabalhos de Costa (2015) e Santos (2016), tese e dissertação que analisaram a RE nos artigos de opinião do vestibular da UFRN, a assunção ocorreu em muitos textos com tal categoria.

Apesar de não ser explícito no manual de redação, tal fato deve ocorrer porque os cursinhos, os vídeos do Youtube e as fontes não oficiais sem ligação com o INEP afirmam que o texto deve ser o mais impessoal possível. Por isso, vemos muito o distanciamento do locutor ao usar expressões que são expoentes do ponto de vista impessoal, como ocorre em “percebe-se que esse ideal iluminista”, R29, “Acredita-se, também, que apenas a violência física e sexual deve ser denunciada”, R27, e “Nesse sentido, percebe-se que as mulheres têm suas imagens difamadas e seus direitos negligenciados”, R22.

Mesmo com isso, ao analisarmos todo o texto, é possível perceber o engajamento do L1/E1, e isso tende a ocorrer durante todo o texto: na tese, dentro da introdução; no desenvolvimento, com o uso de adjetivos e advérbios qualificadores para marcar o posicionamento do autor do texto, e na conclusão, com a construção da proposta de intervenção.