As noções de responsabilidade enunciativa e de ponto de vista já foram abordadas por alguns autores, como Culioli (1971) e Ducrot (1987). Por isso, faz-se necessário um recorte teórico-metodológico que vise assegurar uma análise profunda e consistente desse fenômeno nas redações que se constituem como nosso corpus. Assim, escolhemos explicitar como é conceituado esse fenômeno para os dois autores que, de forma basilar, fundamentam o nosso trabalho, Adam (2011) e Rabatel (2016, 2017).
É importante dizer que existem flutuações terminológicas e de siglas ao tratarmos do assunto. Para Adam (2011), a RE não se diferencia do ponto de vista (PdV); já Rabatel (2016, p. 45) explicita que o ponto de vista (PDV) :“é comunicado [...] pela instância primeira que, em seu discurso (independentemente do plano de enunciação adotado), coloca-se no lugar daquele que ela imita o PDV”.
Para Adam (2011), o locutor pode assumir a responsabilidade enunciativa, enunciando por intermédio das suas crenças e perspectivas sobre determinado objeto de discurso ou imputar o dito a “uma zona textual de dependência do saber [...] ou de percepção” (ADAM, 2011, p. 115). Quanto a esses casos de imputação, o primeiro caso, dependência do saber, se configura como a mediação epistêmica e o segundo, percepção, como a mediação perceptiva.
5 “L’imputation est donc une PEC à responsabilité limitée, parce que construite par le locuteur premier,
attribuée par lui à un locuteur/énonciateur second qui peut toujours alléguer qu’il n’est pas responsable d’un PDV que L1/E1 lui a imputé à tort” (RABATEL, 2009, p. 74)”
Para o autor, o “grau de responsabilidade enunciativa de uma proposição é suscetível de ser marcado por um grande número de unidades da língua” (ADAM, 2011, p. 117). São eles:
✓ Os índices de pessoas;
✓ Os dêiticos especiais e temporais; ✓ Os tempos verbais;
✓ As modalidades;
✓ Os diferentes tipos de representação da fala; ✓ As indicações de quadros mediadores; ✓ Os fenômenos de modalização autonímica;
✓ As indicações de um suporte de percepções e de pensamentos relatados.
Nessa direção de estudos sobre a RE, Adam (2011) ainda propõe um esquema no qual é visto uma complementariedade entre os campos dos níveis seis, sete e oito das análises de textos/discursos. Assim, toda proposição-enunciado é complementada por textos advindos e se relaciona com outros textos que ainda serão produzidos.
Figura 03: Dimensões da proposição-enunciado
Fonte: Esquema 10 (ADAM, 2011, p. 111).
Conforme o esquema 10 de Adam (2011), vemos que para cada proposição- enunciado existem relações entre a RE, a representação discursiva e os valores
argumentativos. Assim, um determinado locutor, ao enunciar, pode assumir a responsabilidade pelo dito ou se afastar dela, criando, assim, uma representação imagética a respeito de um objeto de discurso, utilizando, para isso, de forma verbal, determinadas concepções argumentativas.
Ademais, para o autor, todo o dito está relacionado com o que já foi abordado anteriormente e se relaciona com os futuros ditos. Com isso, vemos a concepção dialógica da teoria, a qual propõe pontes entre os diálogos, sem visualizar a enunciação como algo desvinculado das noções de pessoa, tempo, espaço e alteridade.
Rabatel (2016, p. 165, adaptado) propõe também uma classificação dos tipos de pontos de vista, a saber:
a) Ponto de vista representado: expressa as percepções pessoais, os pensamentos associados [...] o leitor se encontra diante das “frases sem fala”.
b) Ponto de vista narrado: narração tão objetiva quanto possível. As falas pessoais são mascaradas.
c) Ponto de vista assertado: apoia-se, explicitamente, em atos de fala, em julgamentos mais ou menos construídos que remetem, explicitamente, a uma origem identificável [...] Tenta pôr em ação mecanismos para definir os limites da interpretação ou para dar aos julgamentos pessoais um traço “objetivo”, “científico”, etc.
O ponto de vista representado é apreendido a partir das relações sintáticas e semânticas presentes nos enunciados. Trata-se de uma focalização do enunciador sobre algum objeto focalizado. Desse modo, trata-se de uma representação descritiva de um objeto a partir da visão do locutor.
No ponto de vista narrado, os fatos são explicitados por intermédio da visão dos personagens. Corresponde, assim, a um fragmento do texto que demonstra uma forma de agir ou atitude de um enunciador. Dessa maneira, pode haver distanciamento entre o que é afirmado pelo personagem e a perspectiva do autor.
Por fim, o ponto de vista assertado se assemelha a uma opinião dada. É o tipo de ponto de vista mais comum em textos argumentativos e, portanto, o locutor tende a assumir a RE, se comportando como locutor enunciador primeiro, com um alto nível de engajamento na enunciação.
Se o sujeito, ao enunciar, se comporta como uma instância enunciativa, Rabatel (2015) demonstra algumas posturas evidenciadas pela enunciação. Vejamos, por intermédio do quadro adaptado de Medeiros (2016, p. 57-58).
Quadro 01: Posturas enunciativas
Posturas enunciativas (RABATEL, 2015a)
Coenunciação
- Coprodução de um PDV comum e partilhado por L1/E1 e um enunciador segundo.
- Construção interacional dos PDV.
- A coenunciação põe o locutor coenunciador como o igual de seu alter ego
enunciativo; as marcas de acordo manifestas testemunham de uma harmonia com a outra que obtém benefícios simbólicos, quando este (sujeito) é uma autoridade.
Subenunciação
- Coprodução de um PDV “dominado”, L1/E1, o subenunciador, retomando com reserva, com distância ou precaução um PDV que provém de uma fonte à qual L1/E1 confere um estatuto preeminente.
- A subenunciação indica que o locutor leva em conta um PDV anterior por diversas razões: falta de PDV melhor, porque ele não pode ou não ousa propor outro PDV, por estratégia deliberada. Ser subenunciador é manifestar que seu PDV se elabora “em referência a”, “à luz de”, “sob as instruções de”.
Sobre-enunciação
- Coprodução de um PDV sobressaindo-se a L1/E1 que reformula o PDV parecendo dizer a mesma coisa, contudo modificando a seu favor o domínio de pertinência do conteúdo ou de sua orientação argumentativa.
- A sobrenunciação equivale a “dar a última palavra” e a possuir peso na
interpretação ou no transcurso das réplicas. Donde a ocupação de um lugar elevado, ao menos no plano cognitivo, com um proveito simbólico e/ou institucional, caso o papel discursivo estiver em relação com o estatuto.
Fonte: Medeiros (2016, p. 57-58)
Desse modo, percebemos que, além de expressar um ponto de vista, a instância enunciativa apresenta uma postura em relação ao dizer proferido. Assim, esse processo se demonstra de três formas: postura de coenunciação, postura de subenunciação e postura de sobrenunciação. A primeira se refere ao movimento de que, apesar de usar uma voz alheia, a instância enunciativa corrobora com aquele dizer, num movimento que reforça o posicionamento; a segunda, é alicerçada no uso de uma voz alheia e a enunciação é elaborada sob as instruções de um outro dizer, à luz de; Já a terceira corresponde ao movimento de fechamento do discurso, de conceder a última palavra sobre uma enunciação, esse enunciador, assim, está em um local social elevado.
1.2.3 Estudo da responsabilidade enunciativa: modalidades, diferentes