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B. Lambert Beauduin (1873-1960)

3. La recherche liturgique en Allemagne

Encontrávamos, assim, no ano de 1797, uma Capitania com a população e a produção bem distribuída, característica que parece se estender por todo o período pesquisado. A vila de Desterro não produzia mais de 20% de nenhum dos principais produtos, embora concentrasse a parte administrativa da capitania, grande parte dos estabelecimentos comerciais e muito da incipiente indústria local.

Tabela 1:Participação de cada freguesia sobre a produção dos principais produtos agrícolas no ano de 1797. 162

Ao analisarmos a população das diversas povoações das capitanias, também podemos perceber uma distribuição desta por toda a região. Os principais e mais antigos pontos de povoação – Desterro, Laguna e São Francisco – são os mais populosos, mas mesmo entre estes pólos e os demais lugares a diferença não é muito acentuada.163

162Quadro elaborado a partir de AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387.

163AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387. Ofício do Governador da Ilha de Santa Catarina, Tenente Coronel

João Alberto de Miranda Ribeiro ao Vice-Rei do Estado do Brasil, Conde de Resende, D. Antonio José de Castro, remetendo relatórios e mapas referente a extensão e limites da Ilha de Santa Catarina e distritos de sua jurisdição.

Freguesia Arroz Milho Feijão Trigo

Desterro e Ribeirão 9,80% 8,93% 13,31% 16,60% 12,45% Lagoa 12,25% 4,20% 20,92% 13,76% 27,88% Necessidades 9,80% 15,01% 15,04% 22,88% 3,71% São Miguel 9,80% 12,89% 9,72% 14,99% 1,59% São José 9,80% 43,77% 21,97% 13,72% 8,01% Enseada de Brito 2,94% 8,08% 9,21% 7,88% 9,93% Laguna 9,80% 0,92% 9,39% 8,04% 16,89% Villa Nova 6,37% 1,14% 0,45% 0,78% 19,54% São Francisco 29,41% 5,06% 0,00% 1,37% 0,00% TOTAL 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% Farinha de Mandioca

Tabela 2: População por condição no ano de 1797.164

A composição do quadro populacional no entanto, pareça indicar algumas diferenças entre as localidades referidas. Conforme podemos observar no quadro abaixo, a concentração de cativos em Desterro é maior, proporcionalmente à população total165.

Tabela 3: Porcentagem de Livres, Forros e Cativos no ano de 1797.166

Enquanto o número médio de pessoas por fogos se mantém praticamente o mesmo, assim como a concentração de forros – cuja variação não chega a 1 ponto percentual – a porcentagem de livres na população vai de pouco mais de 70% em Desterro a quase 80% em São Francisco167. Ao

contrário do que pode parecer a primeira vista, esse dado indica a maior urbanização da vila capital. Isso porque, em Santa Catarina, a principal utilização da mão de obra escrava não se dava no setor primário da economia, mas, de maneira especial, na atividade comercial e nas lidas domésticas.168

164Idem.

165Ibidem.

166Quadro elaborado a partir de AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387.

167AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387. Ofício do Governador da Ilha de Santa Catarina, Tenente Coronel

João Alberto de Miranda Ribeiro ao Vice-Rei do Estado do Brasil, Conde de Resende, D. Antonio José de Castro, remetendo relatórios e mapas referente a extensão e limites da Ilha de Santa Catarina e distritos de sua jurisdição.

168Sobre a utilização do cativo na economia catarinense ver: Paulino Cardoso, op. cit. e Fernando Henrique Cardoso, op.

cit. (2000).

Freguesia Livres Forros Cativos Total

Desterro e Ribeirão 3.385 114 1.298 4.797 Lagoa 1.549 20 347 1.916 Necessidades 2.048 27 372 2.447 São Miguel 1.948 22 788 2.758 São José 1.667 12 412 2.091 Enseada de Brito 832 5 254 1.091 Laguna 2.315 112 776 3.203 915 17 177 1.109 São Francisco 3.560 126 767 4.453 TOTAL 18.219 455 5.191 23.865 Villa Nova

Freguesia Livres Forros Escravos

Desterro 5,64 70,59% 2,93% 26,48% Laguna 5,63 72,28% 3,50% 24,23% São Francisco 5,74 79,95% 2,83% 17,22% TOTAL 5,67 74,71% 3,05% 22,24% Habitantes por Fogo

Eram os cativos que faziam o transporte de mercadoria no porto e nas casas comerciais, além de um grande número dos chamados escravos de ganho e dos utilizados como empregados domésticos. Outro dado que aponta nessa direção é a forte presença de cativos que desempenhavam trabalhos especializados, como sapateiros, calafates, marceneiros e outros.169

Um dado, no entanto, que mais claramente pode nos auxiliar a compreender a configuração social e econômica da região é a concentração de casas de comércio. Segundo dados do final do século XVII170, as casas comerciais de Desterro contabilizaram, no ano de 1797, compras em

produtos equivalentes a pouco mais de 63 contos. A segunda praça que mais realizou este tipo de transação, a Freguesia de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco, acumulou no mesmo ano apenas 5:600$000, cerca de 9% do valor verificado em Desterro.

Desterro era, naquele momento, o ponto principal em que era realizado o chamado comércio de grosso trato, principalmente com as regiões fora da Capitania. Se solidificava, assim, sua posição de destaque comercial e de centro urbano e administrativo da região. Esse caráter iria se intensificar nos anos seguintes, e a atuação política do governo da região atuaria, ao longo do século XIX, no sentido de preservar e intensificar essa organização econômica.171

Também era em Desterro que se concentrava a nascente estrutura manufatureira da região. As chamadas oficinas, que incluíam desde alfaiates e sapateiros até fabricas de charutos e curtumes de couros, estavam concentradas na capital. São citados, em 1797, 96 destes estabelecimentos na Capitania, dos quais 52 na Vila de Desterro172. Como a exportação destes itens nos parece ser

bastante reduzida, podemos afirmar que eram, em sua maioria, fabricados para abastecer o mercado interno da capitania.

169Ver Angelo R. Biléssimo, Entre a praça e o porto: Grandes fortunas nos inventários post mortem em Desterro entre

1860 e 1880, Editora Casa Aberta, Itajai, 2008; Maristela Simão, op. cit. (2008) e Paulino Cardoso, op. cit.

170AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387. Ofício do Governador da Ilha de Santa Catarina, Tenente Coronel

João Alberto de Miranda Ribeiro ao Vice-Rei do Estado do Brasil, Conde de Resende, D. Antonio José de Castro, remetendo relatórios e mapas referente a extensão e limites da Ilha de Santa Catarina e distritos de sua jurisdição.

171Ver Angelo R. Biléssimo, op. cit. (2008).

172AHU/Santa Catarina – Caixa 6 Documento 387. Ofício do Governador da Ilha de Santa Catarina, Tenente Coronel

João Alberto de Miranda Ribeiro ao Vice-Rei do Estado do Brasil, Conde de Resende, D. Antonio José de Castro, remetendo relatórios e mapas referente a extensão e limites da Ilha de Santa Catarina e distritos de sua jurisdição.

Outros trabalhos ressaltam a existência de um grande número, na Santa Catarina da segunda metade do século XIX, de pequenas e médias propriedades, em grande parte utilizadora da mão de obra cativa, que produziam uma série de gêneros de subsistência, além da sempre importante farinha de mandioca, e compunham um intricado cenário que, à volta dos grandes negociantes, provia aos grandes centros do país, em especial o Rio de Janeiro, bens de abastecimento.173

O panorama da Capitania de Santa Catarina, no final do século XVIII, já prenunciava, de certa forma, a organização que iríamos encontrar durante todo o século seguinte. De modo geral, se configurava como uma população bem distribuída ao longo de todo o litoral, principalmente em Desterro, São Francisco e Laguna, com uma produção agrícola também bastante espalhada, e a Capital servindo, além de centro administrativo, como principal centro comercial, abastecendo o restante da região – tanto através da importação como da sua incipiente produção industrial – dos produtos manufaturados e servindo de ponto para o envio de produtos para fora da capitania. Essa posição de destaque comercial vai, nas décadas seguintes, estabelecer uma hegemonia política e econômica da Ilha de Santa Catarina sobre o resto da região.