RECHERCHES HISTORIQUES ET APPROCHES CONFESSIONNELLES
A. Lectures historiques et théologiques des origines
II. HISTOIRE ET THEOLOGIE : UNE RENCONTRE POSSIBLE ?
Miller, Monin e Prentice (2000) debruçam-se sobre uma questão antiga na psicologia social: perceber porque não existe um forte impacto da atitude da pessoa, sobre o seu comportamento. Nomeadamente, procuram perceber que mecanismos sustentam a inconsistência entre atitude e comportamento. Estes autores analisaram um tipo de comportamento em particular, o comportamento público, tentando perceber os motivos que podem estar por detrás da inconsistência entre atitudes privadas e comportamentos públicos. De acordo com a self-presentation theory (Goffman, 1959, cit in Miller et al., 2000) as pessoas (vistas como “atores sociais”) querem ser vistas como membros bons e adequados dos seus grupos de pertença e da sociedade em geral. Por este motivo, orientam o seu comportamento (público) por definições socialmente partilhadas a respeito do modo como acham que os outros esperam que se comportem. Segundo esta teoria, o conteúdo normativo que orienta o comportamento, resulta de um processo negocial, onde os atores convergem numa definição da situação social em questão e dos respetivos papéis desempenhados. É esta negociação que define as normas aplicáveis à situação concreta.
Por seu turno, a abordagem da identidade social propõe que o conteúdo normativo deriva do protótipo grupal, com o qual o indivíduo se identifica, sendo o comportamento percecionado como normativo se permitir a máxima distintividade intergrupal favorável ao endogrupo, servindo essas normas para manter a integridade e as fronteiras grupais (Miller et al., 2000). Para estes autores é facilmente entendível porque é que muitas vezes o comportamento publicamente manifestado é inconsistente com as atitudes privadas dos
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indivíduos. Em seu entender, as normas são propriedades intrínsecas aos grupos, que se relacionam apenas de forma indireta e parcial com as características e crenças daqueles (indivíduos) que são influenciados por tais normas.
Miller et al. (2000) procuraram explicar o estudo clássico de LaPiere (1934) acerca da hospedagem de um casal chines em hotéis, a partir da assunção da existência de uma norma social global de “etiqueta social” e da existência de um diferencial de dificuldade, entre a manifestação de uma intenção comportamental (neste caso, a intenção de conceder alojamento a um casal de chineses) e o comportamento efetivamente realizado (hospedar um casal de chineses). Assim sendo, manifestar a intenção comportamental de não hospedar o casal de chineses é mais fácil do ponto de vista social, do que não permitir de facto o alojamento do casal de chineses, que implicaria contrariar efetivamente a norma social global. Segundo os autores, e de acordo com Raden (1977, cit in Miller et al., 2000), esta inconsistência não é uma verdadeira inconsistência. Raden (1977, cit in Miller et al. 2000), criou, a partir destes diferenciais de dificuldade “social” entre atitude e comportamento, um modelo discreto de relações. Este autor defendia que apenas na situação onde a pessoa exibe um comportamento, sem ter a atitude é que existiria inconsistência atitude-comportamento. Ou seja, o padrão inverso, isto é, dizer que tem uma atitude favorável e depois recusar acomodação é que seria inconsistente.
Miller et al. (2000) alegam que, em cenários públicos, as normas sociais influenciam diretamente o comportamento das pessoas, não afetando as suas intenções comportamentais, nem as suas atitudes. No exemplo com o casal de chineses, a norma social alargada de ser bem-educado, determinou diretamente o comportamento da grande maioria dos participantes (mais de 90% concederam alojamento), não afetando a sua intenção comportamental (mais de 90% desses participantes que acolheram o casal de chineses declarou que, hipoteticamente, não aceitaria como hóspedes um casal de chineses). Isto é, as normas têm um efeito de influência social homogeneizadora no comportamento público.
A inconsistência entre atitudes (privadas) e comportamentos (públicos) pode dever- se, segundo Miller et al. (2000), ao fenómeno da ignorância pluralística, sendo este definido como uma forma de inferência social incorreta, ao mesmo tempo causa e consequência da inconsistência literal entre atitude e comportamento. Floyd Allport (1924, cit in Miller et al., 2000) havia definido a ignorância pluralística como a situação em que a maioria dos membros de um grupo rejeita em privado a norma grupal, ao mesmo tempo que acredita que a maioria dos outros membros desse grupo a aceitam. A explicação dada por Allport para
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este fenómeno residia no facto das pessoas geralmente não manifestarem comportamentalmente as suas atitudes, a não ser que achem que as suas atitudes são socialmente partilhadas por outras pessoas.
Ainda retomando estudos clássicos, Miller et al. (2000) apresentaram um estudo de Katz & Allport (1928), onde a maioria dos participantes (estudantes universitários) manifestava em público um comportamento mais preconceituoso (votar contra a admissão de estudantes de outros grupos), do que a atitude privada que diziam ter a esse respeito (não serem pessoalmente contra a admissão dos estudantes desses outros grupos). Nesse estudo foi também pedido aos participantes que indicassem a atitude que acreditavam que os outros estudantes tinham a esse respeito e verificou-se que a maioria dos inquiridos achava que os outros estudantes tinham, ao contrário deles, uma atitude negativa em relação à admissão de outros estudantes e que tinha sido por acreditarem que era essa a opinião generalizada, que tinham votado contra a admissão desses outros estudantes. Isto mesmo pode ser referido acerca da precisão/imprecisão do conteúdo estereotípico: o que importa é aquilo que o sujeito perceciona como real, ainda que essa perceção possa não corresponder à verdade. Ou seja, se o sujeito acredita que aquela é a norma, não é relevante que a norma assim percecionada corresponda à “norma real”. É suficiente que o indivíduo acredite que sim, para que essa crença se manifeste psicologicamente.
Miller et al. (2000) apresentam um outro motivo que pode explicar porque é que as pessoas agem de forma inconsistente com as suas atitudes. As pessoas conformam-se com as normas e valores adstritos às suas identidades sociais. Ou seja, tal como propugnado pela abordagem da identidade social, quando a identidade social está saliente, ocorre o processo de despersonalização, passando os indivíduos a serem primordialmente guiados pelo protótipo grupal, em vez de por fatores pessoais. Como este protótipo grupal maximiza diferenças intergrupais, os contextos intergrupais são especialmente favoráveis à produção de inconsistências entre comportamentos públicos e atitudes privadas. Miller et al. (2000) falam a este respeito da existência simultânea de ignorância pluralística dentro do endogrupo e estereotipagem no exogrupo. Estas conduzirão o indivíduo, motivado pela sua identidade social, a agir de acordo com a norma do seu grupo, que pode não corresponder à verdadeira opinião da maioria dos membros desse grupo, e tende a ser vista como mais extremista do que na é realidade. Analisando os motivos por detrás desta inconsistência, concluem que esta inconsistência gera mecanismos psicológicos de ignorância pluralística, que perpetuam inferências erradas e não contribuem para a mudança do status quo. Defendem que ações
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que tenham por objetivo a mudança de atitudes por si só, não terão grande eficácia. É necessário que, adicionalmente, essas atitudes privadas se tornem públicas, levando as pessoas a perceberem que as suas atitudes são partilhadas e dando-lhes liberdade para agirem de acordo com elas.
Debruçando-se também sobre esta questão, Terry et al. (2001) apontam para o facto de alguns investigadores defenderem que, na análise à inconsistência entre atitude e comportamento, devem considerar-se outros fatores que medeiam essa relação, nomeadamente, as normas sociais, tal como preconizado pela teoria da ação fundamentada (Fishbein & Ajzen, 1975) ou pela sua extensão mais recente, a teoria do comportamento planeado (Ajzen, 1987, 1991). Segundo aqueles autores, a componente central em ambas a teorias é a assunção de que, para além das atitudes, as normas sociais exercem uma influência fundamental nos comportamentos manifestados. A intenção comportamental é o determinante mais próximo do comportamento manifestado. Por seu turno, esta intenção comportamental é influenciada, não só pela atitude da pessoa, como pela norma subjetiva percecionada pelo sujeito, acerca da pressão social existente no sentido da manifestação ou supressão da manifestação do comportamento.