Esta formação é proposta no presente trabalho, com o objetivo de formalizar e estabelecer uma hierarquização litoestratigráfica para o conjunto de sedimentos clásticos, formado por arenitos e pelitos, que, até o momento, não foram ainda encontrados em superfície, ocorrendo apenas em poços profundos, perfurados no setor norte-ocidental da bacia.
Antecedentes
Os sedimentos que integram esta unidade foram identificados e caracterizados originalmente por Gonzalez & de Santa Ana (1998), a partir de estudo eletrofaciológico das seqüências sedimentares continentais eomesozóicas do setor norte-ocidental da Bacia Chacoparanaense Uruguaia. Os citados autores não chegaram a estabelecer correspondência deste sedimentos com as unidades litoestratigráficas consagradas para a Bacia Norte. Esta análise estratigráfica e faciológica foi realizada basicamente a partir de perfis de raios gama e dipmeter, complementada com descrições litológicas de amostras de sondagem. Nesta análise, foi constatada a presença de sedimentos imaturos, atribuídos a uma subunidade basal do que foi, então, caracterizada como “Unidade II”; nesta porção inferior, identificou-se uma maior concentração pelítica, com psamitos micáceos que propiciaram altos valores relativos de radioatividade.
Em nível regional, outros autores se referiram a estes pacotes arenosos imaturos e de pelitos associados (e.g., Padula & Mingramm, 1968; Milani, 1997).
Nome e seção-tipo
O nome desta unidade é derivado do poço Itacumbú (NO 10 Ix-1), que está situado em Cuchilla de Itacumbú, na região oeste do Departamento de Artigas. A presente formação, como dito, foi definida a partir da caracterização faciológica de amostras de calha e testemunhos laterais, e dos atributos eletrofaciológicos definidos no mencionado poço, que é uma das perfurações onde esta unidade alcança maior espessura.
A Formação Itacumbú constitui-se de uma sucessão de estratos arenosos sublíticos e subarcosianos, muito micáceos, cinza claro a alaranjados e amarronzados, aos quais se intercalam estratos pelíticos e pelítico-arenosos, bem como níveis finos e lentes argilosas, margosas e carbonáticas. Tais estratos encontram-se apoiados sobre os basaltos da Formação Gaspar (Santa Ana & Veroslavsky, 2003), e em discordância erosiva com a sotoposta Formação Buena Vista; no topo, mostram relações concordantes com a sobrejacente Formação Tacuarembó.
Litologias e características eletrofaciológicas
A identidade desta formação reside nas características eletrofaciológicas, especialmente no perfil de raios gama, onde se registra uma forte atividade radioativa, com os perfis apresentando uma conformação serrilhada, evidenciando a presença de ciclos com tendência geral granodecrescente.
Em termos litológicos, esta unidade inclui arenitos sublíticos a subarcosianos, micáceos, de tonalidades cinza claro a pardo amarronzadas, além de folhelhos e argilitos vermelhos e acinzentados (FIGURA III.22).
Os arenitos são finos a muito finos, localmente grossos a muito grossos, na base da unidade, e se apresentam medianamente silicificados, o que os diferenciam dos arenitos friáveis das unidades supra e infrajacentes. De modo geral, os clastos
são subangulosos a angulosos, com fragmentos de mica, minerais máficos e feldspato parcialmente caulinizado; os estratos de composição quartzosa
apresentam grãos bem arredondados e polidos, vinculados a uma fonte sedimentar. A abundância de mica pode alcançar cerca de 15% da rocha. A biotita ocorre na fração muito fina e os fragmentos moscovíticos atingem, por outro lado, até 0,5 mm de dimensão. Os níveis psefíticos finos estão constituídos por clastos de quartzo e intraclastos pelíticos de cores cinzentas e avermelhadas.
As unidades psamíticas são formadas por corpos inferiores a 20 m de espessura, integrados em ciclos granodecrescentes, que apresentam uma certa tendência estratodecrescente, com padrão de paleocorrente polimodal.
O conjunto litofaciológico apresenta um grau de litificação variável, de friável a muito tenaz, reconhecendo-se níveis de arenitos com abundante cimentação silicosa e subordinadamente, trechos com cimento carbonático.
As fácies finas são compostas por pelitos e argilitos vermelhos ou com tons cinzentos medianos a escuros, com espessuras métricas, evidenciando, nos perfis de raios gama, picos com altos valores de radioatividade.
Distribuição e espessura
A Formação Itacumbú é uma unidade restrita à subsuperfície, achando-se presente apenas nos poços localizados no setor noroeste da bacia, sem equivalentes litológicos nas demais áreas.
A distribuição das isópacas desta unidade mostra um desenvolvimento, em subsuperfície, no setor noroeste da bacia, com um claro controle deposicional NNE, correlacionando-se com as unidades equivalentes descritas para a região oeste do Rio Grande do Sul e da planície mesopotâmica argentina da Bacia Chacoparanaense (FIGURA III.23).
Os novos controles estruturais da bacia e a conformação geométrica deste sítio deposicional evidenciam espaços de acumulação gerados pela primeira fase extensional de idade jurássica, que condicionou a existência de uma calha de direção nordeste.
Esta unidade alcança as suas maiores espessuras nos poços N01 Gx-1 Gaspar, com 248 m de potência, no poço N010 Ix-1 Itacumbú (220 m), onde esta formação foi melhor definida em termos de dados litológicos e eletrofaciológicos, no poço N08 Yx-1 Yacaré (175 m), na perfuração N09 Bx-1 Belen (135 m), no poço N02 Ax-1 Artigas (50 m), no poço N03 Sx-1 Salto (90 m), e no poço N07 Pelado (86 m).
A atuação de processos de tração e de suspensão subaquosos, que controlaram a sedimentação desta unidade, é interpretada como o resultado da existência de um sistema fluvial pretérito, conectado a um corpo lacustre. As direções de paleocorrente nos estratos arenosos mostra características polimodais, inferindo-se um nível de base regional à oeste da bacia. Alguns pacotes arenosos intercalados, textural e mineralogicamene maturos, são interpretados como depósitos eólicos.
Relações estratigráficas
As relações de contato da Formação Itacumbú com a Formação Buena Vista é discordante, e está marcada por uma mudança brusca nos perfis radioativos e de resistividade, por importante variações composicionais e texturais da fração clástica arenosa, e pelo aparecimento de níveis pelíticos e carbonáticos de cores avermelhadas e acinzentadas, além de diferentes estilos estruturais observados nas seções sísmicas da bacia.
Estes contatos erosivos e discordantes podem ser constatados nos poços Yacaré, Pelado, Artigas, Belen, Salto e Itacumbú, todos localizados no extremo noroeste da bacia, em território uruguaio. No poço Gaspar, esta unidade recobre concordantemente os basaltos da formação homônima.
Do ponto de vista eletrofaciológico, o contato discordante também pode ser definido nos perfis dipmeter, devido às mudanças bruscas no padrão de paleocorrentes, evidenciando sistemas deposicionais contrastantes.
No que concerne aos aspectos litológicos, o contato entre os arenitos eólicos, muito maturos, da Formação Buena Vista e os arenitos sublíticos a subarcosianos micáceos, argilosos, da unidade superior, caracteriza alterações de procedência, evidenciando mudanças nas condições fisiográficas da região ocidental. Os aspectos composicionais e texturais das frações granulométricas da Formação
Itacumbú evidenciam uma procedência sedimentar com material essencialmente maturo e policíclico (Formação Buena Vista) e uma nova área-fonte ígneo- metamórfica, com materiais de composição muito imatura, provenientes de regiões cristalinas a leste e sul deste palco deposicional.
As relações de contato com a Formação Tacuarembó, sobrejacente, são nítidas e concordantes, marcando uma mudança clara nos valores médios de radioatividade e a predominância de novos padrões de paleocorrente. Do ponto de vista litológico, esta transição marca o desaparecimento de fragmentos micáceos, líticos e feldspáticos, uma forte diminuição da argilosidade nos termos psamíticos. Idade
Os estudos palinológicos efetuados em testemunhos de sondagem dos poços não propiciaram informações sobre a idade desta formação. As relações concordantes de contato com os basaltos mesojurássicos da Formação Gaspar (Santa Ana & Veroslavsky, 2003) e as relações estratigráficas com a sobrejacente