• Aucun résultat trouvé

Yanbin et al., 2002) permitem assegurar uma idade jurássica tardia para a sedimentação da Formação Itacumbú.

FORMAÇÃO TACUAREMBÓ

No presente trabalho, redefine-se o conteúdo litológico, os limites e as subunidades litoestratigráficas desta formação, que congrega um conjunto de rochas siliciclásticas associadas com ambientes de sedimentação fluviais, lacustres e eólicos, onde se destacam os arenitos finos a médios, de tonalidades verde- acinzentadas a avermelhadas, com intraclastos macios de pelitos de cores vermelha, verde e cinza.

Propõe-se, aqui, a subdivisão da unidade em dois membros: o Inferior, constituído por arenitos muito finos a médios, argilosos, cores verde oliva ou verde- acinzentado, com estratificações cruzadas acanaladas e níveis pelíticos ou areno- pelíticos micáceos, com estratificação plano-paralela; e o Membro Superior, de ocorrência muito restrita, caracterizado por arenitos finos e médios, avermelhados,

com cimentação carbonática, grãos foscos e bem arredondados, estruturados em estratificações cruzadas tangenciais de grande porte e acentuado ângulo de mergulho.

Antecedentes

Os arenitos finos pertencentes a esta unidade foram definidos originalmente por Walther (1919), que os correlacionou com os arenitos da Formação Botucatu da Bacia do Paraná no Brasil.

A primeira denominação e subdivisão estratigráfica no âmbito uruguaio foi proposta por Falconer (1937), que designou-os como “Arenitos de Tacuarembó”, tendo reconhecido duas unidades, uma inferior, constituída por arenitos finos friáveis, com estratificação cruzada, e outra superior, compacta, que aquele autor associou aos morretes mesetiformes encontrados nos departamentos de Rivera e Tacuarembó.

Bossi (1966) integrou tais depósitos e propôs a denominação litoestratigráfica de Formação Tacuarembó. Este autor reconheceu e definiu, também, dois membros, o inferior, com espessura de cerca de 80 m, composto por arenitos finos a médios, com pelitos e conglomerados intraformacionais, de origem subaquática, e o superior, correspondente a arenitos finos a médios, muito bem selecionados, com grãos arredondados e de superfícies polidas, aos quais atribuiu uma origem eólica.

Sprechmann et al. (1981) e Preciozzi et al. (1985) mantiveram esta hierarquia

e subdivisão estratigráfica, bem como as mesmas interpretações deposicionais e tipos de limites da unidade.

Ferrando (1984) reconheceu um evento de características eólicas na base desta formação, separando-o do que havia sido considerado como Membro Inferior. Na seqüência, Ferrando & Andreis (1986) propuseram a chamada Formação Cuchilla de Ombú para agrupar os arenitos finos argilosos localizados na região de Cuchilla de Ombú, Departamento de Tacuarembó.

Goso & de Santa Ana (1986),de Santa Ana (1989), Santa Ana & Ucha (1994), e de Santa Ana & Veroslavsky (2003) mantiveram o critério proposto por Bossi et al. (1975) referente à caracterização litoestratigráfica do conjunto de arenitos continentais mesozóicos, e definiram conteúdo lítico, distribuições, relações e limites

estratigráficos, bem como controles estruturais deste conjunto nos diferente âmbitos da bacia.

Bossi et al. (1988) propuseram a integração de três formações para a

caracterização litoestratigráfica da seqüência continental mesozóica, a saber: Formação Cuchilla de Ombú, na base, Formação Tacuarembó, na porção mediana, e Formação Rivera, no topo, congregadas no chamado Grupo Batoví Dorado.

Litologia e subdivisões estratigráficas

A Formação Tacuarembó é dividida em dois membros: o Membro Inferior, que representa mais de 90% da área aflorante desta unidade e também do empilhamento sedimentar, e o Membro Superior, com distribuição mais restrita, descontínua e irregular, limitada ao extremo norte dos domínios central e ocidental da BChPU.

Membro Inferior

O Membro Inferior é formado por arenitos de granulometria variada, predominantemente fina a média, por vezes muito fina ou grossa, quartzosos, localmente subarcosianos (subordinadamente sublíticos), de tonalidades esbranquiçadas, rosadas, esverdeadas e violáceas. Apresentam clastos subangulosos a bem arredondados, com grau de seleção que varia de regular a muito bom, com matriz esmectítica que não ultrapassa 15% do volume lítico.

Os arenitos finos a médios, quartzosos, micáceos, se apresentam em cores geralmente cinza-esverdeadas e tons avermelhados, com níveis centimétricos a métricos de pelitos vermelhos e cinza médio; a tais litotipos se associam lentes de conglomerados intraformacionais, onde se destacam seixos de arenito e pelitos de tonalidades vivas.

As estruturas sedimentares predominantes são: estratificações horizontal e cruzada de médio a grande porte, acanaladas e, localmente, planar e tangencial; as porções com estratificação plano-paralela mostram estruturas de deformação e gretas de ressecamento.

Os termos pelíticos ocorrem sob a forma de corpos de espessuras centimétricas a decimétricas, por vezes métricas, onde os contatos com os arenitos vizinhos são bruscos ou graduais, com interdigitações laterais. Grosso modo, os ordenamentos são granodecrescentes e incluem feições acanaladas, com figuras de corte e preenchimento. Estas unidades pelíticas afloram nos arredores da cidade de Tacuarembó e evidenciam a existência pretérita de um importante corpo de água, com abundante fauna de peixes e répteis.

Os afloramentos mais importantes do Membro Inferior são os seguintes: arredores da cidade de Tacuarembó (fossilíferos), de Martinote (fossilífero), Chuchilla de Ombú, cidade de Rivera e cercanias de Tranqueras.

Membro Superior

Os afloramentos do Membro Superior podem ser vistos ao longo do flanco leste da Cuchilla Negra, desde oeste de Rivera, no limite com o Brasil, até a rodovia 30. A melhor exposição se localiza nesta rodovia, ao pé da “subida de Pena”, onde se dispõem as seções mais representativas deste membro. Outras exposições estão localizadas em altos estruturais, tal como na cidade de Paguero, na localidade de Artigas, e a oeste de Rivera (FIGURA III.24). Unidades equivalentes, com bons afloramentos, ocorrem próximos à divisa entre Brasil e Uruguai, na estrada que une Santana do Livramento a Quaraí.

Em termos litológicos, esta unidade é integrada por arenitos finos e médios, de tonalidades avermelhadas e arroxeadas, com clastos quartzosos bem arredondados e com superfície fosca. As estruturas sedimentares características são as estratificações cruzadas, principalmente do tipos tabular, planar a tangencial na base, de grande porte e elevado ângulo de mergulho. Nas camadas que formam a face frontal de tais depósitos podem ser observados níveis bem selecionados, de

granulometrias finas e médias, com gradações inversas, associadas a cunhas de grain flow, o que define a natureza eólica dos processos deposicionais. Os sets das grandes estruturas entrecruzadas passam dão lugar, lateralmente, a arenitos com estratificações plano-paralelas e cruzadas de menor ângulo. As estratificações cruzadas de grande porte correspondem ao critério mais importante para a definição e identificação de campo desta unidade.

Distribuição e espessura

A Formação Tacuarembó apresenta, em planta, uma faixa de afloramentos NS, com 115 km de comprimento, estendendo-se de Rivera até Martinote, ao sul, e uma largura média de 35 km (FIGURA III.25).

O limite oriental da unidade é parcialmente erosivo, ficando a faixa aflorante constrita entre os arroios Ataques, Cuñapirú e Tacuarembó a leste e pela escarpa basáltica, a oeste. A unidade se estende sob os basaltos como uma cunha clástica que se alarga no rumo noroeste da bacia.

O limite sul, por sua vez, possui um caráter deposicional e exibe uma direção este-oeste, desde o norte da cidade de Paysandú (Alto de Paysandú), até as imediações da localidade de Curtina, ao sul de Tacuarembó. Com base em informações de subsuperfície da Argentina (poço Colon) e da extremo ocidental do território uruguaio, evidencia-se um limite deposicional sul da Formação Tacuarembó ao sul, e paralelo, do rio Queguay, tendo, esse trecho, importantes implicações econômicas e prospectiva com referência ao potencial hidrogeológico subterrâneo.

A Formação Tacuarembó exibe espessuras de 195 m no poço N03 Sx-1 Salto, de 190 m nos poços N02 Ax-1 Artigas N04 Qx-1 Quebracho, de 322 m no poço N01 Gx-1 Gaspar, de 304 no poço N08 Yx-1 Yacaré, bem como espessuras de 359 m no poço N010 Ix-1 e de 407 m no poço Belen; o valor máximo é encontrado no poço N07 Px-1 Pelado, onde atinge 450 m. O depocentro desta unidade poderia estar localizado na região entre os poços Pelado e Artigas, ainda que neste último a espessura seja menor devido à erosão que acometeu a parte superior da formação.

As isópacas da Formação Tacuarembó, conquanto esbocem um claro depocentro, de direção nordeste, não evidenciam grandes modificações de orde tectônica, que pudessem ter gerado novos estilos estruturais para a bacia nessa ocasião (FIGURA III.25).

Paleontologia e idade

O registro fóssil da Formação Tacuarembó, nos arredores desta cidade, é importante. A primeira citação a ele foi feita por Walter (1932), constituindo-se de um achado de peixe ganóide Lepidotes sp. Falconer (1937) assinalou, por seu turno, a presença de moluscos gastrópodas associado, presumivelmente, com Viviparidae?. Mones (1978) publicou o achado de répteis de Meridiosaurus vallisparadisi nos sedimentos desta unidade.

Sprechmann et al. (1981) e Ferrando (1984), partindo de correlações com

unidades supostamente similares ou equivalentes do sul do Brasil, assinalaram uma idade Triássico Superior para estes sedimentos.

Perea (2000) citou a ocorrência de interessantes achados de dentes de tubarão e dinossauros na região de Martinote, ao sul de Tacuarembó. Estes resquícios são de grande importância cronoestratigráfica, permitindo definir, com precisão, uma idade Jurássico Superior - Cretáceo Inferior para os sedimentos da Formação Tacuarembó.

Controvérsias sobre a estratigrafia da Formação Tacuarembó

Um dos aspectos controversos acerca da Formação Tacuarembó têm sido a idade e a correlação com os “equivalentes sedimentares” das regiões argentina e brasileira da Bacia Chacoparaná (vide Russo et al., 1979; Chebli et al., 1989; Ferrando & Andreis, 1986; Zalán et al., 1990). Percebe-se, nas diversas propostas de correlação estratigráfica, uma grande influência da coluna estratigráfica e paleontológica do Brasil.

Outro aspecto não menos discutível para esta unidade refere-se à sua subdivisão litoestratigráfica. A divisão tripartite da Formação Tacuarembó proposta em diversos trabalhos (vide Ferrando & Andreis, 1986; Ferrando & Montaña., 1987;

Bossi & Navarro, 1988) não parece justificável do ponto de vista litológico, resultando-se pouco operativa para propósitos de mapeamento geológico e para interpretações tectonossedimentares, o que pode induzir a erros no campo de aplicação.

O reconhecimento de um episódio eólico na localidade de Cuchilla de Ombú, associado à base da Formação Tacuarembó (Ferrando & Andreis, 1986), não justifica a criação de uma nova unidade, já que estas fácies não têm significado estratigráfico em nível de bacia. Por outro lado, os eolionitos de Cuchilla de Ombú não se mostram correlacionáveis com as fácies que afloram nos cerros Pesiguero e Conventos, Departamento de Cerro Largo, tal como intentado por alguns autores. Conforme assinalado por Falconer (1931) e Elizalde (1970), e verificado em levantamentos de campo recentes, estes sedimentos corresponderiam ao topo da Formação Buena Vista, definido, no presente trabalho, como Membro Conventos. Os sedimentos eólicos de Cuchilla de Ombú podem ser correlacionados, por seus atributos litológicos, com os chamados “Arenitos de San Jorge”, de Lambert (1939), no Departamento de Durazno. Esta unidade informal, como, inclusive, parcialmente reconhecido em outros trabalhos posteriores, consiste de arenitos com estratificações cruzadas de grande porte, intercalados com arenitos médios e grossos, pelitos vermelhos e conglomerados polimíticos avermelhados. As associações das fácies de San Jorge, e áreas orientais próximas, mostram-se fruto de sedimentação em ambiente aluvial, com direções de paleocorrentes distintas dos termos fluviais da Formação Tacuarembó em sua região-tipo, aparentando maior similitude com aquelas próprias da Formação Buena Vista.

Por fim, não se considera conveniente elevar a categoria litoestratigráfica do Membro Superior para formação (vide Formação Rivera de Ferrando et al. [1987]). Os arenitos avermelhados, com estratificações cruzadas de grande porte, que são conspícuas rumo ao topo da Formação Tacuarembó, e interpretadas como episódios eólicos, não possuem uma continuidade lateral tão expressiva, tal como exibido em alguns mapas geológicos, mostrando, ao contrário, variações faciológicas intensas, por vezes, configurando dunas isoladas, de pequena espessura e nenhuma extensão lateral. É devido a razões como esta que nem sempre se torna possível definir, unicamente por atributos litológicos, a identificação e a separação de uma determinada unidade litoestratigráfica. Muitas passagens transicionais, como se

observa na porção superior da Formação Tacuarembó, ficam melhor configuradas em uma única unidade do que separada de modo forçado em membros. Algumas das seções consideradas “clássicas”, estabelecidas para o Membro Superior (e.g., Cerro Batoví Dorado), não exibem sequer arenitos com estratificações cruzadas de grande porte para justificar a separação desta unidade. Nesta localidade, conforme já assinalado por Falconer (1937), a separação entre um nível superior, de arenito “duro” e um nível inferior, de arenitos “macios”, deve-se apenas aos diferentes graus de cimentação e não a variações granulométricas. Ademais, na proposta de se elevar a hierarquia litoestratigráfico do Membro Superior da Formação Tacuarembó existe uma forte conotação genética (reconhecimento de depósitos eólicos), além de uma inegável influência da clássica subdivisão litoestratigráfica bipartite desses arenitos (termos fluviais e termos eólicos) adotada na Bacia do Paraná no Brasil. Vale ressaltar que diversas regiões do norte do Uruguai foram objeto de mapeamento geológico sob tal critério litoestratigráfico, somando-se à tendência de se fotointerpretar os contatos acompanhando a topografia das cuestas basálticas, o que, todavia, nem sempre resiste às verificações de campo.