Todos os entrevistados das diversas áreas de conhecimento abordadas nesta pesquisa concordam que a rádio-peão existe e é muito difícil controlar ou acabar com ela, já que ela faz parte da natureza humana. Alguns dos entrevistados - Sidinéia Freitas e Suzel Figueiredo, de Comunicação, Elaine Saad, de Administração, e Luiz Cláudio Marcolino e Paulo Lage, de Sindicatos – já observam ou utilizam novos veículos para ampliar o alcance da rádio-peão, como descrito acima.
A comunicação formal face a face, embora vista como um meio eficaz, não é tida como a solução para todos os problemas de comunicação organizacional. Parte dos
entrevistados acredita é possível terminar ou esclarecer os boatos negativos através de uma comunicação oficial da empresa, mas também há a concordância que a transparência nas comunicações formais é parcial, o que nem sempre torna possível o esclarecimento dos boatos organizacionais. Essa é a posição de Sociologia do Trabalho, Psicologia Organizacional e do Trabalho e Administração.
Lucieneida Praun (Sociologia do Trabalho) relaciona a comunicação formal, mesmo parcial, com a diminuição da rádio-peão. “Nenhuma empresa funciona sem sigilo em relação às suas informações. E o trabalhador sabe disso, do grau de sigilo que em certas informações [...] Às vezes, as empresas tendem de alguma maneira noticiar coisas evitando o aumento do conflito e aí diminui mesmo [a rádio peão].”
Elaine Saad (Administração) acredita que a comunicação formal é a forma de terminar com um boato negativo, mas ela diz ser impossível “uma empresa ter uma comunicação tão transparente, tão alerta que não exista rádio-peão”. No que se refere à transparência das informações divulgadas pela empresa, ela afirma que “nem sempre a empresa consegue ser transparente. Por causa dos problemas em que ela tem que ser sigilosa. Mas o quanto mais transparente e com uma periodicidade maior, se ela tiver num momento de crise, é importante.”
Maria do Carmo Martins (Psicologia Organizacional e do Trabalho) avalia essa parcialidade – ou sigilo nas informações - como uma forma de poupar os funcionários. Se a empresa “começar a falar formalmente sobre alguma coisa que vai acontecer daqui a um tempo, digamos, esta empresa está à venda, ela vai gerar uma série de inseguranças no seu corpo de funcionários”.
Izidoro Blikstein (Administração) afirma que “não é apenas a [comunicação] face a face que irá resolver, mas um conjunto de estratégias que ajudem a dar transparência e resolver o problema. [...] E onde há proliferação de rádio-peão é um termômetro que indica que a comunicação formal não está funcionando.” A questão da transparência também está correlacionada, conforme o pesquisador, à credibilidade dos funcionários no comunicador. “No boato, o sujeito acredita porque alguém viu alguma coisa, etc. A comunicação formal frequentemente padece de credibilidade porque os outros dizem ‘o fulano de tal está defendendo o peixe dele, ele não quer o nosso bem’. Falta credibilidade e, portanto, transparência. E essa credibilidade é uma construção. Não se faz por decreto.”
Assim como Izidoro Blikstein, Marli de Oliveira (Psicologia Organizacional e do Trabalho), Afonso Champi (Comunicação) e Elisa Prado (Comunicação) creditam aos líderes um papel fundamental na comunicação face a face.
Marli de Oliveira explica que, à medida que as empresas perceberem o papel estratégico da comunicação, a comunicação formal se tornará mais fortalecida. E aí ela também vê uma valorização do papel das lideranças formais: “as organizações estão se preocupando muito em desenvolver as lideranças, independente de nível, justamente para que esse líder seja aquele que vai levar [...] a informação que a empresa precisa que chegue até os seus funcionários”
Elisa Prado ressalta também o valor da credibilidade na comunicação: “Então tem que comunicar muito, muito mesmo com os funcionários, gerar credibilidade”. E na Tetra Pak, ela afirma que a participação dos gestores é essencial. “Na Tetra Pak é uma coisa muito comum porque na agenda do nosso presidente e dos nossos diretores a comunicação interna é muito presente. E a face a face, principalmente.”
Afonso Champi (Comunicação) reafirma a relevância do papel dos gestores na comunicação formal face a face, especialmente para terminar com um rumor: “Por mais difícil que seja, por menos regular que seja a comunicação na empresa, quando ela acontece, principalmente no face a face, uma liderança se colocar diante de um grupo de pessoas para comunicar algo, normalmente ele vai se sobrepor ao boato, ele tem a capacidade, sim, de se sobrepor aos rumores.”
Vale notar que os dois executivos de Comunicação entrevistados – e que ocupam cargos de liderança em multinacionais – referiram-se espontaneamente à visão da Comunicação como negócio nas empresas. Afonso Champi destaca que “as empresas têm se conscientizado da importância da comunicação; em última instância, isso significa um melhor ambiente de trabalho, um maior compromisso do funcionário com a empresa e consequentemente com os clientes dessa empresa.” E Elisa Prado afirma que: “a comunicação é muito estratégica Eu não estou falando de fazer comunicação para as pessoas ficarem sabendo o que nós estamos fazendo, etc. Estou falando de coisas ligadas ao negócio da empresa, para fazer com que a empresa produza mais e melhor. A empresa não é benemérita, tem que ganhar dinheiro, mandar dinheiro para os acionistas e as pessoas que estão aqui tem que levar isso a sério. Tem que trabalhar, tem que fazer a coisa acontecer. Nós temos essa função: de fazer cada vez mais que as pessoas estejam mais bem informadas para produzir mais e melhor”
Para Sidinéia Freitas (Comunicação), existem empresas que possuem “uma prática de comunicação baseada na abertura, na transparência, no diálogo”, mas estas são pouquíssimas. “Lamentavelmente elas não são a maioria. Se você colocar 1.000 organizações, tem três ou quatro sérias. Infelizmente é essa proporção”.
Suzel Figueiredo (Comunicação) analisa a eficácia da comunicação através de alguns fatores que são interligados, como a transparência, a credibilidade e a participação dos líderes. Se a empresa “tem rádio-peão, a empresa não cumpre o que fala, o gestor não fala com a equipe [...] nenhuma comunicação do mundo vai dar jeito porque o problema não é a comunicação. Se você tem credibilidade alta, boa transparência e comunicação com o gestor, pronto. Vai ter eficácia com certeza. Se não tem eficácia o problema está no processo de comunicação.” A questão do diálogo e dos inter-relacionamentos também é apontada por ela, como o futuro da Comunicação com os funcionários: “Vejo uma comunicação interna migrando para processos de relacionamento. Mais que processos só comunicacionais. Processos relacionais. Na medida em que o outro é considerado como participante do processo ele começa a dialogar, se ele começa a dialogar você começa a se relacionar.”
Com o fortalecimento dos canais formais de comunicação, Sérgio Nobre (Sindicatos) vê um novo papel para a rádio-peão. “A ausência de canais confiáveis de comunicação fortalece a rádio-peão, por um lado. Agora, quando você tem canais confiáveis que você pode buscar, diminui a importância”. Com isso, de acordo com o sindicalista, “o peso da rádio-peão se volta mais para o cotidiano dos trabalhadores, para brincadeira que faz parte do mundo do trabalho [...] Então acho que muda a característica dependendo da eficácia da comunicação da empresa, muda o papel da rádio-peão. Ela exerce papéis diferentes”.
Podemos observar nestas avaliações sobre as perspectivas da rádio-peão e da comunicação face a face, que as opiniões se mesclam e se complementam. A rádio-peão é e será presença constante nas organizações, por estar relacionado às necessidades humanas de comunicação e de dar sentido ao observado. A comunicação formal face a face pode se fortalecer cada vez mais, observando-se a importância da comunicação nas empresas (vista como estratégica e alinhada ao negócio da empresa), do papel dos executivos no repasse das informações ou comunicação e do diálogo. E isto, mesmo levando-se em conta a parcialidade das informações por serem consideradas sigilosas e a discrepância entre o discurso e as ações dos líderes e organizações.