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Dans le document The Basics of hacking and penetration Testing (Page 116-127)

“O sentido da rádio-peão, a minha experiência com a rádio-peão... ela era um instrumento importante porque no regime militar você tinha muita restrição para você desenvolver o trabalho sindical nas empresas. [...] Agora o que mudou é que hoje, na categoria, se criou muitos espaços de representação, de diálogo, de negociação.” Esta é a opinião de Sérgio Nobre40, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que, ainda

sobre a rádio-peão, acrescenta: “O jornal entra diariamente na fábrica, sem restrição, o pessoal tem acesso. Tem uma liberdade, o sindicato está instalado dentro da fábrica, tem uma representação interna. Então quando as pessoas querem saber da informação elas têm a quem procurar. Mas ainda assim tem a rádio-peão. Então hoje o pessoal checa com a representação. ‘A rádio-peão está dizendo... é verdade?’ Agora checa a veracidade... ‘a rádio-peão está dizendo’ e tal... ‘que a negociação já fechou. Fechou mesmo?’ Porque quando você faz uma negociação ou alguma coisa, tem sempre uma secretária que está acompanhando, tem sempre alguém... e falou no ônibus, pronto. É uma notícia de interesse, vai para a fábrica...”

De acordo com Sérgio Nobre, nos anos 1970, a rádio-peão “era um trabalho muito organizado pela militância, acho que essa é a diferença, que trabalhava isso naquele período porque não tinha muito espaço de atuação.” Nos dias atuais, ele concorda que a rádio-peão é algo espontâneo entre os trabalhadores “É, eu acho que hoje é mais espontâneo, embora ainda eficaz.”

Quanto à comunicação face a face, ela é bastante usada pelo sindicato e pela comissões de fábrica. De acordo com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, “é uma característica do sindicato porque a informação não é só você ler. Você tem que discutir aquela informação que está ali, o porquê dela, qual é o contexto. Quando você lê... aqui a gente fazia muito esse exercício, em 1980, quando, de vez em

40 Entrevista concedida à autora em 12 de novembro de 2009, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do

ABC, em São Bernardo do Campo. Sérgio Nobre é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC desde 2008. Ingressou na categoria em 1980, como aprendiz do Senai, na Scania. Em 1986, foi para a Mercedes-Benz, onde foi eleito membro da CIPA e, depois, membro da Comissão de Fábrica. Entre 2002 e 2005, foi o coordenador da Regional Diadema e, a partir de 2005, secretário de Organização, cargo que exerceu até ser eleito presidente, substituindo José Lopez Feijóo. A utilização da rádio-peão pela categoria é histórica

quando, a gente fazia leitura coletiva para ler um livro. [...] Cada um lia um pedaço. O curioso era a interpretação diferente que as pessoas faziam da mesma coisa. Você lê o mesmo livro, a mesma história, mas ela tem um significado completamente diferente para cada um. [...] A informação é a mesma coisa. Quando você distribui um jornal na fábrica, o jornal do sindicato, o cara lê, mas qual é a interpretação que ele faz daquilo? As interpretações são diferentes também. A gente sabe disso e, por isso, é importante o diálogo... você discutir, fazer assembléia, olho no olho, tira dúvida, pergunta... Não que você elimina a visão diferente, você coloca de forma clara qual é o contexto, porque aquela matéria foi produzida daquela maneira, porque o sindicato está atuando assim. Então, isso é fundamental e nada substitui isso.”

E Sérgio Nobre também analisa a comunicação formal face a face, proposta pelas empresas. “As empresas têm adotado coisas que são práticas nossas, têm assimilado... claro que para atender os seus objetivos, que são diferentes dos nossos... mas aproveitado coisas que a gente construiu. Ontem, por exemplo, um jornalista me ligou falando que os empresários estavam buscando formas de dar mais representatividade para os sindicatos empresariais, que tem pouca representatividade, muito inspirados em experiências nossas, aqui, de como trazer a participação dos trabalhadores na vida do sindicato... então eles estão estudando isso e implementando coisas nossas. Eu acho bom, porque se você quer uma sociedade democrática, tem que ter diálogo entre os atores: sociedade, trabalhadores, empresários, etc têm que dialogar. [...] Agora, as empresas vêm adotando muito essas coisas que aprenderam com a gente na comunicação muito por uma mudança muito forte no gerenciamento das empresas a partir dos anos 90.”

Para ele, a comunicação formal face a face surgiu nas empresas “porque muitas vezes você tem problema de parada de produção por problema de comunicação... porque um não falou com o outro ou o cara entendeu errado... e isso custa caro. A comunicação precisa ser muito eficaz, se você não tiver uma eficácia na comunicação você está ferrado. Então são as duas coisas que eu acho importantes: a relação com os funcionários, que não pode ser conflituosa para a fábrica funcionar, e a informação que precisa fluir desde o presidente até lá embaixo ela precisa chegar bem senão a fábrica não funciona. Então grandes organizações estão investindo muito nisso, no diálogo, na história do café, faz reunião, apresenta os objetivos da fábrica. E tem gente que não entende esse processo... eles falam ‘a fábrica faz mais reunião do que...é complicado’. Mas é necessário porque se você não fizer, é aquela história do telefone sem fio: você fala uma coisa do cara aqui e quando chega lá na ponta é outra completamente diferente.

Então essas cosas tem muito a ver com a forma de gestão das empresas que mudaram muito...”

E o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ainda destaca que “essa mudança na gestão das empresas, a competitividade levou a investir muito num ambiente menos conflituoso, com informação mais eficiente... isso tem a ver com esse modelo. De vez em quando eu ouço pó aí alguns empresários falam ‘a gente repensou, a gente era idiota que ficava perseguindo, não queria negociar’. Um pouco é isso também, mas em grande parte é porque a realidade mudou. É uma outra forma das empresas competirem que levou a isso... foi o grande responsável. Não é que eles repensaram como eram idiotas lá atrás. A realidade mudou e a necessidade de sobreviver é maior”.

Sobre a questão da transparência na comunicação formal, Sérgio Nobre não acredita que uma política de comunicação mais aberta nas empresas conseguiria terminar com a rádio-peão entre os funcionários. “Eu acho que não. A rádio-peão é uma coisa cultural, faz parte do mundo do trabalho, ela está incorporada [...]. Agora, canais mais eficazes de informação, mais seguras, com fontes seguras, eu acho que alivia um pouco. A ausência de canais confiáveis de comunicação fortalece a rádio-peão, por um lado. Agora, quando você tem canais confiáveis que você pode buscar, diminui a importância. Agora, acabar eu acho que não acaba. Tem empresas que tem políticas de comunicação muito eficazes. Tem empresa que tem rádio interna, tem uma equipe de jornalistas muito eficiente, investe muito, às vezes o presidente fala periodicamente aos funcionários em vários sistemas de diálogo. Então, o peso da rádio-peão se volta mais para o cotidiano dos trabalhadores, para brincadeira que faz parte do mundo do trabalho. Então acho que muda a característica dependendo da eficácia da comunicação da empresa, muda o papel da rádio-peão. Ela exerce papéis diferentes, eu acho. Acabar, não, porque ela faz parte do mundo do trabalho.”

A questão dos balões de ensaio também foi abordada – aliás, o termo ‘balão de ensaio’ foi usado por Sérgio Nobre durante a entrevista e adotado neste trabalho. Perguntado sobre as informações que as empresas divulgam através da rádio-peão para averiguar a recepção dos trabalhadores e se isso realmente acontece, Sérgio Nobre explica: “Acontece. É o que se chama de balão de ensaio. Solta um balão de ensaio. Eles negam que fazem, mas a gente sabe que faz. Tem um determinado tema que eles querem saber como cai na fábrica então pede para alguém soltar e vê a reação, se é positiva, se é negativa. Se vai mobilizar ou não. Nega que faz, mas a gente sabe que faz. [...] E, às vezes, a gente faz também. O sindicato também faz, tem o balão de ensaio. Faz parte, é

uma forma de aferir, às vezes, determinada coisa, quer sentir como faz. Então a gente brinca que na fábrica tem os fofoqueiros aquele cara que você chega nele e diz ‘estou te contando, mas é segredo’. E ele fala ‘tá bom’... você vira as costas, quando você vai ver... então todo mundo sabe quem é. Então quando o sindicato queria soltar alguma coisa na fábrica sabia com quem falar. Se você quer fazer o seu balão de ensaio, já sabe aonde vai. Você fala com ele e diz ‘é segredo, não vai contar para ninguém’. E o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ainda detalha: “O balão de ensaio é isso: você solta, aquilo ganha a fábrica e você vê se aquilo é positivo ou não. Então você analisa se a repercussão é muito ruim, você fala ‘não, nada a ver’. Quando a repercussão é boa, você fala ‘opa, aqui tem um caminho’. Você tem espaço para usar, é um a forma de aferir... e é legítima, acho que faz parte. Nenhum dos lados admite que faz, mas os dois fazem.”

Sérgio Nobre ainda diz que os balões de ensaio são mais comuns em momentos de crise. “Mas é muito comum em negociação salarial, quando você quer checar o índice, por exemplo. A gente usa muito isso. A gente fala ‘olha, acho que chega a tanto, mas não conta para ninguém’. Aquilo [faz um gesto de espalhar]. Aí você já sente qual é a reação.” E a informação volta para sindicato: “Volta. Porque vão perguntar ‘é verdade que vai ser isso aqui mesmo?’ Porque quando ele ganha a fábrica, aí é público. ‘É verdade que a negociação vai chegar a tanto?’ Então aí é uma forma de você aferir, de você sentir e a gente usa muito nessas ocasiões de negociação, de saber as expectativas. Esse episódio das demissões de 1995 talvez tenha tido um pouco disso também, porque soltou na fábrica a notícia das demissões e num determinado momento a fábrica pode avaliar. ‘A fábrica assimilou a idéia das demissões, a fábrica já está falando, falando....’. Talvez essa possa ter sido a origem da rádio-peão. Vai saber? Essas coisas são... mas é uma possibilidade.”

O ‘episódio das demissões de 1995’ citado por Sérgio Nobre foi lembrado por ele durante a entrevista, antes de surgir a questão dos balões de ensaio, como segue: “Essa [história] foi em setembro de 1995, não vou esquecer nunca na vida. Nós estávamos numa negociação e... era um momento de crise dentro da fábrica e não vendia caminhão, na verdade... e a fábrica, quando não vende fica com os pátios todos lotados de caminhões. E estava numa negociação, sobrando muita gente na fábrica e a rádio-peão falava assim ‘a fábrica vai demitir’. E eu ia na fábrica e dizia ‘a rádio-peão esta dizendo que vai demitir’ e eles falavam ‘imagine! Se houver demissões a primeira coisa que a fábrica vai fazer é procurar o sindicato, vai comunicar, não vamos fazer uma negócio

desses... isso é voltar 20 anos no passado’. E a rádio-peão continuava ‘vai demitir, vai demitir’. E os caminhões começaram a sumir da fábrica. E a rádio-peão ‘sabe por que estão tirando os caminhões da fábrica? É porque tem medo da reação da gente, de queimar os caminhões, etc. Porque vai demitir’. Aí eu ia na fábrica e falava ‘é muito forte o negócio da demissão’. E eles ‘não, não’. Quando foi um belo dia, foram 1.300 demissões, sem falar nada. A rádio-peão estava certíssima.” E inclusive, a retirada dos veículos da fábrica era devido ao medo da reação dos trabalhadores diante da concretização das demissões: “Estavam tirando por isso. No dia da demissão não tinha absolutamente nada dentro da fábrica, estava tudo vazio... planejaram muito bem. Aquilo marcou minha vida.”

Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar.

Paulo Freire

CAPÍTULO IV

RÁDIO-PEÃO & COMUNICAÇÃO FORMAL FACE A FACE: ANÁLISE DO MATERIAL COLETADO

Neste capítulo, agruparemos os dados coletados de acordo com os assuntos abordados durante as entrevistas realizadas com as diversas áreas do conhecimento. Com isso, tentarmos entender mais profundamente parte do processo de comunicação interna que acontece nas organizações, mais especificamente a rádio-peão e a comunicação formal face a face, bem como suas inter-relações. As abordagens e práticas diferenciadas que foram coletas estão evidenciadas por subtítulos. Ao final, discutiremos as questões levantadas, numa tentativa de esboçarmos algumas reflexões sobre nossas questões iniciais, que motivaram esta pesquisa.

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