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A diretora de Comunicação da Tetra Pak Elisa Prado35 afirma que a rádio-peão

“existe no mundo inteiro. Até na Tetra Pak Suécia tem rádio-peão [...] somos todos seres humanos. E nós todos somos bisbilhoteiros, querendo saber, e tudo mais.” Para ela, é necessário saber lidar com a rádio-peão. “Ela pode ser saudável como pode não ser. Mas ela existe e não tem como neutralizar. É algo que você tem que lidar com. E tem que lidar para o bem. Você tem que trazer isso para o seu bem. [...] Trazer para o benefício da empresa.”

“Uma forma que a gente identifica, não de neutralizar ou de monitorar a rádio- peão, mas uma forma que a gente tem para passar as informações que a gente quer, da forma como a gente quer, [...] acima dessa rádio-peão... você tem, geralmente, líderes natos.” São os líderes informais da empresa, mas que a diretora de Comunicação da Tetra Pak chama de líderes natos. “Eu chamo de líderes natos. São pessoas que, às vezes, na produção, entre 600 pessoas, você tem duas.”

Conforme explica Elisa Prado, essas pessoas se destacam “porque eles dão ‘piti’, eles falam, eles metem a boca, eles não sei o que lá e tal. Então, essas pessoas elas são - para você e para nós, área de comunicação - vitais. Porque elas, bem informadas, elas disseminam o que é bom para a empresa”. Quando a empresa não possui essas lideranças informais, Elisa Prado explica que a empresa forma essas lideranças. “Então para formá-

35 Entrevista concedida à autora em 30 de outubro de 2009, na sede da Tetra Pak, em São Paulo. Elisa

Prado é diretora de Comunicação da Tetra Pak e responsável pela comunicação interna e externa dos países da América Central e do Sul. É membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Seus temas de interesses são: comunicação para os funcionários e comunicação formal face a face.

las, você identifica. O próprio chefe... aqui nós temos, na nossa fábrica, as fábricas geralmente tem um gerente de fábrica... O cara que está lá, manda em tudo, conhece todo mundo... e essas pessoas identificam quem tem mais condições de fazer isso. E também você tem que ter pessoas que sejamos líderes do bem. Porque você tem também os caras do mal. E esses caras aqui [os do bem] é que precisam ser utilizados.”

E os do mal, “não há condições de eles serem neutralizados. Eles vão sempre existir [...] Então esse pessoal do mal aqui, vai continuar sendo do mal, a gente não consegue... e muitas vezes essas maçãs podres, como a gente fala, na primeira... – é maçã podre porque elas estando junto com os outros acaba envenenando, ela apodrece quem está do lado dela – essas pessoas são normalmente eliminadas.” Eliminadas, no dizer de Elisa Prado, significa demitidas. “É. Aí você tem, por exemplo, um corte, um grande corte que você tem que fazer na produção. Aí você sabe quem você vai eliminar.”

Nesse contexto, Elisa Prado define, também espontaneamente, o papel da comunicação como negócio: “Então por isso que eu digo que a comunicação ela é muito estratégica. Eu estou falando de coisas para você que são muito estratégicas. Eu não estou falando de fazer comunicação para as pessoas ficarem sabendo o que nós estamos fazendo, etc. Estou falando de coisas ligadas ao negócio da empresa, para fazer com que a empresa produza mais e melhor. Esse é o negócio da empresa. Não é benemérita. A empresa tem que ganhar dinheiro, tem que mandar dinheiro para os acionistas e as pessoas que estão aqui tem que levar isso a sério. Tem que trabalhar, tem que fazer a coisa acontecer. Nós temos essa função: de fazer cada vez mais que as pessoas estejam mais bem informadas para produzir mais e melhor. Sem poesia. E quanto mais a gente fizer isso, mais ligado ao negócio a gente vai estar. Que quando a gente quiser fazer poesia, não vai funcionar...”

No que se refere à comunicação formal face a face, Elisa Prado explica que ela “faz parte da filosofia da empresa”, e acrescenta que muitas das atividades de comunicação formal com os funcionários são realizadas face a face. “Na Tetra Pak é uma coisa muito comum porque na agenda do nosso presidente e dos nossos diretores a comunicação interna é muito presente. E a face a face, principalmente”, explica, dizendo que esse é um canal de comunicação corriqueiro na organização. Entre estas atividades da Tetra Pak, Elisa Prado destaca o “Café com o Presidente, com 10 selecionadas pessoas que uma vez a cada mês ele faz um café com essas pessoas da área do chão de fábrica”. Inclusive nesses cafés, entre os selecionados, a diretora de Comunicação

afirma: “eu sempre coloco uma dessas pessoas aqui [os líderes natos] num café desses” para que elas recebam informação “absolutamente fidedigna”.

Elisa Prado nega que a idéia seja substituir a rádio-peão por uma comunicação formal face a face. “A palavra não é substituir. Mas você dar subsídios para boa... para uma rádio-peão mais positiva. Ou pelo menos com informações mais fidedignas. Porque não existe mais, hoje, falta de transparência dentro de uma empresa.” Ou seja, o objetivo é alimentar “A rádio-peão de uma forma positiva. Aí vem lá o maçã podre e fala para os outros, diz ‘não, esses caras aí ganham dinheiro e não pagam nada pra gente’, sabe, essas coisas assim, ‘não paga’, ‘não paga’, etc e ‘a hora-extra’. Então, se as pessoas, todas, estão alinhadas com a informação, vão haver pessoas que vão achar que a informação está errada. É negativo, é positivo, mas vão ter os dois lados. Pelo menos um dos lados tem a informação... todos os lados têm as informação correta e uma informação alinhada. Então tem que comunicar muito, muito mesmo com os funcionários, gerar credibilidade.”

Numa análise do mercado brasileiro, Elisa Prado, que também faz parte do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) vê dificuldades ao se programar encontros de comunicação formal face a face. “Eu acho que ela demanda muito tempo. E demanda muita boa vontade dos executivos. Então ela não é fácil. Porque nós somos comunicadores e eles não são. Eles estão voltados para o negócio, o tempo todo eles têm que resolver, tem que fazer, etc, tem que fazer a empresa dar lucro. Eles estão voltados para esta questão. Então, muitas vezes, não se coloca como prioridade a comunicação. [...] o valor da comunicação interna é muito grande... o que você deve fazer, o que eu sugiro normalmente que as pessoas façam, ao invés de utilizar uma pessoa como grande comunicador, que normalmente é o CEO, você utilize toda a diretoria.”

Para Elisa Prado, as chefias mais próximas dos funcionários precisam de um treinamento especial porque “o funcionário acredita no chefe dele, a pessoa que está acima dele, o chefe dele. Claro que tem uma possibilidade do CEO, mas quem tem credibilidade é aquele que está ao seu lado, é o seu chefe. Essa pessoa precisa receber um tratamento muito grande de liderança para saber liderar e conduzir estas pessoas. Hoje, a função do líder é comunicação, quer dizer, 80% da função dele é comunicar, passar para baixo. É importante passar para baixo, para todas as esferas da empresa a mesma comunicação.”

Um exemplo dessa comunicação formal face a face que acontece na Tetra pak, conforme explica a sua diretora de Comunicação, é chamado Live Tetra Pak. “Foi um programa global, idêntico, que foi criado na Europa, em Londres, por uma agência [...], nós fomos treinados por essa agência a sermos os facilitadores desse trabalho. Esse trabalho é voltado para os 20 mil funcionários. Nenhum funcionário pode ficar de fora. [...] Nós treinamos um grupo de facilitadores, [...] porque é um programa de 4 horas. [...] A gente pára a fábrica e a pessoa vai para lá.[...] Então, ele tem o objetivo de fazer com que as pessoas conheçam o negócio da empresa e façam toda a parte de integração. Os pontos principais desse programa: primeiro, é estratégia... falar sobre estratégia do grupo; segundo, falar sobre os valores; e falar sobre a marca. Esses são os três pontos chave que tem esse programa. E é um programa que é muito recheado de vídeos, brincadeiras, jogos, tudo o mais. São geralmente dois facilitadores por sessão. [...] Vai chegar uma certa hora, que eu, como facilitadora, chamo o presidente, a pessoa mais importante, para fazer uma entrevista. Eu faço uma entrevista com ele, faço três ou quatro perguntas para ele e depois a platéia pergunta para ele. Então a platéia pergunta qualquer coisa”. O número de pessoas é limitado a 100, conforma explica Elisa Prado, para que haja integração e o público fica disposto em “mesas redondas, as pessoas conversam, discutem esses três pontos que eu acabei de falar [...] Então é uma sessão muito interativa, dinâmica.”