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Mesmo que se possa perceber as várias vertentes existentes nas abordagens que constituem as “teorias da prática” ou os “Estudos Baseados em Prática”, é possível expor que, na maior parte dos casos, uma prática social pode ser assimilada como um conjunto de atividades que adquirem sentido em um contexto situado, que esta é muitas vezes repetida, até socialmente reconhecida. Dessa maneira, uma prática é resultado da negociação coletiva diária, sustentada com sua repetição ao longo do tempo (SOARES; BISPO, 2017).
Por sua vez, Gherardi (2006) define prática como um modo, relativamente estável no tempo e socialmente reconhecido, de ordenar/realizar itens heterogêneos em um conjunto coerente. Práticas inscrevem posições sociais e relações caracterizadas por expectativas particulares, procedimentos e regras. Elas não somente auxiliam a evidenciar a riqueza e importância do que é tácito, o que é presumido e tomado por certo, o que é familiar, mas é também uma forma mais ágil
de entender a complexidade em geral e as complexidades do mundo organizacional em particular (NICOLINI; GHERARDI; YANOW, 2003).
Ademais, práticas são mutualmente conectadas e constituem um nexo, textura, campo ou rede. Coexistência social, nesse sentido, é situada no campo da prática, tanto estabelecida quanto estabelece (NICOLINI, 2012). Além disso, permanecem entre produção e reprodução, hábito e ação, têm o poder de relatar como é reproduzida (se mantém) a sociedade e mudam ao ser reproduzidas (GHERARDI, 2014).
De outro modo, prática é a figura de discurso que possibilita articulação dos processos de saber no trabalho, de organizar, tendo como referência aspectos históricos, materiais e indeterminados, com a criação intersubjetiva de um sentimento e um fazer coletivo socialmente reconhecido e reconhecível (GHERARDI, 2001; 2009). Práticas adquirem estabilidade temporal e espacial, a partir de acordos instáveis e provisórios em prática. Pessoas compartilham uma prática desde que suas ações sejam devidamente consideradas como respostas adequadas às normas de práticas corretas ou incorretas, ao gosto estético e aos padrões de justiça (GHERARDI, 2014).
Em relação a características fundamentais para o entendimento do termo prática, Gherardi (2006) menciona quatro características, a saber: I): como um grupo de atividades atinge significado e torna-se reconhecido como unidade, de modo que o foco deve sempre ser no conjunto que as atividades assumem em um contexto de ação situada; II): o tempo em que esta ação situada se mantém; III): a condição de ser reconhecida socialmente; VI): um modo de organização de mundo.
Após apresentadas as características para a compreensão da prática, Gherardi (2006) destaca que uma prática é algo que dá identidade a um grupo que se organiza a partir dela. Desse modo, sua aprendizagem ocorre por meio das relações entre os atores sociais e os elementos humanos e não humanos, resultado de uma dimensão tácita e estética dessas interações. Sendo que o elemento central é a noção que a vida social é uma produção contínua, em andamento (GHERARDI, 2015). As práticas estabelecidas agem como pontos de passagem para novas práticas; são simultâneos gateways e condutos, mas também canais e distorções que direcionam o fluxo do aprendizado. Explorar a prática permite enfatizar como os autores se esforçam para compreender a si mesmos e a seu mundo, ao mesmo tempo em que o constroem em seu trabalho (BJØRKENG; CLEGG; PITSIS, 2009).
Conforme Gherardi (2019), como modos de ordenar, práticas, em primeiro lugar, criam situações codificadas (encoded), envolvendo programas de ação, mas não há obrigatoriedade de como aquela ação será desempenhada. Em segundo lugar, distintivo das práticas de trabalhar não é sua variabilidade interna, mas sua repetição. Uma prática é tão precisa porque é praticada, habitual, ensinada e aprendida como uma atividade que constitui o trabalho e requer expertise – difere de uma emergência ou um evento imprevisto. Práticas contêm elementos de hábito, mas não são hábitos, contêm elementos de ação, mas não são ação. Por exemplo, evacuar em um incêndio é ação para os moradores, mas prática para os bombeiros. A terceira característica distintiva da prática, conforme a autora, é que ela reproduz a sociedade. Junto com a repetição das práticas, está sua estabilização por repetição; assim, a repetição das relações entre os elementos que perfazem a prática, por questões ligadas à eficiência e a aspectos normativos.
Por outro lado, segundo Nicolini (2012), práticas, como constituintes do horizonte no qual todas as ações discursivas e materiais tornam-se possíveis e adquirem significado, são: (a) inerentemente contingentes, mediadas materialmente, não podem ser entendidas sem referência a um lugar, tempo e contexto histórico concreto específico; (b) realizações sociais, mesmo quando são atribuídas aos indivíduos, uma vez que atores sociais emergem como arte de uma rede de relacionamentos e dependências mútuas das quais dependem e para as quais contribuem; (c) como práticas dependem de transmissores humanos reflexivos para serem realizadas e perpetuadas, a capacidade do agente humano sempre resulta de tomar parte em uma ou mais práticas sociomateriais.
Em relação a isso, práticas organizacionais são repetitivas, mas nunca idênticas – há a operação de uma lógica contingente, não uma racionalidade a priori, pela ‘bravura’ dos praticantes residirem na sua capacidade de reproduzir a ‘mesma’ performance apesar das condições variantes presentes (situacionismo). Celebra-se a habilidade dos praticantes, seus selfs, sentimentos de cuidado e prazer que produz a prática (GHERARDI, 2014). Cada prática conecta-se a outra, conexão-em-ação, ondulando práticas em uma textura (GHERARDI, 2011).
De acordo com Gherardi (2014), experiências das pessoas em, com e dentro das práticas tornam-se incorporadas em suas identidades, suas posições sociais, no status que elas exibem enquanto desempenham, ou não, o conjunto de práticas. Identidades profissionais estão ligadas a um conjunto de práticas institucionais, mas
também são desempenhadas fora da profissão. Para a autora, pessoas engajadas em uma prática reconhecem a inter-relação e a significação de um conjunto de práticas. Nesse aspecto, práticas organizacionais são acessadas por meio de socialização organizacional e adquiridas ao ser desempenhadas na consciência do “mistério” que distingue sua colocação em uso (GHERARDI, 2014).