Na década de 60, os trabalhos de Antonio Dias (29 anos) se distinguiam facilmente dos de Roberto Magalhães, Carlos Vergara, Rubens Gerchman e Pedro Escosteguy (os cinco expuseram juntos na G4) pela maior virulência. Eles tinham algo de visceral - com frequência representavam figados e corações - ao mesmo tempo que eram críticos.
A fixação na Europa, (em Milão, principalmente, onde foi contratado de uma grande galeria) desde 1967 modificou radicalmente a arte de Antonio Dias. Ela perdeu o seu aspecto visceral, tornou-se mais crítica, como se, antes, seus trabalhos se preocupassem em criticar situações, coisas, e agora estivessem ocupados em reconstituir os próprios mecanismos conceituais de que se serve toda e qualquer crítica.
Criação Individual - For muitos anos trabalhei no campo das artes e adquiri o status de artista. Batalhei e ganhei. Agora, o trabalho que me interessa é testar o mecanismo dentro do qual eu funciono e minha arte funciona Quero me utilizar, basicamente, dos meios de produção existentes. Se me aparece a oportunidade de publicar um trabalho numa revista, procuro fazê-lo em função de como vai ser impresso, que tiragem tem, que circuito abrange, quem paga, a quem vai atingir: em que sistema estou atuando. Se me surge a oportunidade de fazer um trabalho com um material novo como o ferro vou pensar em relação a esse material. O tipo de trabalho- quadro é, também, uma das minhas habilitações que estou interessado em desenvolver. Estou procurando estudar todos os aspectos do objeto-quadro: como o manipulo, como o transformo. Ainda que aparentemente eu utilize certas leis, certas normas, certa lógica na construção de um trabalho, quero perceber no quadro aquilo que não nasce como quadro. Fui abandonando progressivamente tudo quanto era exterior à pintura, ao quadro, como por exemplo fàzer um quadro sobre alguma coisa exterior a ele. Venho me preocupando em eliminar de dentro o que não diz respeito a ele. Me sobrou, então, um trabalho muito frio, muito seco, diferente do trabalho que eu fàzia antes. Essa nova atitude que descobri que teria de assumir exige uma leitura difícil, quase especializada O espectador tem de abandonar a antiga atitude intuitiva, que é passiva
A meu ver, para 1er um quadro é preciso saber a "gramática do quadro''. No meu trabalho atual, tenho procurado esclarecer essa gramática Mas no que o quadro descobre uma lei que pode se estabelecer dou uma volta e proponho o lado negativo dela: o lado escuro da lua
Arte e Sociedade - A arte só me interessa na medida em que sirva para conscientizar alguma coisa no meu universo de relações com o mundo. Seja desvendando a gramática do quadro, seja me preocupando com a veiculação das obras, o que evidentemente também determina o sentido de uma obra 0 artista deve ser, sobretudo, consciente de sua atuação como artista, de sua responsabilidade social como artista Deve ainda estar ciente, por oufro lado, de seus limites, ou seja, do pouco alcance da arte num plano imediato. A arte, por mais atuante que seja, modifica pouco o ambiente. Uma obra vai geralmente para a parede, dentro de uma casa, dentro
de um museu. Entretanto, tem havido reações com esses limites que a obra traz. A performance, por exemplo, é um tipo novo de comunicar visualmente. O uso do video
tape como linguagem pode abrir caminhos insuspeitos para o artista O fato das obras de arte ficarem confinadas em coleções particulares ou mesmo em museus, reduzidas a um consumo de elite, é fato inquietante.
Arte Brasileira - Aqui no Brasil os meios de produção e veiculação de obras estão sendo muito pouco usados. O pessoai está muito parado em relação ao ambiente. Mas isso já é uma consequência de 68-69, quando houve fechamento de exposições, quando o mercado começou em torno de primitivos e dos consagrados como Volpi, Di Cavalcanti, Portinari. Passei dois meses aqui, e percebi os jovens artistas todos muito agitados, preocupados, sem saber como veicular cinco anos de trabalho engavetado, sem condições de exportar trabalhos mais novos, ambientais ou por exemplo de atuação com o corpo, em galerias, museus ou bienais. O governo não protege as artes apesar dos quatro prêmios anuais e incentivos às bienais; o artista que queira expor fora do circuito de galerias, sofre, imediatamente, uma pressão. Tem uns poucos que a despeito disso começam ou continuam a trabalhar como é o caso do Cildo que utiliza vários sistemas para criar seu trabalho, ou do Roberto Magalhães, que continua desenhando mas mantém uma qualidade importantíssima. Sem cair na improvisação que eu condeno, porque não se pode dizer que o simples fato de fazer Super-8, desenho de objeto, seja lá o que for. seja fazer arte.
As coisas aqui estão dando um giro incrível. Surgem galerias todos os dias. Há um pingue-pongue entre Rio e São Paulo assustador. Mas uma galeria não deve ser isso. Deveria refletir a noção do que está se processando em vários setores: cultural e econômico. Então produziria uma trabalho construtivo. No Brasil, o mercado de arte está um desastre: exige do artista a troca contínua de trabalho, de cidade, em função de uma demanda que não mantém continuidade e que por isso mesmo dificulta a evolução séria e autêntica por parte da produção do artista
Categoria Profissional - Um artista de cinema ou de teatro paga INPS, tem uma classificação profissional. Entretanto artista plástico brasileiro não existe como profissional, nem tem carteira de trabalho. Na Europa é bem diferente. O artista, em média, é engravatado, polido, frequenta as pessoas por obrigação profissional, documenta tudo por obrigação profissional, trabalha tantas horas por dia por obrigação profissional. Existem categorias, estágios específicos dependendo de onde você atua Fora desses há uma minoria que pode ser considerada vanguarda, mas que também são muito organizados. Todas as promoções se fàzem coordenadamente, se protegem.
E óbvio que podemos inferir os aspectos também negativos dessa profissionalização e aproveitar nosso estágio atual para, enquanto produzimos arte, procurar também construit' o artista profissional que a está produzindo. Nossas relações com as galerias, por exemplo, são instrumentos que deveremos aprender a manipular nesse sentido.