Partie III. Activité de CDG Capital
II. Appartenance de CDG Capital au Groupe CDG
II.8. Les conventions liant CDG Capital au Groupe CDG
O adolescente foi descrito pelos professores entrevistados de diferentes maneiras: carentes, autônomos, críticos, alienados, posicionados, necessitando de limites, infantis, curiosos, ávidos por novidades e “quase adultos”. Há uma ambiguidade marcante no discurso que constitui “a adolescência”, que engendra diferentes práticas por parte dos professores. Os alunos são descritos ora como pessoas que têm objetivos, foco no vestibular e que, por esta razão, precisam de professores que os instrumentalizem para tal, ora como adolescentes carentes e imaturos que precisam de alguém com quem conversar, adultos “em tamanho”, mas
muito “tatões” ainda, conforme a professora de arte: “(...) eles são grandes, mas ainda querem colo e carinho...”.
Esta multiplicidade de posicionamentos em relação ao adolescente merece ser discutida, pois parece refletir o que é o adolescente em seus aspectos infantis e adultos. No entanto, os professores elegem o comportamento “quase adulto” como o mais prezado: os alunos preocupados com a realização de seu projeto de trabalho através do vestibular e da graduação são descritos como “maduros”, “sérios”, “dedicados”, pois sabem privar-se de diversões para investir na futura carreira: enfim, eles “sabem o que querem”. Os adolescentes “menos adultos”, por sua vez, são avaliados por sua “falta de compromisso” com uma meta maior, são menos compenetrados e não demonstram muito esforço quanto às tarefas escolares.
Assim, para a professora de educação física, “(...) eles já são bem críticos, já têm opinião própria, cabe ao professor estimular para que sejam mais críticos, mais autônomos....”. A entrevistada ainda comemora o fato de que certas condutas infantis são deixadas para trás: “Na aula não tem aquele empurra-empurra, 'profe, ela roubou meu lápis...' Tu fala uma vez, eles já te escutam, nem todos... Se tu levar algo diferente e mostrar pra eles que é importante, eles vão se interessar...”. Cabe ressaltar que o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia caracterizam a adolescência, segundo a entrevistada e, ao mesmo tempo, constituem ideais do processo educacional na medida em que devem ser incentivados pelos professores.
Já a professora de matemática, que alude aos limites de que os adolescentes necessitam, enfatiza a necessidade de que a escola constitua um espaço de ensaio e erro para o adolescente, de modo que a instituição não proponha ao jovem os parâmetros a partir dos quais ele vai ser julgado no mundo do trabalho, mas parâmetros escolares: “(...) Claro que aluno tem que ter limites, porque eles são adolescentes, né, mas acho que nós não precisamos, por eles serem adolescentes, falar assim: não, mas aqui precisa ser assim, porque o mercado de trabalho é assim... Eu não gosto de escutar isso: Ah, porque o chefe dele... É, isso aí, o chefe dele, no momento em que ele for adulto, ele é adolescente, ele tem o direito de errar aqui e é aqui que a gente vai corrigir...”. A entrevistada defende que as exigências propostas aos adolescentes sejam condizentes ao seu momento de vida, sem apressar requisitos de outros contextos, embora próximos temporalmente à saída da escola. A escola precisa, portanto, acolher o adolescente e compreender o momento pelo qual ele está passando, permitindo-lhe ensaios, corrigindo seus erros, tornando-se, deste modo, um dispositivo para regulação da adolescência.
Problemas familiares, afetivos e uso de substâncias também foram relacionados à adolescência e esta “fragilidade” parece aproximar os adolescentes de seus professores, de modo que estes precisam suprir-lhes com conteúdos e com presença afetiva. Trata-se do que a professora de química enunciou a respeito dos alunos de escola particular: “(...) eles criam uma afetividade maior com os profes, te pedem ajuda, até porque a escola particular tem os recursos dos psicólogos, dos coordenadores... Nós temos também esses problemas de pais separados, só que assim, a questão das drogas é maior na escola particular, acho até porque eles têm mais condições... E em termos de interesse, eu acho que na particular o interesse maior deles é as federais, então eles vêm buscar mais conteúdo e são mais exigentes, eles querem que tu seja afetivo e também professor”. Esta descrição do adolescente “em falta” que precisa de um ambiente escolar afetivo e acolhedor é tomada como regra, assim como é generalizado o desejo de aprovação em uma universidade pública. A adolescência seria caracteristicamente frágil e, deste modo, a escola precisa “tutelar” este “menor carente”, oferecendo-lhe amparo, suporte e preparação para o futuro.
A inconstância foi apontada como uma característica tipicamente adolescente pela professora de história (filosofia e sociologia). Para ela, os adolescentes são muito suscetíveis às opiniões dos outros e “(...) oscilam muito – às vezes é modismo, às vezes é a companhia, às vezes é a influência do namorado...”. Já para o professor de inglês, o adolescente “olha” para o mundo de um modo adulto e maduro e compreende o que necessita fazer para alcançar seus objetivos: “(...) o adolescente já está entendendo que o mundo está tão competitivo, tão desgastante, que ou ele começa a tomar atitudes agora, ou ele não vai conseguir chegar aos objetivos dele”. Novo contraste apontado pelos entrevistados: ora o adolescente não sabe o que quer e, além de não saber, permite que os outros o influenciem, ora ele vislumbra o mundo de modo adulto e decide o que precisa fazer no presente para garantir seu futuro, gerenciando seu próprio ser e seu projeto de vida.
Constata-se, portanto, um processo discursivo que aproxima o adolescente do “adulto”, ao mesmo tempo em que há enunciados referentes a uma necessidade de respeito pela adolescência, que não deve ser perturbada por demandas pertencentes a outros momentos da vida e que deve, sobretudo, ser protegida. Há também a leitura de traços infantis na conduta adolescente, conforme aponta a professora de arte. Confusos, atrapalhados com tantos livros, precisando de organização, enfim, “eles são uns tatões”, segundo ela: “(...) eles são grandões, mas ainda querem colo, mas essa parte infantil eles vão largando aos poucos no médio, né, eles vão sentindo a necessidade de estudar, por isso talvez que eles se percam, a gente despeja um monte de coisa e eles têm que se virar”. Constata-se que a “parte infantil”
do adolescente acaba sendo suplantada pela necessidade de estudar, pois a entrevistada sinaliza que tornar-se menos infantil significa reconhecer a necessidade de estudar. Sentir a necessidade de estudar é o modo de ingresso no mundo adulto, conforme é possível depreender.
Por outro lado, alienação e futilidade por vezes descrevem o comportamento adolescente, segundo a mesma professora. Esta queixa-se de que eles não leem, não compreendem o que leem e não utilizam a internet em suas potencialidades para o conhecimento, mas para banalidades... “Nossos alunos não leem, não compreendem... Às vezes uma questão de prova eles não entendem o que tu quer dizer, então tá faltando alguma coisa e isso não é só escola... Por exemplo, eles têm a internet, mas normalmente se usa a internet pra gastar menos telefone, então fica no MSN “Ah, beleza”, “Ai, que roupa tu vai botar?” Aquela busca por informações, eu não sinto isso neles, essa necessidade de aprender, de ir além do que a prova pede. Tem muita gente que vem pra cá com essa apatia, né, não sei se da internet, da TV e isso tá deixando eles sem posição”.
Ir além do que “consta na prova” foi apontado por vários entrevistados como um atributo de um aluno bem formado, conforme evidencia-se no texto apresentado a seguir. Deste modo, quando este comportamento não se verifica, lê-se um distúrbio: a apatia. Os adolescentes descritos pela entrevistada parecem “padecer” do “mal” de ter tudo a seu alcance e de não fazer o uso devido de tais instrumentos. Não seguir uma conduta esperada e desejada pelo sistema escolar, como a busca pelo conhecimento, transcendendo as exigências escolares, é um comportamento adolescente compreendido como patológico, em vez de ser considerado manifestação implicada no próprio funcionamento da instituição escolar. Será que a apatia dos adolescentes e sua “chatice” intrínseca não refletem a sensação de alguém que está apavorado diante do crescimento e não consegue viver se não for no presente? E por que a escola média pertence tão pouco ao presente e justifica seu fazer sempre tendo em vista o futuro?
Em relação à produção da adolescência, observam-se duas tendências: a de protegê- la, por sua suposta vulnerabilidade, e a de promover sua adultização, especialmente a partir da preparação para o trabalho. Não há outras possibilidades de compreensão para a “adolescência”, não há problematizações acerca deste conceito – os adolescentes simplesmente são “crianças” em um corpo quase adulto, que, por esta razão, podem envolver- se em situações de risco, ou são adultos ávidos por gerenciar sua vida no trabalho, dedicando- se, por enquanto, aos estudos no ensino médio. Não se constatam discursos que possibilitem ao adolescente uma brecha para problematizar a sua escola média...