• Aucun résultat trouvé

Attestations et coordonnées

Em 2009, o Ministério da Educação anunciou mudanças no modelo de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e instituiu que este exame será requisito suficiente para o ingresso no ensino superior, cabendo às universidades estabelecer os critérios segundo os quais aproveitarão as notas dos estudantes. As notícias foram recebidas com desagrado na escola em que esta pesquisa foi realizada, já que a preparação para o vestibular justifica boa parte das ações pedagógicas no ensino médio. Constatou-se certa desestabilização da equipe escolar, que não criticou diretamente as mudanças, mas a implantação das mesmas em tão curto tempo. Uma das questões que se apresenta, entre outras, é a duração do ano letivo para alunos de terceiro ano, que devem fazer o exame no início do mês de outubro. Pergunta-se, portanto, “O que fazer com o aluno de outubro a dezembro com a extinção de muitos vestibulares? Será preciso iniciar o ano letivo mais cedo para concluí-lo em outubro?” Estas questões demonstram a centralidade dos exames para ingresso no ensino superior na prática pedagógica deste colégio, de modo que se as provas de seleção ocorrerem antes do final do período letivo, resta pouco a fazer até a conclusão do mesmo.

Embora não houvesse questões sobre o ENEM na entrevista realizada neste estudo, alguns profissionais fizeram menção à nova proposta do exame, demonstrando preocupação e expectativas de mudanças no ensino médio vinculadas à nova avaliação. Mesmo que não houvesse muita clareza acerca das mudanças propostas, os entrevistados comentaram sobre o que gostariam de ver ocorrendo no ensino médio mediante o novo processo seletivo. Entre as críticas ao exame está o possível “fim do regionalismo”, conforme assinalado pela professora de matemática: “(...) uma crítica minha ao ENEM é que ele vai acabar com o regionalismo... Tu não precisa mais saber história, geografia, biologia, a literatura do teu estado, porque no ENEM não cai isso - cai só interpretação...”. Verifica-se, a partir da fala da entrevistada, a avaliação de que o ENEM trará perdas, contribuindo para certa descaracterização da identidade cultural e regional. A professora ainda pressupõe que o estudo destas disciplinas em âmbito regional só pode ser desenvolvido se requisitado pelo exame, vinculando novamente as práticas pedagógicas no ensino médio aos modelos dos processos seletivos.

Por outro lado, os professores de química, geografia e biologia veem com bons olhos a mudança no modelo de seleção para o ingresso no ensino superior e acreditam que este exame possa “revitalizar” o ensino médio ou promover uma mudança em suas finalidades. O

professor de geografia tem a expectativa de que com o ENEM o aluno seja instigado a pensar: “Talvez o ENEM, (...) venha dar um reforço de questões mais elaboradas para o aluno ser instigado ao pensamento e não só à decoreba, porque em vestibulares conceituais, quem sabe o conceito passa, quem não sabe, não passa...”. Vale constatar que o modelo de aprendizagem relacionado ao vestibular tradicional é o da ”decoreba”, da memorização dos conceitos e não o do exercício do pensamento, conforme a opinião do professor.

A professora de química também tem muitas expectativas em relação ao exame e espera que este provoque mudanças no grau de interesse dos estudantes em sala de aula. Segundo ela, “(...) Eu estou esperando grande coisa do ENEM, porque se ele exigir um nível alto do conteúdo, a tendência é que agora eles deem valor pro médio, (...) quero apostar que se tu conseguir que eles tirem médias boas pra entrar numa universidade, eles realmente vão ficar na sala de aula por interesse...”. Deste modo, constata-se a estreita ligação que ela propõe entre um ENEM de alto nível de conteúdo e a dedicação dos estudantes no ensino médio. A mesma professora avaliou, em outra passagem de sua entrevista, o quanto as modificações nos vestibulares das universidades particulares regionais têm tido influência no empenho dos estudantes em relação às disciplinas. Conclui-se que o ensino médio encontra-se em estreita dependência dos processos de seleção para ingresso no ensino superior e que estes o regulam, fornecendo-lhe parâmetros de qualidade, influenciando, inclusive, as condutas de alunos e profissionais.

O professor de biologia prevê mudanças estruturais no ensino médio a partir do novo ENEM. Segundo ele, “Eu acredito que o ENEM vem pra ajudar a aula se tornar mais interessante e o conhecimento mais interligado com outras disciplinas, o aluno pode ser mais um conhecedor de assuntos em geral do que um especialista”. A expectativa de mudança que ele assinala inclui a crença de que “(...) até mesmo a finalidade do ensino médio vai ser outra, pois hoje é aquela questão só de jogar, jogar, jogar conteúdo pro aluno poder, depois de anos recebendo informação, mostrar isso tudo na prova... Com o ENEM, a esperança é que se consiga fazer uma ligação maior da realidade com a sala de aula, mudando a visão do que é o ensino médio”. Cabe indagar por que não seria possível fazer a ligação a que o professor se refere no contexto atual de preparação para o vestibular. Será que o modelo pedagógico atual está tão sedimentado que o professor não se pergunta sobre como lidará com o conhecimento? Será que isso se deve à programação estrita de conteúdos que a apostila prevê? Ou será que a própria apostila apresenta defasagens a este respeito? Mas mesmo que este seja o caso, por que o professor aceita silenciosamente o esquadrinhamento de sua aula? Por que o saber veiculado acerca das formas mais adequadas de preparação para o vestibular age de forma a

“dispensar” os professores de questionar-se sobre a qualidade de sua aula, sobre a forma como o conhecimento é abordado, enfim, dispensa-os de problematizar sua prática, de modo que esta é tida apenas como produto de determinado modelo?

É importante verificar que o professor espera uma mudança de papeis educacionais a partir do exame, criticando o modelo pedagógico atual em que os estudantes recebem informação passivamente para então “mostrar” o que aprenderam no vestibular. Segundo seu relato, pode-se constatar que o ensino médio constitui, em muitos momentos, uma preparação para o vestibular que envolve o recebimento passivo de informações e o acúmulo das mesmas. Prevalece, neste caso, o papel do professor “alimentador” do estudante com informações e do estudante “receptor”.

Quando questionado sobre o que poderíamos fazer se tivéssemos o vestibular substituído pelo ENEM e este exame de fato propusesse uma nova abordagem do conhecimento requisitado para o ingresso no ensino superior, o professor de biologia responde que provavelmente teria um trabalho maior no planejamento das aulas, “(...) porque hoje eu só sigo aquele conteúdo, mas eu teria que fazer uma ligação, eu teria que entrar em uma aula com o professor de geografia e de história, onde um iria falar sobre as doenças, o outro iria falar então [do] do tempo em que elas ocorreram, o outro da localização geográfica”. Para finalizar, o entrevistado faz referência ao fim da “decoreba” e ao fato de que muitas coisas têm que ser ensinadas no ensino médio porque “caem” no vestibular, enquanto outras questões interessantes não são privilegiadas: “(...) E tirar um pouco, né, essa questão de decorar, decorar, decorar conceitos que pra muitos profissionais não são fundamentais. Tem muita coisa que ele vai ter que gravar pra meia hora de prova de vestibular (...)”. É importante analisar o modo como o professor descreve uma aula com abordagem interdisciplinar: vários professores ocupando-se de aspectos referentes às suas disciplinas envolvidos na explicação de algum fenômeno. Parece claro o efeito de compartimentalização do conhecimento promovido pela especialização disciplinar, de modo que a referida aula limitar-se-ia à realização de muitas aulas em uma só. Além disso, ao criticar a seleção de conteúdos operada pelo vestibular, o entrevistado aponta que alguns conceitos são específicos para determinadas áreas profissionais, não devendo integrar, portanto, os conteúdos dos processos seletivos e, consequentemente, o currículo do ensino médio.

A professora de história, filosofia e sociologia apontou em determinado momento de sua entrevista o quanto gostaria que o ensino médio oferecesse aos estudantes formação nas matérias relacionadas à sua futura atividade profissional, de modo que só permaneceriam em sala de aula os alunos realmente “interessados” naquelas disciplinas, tendo em vista seu

desenvolvimento profissional. Assim, o ensino médio não constituiria apenas uma preparação para o ingresso dos estudantes no mundo do trabalho, mas daria início à profissionalização e especialização dos alunos, em detrimento de uma formação geral. Conclui-se que a formação profissional (via vestibular e ensino superior) tem papel central no estabelecimento das práticas pedagógicas de ensino médio em detrimento de uma formação geral.

Embora algumas colocações apresentadas pelos entrevistados possam ser precipitadas mediante a escassez de informações acerca do novo ENEM disponíveis até a data das entrevistas, constatou-se novamente o atrelamento do ensino médio às modalidades de ingresso no ensino superior na escola particular. Se o vestibular for substituído pelo ENEM, é preciso que haja tempo para reorganizar a proposta pedagógica, pois é em função do “novo” exame que esta deve constituir-se. É possível depreender das falas dos entrevistados que os modelos avaliativos para ingresso no ensino superior são determinantes para as práticas educacionais no ensino médio.