Partie II. Présentation générale de CDG Capital
IV. Organes d’administration de CDG Capital
IV.3. Composition du Conseil d’Administration
A formação cidadã enquanto finalidade do ensino médio foi apontada por quatro entre os dez professores entrevistados, de modo que parece haver poucos espaços no sistema de ensino para este tipo de prática. Aliás, entre os entrevistados que fizeram menção ao papel da escola na formação cidadã encontram-se apenas professores da área das humanas: língua portuguesa (literatura e redação), arte, história (filosofia e sociologia) e geografia. Entre os entrevistados que fizeram menção à cidadania enquanto aspecto formativo no ensino médio evidenciou-se diferentes modos de conceituá-la: acesso ao mundo do trabalho, responsabilidade social e legal e consciência dos direitos e deveres individuais.
O professor de geografia faz menção à preparação dos cidadãos enquanto finalidade do ensino médio, mas relaciona cidadania à escolha profissional, à “descoberta” do que cada um quer para si profissionalmente: “Preparar o 'ser', o cidadão, eu acredito que grande parte dos nossos alunos tenham dúvidas a respeito do que vão ser, do que farão, [ãã], exatamente porque eles não conhecem... Trabalhar com o aluno de uma forma integral, né, não somente conhecimento, mas ajudá-lo na opção dele”.
Para as professoras de língua portuguesa e história, a questão da cidadania passa pela compreensão que os alunos devem construir acerca de suas responsabilidades, conforme se evidencia no depoimento da primeira: “Eu acredito que na sala de aula a gente não precisa só trabalhar conteúdo, acho que o professor tem responsabilidades, tem que trabalhar a questão da cidadania, né, orientar esse aluno que ele não é só mais um na multidão, que ele tem responsabilidades, direitos e deveres numa sociedade, mostrar pra ele como é essa sociedade...”. Mesmo assinalando entre as finalidades do ensino médio a formação cidadã, esta parece pautar-se em uma contemplação dos fatos sociais, numa conscientização acerca das leis, dos direitos e deveres de todos, de modo a produzir uma “adequação” a esta vida social e não um questionamento acerca de sua “natureza”. Assim, depreende-se que exercer direitos e acatar deveres resume o exercício de cidadania.
A professora de história não faz uso do termo cidadania, mas sim “responsabilidade social”, enfocando principalmente a necessidade de trabalhar junto aos adolescentes a questão
das condutas de risco. É possível constatar, em sua fala, a preocupação com as condutas extra- escolares dos adolescentes, que, segundo a professora, deveria ser assumida de alguma forma pela escola. A entrevistada ainda aponta que o adolescente é frequentemente infantilizado e que precisa ter a oportunidade de conversar e de refletir sobre seus direitos, deveres e responsabilidades para poder assumi-los. Segundo ela, “A gente prepara, prepara, prepara, prepara esses indivíduos aí pro vestibular, porque eles têm que entrar nas federais e a gente esquece da responsabilidade social que essa gurizada tem, porque eles tão começando a sair, eles enfrentam problemas com drogas, é o momento que tu pega a chave do carro dos pais pra sair, (...), às vezes a gente só fala de coisas envolvidas ao trabalho e ao vestibular, esquece de ver que tem uma juventude aí que tá pedindo ajuda. (...), então é uma responsabilidade social pra eles encararem as coisas, tem que ter o pé no chão, sim, a questão da droga, por exemplo, um dia um aluno perguntou – tá, mas é bom? Deve ser, se fosse ruim, ninguém experimentava... Só que a gente tem que ter consciência do risco que está causando... Eu acho que a gente (...) trata esse adolescente muito como coitadinho – eles não querem isso, eles querem conversar, saber que têm responsabilidade, direitos e deveres bem claros, a responsabilidade social de eu pegar o carro do meu pai e matar alguém na rua, quem que vai arcar com as consequências desse meu ato? Se eles têm direito, aos 16 anos, de votar, por que não puxar mais responsabilidade pra essa gurizada?”.
Observa-se que a cidadania ganha contornos de “responsabilidade” sobre si e não de assunção de uma postura ativa em uma comunidade ou do engajamento em movimentos que reivindiquem conquistas sociais. Assim, o exercício de cidadania, conforme enunciado pelos professores, não contempla a problematização dos fatos sociais. Trata-se de uma preocupação com o conhecimento dos códigos sociais para viver em conformidade com eles, o que possui um efeito que merece ser discutido: a “desimplicação” do sujeito no mundo social.
Um aspecto recorrente nos depoimentos dos professores entrevistados e presente na fala da professora de história diz respeito à forma como os professores devem dirigir-se aos estudantes – deve-se tratá-los como adultos ou como crianças? A produção de um discurso de proteção ao adolescente também pode ser constatada na fala da mesma entrevistada quando ela faz referência ao foco escolar no ensino de conteúdos para o vestibular versus a necessidade de oferecer formação integral aos estudantes. É preciso indagar, no entanto, se esta deve ser uma preocupação escolar unicamente, ou se deve ser compartilhada com outras instituições sociais. Em muitos momentos acredita-se que a escola, reduto privilegiado de um saber especializado sobre a vida, deveria assumir um papel de “vigilância” e educação de seus estudantes de forma global, observando seus hábitos extra-escolares, monitorando seu
possível envolvimento com substâncias, suas condutas no trânsito, etc. Deste modo, suas funções de controle social seriam amplificadas sob a justificativa de razões educacionais. Este discurso ganha ainda mais eco a partir da veiculação e produção de outro discurso referente à falta de condições familiares de acompanhamento dos adolescentes, descrito no capítulo seguinte.
De todo modo, à parte das pretensões escolares de tutela do adolescente, evidencia-se que a formação cidadã é negligenciada pelo saber escolar, ou compreendida de modo simplista, restringindo-se ao acesso ao conhecimento acerca de direitos e deveres dos cidadãos. Além disso, a cidadania é identificada com ações de “responsabilidade social”, especialmente voltadas ao cuidado de si, com o ingresso no mundo de trabalho e com ações de redução de riscos. Em nenhum momento foi discutida a necessidade de preparação dos cidadãos para sua inserção na vida política e comunitária. Além disso, quando se mencionam os riscos de um adolescente pegar o carro do pai e matar alguém na rua, logo se coloca a questão de quem vai arcar com as consequências deste ato, o que demonstra uma lógica de ação que deve simplesmente prever riscos, na tentativa de evitar punições ou penalidades... Em nenhum momento é evocado, por exemplo, o direito coletivo de ir e vir, as formas de organização do trânsito que possibilitem esta liberdade a todos os cidadãos, o respeito à coletividade. Assim, a própria noção de cidadania é individualizada, restringindo-se à consciência que os estudantes devem desenvolver para exercer seus direitos e não incorrer em penalidades. Por que é tão difícil pensar em estratégias educacionais que assumam a coletividade da vida social como um referencial? Por que não se pensa cidadania enquanto defesa de interesses coletivos? Por que a cidadania é equiparada à conquista de garantias individuais – ter um emprego, não infringir leis e ter seus direitos respeitados?