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Fonctionnement du Conseil d’Administration

Partie II. Présentation générale de CDG Capital

IV. Organes d’administration de CDG Capital

IV.2. Fonctionnement du Conseil d’Administration

A relação entre ensino médio na escola privada e “trabalho” é tida como natural; entretanto, é necessário analisar de que trabalho se fala quando se anuncia tal relação. A preparação para a escolha de um trabalho é frequentemente apontada como uma ação que cabe ao ensino médio. Assim, os depoentes enfatizam a orientação profissional a partir dos testes psicológicos enquanto uma tarefa a ser realizada, de modo que o teste mostraria ao vestibulando o que ele estaria apto a fazer. Outro aspecto que chama atenção nos depoimentos apresentados é a compreensão de que os comportamentos aprendidos no ensino médio são o passaporte para a ascensão social via trabalho. Devido à constituição de um pensamento arraigado de que os estudantes devem buscar sua inserção no mercado de trabalho através de uma graduação, nenhum dos participantes pondera a respeito da escolha de profissões que não dependam de formação superior.

O ensino médio relaciona-se com o mercado de trabalho de modo direto, segundo o professor de física, pois as aprendizagens construídas ao longo daquele coincidem com os requisitos deste - alunos com bom aproveitamento escolar portam os atributos necessários à inserção profissional. A perspectiva do prosseguimento dos estudos em nível superior é tomada como certa, além de ser considerada o “rumo certo”, pois alguns entrevistados não concebem outro projeto de vida para o egresso do ensino médio de escola particular. Muito mais do que os conteúdos trabalhados ao longo do ensino médio, as “posturas” desenvolvidas nesta etapa educacional parecem contribuir para que os futuros trabalhadores sejam valorizados, conforme as falas dos professores de inglês e de física. Aliás, para este, a escola deveria contemplar questões relacionadas aos comportamentos adequados ao mercado de trabalho em sua prática pedagógica.

O professor de física considera a preparação para o mercado de trabalho uma das finalidades do ensino médio, pois acredita que “(...) o mercado quer alguém que saiba ler, escrever, que tenha fluência em diversos assuntos, quer toda essa lógica, essa matemática, essa interpretação, né? Então automaticamente o ensino médio já é o mercado de trabalho”. Segundo ele, a escola deveria “(...) falar do mercado de trabalho, trabalhar as posturas... Eu falo para os alunos de seleção, falo que tu vais ter que te apresentar. A gente costuma justificar nosso fazer pedagógico olhando para o mercado de trabalho. Eu fui no banco esta semana e encontrei um aluno, foi promovido, legal, estudou, se esforçou, fez cursinho, está na faculdade... Isso aí, alegria, sucesso, dinheiro, terninho e gravata...”. Para ascender

profissionalmente, as posturas são muito importantes, conforme o professor, que as define da seguinte forma: “Educação mesmo, postura ética, fofocar, fazer picuinha, virar um “reclamão” o tempo todo, não refletir sobre o que fala, o que faz, ser mais consequente, desde o sentar, modos, educação, acho que não adianta dizer que não temos nada a ver com isso”.

Constata-se que o ensino médio, segundo o professor entrevistado, não deve furtar-se a uma preparação para o trabalho, e que as ações pedagógicas deveriam ser incrementadas com dados sobre o mercado de trabalho, como as posturas adequadas, os aspectos mais importantes em um processo de seleção, o modo através do qual alguém deve apresentar-se, etc. No entanto, o entrevistado faz referência a um trabalho onde a ascensão é possível e depende exclusivamente das condições dos candidatos – como no caso do ex-aluno que se esforçou e foi promovido. Além disso, o ideal de trabalho defendido pelo professor é o de cargos de chefia ou gerência em grandes organizações, conforme se constata em sua menção a “dinheiro, terninho e gravata”. O ensino médio deveria promover, portanto, certa modelização de condutas desejáveis ao mercado de trabalho.

A importância das ações escolares relacionadas ao mercado de trabalho justifica-se, segundo o entrevistado, pela centralidade que o trabalho e o desempenho profissional têm para a construção de valor pessoal: “Sobreviver no mundo real é ter emprego, ter emprego é ser alguém. Tu é feliz à medida que tu vai realizando coisas, que tu vai te relacionando, que tu vai adquirindo coisas, um espaço na sociedade. Quando tu não tem emprego, não é procurado, não é admirado, tu tá marginalizado...”. Evidencia-se, nesta fala, a construção discursiva de que o trabalho define a identidade, define até “aonde alguém pode ir”, garante a conquista de um espaço na sociedade. O trabalho ainda possibilita a alguém a aquisição de uma série de coisas, de ordem material e simbólica – trata-se do que se pode constatar na oposição enunciada pelo entrevistado – marginalizado versus admirado.

O professor de inglês não vê, a princípio, muita relação entre o ensino médio e trabalho. Quando questionado a este respeito, ele responde: “Acho que o ensino médio não tem relação com o trabalho, futuro, o que tu vai exercer, neste sentido? Ou como tu vai ser no trabalho? Porque como tu vai ser, sim, tem influência, porque como tu é aqui, tu vai ser lá, tu vai aprender lá que tu vais ter uma relação de subordinação, que tu vais ter que obedecer, se tu não for o chefe... O que se mostra similar é a única coisa menos o conteúdo - nossa relação de vivência em conjunto, nossa relação de obediência às normas, a relação de solidariedade, mas o conteúdo, eu acho que não tem relação com o trabalho”.

Assim, o entrevistado compartilha com a opinião do professor de física acerca da necessidade de desenvolver, junto aos alunos, posturas adequadas ao mercado de trabalho. O

conteúdo abordado no ensino médio não parece ter uma contribuição direta sobre o futuro de trabalho do estudante, mas o que ele aprendeu em termos da obediência às normas e do convívio em grupo é fundamental. É válido discutir o quanto a escola média particular parece estar favorecendo certo “modelo” de formação na medida em que valoriza certos tipos de trabalho, traçando destinos. Neste quesito, a preocupação maior não se refere àquilo que o estudante “sabe” para poder ocupar determinado posto de trabalho, mas sim em como ele se “porta”, como ele se apresenta e como se relaciona com os demais. Conquistar um bom trabalho parece depender de certo “magnetismo pessoal”, da condição de impressionar, de mostrar que se tem conhecimento, de ser interessante, conforme apontado pelo professor de física.

Os professores de português, biologia e história enfatizam a escolha vocacional quando comentam a relação entre ensino médio e trabalho. Dois aspectos são mencionados a respeito desta escolha – a sensibilidade que a escola deve ter neste momento e a necessidade de que os adolescentes ajam em relação ao que desejam fazer, busquem informações e não permaneçam apenas com suas impressões e desejos. Trata-se do que é possível constatar no relato da professora de português de um diálogo imaginário sobre escolha profissional: “Eu quero ser médico.” “Mas, tu buscou maiores informações...?” “Não, eu acho legal ser médico...” Então ele chega na primeira aula e desmaia ao ver sangue... Ele podia ter trabalhado a escolha da profissão... A gente tem que dar uma base maior pra esse aluno com testes vocacionais, toda uma orientação”. Enfim, acompanhar o aluno em sua escolha profissional e intervir neste caminho sob título de orientação constituem necessidades apontadas pela entrevistada. A percepção de que tudo pode dar certo quando “devidamente trabalhado” a partir do conhecimento, da informação, pode ser evidenciada em seu relato, assim como no do professor de biologia, apresentado a seguir. É preciso lançar mão de todos os dispositivos existentes de modo a facilitar a escolha vocacional – testes psicológicos e muita informação. Além disso, constata-se a ideia de que existe uma profissão que é capaz de traduzir os anseios e as características pessoais em uma identidade de trabalho, sem que se conceba que os próprios objetos de trabalho são constituídos socialmente.

A professora de história considera a orientação vocacional “a parte mais importante do ensino médio, ajudar eles a encontrar esse caminho e deixar um pouco de lado o vestibular” e argumenta que a escola nem sempre “olha esse lado humano do aluno”: “Eu tento ajudar eles a pesquisar a respeito do curso, dizer que é possível a troca, que não se troca dinheiro por felicidade... Então eu acho que é orientar eles no caminho da escolha, trazer palestras sobre cursos e deixar eles tranquilos, porque se eles não entrarem agora, eles têm

tempo ainda... Essa preparação pro trabalho é a parte fundamental, o preparar pra vida mesmo...” É importante constatar o quanto a vida equivale ao trabalho e o quanto a preparação para este, no ensino médio, equivale à orientação vocacional. Deste modo, a centralidade do trabalho na vida humana é reiterada, pois não ter trabalho equivale a “não ser”. Escolher um trabalho equivocadamente significa não atingir a plenitude do “ser”, a felicidade. Diante de argumentos como identidade e felicidade, observam-se novamente o traçado de destinos para os egressos do ensino médio. Olhar o lado “humano” do aluno parece significar olhar para a angústia que este sente em relação à sua trajetória de trabalho, ser sensível às dúvidas características deste percurso.

O professor de biologia reitera o papel do ensino médio em relação à escolha profissional ao dizer que aquele “é o momento em que o aluno vai refletir sobre o que agrada e o que não agrada ele para se preparar para uma futura profissão. No ensino médio ele vai ter contato com muitas disciplinas que podem ajudar ele nessa preparação pra um futuro onde ele não vai se arrepender... O ensino médio é um começo onde ele vai ver se gosta mais da área exata, da humana, então, fazendo um bom médio ele vai ser um profissional feliz”. Ainda segundo o professor, a dificuldade de escolher decorre da falta de informações concretas sobre as profissões, “(...) essa escolha que eles têm que fazer muito jovens, sem ter uma referência, falta um contato com profissionais. Então eu digo: tu quer ser um engenheiro, tu tem que passar uma semana junto com um engenheiro”. Incentivado a prosseguir sua argumentação acerca da relação entre ensino médio e trabalho, o entrevistado afirma que os egressos do ensino médio já podem assumir determinadas funções no mercado de trabalho. No entanto, depreende-se de sua fala que os egressos do ensino médio devem esforçar-se para ter acesso às vagas do mercado de trabalho que exijam formação pós-médio. Neste nível de formação e de atuação profissional, a escolha é possível.

Enfim, o que chama atenção nos depoimentos dos professores é sua preocupação com a preparação dos estudantes para o trabalho, tendo em vista os conhecimentos tidos como necessários a este propósito e o desenvolvimento de posturas adequadas ao exercício laboral. Acredita-se que a educação constitui um passaporte para a ascensão social via trabalho e que quem não tem trabalho não é uma pessoa, nem é feliz. Identifica-se um discurso que vincula a construção de si à escolha vocacional e ao exercício de um trabalho decorrente da conclusão de uma graduação. Assim, produz-se um discurso segundo o qual a maior contribuição que a escola pode fazer para o futuro de seus alunos é promover sua qualificação para atender às exigências do mercado de trabalho. Assume-se este projeto de vida estritamente

individualizado, sem que se considere os “outros mundos” que os concluintes do ensino médio enquanto cidadãos, membros de uma comunidade, habitam.