Chapitre II- La disqualification sociale du corporel
II. 1.1-Lecture du social dans le corps
Com uma causa devidamente configurada e a existência de um grupo mínimo de pessoas engajadas neste entorno, o ativismo também desenvolve uma estrutura de organização interna que é afetada pela comunicação digital. Na prática, as ferramentas online permitem conectar de uma maneira inédita movimentos políticos transnacionais levando a concepção de organização em rede a cabo (HART, 2012; CASTELLS, 2012; MIARD, 2012; GHEIDARY, 2012).
Enquanto o ator é definido por possuir um papel e status claros, as redes descaracterizam esta identificação pré-definida, tornando muito mais difusa e fluida sua definição e materialização. Porém, nem por isso perde importância ou materialidade, pelo contrário, este tipo de organização social vem tendo cada vez mais impacto justamente devido à sua flexibilidade e potencialidade de operar de modo transnacional, capaz de assumir diferentes formatos, seja uma estrutura informal e descentralizada, seja em reforço ao caráter formal e centralizado de uma organização, por exemplo. Na prática:
Networks were characterized as relying on lateral as opposed to hierarchical channels of communication, which made it possible to more efficiently
exploit complementary skills and knowledge dispersed among multiple actors (MUELLER; SCHMIDT; KUERBIS, 2013, p. 88).
Em realidade, o conceito de redes não é necessariamente novo e não nasceu com a Internet, como vimos na seção anterior, sendo gradativamente inserida principalmente a partir dos anos de 1960. Com o surgimento da Internet, esta concepção ganhou mais concretude e encontrou nos processos de comunicação digital uma base adequada para se expandir.
Embora a estrutura em forma de redes represente um fenômeno real e relevante, Choucri (2012) observa que nas Relações Internacionais elas não são sempre bem explicadas, ainda que mencionadas: “The relevance of networks — social, computational, and political, among others — is generally recognized in international relations but has not been fully exploited” (p. 77). Além disso, os autores Mueller, Schmidt e Kuerbis (2013) atestam que na grande área que engloba RI e Ciência Política, as redes são geralmente tratadas como a definição de algum tipo de entidade ou nó, numa relação que gera uma espécie de link e não um modo de organização por si só. Nesse caso, há pouco refino desta forma de estruturação, reduzindo e simplificando a complexa relação de redes.
Os primeiros estudos de redes em nível internacional mostravam a importância de redes transgovernamentais, isto é, redes de troca de informações internacionais e de cooperação entre agências governamentais de menor escalão sobre problemas comuns, sem tratar necessariamente de acordos formais (MUELLER; SCHMIDT; KUERBIS, 2013).
De acordo com Braga (2011) as redes podem promover princípios, causas e normas ainda que se comportem de forma mais fluidas, não diferenciando seus planos de ação entre doméstico e internacional como tradicionalmente se faz nas RI, e podem advogar em nome de atores que não se representam perante as estruturas estatais sozinhos, e assim criam instrumentos de pressão e aumentam os canais de acesso ao sistema internacional.
Com o surgimento da Internet, o termo passou a ter uma conotação bastante vinculada à descentralização: "Used to express the idea of increasing flexibility and de-centralization, the concept quickly became a standard reference point for many authors studying the impact of new media on contemporary activism" (GERBAUDO, 2012, p. 21-22). O conceito de redes inicialmente se baseava num contexto de estruturas flexíveis e adaptáveis, sem necessidade de uma coordenação central. É oposto ao conceito de massa, ou sociedade de massa, a qual implicaria numa relação autoritária e hierarquizada (GERBAUDO, 2012).
Trabalhando nas escalas doméstica e internacional, Castells (1999; 2003; 2013) se tornou um acadêmico bastante reconhecido pela sua teoria das redes e a sua vinculação à Internet. Para o autor, a constituição de redes é operada pelo ato da comunicação, ou seja, a natureza da rede é definida a partir do compartilhamento de significados dados pela troca de informações. Esta nova forma social baseada na troca de informações entre atores que não estão localizados no mesmo espaço físico passa a ser determinante para o fortalecimento social, político e econômico desses atores. Castells (2013) é bastante enfático sobre a liberdade de uma comunicação autônoma através das redes da Internet, possibilidade permitida pela plataforma e que não ocorreria em outro meio. Na opinião do autor, os movimentos sociais ocupam hoje um espaço híbrido entre redes sociais e o espaço urbano.
Uma das características mais arraigadas ao conceito de redes na era digital, inclusive partilhado por Castells (2013), é a descentralização interna: Ferramentas digitais borram as linhas que separam organizações altamente estruturadas em redes e indivíduos levemente estruturados em redes (NYE, 2010).
A estruturação em redes digitais não elimina o papel das organizações como entes aglutinadores da ação coletiva, mas as torna menos detendoras deste papel possibilitando que indivíduos se organizem através do ciberespaço sem um centro hierárquico de onde emanam as diretrizes de ação, mas com algum nível de coordenação diluído nos protocolos de comunicação. É por isso que Morozov (2008) explica a crença de que a mudança social seria mais encabeçada por indivíduos do que instituições tradicionais com sedes físicas.
Instituições como ONGs, governos e think tanks estão sendo desafiadas pela mudança do equilíbrio de poder entre indivíduos e organizações no contexto da Internet, já que indivíduos não-afiliados e apenas munidos de computador e conexão podem influenciar e provocar ações até mesmo maiores do que organizações com sedes físicas (MOROZOV, 2008). Isto indica que a estrutura de rede não precisa ser solidamente definida em uma organização, mas manter minimamente os laços que unem os indivíduos no interior do grupo. Através da Internet, as redes aqui estudadas criam canais regulares de comunicação (mensagens de e-mail, chats, fóruns online etc.) de forma a aglutinar interessados, propiciando uma forma de estruturação que é capaz de funcionar de modo bastante ágil em um cenário transnacional. Alguns especialistas vão mais longe ao afirmarem que a Internet representaria em si uma forma de organização, pois “the internet is more than a form of communication; it is at the core of a new movement form” (TARROW, 2006, p. 136). Porém, a organização propiciada pela Internet não é uma organização similar àquela experienciada
offline, já que muitas vezes não exige consolidação plena do grupo para se construir e se constituir em rede, bem como necessita de pouca organização formal, muitas vezes bastando a manutenção simples de uma página na web. Assim, com a facilidade da web em fornecer acesso para a busca de materiais, mobilizar apoiadores e levantar dinheiro, o papel da sede física perde em importância, embora continue co-existindo. O uso versátil e amplo da ferramenta digital permite que se desenhem diversas formas de ativismo. A web 2.0 desempenha um papel importante nesse processo ao promover alto grau de interatividade, operacionalizando as concepções de "participatory culture" de Jenkins (2009) e "self-mass communication" de Castells (2009).
Ao mesmo tempo em que a mobilização de indivíduos através da Internet facilita a formação de redes de caráter volátil, temporário e instável, esta mesma rapidez de espalhar informações e organizar ações também pode significar um rápido desaparecimento da mobilização em si (KAVADA, 2010). Ao contrário de isto ser desestimulador da causa ativista, essa volatilidade da mobilização online pode significar maior autonomia de ação para os membros pois “the internet offers individual activists the opportunity for do-it-yourself ideological production, when those at the summit of their ‘organizations’ might prefer to move in another or end campaign” (TARROW, 2006, p. 138).
Ainda que tenham curta duração, ações políticas baseadas em laços interpessoais não devem ser desprezadas, pois ainda que esses laços não repercutam em mobilizações perenes, são potencialmente acionáveis, podendo ser reativados para um novo projeto quando necessário (KAVADA, 2010). No caso de um grupo já ter se estabelecido, o senso de pertencimento é reforçado através de discussões e deliberações online, ainda que os membros permaneçam anônimos, facilitando assim a interação entre os apoiadores e os representantes do grupo ativista, criando conexão e definindo identidades (SCHUMANN, 2015). Constrói-se assim um espaço de contato e encontro entre membros novos e os já existentes, além de um lugar de memória para a continuidade das atividades, e ainda que websites tenham sido criados para um evento específico, permanecem ativos como manutenção histórica do grupo (KAVADA, 2010).
Mas nem todas as redes são efêmeras ou baseadas apenas no indivíduo. A difusão transnacional pode ser uma das formas de fazer as redes prevalecerem ao longo do tempo. Um dos incentivos para isso é criar uma espécie de rede das redes, em que outras comunidades gravitam em torno de uma rede específica. Choucri (2012) explica estas outras relações em rede da seguinte forma:
Because of the diffusion of social networking systems, cyberspace has enabled and empowered virtual communities across national boundaries. Virtual communities may reinforce communities on the ground, create new political entities, or extend the reach of political influence and political discourse (p. 191).
Esta difusão está próxima daquilo que Choucri (2012, p. 191) chama de comunidade virtual, a qual é “composed of those who engage in e-based interactions motivated by shared values, affinities, and other linkages”. Além de cruzar as redes já existentes, a Internet ajuda a estabelecer novas redes que permitem aos interessados no movimento ter acesso, muitas vezes direto, aos principais ativistas coordenadores da causa (KAVADA, 2010).
Como vimos, grande parte das pesquisas sobre ativismo e os impactos das novas mídias mostra como as ações facilitadas pelas inovações tecnológicas criaram uma nova estrutura para a ação coletiva: Descentralizada, horizontal e espontânea (SHIRKY, 2008; BIMBER et al 2012; BENNETT, 2013). O próprio modelo trazido por Keck e Sikkink (1998) considera as redes de ativismo transnacional como formas de organização, formais ou informais, marcado por padrões horizontais de comunicação e troca:
The drive toward more decentralized forms of organizing has been attributed both to the low cost of the Internet and its capacity for interactive and multimodal communication: Internet communication can range from synchronous to asynchronous, from mass to interpersonal, from local to global. Unlike other means of communication, the Internet cannot be centrally controlled. This facilitates the development of transnational, diverse, and loosely connected activist networks that are now able to organize protests and wage campaigns without a formal membership base, physical headquarters, or identifiable leaders (KAVADA, 2010, p. 104).
Gerbaudo (2012), por sua vez, questiona se esta é mesmo a forma que melhor sintetiza as dinâmicas de mobilização nos movimentos sociais contemporâneos e o papel das mídias sociais nesse processo. Por trás do entusiasmo do horizontalismo, tão difundido entre os autores da área, ele acredita que há hierarquias de engajamento ainda que em organizações informais (GERBAUDO, 2012). Isto é, há uma assimetria entre aqueles que mobilizam e os que são mobilizados, entre os que lideram o processo e os que seguem, denotando um caráter não estático aos movimentos, natureza da própria palavra "movimento" (GERBAUDO, 2012). Frente à aparente consensual tomada de decisão coletiva, o autor acredita que a política informal é nutrida por ações de grupos diretos e a ideia de não se ter uma estrutura hierárquica na rede apenas mascararia o líder, já que o mesmo existiria, ainda que se mantendo invisível
(GERBAUDO, 2012). Segundo o autor, os conceitos de abertura e horizontalidade da rede são entraves ideológicos para a compreensão de como realmente funciona a participação interna dos grupos em redes online no espaço contemporâneo. Gerbaudo (2012) acredita na importância na liderança para dar coerência aos grupos, um senso comum de unidade, de lugar e de direção para a ação coletiva. A sua teoria pode ser organizada em torno de três níveis: organizacional (há os coreógrafos do encontro público, aqueles que iniciam e guiam o encontro), temporal (iniciação, condensação das pessoas em torno de uma identidade comum e a sustentação, materialização ao longo do tempo no espaço público) e espacial (o modo no qual conecta participantes dispersos em lugares específicos de encontro) (GERBAUDO, 2012).
Von Bülow (2014) reconhece que a forma hierárquica ou horizontal que as redes podem tomar depende da análise empírica da rede e não é algo dado a priori (VON BÜLOW, 2014). Assim, a autora contraria a ideia corrente de que a ação coletiva transnacional, quando vista como redes, tende a apresentar um aspecto relacional informal, difuso, horizontal, menos hierarquizado e flexível (VON BÜLOW, 2014). A autora inclusive chama a atenção deste tipo de concepção: "No entanto, esse tratamento metafórico do conceito de "redes" estabelece a priori uma forma superior de organização e, por conseguinte, desvia nossa atenção das relações de poder, assimetrias e conflitos entre os atores" (p. 48).
Por isso, acreditar na horizontalidade e reciprocidade de trocas comunicativas como característica inerente das redes transnacionais incorre em não considerar outros tipos viáveis de configuração. Estas estruturas não são estáticas, são modeladas e remodeladas ao longo do tempo, com níveis de horizontalidade e verticalidade que não interferem na difusão e complexidade de seus elementos.
Ainda que uma das maiores características das redes a partir do uso da Internet seja o seu caráter não-territorial, sendo capaz de unir indivíduos com interesses similares em nome de objetivos políticos, porém distantes geograficamente, Lai (2003, p. 101) atenta que localização importa para a estrutura das grandes organizações: "Although the activism derived from and through the internet/cyberspace can be described as borderless in many ways, the networks are sometimes geographically confined to cities of the developed world". Isto porque, no argumento do autor, regiões desenvolvidas com alta concentração de informação e conhecimento atraem mais ONGs e possui vantagens quanto à disponibilidade e funcionalidade das TICs. Gerbaudo (2012), por sua vez, critica autores que negligenciam o peso da localização geográfica para as redes online.
Assim, formação e estrutura em redes no ativismo transnacional não obedece a uma característica pré-definida pelas tecnologias da informação e comunicação. Em realidade, as redes se constituem de acordo com a construção do próprio ativismo e encontram no ambiente digital uma ferramenta que facilita a flexibilidade de configuração. Assim, tendo como vetores de um mesmo espectro a centralidade versus não-centralidade, hierarquia versus horizontalidade, territorialização versus desterritorialização; espontâneo versus orquestrado, nota-se que a flexibilização trazida pelas redes online está justamente nas diversas possibilidades de construir e organizar o ativismo para além de estruturas rígidas, como um ingrediente que tende a fortalecer o segundo vetor desses binômios, mas sem descartar o primeiro.