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des différentes conceptions

1.1. L’origine du terme « voirie routière »

A entrada tardia em funcionamento da RTP – em 7 de Março de 1957, três décadas após o arranque de emissões regulares no Reino Unido – impediu os portugueses de viverem o período de gestação do novo meio – a prototelevisão. Esta designação, na fórmula adoptada por Cádima (2005;157), abarca, naturalmente, um período histórico mais recuado do que aquele que geralmente é atribuído à paleotelevisão. As suas raízes mergulham ―na evolução tecnológica iniciada pelos daguerreótipos e continuada por um conjunto de cientistas e inventores que consolidaram esse velho mito platónico da transmissão da imagem à distância (…)‖.

Assim, se quisermos manter a linha comparativa que adoptámos, designaríamos por prototelevisão informativa os primeiros noticiários produzidos pela RTP, entre 15 de Fevereiro de 1957 (ainda no período experimental) e 17 de Outubro de 1959. Chamado Jornal de Actualidades, ―habitualmente‖ com duas edições (às 22 e às 23 horas) e com uma duração de cerca de 15 minutos, este primeiro formato noticioso da RTP continha já as grandes ―páginas‖ temáticas do futuro telejornal – nacional, internacional e desporto.

A linha editorial seguida espelha, contudo, o seu carácter jornalisticamente arcaico: ―uma autêntica agenda interministerial, um acumular de telegramas governamentais, com um discurso assumidamente oficioso e protocolar‖ (Cádima, 1996: 32-51). O telejornal, sustenta este autor, ―jamais‖ haverá de abandonar este modelo informativo de base ―fundamentalmente protocolar‖. Mas, o modo ―mais incipiente e amador que se possa imaginar‖ como se desenvolveu neste período – ―delegação político-partidária dos responsáveis, mecanismos censórios e auto- censórios, desconhecimento prático das virtualidades ‗instrumentais‘ do novo meio, carência de recursos técnicos e humanos‖ (idem, 51-52) – parece-nos aconselhar que a ele circunscrevamos aquela designação.

Mais problemática se afigura a adopção da designação de paleotelevisão informativa para o período seguinte (1959-1991), tanto mais quanto este abrange 15 anos de censura prévia, por um lado, e mais ou menos outro tanto tempo de liberdade de expressão. Para além da diferença, abismal, entre ditadura, transição

oferecida a experiência de testemunhar grandes acontecimentos que ocorriam em lugares distantes (Libes em Curran, 2005: 358-360).

revolucionária e democracia, censura e liberdade de imprensa, há que assinalar as ilhas de autonomia e excelência jornalísticas representadas pela Informação 2 e pela equipa do programa Grande Reportagem (1981-4).

[A curta experiência ocorreu na sequência da nomeação de João Soares Louro para a presidência da RTP (1978-1980). O novo responsável – antigo funcionário da RTP desde bastantes antes do 25 de Abril de 1974 - concedeu ao Segundo Canal da estação, dirigido pelo cineasta e também antigo funcionário televisivo, Fernando Lopes, ampla autonomia editorial e de programação. ―Meia dúzia de grandes jornalistas de gabarito entusiasmaram-se com a possibilidade de ensaiar a sua qualidade profissional, com liberdade nunca vista‖, escreve Avelino Rodrigues, em nota de rodapé a uma entrevista a Carlos Pinto Coelho (um dos directores daquele espaço informativo), integrada na investigação ―Perfil dos Jornalistas Portugueses‖, já referida. A equipa fundadora da Informação 2, dirigida por Hernâni Santos, viria a ser desmantelada durante o mandato de Proença de Carvalho (1980-2). Programa da RTP 1, dirigido por José Manuel Barata- Feyo e que integrou, entre outros, Artur Albarran (na fase inicial), Joaquim Furtado, Miguel Sousa Tavares e Rui Araújo, Grande Reportagem constitui o segundo desses inesquecíveis interregnos de qualidade e de competência jornalística televisiva na RTP, ao longo de toda a década de 1980 e primeira metade da década seguinte.125]

Devidamente anotadas estas ressalvas, mas tendo em conta, também, os exemplos dados por Missika sobre o ―controlo dos média pelo poder político do momento‖ (2006: 74) nas democracias europeias do tempo, ponderámos amalgamar sob a mesma categoria classificativa de paleotelevisão informativa os telejornais propagandísticos dos últimos 15 anos da ditadura portuguesa; os dois anos e alguns meses da revolução de Abril (1974 a Junho de 1976, data em que ocorre a posse do primeiro presidente eleito em democracia); e os 15 anos de regime democrático que se seguiram, até à abertura da televisão à iniciativa privada.

Entendemos que um mundo separa as tónicas ideológicas que marcaram a ditadura, do PREC e dos 15 anos de consolidação democrática que se seguiram a

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Pressões nunca desmentidas do Governo de então (Bloco Central, presidido por Mário Soares, sendo Jaime Gama titular da pasta dos Negócios Estrangeiros) levaram à suspensão do programa, na sequência de uma reportagem com a guerrilha da Unita. Meses depois, elementos da equipa criaram uma cooperativa da qual nasceu a revista Grande Reportagem, dirigida por Barata-Feyo (1984-5, série I). Manda a justiça crítica acrescentar, entretanto, mais alguns programas não diários que foram sendo emitidos – alguns, verdade seja dita, com elementos das equipas fundadoras da Informação 2 e da Grande Reportagem: Portugal sem Fim, Sinais do Tempo, Hora da Verdade… Sem esquecer, na informação diária e não por acaso no segundo canal da televisão pública, o importante Jornal das 9.

este. Mas tal não impede que detectemos na RTP – ao longo de todo este período em que manteve o monopólio da televisão em Portugal e uma dependência de facto e de

jure do poder político – uma mesma postura geral de pendor pedagógico (mais

apropriadamente, diríamos antes, paternalista), na produção e emissão dos seus conteúdos. Algo que Umberto Eco caracterizou, a pensar na Televisão europeia em geral, como feito ―para todos os espectadores‖, falando de inaugurações dos ministros e controlando as emissões ―para que o povo apreendesse só coisas inocentes, mesmo à custa de mentiras‖ (1993: 135).

Preferimos assim, por óbvias razões de justiça histórica, subdividir estes longos primeiros 30 anos de informação de actualidade produzida e difundida na e pela RTP nas três subcategorias que cada um dos períodos representa: (i) paleotelevisão ditatorial (1959-1974); (ii) paleotelevisão revolucionária (1974-1976); e (iii) paleotelevisão em transição democrática europeia (1976-1991).

A chegada da televisão privada a Portugal (1992) marca a entrada numa nova fase, geralmente denominada de neotelevisão. Anunciado por mudanças profundas auto-impostas pela RTP, dirigida desde 1985 por José Eduardo Moniz (que se manteria nessas funções até 1994), o novo modelo concorrencial do espaço televisivo nacional, ao implicar uma feroz luta pelas audiências, conduz simultaneamente, e à semelhança do acontecido noutros países europeus onde o fenómeno ocorrera já, a uma progressiva perda da diversidade de conteúdos, à espectacularização de formas e formatos, a um reforço da relação de proximidade com o telespectador e a uma hiper-personalização do apresentador (Wolton, 1994; Lopes, 2005; Herreros, 1998; Casetti e Odin, 1990 e Mercier, 1996, apud Loureiro, 2008). Tendências que acabariam por contaminar igualmente o campo jornalístico televisivo.

As profundas alterações por este novo modelo induzidas justificam que com ele se assinale uma terceira fase, que designaremos, inspirando-nos em Felisbela Lopes (2009:103), de neotelevisão informativa pós-TVs privadas, de tal modo a emergência da SIC e da TVI desafiou as lógicas e as práticas instaladas no serviço público. Como esperamos poder demonstrar nos capítulos relacionados com o trabalho de campo, foram muito mais vastas e atingiram de forma profunda a componente editorial as mudanças registadas ao longo das quase duas dezenas de anos que se sucederam à abertura da televisão à iniciativa privada.

Num primeiro mapeamento dos estudos televisivos e após confirmar, em traços gerais, as grandes tendências atrás apontadas, Lopes, acompanhada por Pinto, Oliveira e Sousa (idem: 7-27), acrescenta-lhes certas especificidades da história da informação no serviço público de Televisão em Portugal. Fá-lo, a propósito de um estudo sobre as notícias de abertura do telejornal da RTP (1959-2009), cujos primeiros

dados foram tornados públicos em 19 de Outubro de 2009, numa conferência em Lisboa sobre os 50 anos do Telejornal, e posteriormente tornados públicos na revista semestral Comunicação e Sociedade, que lhe dedicou o seu volume 15 (2009:103- 126).

Para além desse período que se seguiu à abertura da televisão à iniciativa privada, e numa visão puramente diacrónica, os autores apontam outros três momentos fundamentais da história da história da informação televisiva em Portugal:

1. O Estado Novo, que abarca os últimos 15 anos do regime de ditadura. ―Mais do que uma função informativa‖ o telejornal ―assume-se como uma cerimónia que mostrava, sobretudo, o poder em cena‖. Nele, ―o ‗quem?‘ é uma pergunta central na confecção das notícias‖ mas o ―quê?‖ é omitido, por via de regra, como mostra este exemplo: ―Anuncia-se a agenda dos políticos (…) que muitas vezes ignora o essencial daquilo que se passou. quase nunca conhecemos a essência das decisões do Conselho de Ministros ou das discussões da Assembleia Nacional‖). Ilustra-o de forma hoje difícil de acreditar esta notícia de abertura do TJ de 11 de Agosto de 1966, entre outras: ―Com o senhor Presidente do Conselho trabalharam hoje os Ministros da Justiça e das Corporações. O Chefe do Governo recebeu o general Guares Távora, ministro da Viação e Obras Públicas do Brasil, que veio a Lisboa assistir à inauguração da Ponte Salazar‖ (idem, 110). Não se encontra também qualquer fio condutor entre as peças de abertura nas quais não se confere qualquer relevância aos conteúdos (exemplos: a notícia da posse do Presidente da República constitui-se como abertura do TJ durante vários dias, num país ―submisso a hierarquias e pendurado em tradições‖); informação televisiva em Portugal:

2. O 25 de Abril - período instável, entre 1974 e 1976, da transição para o regime democrático durante o qual se celebrou ―a conquista da liberdade‖ e em que a política dominou ―inteiramente o arranque do principal noticiário da televisão portuguesa‖;

3. Os anos ―a caminho da democracia‖ (1977-1991) mas em regime de monopólio televisivo, que só será quebrado em 1992. Trata-se de um período de consolidação do processo democrático, reforçado pela entrada na CEE, em 1986. Marca-o, em termos televisivos, ―um registo [noticioso] mais isento‖, ainda que sem ter perdido ―os sinais de um certo compromisso opinativo‖;

4. E o período que se seguiu à abertura da televisão ao sector privado (2001-2009), durante o qual os autores privilegiam ―a urgência de noticiar a última coisa que acontece‖, dessa forma assinalando o lugar central na produção jornalística ocupado pela concorrência entre as três estações generalistas.

Outras tendências haveriam de começar a emergir, contudo, a partir do final do século, aconselhando, do nosso ponto de vista, a conveniência de singularizar um quarto período informativo, marcado, inicialmente, pelo info-entretenimento126 e por um crescente jornalismo de oposição (watch-dog).

Por ironia, esta disponibilidade informativa sem complexos para as notícias leves encontra ―justificação‖ na chegada das estações privadas e da sua presumível aposta…no info-entretenimento. A tendência é assumida ―oficialmente‖ em Portugal, pela RTP, no momento em que esta se confronta com a chegada das suas concorrentes directas em canal aberto – a SIC (em 1992) e a TVI (no ano seguinte). Em entrevista127 – lembra Felisbela Lopes (2007, 42-3) – o presidente do C A da RTP, Freitas Cruz, admite que ―se está a exagerar na informação-espectáculo‖, reconhecendo que, ―de vez em quando‖, a informação da estação pública, seguindo uma tendência que considera ―dominante‖ na paisagem mediática nacional, ―está a ceder à tentação fácil de um certo sensacionalismo‖. Pouco antes, em declarações a uma revista,128 o director de Emissão da RTP, Adriano Cerqueira, defendera ―programas de grandes audiências‖ e uma informação ―agressiva‖ no primeiro canal (2007: 42-3).129

Outras tendências se revelarão em breve. Está em vias de desaparecer – observava Missika em 2006 (92-93) – o modelo tradicional do jornalismo, herdado do século XIX. A segmentação das audiências, a dispersão da publicidade, a eficácia do parajornalismo,130 e a emergência da Internet (que exercia uma pressão cada vez mais forte sobre a agenda dos média), começavam a pôr em causa procedimentos de selecção e de validação. A reputação dos média declinava. Os cidadãos iam deixando de delegar nos jornalistas profissionais o poder de seleccionar, validar, interpretar e editar as informações. O mundo (que produzia e consumia a informação televisiva) começava a viver num clima de rumores e de aparências.

126

Ver citações de Silveira e Shoemaker (2010), no capítulo XV. 127

Expresso, 24.07.1993. 128

TV Guia, nº 747, Maio de 1993. 129

Ver Thussu (2007), para aprofundar o tema do info-entretenimento numa fascinante e muito bem informada perspectiva global, que detecta já sinergias entre culturas noticiosas televisivas baseadas em Hollywood e em Bollywood.

130

O parajornalismo – denunciado por profissionais e académicos, entre os quais destacamos Schudson (2003) – abarca firmas de relações públicas, agências de comunicação e serviços governamentais, que formatam as mensagens segundo os códigos e os rituais da informação televisiva (também escrita), logrando por vezes acesso directo aos telejornais (e a páginas dos jornais, mesmo de referência).

Não encerraremos este capítulo, sem ecoarmos uma frontal crítica de Jacinto Godinho a este modo – que considera ―infrutífero‖ – de tentar compreender a história a partir de uma divisão conceptual por períodos.131 L

Lançando um olhar analítico novo e assumidamente polémico sobre a Televisão em Portugal, em particular o Telejornal, Godinho parte da noção de sujeito-espectador – uma espécie de ―altar virtual, cada vez mais artificial, onde nos ‗sentamos‘ para assistir à vida que se desenrola ante nós‖ – considerando que ―existem dispositivos que contribuem para artificializar ainda mais esta posição e outros que procuram alterar e modificar esta posição de experiência para o mundo‖. Chama, a estas duas estratégias opostas, ―estratégia da interpassividade e da interactividade‖.

A interpassividade – explica – é no fundo, a televisão a que atrás chamámos ―paleo‖: ―rígida, sagrada, institucionalizada, censurada, distanciada‖, ela fomenta o sujeito- espectador, ―cria-lhe uma realidade artificial, prepara-lhe um mundo para ele se satisfazer ali no seu sofá‖. Dá dois exemplos, inesperados, de géneros ―fortemente‖ interpassivos: a publicidade, que ―parece falar directamente com cada um de nós, embora esteja a falar com toda a gente ao mesmo tempo‖; e a notícia, mesmo nas suas novas versões, porque ―traz uma síntese do mundo até nós. Não nos leva a ele‖. É neste quadro conceptual que, embora classificando como de ―fortemente interpassivos‖ os noticiários da RTP no tempo de Salazar, Godinho neles encontra uma diferença ―entre as peças de política e algumas reportagens da sociedade ou o internacional, por exemplo. As peças de internacional do Telejornal eram mais ―abertas‖ que o noticiário político‖. O que se tornou ―banal‖, hoje, seria – imagina – ―acontecimento excepcional‖, no tempo da ditadura. Cita, como exemplos de ―uma outra televisão dentro da Televisão‖ oficial, a ―fabulosa reportagem‖ que Baptista Rosa fez quando a televisão foi pela primeira vez a casa de Salazar (São Bento) ―e a mostrou sem o mostrar a ele. Viu-se o sofá, a manta, etc.‖ Também as imagens da Guerra Colonial do operador António Silva. Ou a ―Grande Arrancada para Nambuangongo‖ de Neves da Costa e de Serras Fernandes.

Em contraste, ―o que nós temos hoje é uma ditadura da notícia sobre quase todos os outros géneros (…) o que se vai tornando numa ideologia - o mundo servido em

headlines, com comentários a tudo, servidos a um espectador que nem tem que

pensar‖.

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Embora na esteira de conceitos que defendeu na respectiva tese de doutoramento (em 2005) estas citações reproduzem declarações de Jacinto Godinho ao autor, que o questionou também na sua qualidade de grande repórter da RTP (Novembro de 2010).

Jacinto Godinho mostra-se igualmente crítico das reportagens ―que por aí se fazem‖, muitas delas ―apenas ilustrações de banalidades e senso comum‖, quando a reportagem ―tem que incomodar e para isso tem que levar o espectador a desconfiar do que sabe‖. É nesta base que assenta o seu heterodoxo argumento: ―Em muitos casos a televisão actual é mais paleo (na acepção de ser o que os fazedores acham que são obrigados a fazer e não a tal neo[televisão], interactiva) que a dos anos 60 e 70. Nessa altura havia censura, governamentalização, mas a imagem podia ser muito subversiva porque tinha mais valor do que tem hoje‖.

―Queres algo mais subversivo que aquela imagem?‖, remata, evocando Salazar depois de sair do hospital.

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