Guillemette de Larquier et Delphine Remillon *
2. L’effet ambigu de la mobilité sur la probabilité d’être en emploi en 2003
O que tratarei aqui de paradigma da prevenção consiste em um padrão de pensamento (racionalidade) e, suas consequentes condutas que têm como pressuposto evitar as condições que possibilitam acontecimentos ou eventos considerados indesejáveis. Terei como base para presente argumento o estudo de Paulo Granjo na refinaria de Sines, em Portugal, que, observando duas diferentes categorias de profissionais, os engenheiros e os operários das
máquinas, percebeu que ambos atuam no mesmo espaço a partir de dois distintos “quadros cognitivos” criados a partir do que cada um compreendia como ameaça. Naquele contexto, as ameaças tratavam-se da ocorrência de acidentes de trabalho.
A visão dos operários acerca do risco, perigo e ameaça expressa um conhecimento que compreendo aqui como senso comum, construído a partir da vivência empírica dos operários na refinaria. O senso comum se constitui em uma sabedoria coloquial, preferencialmente inclinada para a comunidade, a arte, o estético, o sagrado, o bom-senso (PEREIRA, 2008, p.141). O senso comum traduz-se em conhecimento prático que é adquirido na vivência espontânea entre os indivíduos, se explica sem sistematicidade e sem o rigor.
O conhecimento do senso comum é compreendido por Geertz enquanto um saber local, e conforma-se em um sistema cultural, que pode ser compreendido a partir do seguinte parágrafo:
Se o bom-senso é uma interpretação da realidade imediata, uma espécie de polimento desta realidade [...], então (como em outras áreas) será construído historicamente e, portanto, sujeito a padrões de juízo historicamente definidos. Pode ser questionado, desenvolvido, formalizado, observado até ensinado e pode variar dramaticamente de uma pessoa para outra. Em suma, é um sistema cultural, embora nem sempre muito integrado, que se baseia nos mesmos argumentos em que se baseiam outros sistemas culturais semelhantes: aqueles que os possuem tem total convicção de seu valor e de sua validade. Neste caso, como em tantos outros, as coisas tem o significado que lhes queremos dar” (GEERTZ, 2012, p. 80).
Contrário à noção do risco apresentada anteriormente, está a noção de perigo. Granjo, em seu estudo de campo, observa duas diferentes visões sobre ameaça por parte dos profissionais de engenharia e pelos operários das máquinas e identifica que
embora lhes seja familiar a noção de probabilidade e a possam mesmo usar frequentemente na sua vida corrente fora da fábrica, os operários encaram as ameaças existentes na fábrica não apenas como algo que é inquantificável, mas também como perigos totalmente inesperados, imprevisíveis e permanentes (GRANJO, 2006, p. 1170).
A ameaça vista como algo totalmente imprevisível, incerto, arbitrário e permanente torna a prevenção uma coisa desejável, ainda que apenas seja capaz de evitar uma pequena parte dos possíveis acidentes, para além dos que poderão prever e prevenir.
um acidente poderá ocorrer em qualquer sítio, a qualquer momento, quando tudo parece estar bem e devido a combinações de causas insuspeitadas, tal como poderá nunca se repetir, mesmo que as circunstâncias pareçam ser as
mesmas. Como tal, praticar qualquer ação que seja passível de induzir novos perigos e instabilidade no processo produtivo é encarado como atrair o acidente, correspondendo a atitude dominante a uma lógica de precaução (GRANJO, 2006, p. 1170).
Para o autor, neste contexto, a noção probabilística de risco é, empiricamente inadequada e perigosa, enquanto a noção não probabilística de perigo é mais adequada e se torna um fator de segurança (GRANJO, 2006, p. 1175).
A formação e subjetivação do paradigma da prevenção entre os operários do estudo de Granjo se dá a partir do que ele chamou de um “poderoso processo de manipulação cognitiva e identitária”, que ocorre no processo de ensino e aprendizagem entre operários mais experientes que controlavam de perto os novatos e ensinavam-lhes tanto os conhecimentos técnicos, quanto o conjunto de atitudes que deveriam manter para com o trabalho, a segurança e os seus colegas. Para os operários, os acidentes acontecem em condições e locais inesperados, muitas vezes devido a combinações de causas que não podem ser compreendidas ou concebidas a priori. Segundo Granjo, o fato da experiência empírica que o trabalhador adquire acerca da dinâmica dos acidentes reforça a noção do perigo entre os operários (GRANJO, 2006, p. 1171).
Só mediante o acompanhamento, é que os operários mais experientes iriam permitindo que os novatos desempenhassem suas tarefas, dependendo do grau de conhecimento e adequação às atitudes desejadas (GRANJO, 2006).
Outra característica deste paradigma desenvolvido entre os operários do estudo de Granjo, ainda que em diferentes cargos e posições hierárquicas (do superior ao subordinado:
chefes de turno, os operadores de consola e os operadores de exterior) é o fato de serem
compartilhados por todos e permanecer sendo uma conduta adotada mesmo quando um operário ascende de cargo. Para Granjo (2006), isto se deve ao fato de todos eles terem passado por uma origem em comum da carreira na refinaria, sendo submetidos a um processo similar de aprendizagem e integração profissional.
De acordo com Granjo,
conceber a ameaça como um perigo imprevisível e permanente é não só racional e adequado a este contexto de hipercomplexidade tecnológica, como é coerente com os dados empíricos disponíveis, o que já não se poderá dizer do risco probabilístico (GRANJO, 2006, p. 1173).
O estudo de Granjo observando as diferentes noções sobre fatores de ameaça e a construção da noção probabilística do risco e noção de perigo (noção não probabilística do risco), entre os engenheiros e os operários da refinaria de Sines, nos ilustra a construção de uma
epistemologia e a consequente formação de padrão de comportamento dos sujeitos frente ao risco de acidentes.
No caso de risco de desastres socioambientais, sejam estes provocados por empreendimentos ancorados no discurso desenvolvimentista do Estado, seja pela omissão e descaso deste para com as populações que vivem em precárias condições de moradia e que se veem expostas a serem atingidas por um desastre, também se desenvolve uma epistemologia definida a partir do paradigma da prevenção.
Este paradigma também se manifesta como interesse de moradores das áreas de morro de muitas cidades, em que estão sujeitas a deslizamento de barreiras que afetam diretamente sua moradia, causando danos materiais e simbólicos, além de atingir toda uma construção de realidade social dada no espaço da casa, na família. No caso do paradigma da prevenção entre os moradores de morros se faz presente menos em suas práticas, o que é diferente dos operários, mas mais nos seus entendimentos e significações da sua realidade em relação à responsabilidade do poder público, o que será melhor explorado no último capítulo.
Granjo explica o surgimento das formas de explicações e as maneiras de enfrentamento dos acontecimentos indesejados, a partir de um sucinto quadro, onde a aleatoriedade e a
determinação formam os extremos de uma linha, e entre um e outro estão as várias formas de
domesticação do aleatório. O aleatório representa o acaso, o caos e é esfera onde se situa a noção de perigo. Contrapondo-se a aleatoriedade e ao perigo está a determinação, que representa o controle, seja este estabelecido por uma vontade divina, pelo destino ou pelo universo mecanicista. Já a domesticação do aleatório, o meio, consiste nas diversas concepções e práticas que tentam atribuir ao aleatório uma ordem compreensível e controlá-lo através da ação humana.
Figura 24 – Contínuo de alternativas para conceber a incerteza e a ameaça
Com base neste quadro, temos que a grande contribuição de Granjo no questionamento do paradigma do risco foi colocá-lo no mesmo patamar de outros paradigmas, mostrando que este é uma das formas de domesticação do aleatório e que ela coexiste com outras, como a superstição, conforme a interpretação que Evans-Pritchard fez da bruxaria azande, ou a coação exercida sobre entidades extra-humanas a fim de se obter o que se deseja; o senso comum, conforme mostra o próprio Granjo em seu estudo na refinaria de Sines (Portugal), observando a relação que os engenheiros e os operários das máquinas tinham com os recursos tecnológicos.
O paradigma do risco é conduzido pela noção de probabilidade. Contudo, Granjo explica que a probabilidade enquanto uma prática de cálculo não é exercida literalmente. Ela existe enquanto um princípio, o princípio probabilístico, o qual também está presente no senso comum e é utilizado no cotidiano dos indivíduos. Assim, podemos “pensar, decidir e agir de acordo com este princípio probabilístico sem nunca chegar a calcular a probabilidade de um acontecimento, ou sequer aprender a fazê-lo” (GRANJO, 2006, p. 1168). Ao adotar a noção do risco probabilístico de forma interiorizada, subjetivada e, segundo Granjo, quase “selvagem”, nos termos de Levi-Strauss, na nossa experiência pessoal do dia-a-dia, o autor nos mostra a posição de hegemonia que o conceito de risco probabilístico assume nos contextos tecnológicos e nosso cotidiano; e não apenas nas atividades técnicas dos especialistas de risco. Estes últimos não quantificam probabilidades, mas pensam e decidem de forma probabilística acerca de ações técnicas que estão sob sua responsabilidade.
Contudo, Granjo contesta a hegemonia da noção probabilística do risco. Para o autor, mesmo em contexto de tecnologia complexa, ela não é a única noção racional e pode ser fonte de perigo.
Assim como Cardoso (2006) problematizou a hegemonia do paradigma do risco na sociedade fundada na lógica produtivista do sistema capitalista, Granjo, em seu estudo, também o fez mostrando que os engenheiros trabalham sob fortes pressões para que os planos de produção sejam cumpridos, sendo isto considerado na avaliação da competência destes profissionais por parte de instâncias superiores. Quando confrontados com situações em que as regras ou a sensatez aconselhariam a parar a maquinaria, abrandá-la ou repô-la em funcionamento de forma progressiva e pausada, os engenheiros da refinaria tendem frequentemente a pressionar os trabalhadores operários para que estes adotem procedimentos irregulares que possam evitar paragens e atrasos, especialmente se esses “truques” foram inventados numa anterior situação de emergência e, na altura, se revelaram eficazes.
Normalmente não conhecem esses procedimentos de forma muito precisa; mas sabem que eles existem, que funcionaram e que os trabalhadores os conhecem (GRANJO, 2006, p. 1175).
Desta forma, a noção probabilística adotada pelos engenheiros na refinaria, estimulam atitudes perigosas e novos perigos ao ambiente de trabalho por negligenciarem uma quantidade significativa de ameaças, por impressivamente as considerarem de muito baixa probabilidade, tal como poderá induzir a tendência para arriscar e para prolongar no tempo procedimentos paliativos que pareçam eficazes, mesmo que sejam potencialmente perigosos (GRANJO, 2006). Diante do exposto, temos que o estudo de Granjo nos ilustra o confronto entre dois campos epistemológicos, o científico (com a noção probabilísticaa, assentada na noção de risco) e o senso comum (noção não probabilística, assentada na noção de perigo). Estas duas epistemologias estão envolvidas em relações de poder, cuja influência é determinada por posições hierárquicas que respectivamente ambas ocupam na sociedade moderna de matriz ocidental.