Vamos, neste ponto, fazer referência ao trabalho que está a ser desenvolvido na Irlanda com vista à implementação do Design no país, através do Irish Council for Science, Technology and Innovation (ICSTI), organismo com funções de órgão consultivo do governo e especificamente do Ministro da Ciência e Tecnologia, que tem as suas competências centradas em assuntos relacionados com as políticas de implementação de estratégias nestas áreas. É responsável pela preparação de programas e pelo direccionamento estratégico do investimento em ciência, tecnologia e inovação.
A Irlanda, país tantas vezes mencionado como um exemplo de crescimento equilibrado e sustentado, tanto por economistas como por responsáveis políticos portugueses, era ainda há duas décadas um dos países mais pobres da Europa. Tendo aderido à Comunidade Europeia em 1973, aplicou estrategicamente uma grande fatia dos fundos comunitários na educação e
formação dos seus recursos humanos e na construção de clusters tecnológicos, obtendo crescimentos económicos anuais superiores à média europeia e convergindo rapidamente com os seus parceiros. Contudo, de algum tempo a esta parte a economia irlandesa tem vindo a perder fulgor, como ficou demonstrado pela sua queda no ranking do crescimento da competitividade (tabela 3) de 11º em 2001 para 24º em 2002.
Do sumário executivo deste relatório(29), depreendemos que este organismo acredita firmemente que o uso sistemático do Design, através da inovação e dos processos de desenvolvimento de novos produtos / serviços, traz às empresas benefícios significativos, ao ajudá-las a diferenciarem a sua produção e podendo, ao mesmo tempo, ter um papel determinante na sua eficiência e na redução dos custos de produção. Baseado nas conclusões de diversas investigações internacionais, considera o Design como fundamental para as empresas irlandesas.
O diagnóstico feito aos problemas sentidos na implementação do uso do Design pelas empresas revela que a maioria das empresas irlandesas não dá especial relevância ao Design nos seus processos e, pior do que isso, não o encara como um valor estratégico, concluindo ser esta uma das causas da sua fraca competitividade. Na realidade, só um número reduzido de empresas faz uso estratégico do Design para obter ganhos competitivos na Irlanda, sendo certo que, no campo das pequenas e médias empresas, aquelas que usam Design, só o incorporam no fim do processo de desenvolvimento de novos produtos / serviços, não o considerando como um input estratégico no início do processo.
Tal como em Portugal, os responsáveis políticos mostram-se preocupados em implementar políticas de crescimento sustentado, essencialmente através das exportações de produtos com grande valor acrescentado, mas, ao contrário do nosso país, consideram ser vital para as empresas o uso sistemático do Design na inovação / desenvolvimento de novos produtos / serviços que ajudem a alcançar os objectivos definidos nessas políticas nacionais (os responsáveis portugueses parecem ainda não ter tomado consciência deste factor).
Este relatório contempla também um diagnóstico ao ensino do Design na Irlanda, que os seus autores consideram de boa qualidade, mas desfasado das necessidades das empresas e do mercado, advogando, por isso, a reforma do 3º nível de ensino (licenciatura). Como medida para combater a falta de saídas profissionais para os designers, num país que precisa de implementar o Design, propõem a introdução da disciplina em cursos de graduação e pós-graduação em gestão, numa óptica de sensibilização dos futuros gestores das empresas para a importância do Design.
Nas recomendações dirigidas à governação, destacam a importância de posicionar a Irlanda como um país líder em Design, considerando que a disciplina deveria fazer parte das políticas de desenvolvimento empresarial, ficando o Ministro da tutela responsável pela implementação dessas políticas. Como medidas a tomar para validar as recomendações aconselham:
- Apoio financeiro para novos produtos com intervenção do Design nas pequenas e médias empresas, subsídiando por dois anos os designers que as empresas contratem, ou as despesas com designers externos num primeiro projecto com um limite de dois anos.
- Apoio à produção de protótipos e prospecção de novos mercados. - Abolição do imposto de selo no registo de propriedade intelectual.
Ainda no campo das recomendações, realçamos a promoção do uso estratégico do Design via governamental, como parte do processo de investigação e desenvolvimento (I&D), o desenvolvimento de infra-estruturas de apoio ao Design, a colocação de designers graduados na indústria e o ensino da disciplina nos níveis primário e secundário.
Por fim, importa referir que, na Irlanda, existem, entre outras, organizações como a Enterprise Ireland, uma agência institucional que tem como função desenvolver a capacidade de integração do Design nas empresas através de apoios financeiros, de consultadoria e aconselhamento, e a Design Ireland, uma associação de designers gráficos, industriais e publicitários que se dedica essencialmente à promoção da indústria do Design, constituindo juntamente com os departamentos governamentais, a base para a promoção e implementação do Design na Irlanda. Consideramos este trabalho relevante para a nossa dissertação, porque é um estudo que analisa os obstáculos à utilização do Design nas empresas, faz o diagnóstico ao ensino da disciplina e deixa recomendações para se alterar a situação. Trabalhos como este, oriundos de países com o mesmo tipo de problemas que experimentamos em Portugal, são para nós, uma boa referência para desenvolver futuros estudos nesta área. Por fim, chamamos a atenção para o facto da promoção e implementação do Design na Irlanda ter a participação activa do Estado (um factor que pensamos ser importante na definição dos actores relacionados com esta matéria).