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Texte 2 : résumé de l’épopée réalisé par Kwenzi Mikala

4 Définition générique et performance de la devise « kûmbù »

4.3 Les interlocuteurs

No âmbito deste texto tive oportunidade de definir, quer do ponto de vista teórico, quer da perspectiva metodológica, a minha postura específica no contexto do novo paradigma da sociologia da infância. Faço agora referência ao facto de me ter deparado com a necessidade de elaborar uma estratégia de análise das informações empíricas recolhidas que fosse consentânea com a postura de fundo assumida. O que

pretendo aqui afirmar convictamente é que num ramo recente de conhecimento sociológico, como é a sociologia da infância, nenhum aspecto do processo de pesquisa se encontra a salvo de ajustamentos e reconfigurações, nem mesmo o procedimento de análise das informações empíricas. Contudo, desde o início dos meus trabalhos de pesquisa empírica com crianças, adoptei uma postura relativamente aos processos de recolha de informações no terreno compatíveis com toda a orientação analítica de fundo que norteia esta investigação.

Fazendo uma retrospectiva da minha própria metodologia de análise dos materiais empíricos na forma de discurso escrito produzido pelos observáveis, os primeiros resultados de pesquisa (Saramago, 1994a e 1994b) foram apresentados sob a forma combinatória de análise de conteúdo quantitativa e qualitativa, baseada na frequência com que os informantes recorriam, nos seus discursos, à utilização de um conjunto definido de expressões ou palavras. Deste exercício resultou a construção de categorias analíticas, cujas conotações mais significativas se aferiram pelo volume numérico. Contudo, considero agora que neste procedimento de análise existe algo de contraditório com a natureza do próprio objecto em estudo. Na aferição numérica de categorias, quer os contextos específicos de produção das informações empíricas, quer a lógica interna de cada testemunho surgem, de certo modo, espartilhados. Não pretendo com esta argumentação questionar a validade dos métodos quantitativos para domínios da sociologia como as análises sócio-económicas ou demográficas, por exemplo, onde as crianças, como quaisquer outros agentes sociais no papel de observáveis, podem legitimamente ser alvo de estudos de natureza quantitativa; contudo, é muito distinta desta a postura que pretendo aqui assumir.

Nos meus trabalhos de análise de informações empíricas posteriores (Saramago, 1999b; 2000a e 2000b), é notaria a centralização das interpretações substantivas em critérios predominantemente qualitativos. As categorias de análise baseadas na selecção e frequência de palavras ou expressões utilizadas pelas crianças nos seus discursos

escritos, deram lugar à construção de tipologias que em grande medida constituem um incremento relativamente ao método de análise fragmentada utilizado inicialmente. Contudo, a construção de tipologias analíticas, se permite ter em conta a lógica interna de cada testemunho, também limita a interpretação substantiva à definição de aproximações e distâncias dentro de cada contexto temático de forma isolada, sem tirar partido do facto de que todas as dimensões da existência social dos agentes possuem eixos de intercomunicabilidade e pontos de intercepção.

O método utilizado no tratamento interpretativo das informações empíricas recolhidas no âmbito deste trabalho de pesquisa foi a análise

qualitativa multidirecional. Este exercício analítico orienta-se no sentido da

construção de núcleos qualitativos multidireccionais. Os núcleos

qualitativos demarcam-se definitivamente de qualquer tendência de

análise frequencial de resultados, considerando-se que a conversão dos testemunhos dos observáveis em códigos de natureza numérica assume o risco de produzir hiatos de dimensão não claramente circunscrita entre os conhecimentos substantivos produzidos por uma análise sociológica de inspiração qualitativa e toda a complexidade de esferas de entrecruzamento e eixos de transversalidade de que é feito o objecto de estudo da sociologia.

Consideram-se os núcleos qualitativos como construções analíticas cujo grau de elaboração se mostra suficientemente permeável à complexidade das amplitudes, esferas e dimensões do objecto sociológico em estudo. Estes núcleos qualitativos são multidirecionais porque se empenham na demarcação com um procedimento de análise linear, com tendência para a fragmentação e segmentação dos resultados, característica de parte significativa dos exercícios analíticos que esgotam o alcance da sua produção de conhecimentos na construção de tipologias. No processo de produção de conhecimentos substantivos, a análise qualitativa multidirecional constitui-se como um esforço de suplantação das interpretações de caracter tipológico, que tendem a ser

tematicamente estanques e, por esta razão, menos permeáveis às multirelações presente nas diversas esferas que compõem as experiências sociais quotidianas dos agentes. Na análise qualitativa multidirecional o procedimento de interelação temática funciona como princípio fundamental dos exercícios interpretativos dos conhecimentos empíricos adquiridos, permitindo alcançar um nível de interpretação

analítica de segundo patamar que procura reflectir a multivariedade e

plurilinearidade dos pontos de intercepção existentes nas diversas esferas da existência social dos agentes.

No sentido de ir ao encontro de uma caracterização mais nítida do alcance operativo do método da análise qualitativa multidirecional, recorro a um exercício comparativo com o intuito de demonstrar em que medida este procedimento funcionou como alavanca exponencial do alcance dos resultados substantivos desta pesquisa. Utilizo, seguidamente, dois exemplos práticos: o primeiro é retirado da minha dissertação de mestrado (Saramago,1999); o segundo antecipa parcialmente alguns núcleos da análise interpretativa desenvolvidos nesta dissertação de doutoramento.

Dissertação de mestrado (1999)

Temas de trabalho Correspondência com análise interpretativa «O que é uma família» «Família extensa»; «Família núcleo»; «Família sucessão»; «Família união»; «Família problema»; «Família lar»;

«Família normativa»; «Família funcional» «O que é uma mãe» «A mãe na óptica das crianças» «A mãe na óptica dos rapazes»

«A mãe na óptica das raparigas»

Dissertação de doutoramento

Temas de trabalho Correspondência com análise interpretativa «Se eu pudesse mandar no mundo» «O 11 de Setembro visto pelas crianças» «Os problemas na perspectiva das crianças»

«O poder: concepções e formas de negociação» «A pior coisa que me aconteceu na

Uma análise comparativa dos exemplos apresentados anteriormente indicia desde já que enquanto o procedimento analítico empregue na dissertação de mestrado conduziu a núcleos substantivos mais linearmente relacionados com os temas desenvolvidos no âmbito da pesquisa empírica, o método da análise interpretativa multidirecional permite avanços consideráveis, quer nos níveis de intercomunicabilidade temática, quer no surgimento de dimensões analíticas construídas à posteriori e portanto resultantes de um processo de interpretação sociológica de representações e práticas sociais verbalizadas pelas crianças no exercício das suas capacidades de protagonismo em contextos sociais quotidianos localizados e concretos.

No âmbito do método da análise interpretativa multidirecional aqui utilizado há também a considerar a questão da interpretação das ilustrações feitas pelas crianças no âmbito das informações recolhidas por meio da técnica de pesquisa empírica denominada textos ilustrados e

legendados. Procurou-se ir ao encontro de uma lógica analítica

demarcada das abordagens clássicas de campos científicos como a psicologia ou a psiquiatria (refere-se, a título de exemplo, Decobert e Sacco, 2000), onde o conteúdo dos desenhos das crianças é analisado de acordo com códigos de interpretação que se destinam a uma leitura direccionada dos aspectos implícitos relacionados com os domínios do não consciente presentes nas expressões plásticas das crianças, através de um conjunto de itens pré definidos com significados estabelecidos à priori, como por exemplo a orientação do desenho no espaço da folha, as suas dimensões, as características do traço utilizado e determinadas simbologias associadas a formas, cores e temas (Bédard, 2000).

Para os objectivos deste trabalho, as análises às ilustrações feitas das crianças permitiram tornar mais visíveis e concretos, ou mesmo decifrar, determinados aspectos do conteúdo dos testemunhos que a linguagem escrita não permitiu exprimir de forma tão nítida, ou simplesmente não revelou. O modo de análise dos desenhos aqui praticado não teve pretensões de “decifração do oculto”, mas tomou as

ilustrações como equivalentes, em termos operativos, aos testemunhos escritos e orais dos observáveis. Através dos desenhos, tal como por meio da linguagem escrita e oralizada, as crianças encontraram oportunidades de manifestação de práticas, representações, experiências e competências presentes nos seus mundos sociais vividos. Tratou-se aqui de proceder a uma análise de conteúdo das ilustrações localizada e em contexto56. Daqui surgiram múltiplas representações gráficas de episódios concretos da vida quotidiana das crianças que em muitos casos se revelaram importantes fontes de informação empírica para a interpretação dos processos de construção das identidades da infância.

A condução do processo da análise por núcleos qualitativos multidirecionais implica um esforço incisivo de conjugação e articulação dos exercícios analíticos. Trata-se de uma procura selectivamente direccionada, cientificamente informada e atenta à diversidade de entrecruzamentos multidirecionais temáticos que a decifração interpretativa das informações empíricas vai produzindo. Refiro-me assim aos meandros da complexidade do processo de produção de conhecimentos científicos substantivos, que o investigador vai tecendo, conciliando e refazendo por meio das informações consubstanciadas nos materiais empíricos recolhidos, e da definição que faz das estratégias de produção e afinamento dos conteúdos e orientações do discurso científico interpretativo utilizado.

O método da análise qualitativa multidirecional das informações empíricas recolhidas no âmbito deste trabalho permitiu a construção de um aparelho de produção de conhecimentos interpretativos e explicativos da complexidade das dimensões presentes nos modos de produção, afirmação e legitimação das identidades sociais pelas crianças, dos quais vou passar a dar conta nos três capítulos seguintes.

56 Conforme referido no domínio dos procedimentos da análise preliminar (Capítulo V

deste texto), foi possível registar as interpretações verbalizadas pelo(a) autor(a) do desenho em causa, sempre que algum aspecto do mesmo suscitou interrogações ao processo de análise, produzindo-se assim informação empírica complementar.

CAPÍTULO VI