2.2 Interpolation schemes
2.2.4 GFF versus truncated GFF
A análise evolucionista da teoria da firma sustenta-se na idéia de que a empresa, encontrada no mercado, não é um ente passivo, onde a combinação perfeita dos insumos, capital (K) e trabalho (L), produz lucro ordinário e equânime, de forma espontânea, a todas as unidades participantes, idéias liberais defendidas pela teoria neoclássica da firma. Deve-se salientar que os princípios mencionados acima não apresentam uma formatação contraditória ou esdrúxula com a realidade, contudo, o grande questionamento está na sua simplicidade em relação às reais condições encontradas no ambiente concorrencial.
Quando do estudo da teoria da firma pela corrente neoclássica, entende-se que o mercado é o “locus” do processo competitivo, a que todas as empresas estão submetidas, e que a economia tende ao equilíbrio a partir da interação entre as forças ofertantes e demandantes de bens/serviços neste cenário. Em decorrência deste processo interativo, a concorrência é estabelecida a partir dos preços, e quando este alcança o patamar de equilíbrio o mercado também o atinge incondicionalmente.
Nesta linha de pensamento entende-se que a empresa, como unidade de transformação, não é o foco principal do estudo, haja vista a importância secundária dada à mesma. Para que o equilíbrio econômico seja alcançado, os agentes desenvolvem suas atividades em um cenário de racionalidade ilimitada e substantiva, de livre informação, com a tecnologia acessível a todos, com livre entrada e saída de empreendedores e com produtos homogêneos, sendo as empresas tomadoras de preço, ou seja, o mercado é livre a todos os participantes que desejem nele competir, ficando estabelecida a concorrência pura dos pensadores da economia ortodoxa.
A concepção clássica foi também adotada – e estendida – por Marshall, um dos pioneiros da tradição neoclássica e fundador da Microeconomia. Sua principal contribuição nesse terreno foi dar contornos mais precisos à noção neoclássica de concorrência, predominante ainda hoje. Na sua versão atual, trata-se da noção de concorrência perfeita, associada ao atomismo de mercado (tanto na oferta como na demanda), em que as empresas individuais são tomadoras de preço (price takes), ou seja, incapazes de afetar o preço de mercado, determinado pelo equilíbrio entre oferta e demanda, com preço de mercado igual ao custo marginal.
Não acatando plenamente estes pressupostos teóricos, aflora, entre os economistas não ortodoxos, uma idéia alternativa que questiona essas afirmações. Assim, é correto entender que a única forma de competir no mercado é através dos preços? Em discordância a assertiva de que o mercado tende ou está em uma situação de equilíbrio (corrente neoclássica), Joseph Schumpeter (1883-1950), economista de origem austríaca, apresentou a importância do entendimento da existência dos ciclos econômicos inerentes ao capitalismo; os ciclos são resultados das inovações tecnológicas introduzidas pelos empresários empreendedores como forma de obter vantagens competitivas e lucros extraordinários momentâneos.
Na concepção de Schumpeter entendia-se inovação tecnológica como toda alavancagem que se realizava no produto, no processo e ou estrutura organizacional, que fomentasse o aumento na produtividade da empresa; ele segmentava o processo inovativo nas possíveis etapas:
a) na criação de um novo produto;
b) na elaboração de um novo processo produtivo; c) na entrada em um novo mercado;
d) na obtenção de novas fontes de matérias primas; e) na reestruturação organizacional.
Valendo salientar que tais procedimentos são independentes, podendo ocorrer uma concomitância ou uma sequência dos mesmos, todavia, nada obrigatório para a concepção inovativa.
Desta forma, Schumpeter apresenta uma nova forma de análise da economia. Abandona a posição estática da economia capitalista neoclássica, o equilíbrio geral defendido pelos
economistas ortodoxos, e passa a entendê-la como algo dinâmico ao longo do tempo; sujeita as oscilações nas taxas de crescimento e recessão alternadamente. Dentre os trabalhos realizados por Schumpeter destaca-se a obra intitulada Teoria do Desenvolvimento Econômico, seu primeiro livro, publicado em 1912. Um fator de grande importância está no entendimento do que se denomina economia da inovação, esta conforme Hasenclever e Ferreira (2002): “é o ramo da Economia Industrial que tem como principal objeto de estudo as inovações tecnológicas e organizacionais introduzidas pelas empresas para fazerem frente à concorrência e acumularem riquezas.”
Assim, as inovações são os resultados das ações de “Pesquisa e Desenvolvimento”23 realizadas pelas empresas que foram submetidas ao crivo do mercado, e por ele aceito; entendendo este, como um grupo formado por consumidores (pessoas físicas ou jurídicas) e instituições24.
Pelos impactos na economia e pelos processos realizados para obtê-las, as inovações podem ser divididas em radicais e incrementais. As primeiras dizem respeitos à descoberta de novos produtos/serviços que vão influenciar positivamente as atividades desenvolvidas pelas empresas; já as inovações incrementais referem-se às melhorias realizadas nos processos produtivos já disponibilizados e em uso no mercado. De acordo com o ciclo de inovação esta se processa nos estágios de invenção, inovação e imitação/difusão. Uma invenção só se tornará uma inovação se, quando submetida ao mercado for aceita, sendo assim uma inovação radical. No caso da difusão acompanhada de melhorias, as inovações são ditas incrementais.
A economia da inovação é estudada sob a ótica de dois modelos de análise econômica opostos. O primeiro denominado de modelo de incitação é alicerçados nos princípios da economia neoclássica, enquanto que o modelo de seleção é embasado na economia evolucionista. A partir das observações do Quadro 5 pode-se notar sucintamente as principais diferenças de ambos:
23 As ações de P&D são divididas em pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento experimental. 24 Entendidas como regras que normatizam as relações de produção e comercialização dentro do que estabelece as relações trabalhistas, comerciais e ambientais.
Modelo de Incitação Modelo de Seleção
Teoria Econômica Neoclássica Evolucionista
Autor Kenneth Arrow Sidney Winter
Ano 1962 1960
Abrangência Análise da Concorrência
Pura e Monopólio Análise das Estratégias de P&D
Observações
Expandido para outras formas de concorrência
por Dasgupta e Stiglitz 1980
Consolidada pelo autor e por Richard Nelson 1980
Quadro 5
Modelos de Análise Econômica da Inovação25
Fonte: Elaboração do Autor a partir de informações obtidas em Hasenclever e Ferreira, 2002.
A fim de possibilitar uma análise mais técnica dos resultados obtidos pelas políticas de inovação desenvolvidas nas empresas, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elaborou, para seus países membros, o Manual Frascati, o qual apresenta indicadores de entrada, de saída e de resultados que são aceitos internacionalmente. Conforme o Quadro 6 tem-se uma visão mais detalhada dos indicadores.
Entrada SAÍDA RESULTADOS EMPRESARIAIS
Despesas Operacionais EMPRESA Lucros
em P&D
em Serviços Tecnológicos Faturamento
Em Aquisição de Tecnologia
Em Eng. Não Rotineira de Tecnologia para Receita de Vendas
Terceiros
Projetos Finalizados Configuração Organizacional
Orientada Para P&D Setor Industrial Participação no Mercado
Recursos Humanos em
P&D&E Tamanho Patentes
requeridas/concedidas Faturamento Gerado por Novos Produtos
Nível Superior
Nível Médio Origem do Capital Redução de Custos
Nível Administrativo Decorrente de Melhorias nos Processos Produtivos Outras estratificações Área Física Investimento de Capital em Ativos fixos Em Ativos Intangíveis Quadro 6
Modelo Conceitual sobre Indicadores Empresariais de Inovação Tecnológica Fonte: Adaptado de Andreassi (1999) e Anpei (1998) apud Hasenclever e Ferreira, 2002
Outra importante contribuição de Schumpeter diz respeito ao entendimento do conceito de concorrência. Esta passa a ser entendida como a força motriz do processo inovativo, pois a partir do mecanismo concorrencial haveria uma diferenciação dos produtos e processos, ou seja, a dinâmica inovativa mencionada anteriormente. Idéia esta que formou um contraponto ao entendimento neoclássico do assunto, pois para este a concorrência era um processo relativo aos ajustamentos do equilíbrio de mercado em consequência do modelo atomizado por pequenas unidades empresariais, tomadoras de preço, com livre entrada e saída do mercado – possibilitando o equilíbrio econômico.
Para Schumpeter, a concorrência alavanca o processo competitivo entre as empresas, fazendo com que estas busquem ações inovativas em produtos e/ou processos como forma de diferenciar-se dos seus concorrentes e assim obter vantagens competitivas e lucros extraordinários. Vantagens que viabilizam o monopólio do mercado, mesmo que de forma passageira, haja vista as inovações não serem garantias de supremacia permanente ao longo do tempo; sendo a inovação o mecanismo impulsionador endógeno do capitalismo e a difusão uma realidade permanente, a inovação não está imune à obsolescência por ação do tempo ou pelo surgimento de novas tecnologias. No entendimento de Schumpeter, concorrência e monopólio não são idéias antagônicas, este é uma tendência natural daquela, fato que afasta a condição de equilíbrio neoclássico e aponta para o desequilíbrio por ele defendido como processo fundamental de transformação econômica.
O elemento central desta análise dinâmica é a empresa. Nela são processadas todas as ações de P&D que possibilitam o processo inovativo, assim como a remuneração do capital investido. Todavia, a importância do mercado não é afastada, pois é nele que o processo competitivo é realizado, que as inovações são apreciadas e que as normatizações institucionais da concorrência são aplicadas. Assim a concorrência deve ser entendida como o
resultado da convergência entre as estratégias empresariais e a estrutura de mercado.
Em consequência da não aceitação dos dogmas ortodoxos da economia, Edith Penrose, nos anos 50, levanta o seguinte questionamento: o que é uma firma? Para Penrose a empresa é formada por um conjunto de fatores, os quais podem ser combinados e recombinados de múltiplas formas, fomentando assim vantagens competitivas que viabilizam lucros diferenciados.
Conforme entendimento de Penrose (1959, p.10) apud Kupfer e Hassenclever (2002):
Uma empresa [...] não é um objeto observável de maneira fisicamente separada de outros objetos, e é difícil de se definir a não ser com referência ao que faz ou que é feito no seu interior. Consequentemente, cada analista é livre para escolher quaisquer características da empresa nas quais esteja interessado, definir a empresa em termos destas características, e proceder de forma a chamar sua construção de empresa.
O pensamento central de Penrose, no que se refere a uma firma, está focado na identificação dos ativos específicos da mesma, a fim de que estes possam viabilizar vantagens competitivas. Sua linha de interpretação subdividia os recursos em tangíveis e intangíveis, sendo os primeiros de possível visualização tais como máquinas, edificações, imobiliários, bens móveis, enquanto que nos segundos estavam inseridas as patentes, as marcas, a dinâmica de produção, a estrutura organizacional, o conhecimento tecnológico, a cultura organizacional e o aprendizado operacional acumulado nos anos, ativos estes de difícil reprodução por parte da concorrência. Na configuração mental de Penrose são estes ativos intangíveis ou complementares os diferenciadores do processo competitivo, haja vista os tangíveis serem, teoricamente, de fácil aquisição par parte dos agentes econômicos.
As idéias de Penrose ratificam o pensamento defendido por Joseph Schumpeter quando a defesa da característica dinâmica do processo concorrencial. Para este a empresa é responsável pelo processo de “destruição criadora”, pois, a partir de inovações, conceito “lato sensu”, são obtidas diferenciações nos produtos e/ou processos e consequentemente melhores oportunidades perante os concorrentes, sendo os ativos intangíveis importantes na composição deste fluxo de impulso-resposta. Neste contexto pode-se explorar a idéia da “path dependence”, onde a posição competitiva atual de uma empresa é consequência das ações realizadas anteriormente (da sua trajetória ao longo dos anos), os primeiros a se mover obtêm vantagens perante os retardatários.
A análise evolucionista, defendida pelos pensadores econômicos neoschumpterianos, assimila os conceitos evolutivos da biologia e os aplica no contexto econômico. Assim como na biologia as espécies se adaptam ao ambiente, as empresas se adaptam ao mercado nos quais estão inseridas. Este processo de adaptação busca a renovação e a permanência da empresa no cenário competitivo e dinâmico no qual ela se encontra.
A exploração desta lógica teve como principais defensores Richard Nelson e Sidney Winter. Estes autores, em meados de 1982, desenvolveram um modelo de análise da dinâmica econômica alicerçados nos pressupostos da biologia evolucionista, excluindo os pressupostos neoclássicos, de maximização e equilíbrio, por uma concepção acerca da existência de comportamentos e estratégias sobre incerteza e racionalidade limitada dos tomadores de decisão, resultando assim na idéia de trajetória em substituição a de equilíbrio do mercado.
...a incerteza não se revela em processos de inovação e difusão de tecnologia apenas porque se trata de produção de bens (ou da implementação de processos) ainda são submetidos ao teste seletivo dos mercados – questão esta já apontada originalmente em Schumpeter – mas, principalmente, pelo fato de que o desdobramento de cada trajetória tecnológica não pode ser pré-determinado ex-ante, por suas características técnicas inerentes. A tecnologia não tem uma lógica interna autônoma que dita inevitavelmente sua evolução ou uso, mas é fruto da interação entre o desenvolvimento econômico e social.” Dosi, Tyson e Zysman (1989) apud Baptista (1997))
Desta forma, a partir de um cenário competitivo, o agente econômico toma suas decisões a partir das informações por ele obtidas e processadas, gerando assim uma real assimetria de informações que provocam o comportamento incerto dos mesmos, isto demonstra a
racionalidade limitada do agente. Isto é proveniente da limitação, ex-ante, de se obter e ratificar informações corretas.
Nesta situação, o que se torna relevante é a racionalidade limitada e processual ( que se opõe à realidade ilimitada e substantiva do mainstream economics), vale dizer, a racionalidade dos processos de tomada de decisão por parte dos agentes, cujo comportamento é melhor representado pelas noções de estratégia e rotina. Esta última pode ser definida, de uma forma genérica, como um padrão de solução repetitivo para problemas semelhantes, incorporado em pessoas ou organizações (entre as quais, a firma).(BAPTISTA, 1997)
A partir dos trabalhos realizados por Nelson e Winter percebe-se a elaboração de um novo modelo de análise microeconômica incorporando a dinâmica industrial, apresentando dois pilares sustentadores: os mecanismos de variação e seleção. Entenda-se como mecanismo de variação a “busca por inovação” como condicionante para a obtenção de vantagens competitivas (inovações) e seleção a escolha das rotinas mais adaptáveis ao mercado. No arcabouço teórico neo-schumpeteriano as rotinas representam o somatório dos conhecimentos acumulados e das capacitações desenvolvidas pela firma ao longo do tempo. Dosi, Teece e Winter(1992) apud Batista (1997) estabeleceram as competências nucleares como sendo as técnicas, as organizacionais e econômicas, conforme Quadro 7.
DIMENSÕES DAS CAPACITAÇÕES TIPOS DE COMPETÊNCIA
ALOCATIVAS TRANSACIONAIS ADMINISTRATIVAS ORGANIZACIONAIS E ECONÔMICAS DESENVOLVIMENTO/PROJETO (PRODUTO/PROCESSO) EFICIÊNCIA PRODUTIVA TÉCNICAS APRENDIZADO Quadro 7
Dimensões das Competências Nucleares da Firma FONTE: Dosi,Teece e Winter (1992) apud Baptista (1997)
Em consequência Possas (2002) afirma que:
A trajetória resultante – a evolução temporal da indústria, em que vai se modificando endogenamente, por meio das inovações e de sua seleção pelo mercado, a configuração ou a estrutura da indústria em termos de produtos, tecnologias, participações e concentração de mercado etc. – é o principal objeto da análise. Geralmente são utilizados técnicas de modelagem por simulação, em vez de tentar obter soluções analíticas unívocas, como nos modelos neoclássicos tradicionais, que só examinam soluções de equilíbrio e sua estabilidade.
Entendida a importância das concepções neo-schumpeterianas para a firma, faz-se necessário uma análise do desenho organizacional e operacional estipulados para a Bahiafarma, pois a partir destes ter-se-á possibilidades de analisar os desafios a serem enfrentados pela gestão a ser implantada.