3.4 Plasticité
4.1.2 Estimation d'une couche vitreuse de polymère aux interfaces
Imagem 31. Capa do Módulo O trabalho do cérebro e da linguagem. A vida e a sala de aula, do material do Cefiel.
O módulo O trabalho do cérebro e da linguagem - A vida e a sala de aula, elaborado por Maria Irma Hadler Coudry e Fernanda Maria Pereira Freire, está inserido na área temática Língua Portuguesa, entretanto apresenta uma abordagem com um foco maior no cérebro do que no uso da linguagem propriamente dita.
O conteúdo do material reflete a formação acadêmica e profissional das autoras: Coudry é professora Livre-docente do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas. Fez mestrado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas, com estágio clínico na Universidade Livre de Bruxelas. Introduziu a Neurolinguística como domínio de estudo na Unicamp, e atua na linha de pesquisa que relaciona linguagem, cérebro e mente voltada para o estudo da afasia, sob uma visão discursiva. É co-responsável pelo Centro de Convivência de Afásicos (CCA), criado em 1989, fruto de um convênio interdisciplinar entre o Departamento de Linguística, do Instituto de Estudos da Linguagem, com o Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Universidade Estadual de Campinas (São Paulo/Brasil). É responsável pelo Centro de Convivência de Linguagens (CCAzinho), criado em agosto de 2004, um lugar de pesquisa e de práticas com a linguagem onde se desenvolve um trabalho de leitura e escrita com crianças e jovens que receberam diagnósticos neurológicos (dificuldades de aprendizagem, dislexia, problemas no processamento auditivo,
deficiência mental, déficit de atenção) que produzem efeitos negativos em seu processo de escolarização e em sua vida.
E Freire égraduada em Fonoaudiologia, fez mestrado e doutorado em Linguística no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Fez pós-doutorado no Instituto de Computação (IC-Unicamp). Desde 2008 está credenciada no Curso de Pós-graduação em Linguística e, atualmente, é Vice-Coordenadora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação – Cefiel.
Na introdução, as autoras defendem que a função da escola é ―assumir a dianteira do processo de socialização e de aprendizado de papéis e normas sociais‖ (p. 6). E questionam os propósitos de uma escola padrão, que propõe ―conteúdos regulados por disciplinas; língua regulada por uma gramática normativa; avaliação escolar balizada por parâmetros que repetem o conteúdo disciplinar; desvios previstos por um conceito de normalidade‖ (p. 10); que exige um sujeito padrão: ―falante de uma língua padrão, que tem um cérebro padrão e que responde a comportamentos padrão‖ (p. 10); na qual ―o aluno acumula um conjunto de informações que não fazem sentido para ele e que, portanto, não são aplicáveis à vida em sociedade‖ (p. 11). Dessa maneira, as autoras criticam o sistema escolar, suas exigências, suas propostas e seus objetivos.
As autoras insistem, citando o educador estadunidense Seymour Papert (1994), que a aprendizagem é de fato significativa quando o conteúdo aprendido ganha um sentido do ponto de vista cognitivo (considerando o que já se sabe a respeito do assunto), afetivo (interesse pessoal, condizente com a história de vida do sujeito), social (relevância que o sujeito confere ao conhecimento), cultural (inserção do aprendizado em um conjunto de sistemas e valores historicamente construído pela comunidade da qual o sujeito participa).
Como observamos anteriormente, a formação das autoras, especialmente a de Coudry, está refletida no módulo, que em diversos capítulos apresenta o funcionamento do cérebro.
Ao tratar da linguagem (destacando o papel das funções do cérebro envolvidas em textos produzidos por alunos), as autoras esclarecem que a
A variedade vernacular ou popular é uma das variações linguísticas que se observam na língua, quando posta em funcionamento por falantes e escreventes. De uma maneira geral, a variedade está relacionada ao grupo social a que pertence o sujeito e/ou à sua região geográfica (p. 36)
Coudry e Freire criticam o fato de que ―a escola padrão toma a norma culta como padrão, como se essa variedade fosse a única possível, desvalorizando as variedades
vernaculares usadas pelos alunos‖ (p. 36). E enfatizam que a escola incentivar os alunos a ―compreender as variações da língua, orientando-os na seleção de modos de falar/escrever compatíveis com as diferentes situações interativas‖ (p. 37)
As autoras sugerem uma mudança de postura na escola em que, no trabalho com a elaboração textual, ―o critério de certo/errado passa a ser o da adequação em função do gênero de discurso e de suas condições de produção e não o de não corresponder a uma variedade que lhes é imposta como a única possível, muitas vezes a ele inacessível, a não ser na escola‖ (p. 37).
Concluem as autoras que, da maneira como a escola é padronizada,
ficam de fora da escola muitos sujeitos e muitos textos. Sujeitos a quem falta o padrão adotado pela escola padrão – e que de fato não existem – e sujeitos que excedem esse mesmo padrão. São excluídas, portanto, pessoas que falam variedades vernaculares desprestigiadas e pessoas que usam o PB escrito combinado com o internetês (p. 43).
Para finalizar, as autoras defendem que a escrita na escola pode ser prazerosa, mas, para que isso aconteça ―é preciso conceber sujeito, cerébro e linguagem de maneira abrangente e menos preconceituosa‖ (p. 56). Pois ―todos sabem da vida. Todos têm cérebros que funcionam. E todos sabem que a língua em funcionamento é uma língua aberta para múltiplos usos e sentidos‖ (p. 59).
Como podemos observar, as autoras nos trazem uma abordagem de língua e linguagem muito interessante, diferente, em muitos aspectos, e igual, em outros, da visão proposta pela Sociolinguística Educacional. Considerando-se os critérios para análise propostos para esta pesquisa, verificamos que Coudry e Freire nos oferecem uma reflexão sobre a língua e a linguagem, mas não por meio dos conhecimentos propriamente linguísticos, mas pela maneira como o cérebro funciona para usar a língua. Podemos concluir que o material promove o combate à intolerância e ao preconceito linguísticos, especialmente quando critica a escola e a exigência de padrões irreais em sala de aula.
Os demais aspectos propostos para esta pesquisa não foram contemplados pelas autoras, mas consideramos interessante que, mesmo quando o tema não é diretamente a Sociolinguística Educacional, observamos a visão da língua/linguagem relacionada ao meio social no qual estão inseridas, o que já leva os professores a uma mudança de paradigma em relação à visão tradicional de língua como regras gramaticais ideais expostas em compêndios gramaticais.