Imagem 26. Capa do Fascículo 7, do módulo 2, do material do Cform.
O Fascículo 7 do Módulo 2, de autoria de Maria Luiza Monteiro Sales Coroa, tem como foco desenvolver reflexões e análises a respeito do fenômeno da linguagem na sua dimensão textual. A Justificativa da autora para essa abordagem de linguagem se deve à realidade em que ―sempre que nos manifestamos linguisticamente, o fazemos por meio de
textos, sejam eles curtos ou longos, orais ou escritos‖ (p. 7). A proposta de Coroa para auxiliar as práticas pedagógicas é considerar os textos quanto: 1) às suas finalidades; 2) às suas condições de produção; 3) às suas características tipológicas; 4) às suas maneiras de articular as ideias 5) à predominância quanto ao uso de estruturas e de classes gramaticais e assim por diante. Coroa esclarece que, ao separar cada um desses aspectos, o objetivo é concentrar a atenção de maneira mais sistematizada, sem, entretanto, perder a noção de conjunto que sedimenta a textualidade (p. 7).
O ponto de partida do Fascículo são os aspectos constitutivos da interação textual, como os conhecimentos prévios e compartilhados, as visões de mundo e os significados construídos a partir de não-ditos – de pressupostos e inferências. Segundo a autora, o principal objetivo deste Fascículo é:
Reconhecer como se constrói a textualidade em diversas dimensões e, a partir daí, saber como propor atividades de sala de aula que permitam ao professor e aos alunos um trabalho linguístico que respeite a diversidade cultural, social e textual, mas permita também identificar o que há de comum nas práticas linguísticas que nos fazem, a todos, ser bem sucedidos nas nossas realizações linguísticas (p. 8).
É evidente ao longo de todo o material a visão da língua/linguagem em uma perspectiva de caráter interacional, como, por exemplo, quando a autora afirma que: ―As práticas sociais são tão imporantes no desenvolvimento da textualidade quanto as práticas discursivas‖ (p. 11), e a autora define as práticas sociais como ―as atividades de interação entre os sujeitos que constituem a rede de relacionamentos na qual os diversos grupos sociais se organizam como tal‖ (p. 11) e as práticas discursivas como ―atividades sociais e linguísticas que se desenvolvem na interação entre sujeitos, consolidando as práticas sociais‖ (p. 11); em outros momentos do Fascículo, a autora afirma que: ―o sujeito se constrói junto com sua linguagem‖ (p. 13); ―o fenômeno da linguagem não se desvincula da história, da sociedade e da cultura que ajuda a construir‖ (p. 15); ―os textos lidos e produzidos foram sendo articulados a conhecimentos prévios e visões de mundo que marcam cada produtor (autor) e cada leitor como sujeito de sua linguagem‖ (p. 24).
A autora apresenta o conceito de competência comunicativa, ao destacar que ―cada cultura, cada comunidade acaba por definir regras próprias para a interação de seus membros, regras que influenciam e determinam o que deve ser dito, como deve ser dito e assim por diante‖ (p. 13, grifos nossos). Coroa ressalta, também, que, ―nas atividades escolares que envolvem a língua portuguesa, as práticas sociais, as experiências prévias, a relação do sujeito com sua escrita, os objetivos de sua comunicação ou interação e a própria
criatividade linguística acabam por se misturar às práticas discursivas sempre que trabalhamos com construção de sentidos e exposição de ideias‖ (p. 12 e 13), mostrando a relação da linguagem com a sociedade e as práticas textuais, que são o foco do material.
Continuando a reflexão sobre a linguagem em relação com a sociedade e sua cultura, iniciada em outros fascículos do Cform, a autora apresenta o texto a seguir, com o qual contribui para evitar a ideia recorrente no senso comum de que existe língua mais difícil/fácil que outra, mais complexa/simples que outra, mais bonita/feia que outra.
(p. 15)
E completa, defendendo que ―o importante é que cada comunidade tem os sistemas adequados o suficiente para as necessidades de cada situação sociocomunicativa que a integra‖ (p. 17).
A estratégia da autora para sensibilizar os professores em formação continuada é propor diversas atividades práticas – em que eles participam, respondendo perguntas, apresentando suas opiniões, realizando análises que os levam a refletir sobre os temas trabalhados – que, posteriormente, podem ser propostas aos alunos, com sugestões de tópicos que podem ser explorados em sala de aula. Essa prática pedagógica é também sugerida porque, como ensina a autora, ―envolvem aspectos lúdicos e se aproximam do cotidiano dos alunos, tornando mais ágil a aprendizagem‖ (p. 32). Além disso, ela argumenta que ―trazer para a sala de aula as experiências do mundo dos alunos não visa apenas criar momentos de descontração, mas visa, sobretudo, reconhecer e respeitar o aluno como sujeito do seu mundo
linguístico e discursivo‖ (p. 32), ideia que a autora não só divulga na teoria, mas aplica nas atividades práticas propostas ao longo de todo o material.
Para desenvolver a reflexão por meio de atividades práticas, o Fascículo apresenta: três atividades denominadas ―Retratos de sala de aula‖, em que a autora expõe uma situação vivenciada em sala de aula, para os professores em formação pensarem de maneira crítica, orientados pela autora; onze atividades denominadas ―Desenvolvendo atividades‖, em que os professores desenvolverão exercícios propostos pela autora, como interpretação e redação de textos; e nove atividades denominadas ―Construindo as suas aula‖, em que a autora oferece e discute propostas que podem ser trabalhadas em sala de aula.
O principal objetivo do material é ajudar o professor a desenvolver no aluno a capacidade de interpretação da linguagem em sua dimensão interativa, educando sua percepção para interpretar a comunicação humana em sua amplitude simbólica, como constatamos ao longo de todas as atividades práticas propostas.
Para tratar sobre erros gramaticais, a autora sugere que os professores em formação observem os outros fascículos do módulo, mas não deixa de tecer comentários relevantes para abordar a elaboração de textos, como quando ela comenta que
Os aspectos gramaticais seriam erro apenas até o ponto de prejudicar a interpretação, leitura ou finalidade do texto. Casos há em que o texto publicitário até precisa registrar estruturas linguísticas em desacordo com as regras gramaticais. Tudo vai depender das finalidades e das situações envolvidas no texto publicitário, dos personagens utilizados e de muitos outros aspectos linguísticos sociais e culturais (p. 25-26).
O material se destaca no trabalho com os diferentes tipos e gêneros textuais e a autora tem a preocupação de comentar as variedades linguísticas adotadas, levando-se em consideração a adequação ao contexto, mencionando o papel da fala mais espontânea e da escrita mais formal para os gêneros textuais específicos. Coroa propõe o trabalho com tirinhas e histórias em quadrinho, textos publicitários, texto de divulgação científica (explicando a diferença para um texto científico). Ela orienta também o professor para a diferença de um texto em suas condições de produção de origem e os gêneros escolares ou mediáticos (―que têm por finalidade intermediar informações, intermediar conhecimentos‖ p. 39), cujo objetivo é desenvolver a prática escolar.
Observamos, ao longo de todo o material, que o tratamento dado aos conhecimentos linguísticos conduz à reflexão sobre a língua e a linguagem em uma perspectiva de caráter interacional. Como mencionado anteriormente, a autora considera os textos quanto às suas finalidades; às suas condições de produção; às suas características
tipológicas; às suas maneiras de articular as ideias; e à predominância quanto ao uso de estruturas e de classes gramaticais, sem focar a escolha de variantes linguísticas específicas, uma vez que este trabalho é enfatizado em outros módulos do material do Cform.
O Fascículo não menciona a pluralidade de línguas existentes no Brasil. Em ―Desenvolvendo atividades 3‖, a autora apresenta a numeração adotada pelos índios Bakaniris (p. 13), porém não menciona a diversidade de línguas indígenas, além de línguas de migrantes existentes no Brasil.
O material evidencia que a língua apresenta variabilidade nos fenômenos gramaticais, mas neste Fascículo a ênfase é diferente do trabalho apresentado nos Fascículos elaborados por Bortoni-Ricardo ou Marcos Bagno. Neste, a autora evidencia, principalmente, a predominância quanto ao uso de estruturas e de classes gramaticais e as formas verbais mais comuns adotadas nos gêneros textuais apresentados ao professor em formação.
Este Fascículo apresenta algumas variedades do português brasileiro e evidencia que a língua apresenta variabilidade nos fenômenos gramaticais, mas não consideramos que o material distingue norma objetiva, norma subjetiva e norma pedagógica, porque o conceito de norma não é explicitado. Além disso, também não consideramos que o material promove sistematicamente a discussão e o combate à intolerância e ao preconceito linguísticos; a autora aborda de maneira interessante o conceito de erro, mas o combate ao preconceito linguístico não é sistemático.
Verificamos que o Fascículo não abarca todos os critérios para análise propostos para essa pesquisa, mesmo porque o material do Cform possui outros Fascículos que têm esse foco.
Quadro 22. Quadro-resumo da análise do Fascículo 7: Texto e interação: práticas de análise linguística. Autora: Maria Luiza Monteiro Sales Coroa, do módulo 2 do Cform, de acordo com os objetivos geral e específicos de pesquisa.
Categorias de análise do material de acordo com o objetivo geral e os objetivos específicos da pesquisa
Sim Não 1. O tratamento dado aos conhecimentos linguísticos conduz à reflexão sobre a
língua e a linguagem e seus valores sociossimbólicos na sociedade?
X
2. O material menciona a pluralidade de línguas existentes no Brasil? X 3. O material evidencia conceitos sociolinguísticos para o professor, como a
noção de “certo” e ―errado‖, variação linguística, mudança linguística?
X
4. O material distingue norma objetiva, norma subjetiva e norma pedagógica? X 5. O material apresenta diversas variedades do português brasileiro? X
6. O material apresenta o amplo contínuo de gêneros textuais entre a fala mais espontânea e a escrita mais formal?
X 7. O material evidencia que a língua apresenta variabilidade nos fenômenos gramaticais?
X 8. O material promove sistematicamente a discussão e o combate à intolerância e ao preconceito linguísticos?
X